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CIBERPAJÉ – …criador do universo ficcional transmídia da Aurora Pós-humana

Entrevistamos o CIBERPAJÉ (Edgar Franco) – Mago psiconauta, ilustrador, quadrinhista, mentor da banda Posthuman Tantra e do Projeto Musical Ciberpajé, criador do universo ficcional transmídia da Aurora Pós-humana e também pós-doutor em artes pela Unesp e UnB, doutor em artes pela USP, e professor do Progama de Doutorado em Arte e Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia.

E aí meu amigo Edgar Franco, velho lobo underground! Meu nobre, comente um pouco acerca das transmutações para o nascimento do seu alter ego Ciberpajé que depois gerou o Projeto Musical Ciberpajé. Creio que, por o amigo ter muitos trabalhos lançados, pode haver alguma confusão visto que você iniciou sua trajetória musical com o Posthuman Tantra e o Posthuman Worm, é certo isso?

Ciberpajé (Edgar Franco): Amigo ZArtan, primeiro destaco minha honra em conceder uma entrevista à lendária Lucifer Rising! Eu acompanho a revista impressa e o site desde o número 1 e tenho todas as edições impressas lançadas, algumas adquiridas diretamente das mãos do notório Tulula, na loja da Mutilation Records na Galeria do Rock, em São Paulo. Eu atuo como ativista, musicista e artista gráfico na cena underground nacional desde a metade da década de 80, assisti o movimento do metal nascer e vi todas as suas fases desde então, e sei quem sempre esteve forte e atuante na cena em todas essas fases, como você e o Tulula. Respondendo à sua sagaz pergunta, no ano de 2011 eu sofri uma crise existencial deflagrada por uma experiência impactante com o cogumelo Psilocybe cubensis. Essa experiência enteogênica deflagrou em mim um processo pessoal de autorreflexão sobre os meus valores e práticas como ser humano, e durante essa crise profunda eu utilizei a tradição mágicka ocidental do caos e a tradição meditativa oriental para transformar meu universo ficcional da Aurora Pós-humana em um universo mágicko-transcendente. A partir disso criei uma metologia mágicka de transmutação pessoal na qual durante 10 dias, antes de meu aniversário, eu meditava o dia todo e ao final do dia desenhava e escrevia uma das chaves de minha transmutação. No dia 20 de setembro de 2011, quando completei 40 anos, declarei-me Ciberpajé, nome de meu ser renascido, tendo as chaves como uma base para seguir meu caminho pela vida. Sendo que o Ciberpajé não é um guru ou criador de seita, o nome soma o Ciber (a conexão entre humano – animal – vegetal – máquina que engendra o meu ser), ao termo Pajé, da tradição mítica nativa da América do Sul. O pajé é aquele que conecta as cosmogonias mágickas dos mundos míticos com a realidade ordinária, buscando a cura. Eu faço o mesmo, conecto minha realidade ordinária aos mundos ficcionais que eu crio, buscando minha integralização como ser, ou seja, o Ciberpajé busca apenas a sua autocura.  Depois de minha declaração de Ciberpajé eu nomeei de “aforismos” esses pensamentos curtos que já escrevia há tempos. Essa declaração significou para mim – como todo e qualquer ritual de passagem – uma maior maturidade como pensador. Como artista reflito sobre a condição humana desde muito cedo, só que a partir desse momento me senti balizado para lançar, de uma maneira mais vigorosa e corajosa, esses ensinamentos que aprendi através da minha experiência ao longo da vida. Inclusive uma página do Facebook com meus aforismos tem mais de 3 mil seguidores e foi a partir dessa recepção positiva que o ativista da cena darkwave, Genilson Alves, mentor da gravadora Lunare Music, convidou-me a criar um projeto musical no qual eu recitaria meus aforismos e convidaria bandas e musicistas a criarem as atmosferas sonoras para eles. Nasceu então, em 2014, o Projeto Musical Ciberpajé, que já tem 35 EPs lançados e um CD e com o qual já selei parcerias com bandas e musicistas das 5 regiões do Brasil e de 8 países, dentre eles alguns grandes nomes da cena como Antar (Ex-Murder Rape), Mensageiros do Vento (com ex-integrantes do Imago Mortis), Muqueta na Oreia, Luxúria de Lilith, Alpha III, Ant[ism] (com integrantes da Psychotic Eyes), Kamboja, Gorium, Nix’s Eyes, Transcendenz (Suíça) Melek-tha (França), Emme Ya (Colômbia), Filmy Ghosty (Chile), Blakr (Inglaterra), S.M.E.S. (Canadá) entre muitos outros. E sim, o Posthuman Tantra é minha banda principal desde 2004 para a qual sigo criando música e que esse ano terá lançado seu novo EP, além de realizar performances ao vivo desde 2010. Já o Posthuman Worm é um projeto cybergore que retomei recentemente e em breve teremos novidades sobre ele.

O que veio primeiro na sua vida, a arte gráfica/plástica ou a criação musical?

Ciberpajé (Edgar Franco): Nasci em um lar repleto de amor pela arte e pela cultura, meu amado e saudoso pai e mentor, Dimas Franco, uma das vítimas do genocídio orquestrado no Brasil durante a pandemia de COVID-19, tinha já uma biblioteca com cerca de 5 mil volumes. Desde antes de saber ler eu frequentava a livraria e banca da minha cidade natal – Ituiutaba/MG – com meu pai, que me presenteava com quadrinhos e tornei-me um aficionado por essa linguagem. A partir dos 10 anos de idade comecei a desenhar HQs de horror, tendo publicado a primeira em um fanzine quando eu tinha 12 anos. O encontro com o rock aconteceu na mesma época quando gravei de um amigo em K7 a trilha sonora do filme Flash Gordon, criada pelo Queen. Mas o impacto real veio depois com 14 anos, quando aconteceu o Rock In Rio e vou conhecer o heavy metal através de discos de Ozzy Ozbourne, Iron Maiden e Kiss. Eles despertaram em mim uma grande vontade de ser um criador de capas de discos e depois em ter uma banda. E já nessa época vou iniciar minha integração à cena nacional de tape traders e participar ativamente na cena “metaleira” do Triângulo Mineiro, e depois do Brasil, criando logos, capas de demos e fanzines, artes para camisetas, e iniciando minhas experiências como baixista de algumas bandas underground da minha região como Essence e Maldoror, que ficaram nas demos. Segui fazendo inúmeras HQs e criando artes de capa para demos, vinis e CDs durante a década de 90, e 2000, somando mais de 100 artes, muitas delas criadas para bandas do exterior, e estou criando-as até hoje. Esse ano criei até a arte de um single para o Tuatha de Danann só para citar uma banda reconhecida para a qual desenvolvi artes recentemente. Na música retomei as criações em 2004, quando criei o Posthuman Tantra e desde então tenho estado ativo também como musicista.

Algo que muito me alegrou foi quando vi o amigo receber o Troféu Bigorna, e por você criar/patentear o termo “HQtrônica”. Fale sobre sua obra quadrinhística.

Ciberpajé (Edgar Franco): Tenho criado quadrinhos há 40 anos, já que esse ano completarei 50 anos de vida! Desde sempre minha obra quadrinhística teve uma verve autoral, misturando texto poético, com referências ocultistas, de FC e Horror e depois a processos hipertecnológicos, tendo já em seu nascedouro essa essência autoral. Que bela lembrança a sua essa do Troféu Bigorna, fui recebê-lo em São Paulo, no Blackmore Bar, e a cerimônia contou com bandas consagradas como o saudoso Exxótica. Minha revista em quadrinhos que ganhou o troféu – em 2010 – de melhor quadrinho de aventura e FC, foi a Artlectos e Pós-humanos, título anual publicada pela editora Marca de Fantasia (UFPB), que edita HQs curtas de minha autoria contextualizadas no meu universo ficcional transmídia da Aurora Pós-humana. A revista existe há 15 anos e com certeza é um dos títulos com maior perenidade do gênero poético-filosófico, superando todas as expectativas iniciais, pois foi concebida como um laboratório de experimentação livre da linguagem dos quadrinhos, estando conectada diretamente com a concepção dos quadrinhos como genuína forma de expressão artística. O título da revista, um nome pouco comercial, é formado pelo neologismo “Artlectos” que se refere à junção dos termos “artificial” e “intelectos” somado ao controverso termo “pós-humano”. Nesses 13 números publicados, a Artlectos ultrapassou as 300 páginas de quadrinhos. Não só nas HQs, mas também nas músicas, performances, animações e vídeos que crio, a minha obra artística transmídia toma como base um universo de ficção científica em constante expansão que criei, a “Aurora Pós-humana”. São trabalhos que trazem em seu teor o chamado “deslocamento conceitual”, definido pelo escritor norte americano P. K. Dick, pois o criador desloca o tempo, a gnose e a tecnologia para um futuro hipotético para, na verdade, tratar de questões contemporâneas. A Aurora Pós-humana foi criada inspirada em artistas, cientistas e filósofos que refletem sobre o impacto das novas tecnologias sobre a espécie humana: bioengenharia, nanotecnologia, robótica, telemática e realidade virtual. Nesse universo, imaginei um futuro em que a transferência da consciência humana para chips de computador seja algo possível e trivial. Em um tempo em que milhares de pessoas abandonaram seus corpos orgânicos por novas interfaces robóticas. Neste futuro hipotético, a bioengenharia avançou de tal forma que a hibridização genética entre humanos, animais e vegetais torna-se possível e corriqueira, gerando infinitas possibilidades de mixagem antropomórfica, seres que em suas características físicas remetem-nos imediatamente às quimeras mitológicas. Nesse contexto ficcional, duas espécies pós-humanas tornaram-se culturas antagônicas e hegemônicas disputando o poder em cidades-estado ao redor do globo, enquanto uma pequena parcela da população – uma casta oprimida e em vias de extinção -, insiste em preservar as características humanas, resistindo às mudanças.

Este universo é um work in progress que toma como base todas as prospecções da ciência, da tecnognose e das artes de ponta para reestruturar seus parâmetros. A partir dele já foram desenvolvidos trabalhos artísticos em diversas mídias e suportes, e atualmente outras obras estão em andamento. Das HQtrônicas passando pela música eletrônica de base digital, por obras de web arte, instalações interativas e chegando às performances multimídia com o projeto musical performático Posthuman Tantra. A produção de histórias em quadrinhos ambientadas na Aurora Pós-humana envolve a revista anual Artlectos e Pós-humanos, já citada, e também já foram publicadas obras de respaldo nacional como BioCyberDrama Saga (Editora UFG), em parceria com o notório quadrinhista Mozart Couto; Ecos Humanos (Editora Reverso), parceria com Eder Santos; Renovaceno (Editora Merda na Mão), e em breve entrará em fase de captação via catarse o novo álbum Licanarquia (Editora Atomic), em parceria com o mestre dos quadrinhos Toninho Lima. Esse ano também deve sair o álbum Ciberpajé: Monstros dos Fanzines (Editora Atomic), com uma reunião de 30 anos de minhas HQs curtas em mais de 200 páginas. Sobre as HQtrônicas, digo sempre que quem experimenta acaba inventando neologismos! Assim foi com as HQtrônicas, termo que criei na época de meu mestrado na Unicamp para definir as HQs hipermidiáticas em minha pesquisa pioneira que tornou-se referência no Brasil, após a publicação das duas edições do livro HQtrônicas, que incluiu um CD-ROM com HQtrônicas criadas por mim envolvendo trilha sonora, efeitos sonoros, diagramação dinâmica, animação e interatividade.

Artlectos e Pós-humanos, tenho as 3 primeiras edições dessa sua revista em quadrinhos. Também me chamou a atenção a revista Elegia, uma edição que acompanha um CD da lendária ABHORYM, criando uma versão musical para a HQ. Você tem planos de fazer algo nesses moldes com música e quadrinhos conectados e ambientados em nossa era pós-humana pandêmica de 2021?

Ciberpajé (Edgar Franco): Elegia foi um projeto artístico muito ousado quando de sua realização, uma revista em quadrinhos acompanhada por um CD da banda Abhorym que criou uma versão musical atmosférica para a HQ. Ou seja, os textos dos capítulos da HQ tornaram-se letras das faixas musicais, e o processo foi o contrário do que costuma acontecer, a HQ inspirou a criação das músicas. Quem abraçou a ideia foi a Editora Marca de Fantasia, de meu amigo Henrique Magalhães e o trabalho teve ótima recepção na cena underground. Sua pergunta é muito sagaz, tenho criado muitas obras em múltiplas mídias no contexto da Aurora pós-humana desde o começo da pandemia de COVID-19. Fui muito impactado pela morte de meu amado pai, mentor e maior incentivador de minha arte, Dimas Franco, uma das vítimas fatais do genocídio pandêmico no Brasil. Seu desaparecimento tem gerado muitas obras, e recentemente fui o artista convidado da revista acadêmica “Zanzalá Vol.5 – Revista Brasileira de Estudos de Ficção Científica (UNICAMP/UFJF)”, apresentando 5 obras criadas durante a pandemia em 5 mídias e suportes diferentes, sendo elas: “Kaliana”, arte de capa criada especialmente para esse volume da revista Zanzalá em técnica que mixa grafite à texturização com I.A. e redes neurais computacionais; “Naturae”, capítulo um da história em quadrinhos inédita “O Sonho dos Deuses”, obra criada na técnica de HQescultura; “O Enterro dos Deuses”, animação e videoarte, pioneira no Brasil no uso da rede neural Deep Dream; “Ciberpajé: Odor do Infinito”, EP musical de 3 faixas, parceria com Antar (PR), com letras (aforismos), músicas e artes criadas a partir de uma experiência de ingestão do enteógeno Ayahuasca; e “Ciberpajé: A Desintegração”, videoperformance que abriu o Festival Internacional Carnival Rede Vamp 2021. Essas obras podem ser conferidas baixando a revista completa Zanzalá Vol.5 no link: https://periodicos.ufjf.br/index.php/zanzala/issue/view/covid-19/493 Aproveito para destacar que no momento estou trabalhando em 2 obras que têm o mesmo conceito de Elegia, trata-se da HQ “Conversas de Belzebu com seu pai morto”, que terá seu primeiro capítulo publicado na revista Atomic Magazine #1 (Editora Atomic), e do EP que cria uma versão musical da história em quadrinhos, criada por mim em parceria com o musicista Alan Flexa.

Tenho a Box CD “Kelemath I” – parceria do Posthuman Tantra com o Melek-tha (França). Que coisa linda, tamanho esmero na embalagem e nos cards criados por você. Percebo que esses cards são algo especial e muito belo em muitos trampos que você faz, vide os cards do “Posthuman Tantra: Ten Years of Posthumanity – A Tribute” (412 Recordings – Inglaterra). São um diferencial que se torna algo muito agradável a quem os adquire, mas, olhando mais para a grande qualidade de impressão gráfica, essas boxes estão próximas ao que foi feito na edição do álbum em quadrinhos BioCyberDrama Saga, que, aliás, foi publicado pela Editora da UFG. Achei isso incrível, me fez recordar o apoio que alguns zines tinham dantes, apoio da secretaria de cultura local.

Ciberpajé (Edgar Franco): Eu estabeleci uma parceria muito rica com o notório Lord Evil, grande mentor da lendária banda francesa Melek-tha – pioneira mundial do death ambient. Desde 2005 realizamos muitos álbuns em parceria, iniciando com a quadrilogia de boxes Kelemath que narram uma invasão alienígena à Terra no contexto de minha Aurora Pós-humana. As 4 boxes CDs somam mais de 10 horas de música do Posthuman Tantra e do Melek-tha, e todas incluem cards desenhados por mim e embalagens especiais, sendo elas: “Legion From Kelemath”(2005), “Doctrines From the Kelemath New Empire” (2006), “Drums of War” (2006) e “The End: Alien Emperor Eternal”(2008). Essas boxes foram lançadas na França em tiragens limitadas, estão esgotadas e são disputadas por colecionadores. Depois lancei também em parceria com o Melek-tha as boxes CD “Asylum of Slaves”(2008) e “H.P. Lovecraft: Opus V – Necronomicon Gnosis”(2009), ambas incluindo cards exclusivos desenhados por mim. A gravadora inglesa 412 Recordings tornou-se outra parceira do Posthuman Tantra na Europa e já lançou várias boxes da banda, sempre em embalagens especiais acompanhadas por cards, destaco entre elas: “Technological Singularity’s Vampires” (2009), em parceria com o Xa-mul (UK);”Biotech Werewolves” (2013); “Lúcifer Transgênico” (2016) e o tributo duplo ao Posthuman Tantra “Ten Years of Posthumanity – A Tribute” (2014); todos esses lançamentos com tiragens limitadas e numeradas!

Infelizmente o interesse por material físico das bandas tem diminuído gradativamente e com isso muitas gravadoras independentes estão fechado suas portas, o que é uma pena, porque lançamentos assim são como obras de arte a serem fluidas na sua completude. As músicas somam-se ao encarte, aos cards e letras, criando uma experiência única muito diferente de ouvir as músicas no PC ou celular enquanto realiza outras atividades como é o padrão atual. A música tem deixado de ser uma experiência autônoma para tornar-se só um pano de fundo enquanto as pessoas navegam por redes sociais ou trabalham. Não tenho nada contra isso, mas me entristece o fim iminente da audição musical como experiência completa, algo que eu vivo desde minha pré-adolescência, pegar um álbum e dedicar-me a ouvi-lo enquanto acompanho as letras e viajo na arte da capa e do encarte. E sim, BioCyberDrama Saga, meu álbum em quadrinhos em parceria com o lendário Mozart Couto, foi publicado pela Editora da UFG – universidade onde sou professor associado – e o melhor, em uma coleção dedicada a livros de arte! A primeira edição do álbum de 270 páginas tinha uma sobrecapa especial e esgotou-se rapidamente, a segunda edição foi feita em capa dura e também já esgotou-se. Espero ainda estabelecer novas parcerias com a Editora da UFG em um momento em que os ataques neofascistas às universidades públicas brasileiras, visando sua destruição através do corte de verbas e perseguição a professores, tenham cessado.

Podemos dizer que o estilo do Posthuman Tantra seria algo próximo do Dark Ambient, Industrial e Harsh Noise, mas, você denomina com outro rótulo, e foi com esta banda que o amigo conseguiu visibilidade fora do Brasil, lembro de alguns CDs lançados pela Legatus Records, da Suíça. E quanto ao Posthuman Worm, seu projeto cybergore, ele ainda está ativo?

Ciberpajé (Edgar Franco): Sim, minha banda principal é o Posthuman Tantra, que nasceu em 2004 e segue forte, com 6 full-lenghts já lançados 5 deles pelas gravadoras da Suíça – Legatus Records – e da Inglaterra, 412 Recordings, e o outro pela gravadora brasileira Terceiro Mundo Chaos Records. Também já foram lançados 8 split CDs dentre os quais destaco o split CD Posthuman Tantra/Emme Ya, lançamento da gravadora japonesa Sabathid Records, o split Posthuman Tantra/Alpha III, pela gravadora brasileira Anaites Records, e as 4 boxes da quadrilogia Kelemath com Posthumam Tantra & Melek-tha, lançadas na França. Além destes destaques o Posthuman Tantra já participou de mais de 40 compilações nos 5 continentes e lançou singles, mini CDs e 11 videoclipes oficiais. E no ano de 2014, a gravadora inglesa 412 Recordings lançou o tributo “Posthuman Tantra: Ten Years of Posthumanity – A Tribute”, uma box especial com 2 CDs e 5 cards trazendo 14 bandas de 4 países recriando músicas do Posthuman Tantra e prestando homenagem à sua singularidade musical, um estilo peculiar de som que eu gosto de chamar de “Post-human Sci-fi Ritual Dark Ambient”, pois o Posthuman Tantra em seus discos e músicas trata da aceleração hipertecnológica, unindo-a a uma visão transcendente ritualística tecnognóstica e psiconáutica. É uma banda consolidada que desde 2010 realiza performances ao vivo, tendo já se apresentado em 4 regiões do Brasil. No momento estou trabalhando em novo EP que será lançado no segundo semestre de 2021. E quanto ao Posthuman Worm, é um projeto que lançou apenas um CD, e participou de algumas compilações internacionais, inclusive de uma compilação mexicana reunindo os pioneiros mundiais do estilo musical chamado de cybergore. Há algum tempo retomei os trabalhos no projeto e estou com o novo CD praticamente pronto que espero seja lançado também em versão física. A temática do Posthuman Worm envolve músicas que retratam relações sexuais pós-humanas entre seres híbridos de humano, animal e vegetal, robôs e clones, um verdadeiro pesadelo transfreudiano!

Algo interessante é que a transmutação para o Ciberpajé fomentou ainda mais as performances teatrais do Posthuman Tantra, mas é importante comentar um episódio, o caso ocorrido em uma universidade onde boicotaram sua performance, fale-nos sobre esse episódio.

Ciberpajé (Edgar Franco): Sim, o Posthuman Tantra tem uma postura iconoclasta que desde o princípio bateu de frente com os ditames de uma sociedade de base judaico cristã e que está regredindo para um neofascismo pré-medieval. E veja, essa censura desvairada aconteceu conosco muito antes da entrada na era de trevas neopentecostal-militar-miliciana na qual entramos recentemente! No dia 22 de outubro de 2013 tivemos nossa performance interrompida na quarta música (de 8 programadas) durante o “Congresso Internacional de Pesquisa, Ensino e Extensão da UniEvangélica de Anápolis/GO”. Ao final do quarto ato, intitulado “Iniciação sexual com um robô multifuncional”, a organização do evento acendeu as luzes do auditório e numa atitude de explícita censura bradou do fundo do auditório que a apresentação estava encerrada, causando enorme constrangimento em toda a equipe do Posthuman Tantra. O tempo da apresentação tinha sido combinado previamente com a organização e teríamos ainda mais de 25 minutos, o que daria para completar o set. Após a atitude inquisitória de censura explícita, tentei ponderar mas não fui ouvido e declarei então para todos os presentes que estávamos sendo censurados, tudo está registrado em vídeo que pode ser visto no canal do Posthuman Tantra no Youtube. O Posthuman Tantra foi convidado pela organização do evento, que ao realizar o convite deveria saber do que se trata nossa performance artística – existem vídeos, fotos e detalhes sobre ela em nosso canal do Youtube e Facebook. A apresentação foi programada com os mesmos atos que têm sido apresentados em 4 regiões brasileiras, em eventos nacionais e internacionais de pesquisa. Inclusive, no dia 20 de setembro de 2013, realizamos uma apresentação na UEG (Universidade Estadual de Goiás) em Anápolis com excelente recepção e resposta do público presente. Não bastasse o ato de censura e todo o constrangimento que passamos ainda ocorreu uma pressão para que deixássemos o palco o mais rápido possível. O Posthuman Tantra é uma ação artística que integra as investigações do grupo de pesquisa CRIA_CIBER, cadastrado no CNPq e ligado ao Programa de Pós-graduação (mestrado e doutorado) da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, do qual sou professor permanente. Todos os integrantes presentes no palco eram pesquisadores do grupo de pesquisa. Um episódio triste, que denota uma atitude discriminatória e arcaica de uma instituição universitária diante de uma apresentação de caráter artístico que se propõe a gerar reflexões e promover diálogos. Uma universidade deve estar aberta à “diversidade”, ao “universo de saberes possíveis”. Esclareço que o Posthuman Tantra não se liga a nenhum dogma e continuaremos nossa saga ainda com mais entusiasmo e energia! Destaco ainda que no dia 5 de novembro de 2013 foi enviada – pela coordenação do Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual, da FAV/UFG, uma moção de repúdio à censura ao Posthuman Tantra que aconteceu durante o Congresso Internacional de Pesquisa, Ensino e Extensão da UniEvangélica de Anápolis/GO. A Moção foi encaminhada aos coordenadores do evento que assinaram o convite impresso feito à Edgar Franco e equipe, sendo eles à época: o Reitor da UniEvangélica, o Prof. Msc. Carlos Hassel Mendes da Silva; o Prof. Dr. Francisco Itami Campos, Pró-reitor de Pós-graduação, Pesquisa, Extensão e Ação Comunitária; o Chanceler da UniEvangélica, o Sr. Geraldo Henrique Espíndola; e o Pró-reitor Acadêmico Prof. Ms. Marcelo Mello Barbosa. Nunca obtivemos nenhuma resposta à essa moção de repúdio e nenhum esclarecimento daquela instituição. Quanto a ser ofensivo, acredito que o que assustou os organizadores foi sua mentalidade medieval e despreparada que não teve o mínimo cuidado de tentar compreender o contexto de nossa performance e as reflexões críticas sobre as relações entre homem e tecnologia. Para mentes tacanhas representamos uma iconoclastia profunda, somos os arautos da dúvida que abalam as estruturas dos dogmas, que ameaçam tirar os incautos de seus úteros acolhedores, das mentiras seguras em que estão mergulhados. Muitas pessoas saem impactadas de nossas performances e a recepção é sempre extremista, ou gostam muito ou odeiam, e as duas reações nos interessam. Esse ato de censura foi uma prova para nós de que o que fazemos tem relevância, não criamos arte para entreter idiotas, criamos arte para nos expressarmos diante das mazelas desse mundo, assim é, assim será. Com a pandemia e a impossibilidade de performances ao vivo, o Posthuman Tantra tem se apresentado em festivais online.

Outro fato interessante é que a sua companheira na vida é também a companheira do Ciberpajé nas apresentações. Fale-nos como é dividir os palcos com a I Sacerdotisa Rose Franco e a importância dela para os rituais e o Projeto Ciberpajé!

Ciberpajé (Edgar Franco): Rose é minha fortaleza, meu complemento e ponto de equilíbrio, em agosto de 2021 completaremos 30 anos juntos. Um amor que se mistura com o grande apoio mútuo em nossas atividades de vida e criativas. Assim, convidei-a a ser uma das integrantes oficiais da banda para as performances e ela aceitou no ato, e nesses dez anos – nos quais realizamos mais de 40 performances em 4 regiões do país e on-line – ela foi a única integrante que esteve presente em todas elas, atuando como musicista e performer, e dando-me todo o suporte necessário para seguir com o Posthuman Tantra e meus demais projetos artísticos. A ela meu amor incondicional e profunda admiração!

O Projeto Ciberpajé lançou recentemente o EP Odor do Infinito, em parceria com o Antar (Ipsissimus) que era o principal guitarrista e compositor da horda MURDER RAPE. O que podes falar deste EP? Ele ficou um pouco diferente dos anteriores, isso se deve a cada parceria realizada? Odor do Infinito é composto por 3 aforismos musicados, podemos esperar um Full-lenght para complementar este EP?

Ciberpajé (Edgar Franco): Sim, esse novo EP está com uma repercussão fantástica, tendo sido selecionado por grandes canais dedicados ao doom e ao sludge metal como o alemão Rock Freaks  para ser postado e divulgado. Odor do Infinito sela uma parceria muito especial com o Projeto Antar, de Curitiba. Antar é o codinome musical e mágicko de José Eliézer Mikosz, artista transmídia, pós-doutor e professor da Unespar, um dos mais importantes pesquisadores da arte visionária e psicodélica no Brasil, tradutor do notório Manifesto da Arte Visionária, de Caruana, e autor do livro Arte Visionária – Representações Visuais Inspiradas nos Estados Não Ordinários de Consciência (ENOC). Mikosz também é musicista renomado na cena metal brasileira tendo integrado a banda de black metal Murder Rape por muitos anos, sendo um dos principais compositores e guitarristas nos discos emblemáticos da horda. A parceria para criar Odor do Infinito surgiu a partir da perspectiva visionária que conecta Antar e eu, e os aforismos recitados nas faixas foram escritos inspirados em uma experiência de estado não ordinário de consciência com o uso do enteógeno Ayahuasca realizada por mim. A arte da capa também foi criada a partir de um desenho inspirado em uma das visões da mesma experiência, e posteriormente foi trabalhada em uma rede neural, em múltiplas camadas para tentar aproximar-se da coloração e textura da visão enteogênica interpretada como uma perspectiva que envolve conexões entre o trauma perinatal e a integralidade do ser. A sonoridade escolhida por Antar para as 3 faixas do EP tem uma conexão direta com a arte visionária, foi o stoner metal com alguns toques de doom, e seu trabalho de mixagem das vozes à suas atmosferas vibrantes e intensas gerou algo singular na história do Projeto Ciberpajé. Odor do Infinito foi masterizado pelo experiente Edson Borth. E você compreendeu a proposta do Projeto Ciberpajé, não ater-se a rótulos musicais, o projeto é aberto a múltiplas sonoridades e já tivemos EPs e faixas de estilos diversos como thrash metal, doom metal, black metal, cybergore, hardcore, noise, progressivo, post-rock, drone, ambient, industrial, entre outras vertentes da música underground! Infelizmente o interesse por full-lenghts tem diminuído e para a difusão digital o formato de EPs funciona muito melhor, mas se algum selo topar lançar uma versão física desse EP Ciberpajé/Antar  será algo sensacional trabalharmos em um álbum completo com outras faixas. Ouça todos os EPs no link: https://ciberpaje.bandcamp.com/

Seguindo sobre parcerias, os primeiros lançamentos do Projeto Ciberpajé, Invocação da Serpente e o Lua Divinal, eram minimalistas na visualidade, e vinham com um zine de bolso, estou certo? Podemos afirmar que as parcerias iniciaram com o split ALPHA III / POSTHUMAN TANTRA – Gothik Kama Sutra?

Ciberpajé (Edgar Franco): Esses são os primeiros EPs do Projeto Ciberpajé, Invocação da Serpente, parceria com o Each second (SP) e o Lua Divinal, parceria com o Gorium (MT), e o terceiro EP foi Heresia Cósmica, parceria com Amante da Heresia (BSB), o primeiro teve uma versão física em CDr limitado, e o terceiro em mini CDr limitado. Essas versões físicas foram distribuídas com exemplares de meu zine de HQforismos Uivo acompanhando-as. Se você tem uma das cópias é um dos poucos felizardos, pois foram edições limitadíssimas. Eu mantive a pegada visual minimal em traços brancos sobre fundo preto para a série de EPS até o décimo segundo EP, depois dele iniciei o trabalho com capas de inspiração enteogênica e psicodélica, pois sou o responsável por todas as artes gráficas de capa e encarte dos EPs. E tivemos recentemente o lançamento da versão física em CD do EP Vulvaláxia, parceria bem sucedida com o projeto canadense S.M.E.S. que tem como seu mentor o Erwin de Groot, vocalista da lendária banda grind Last Days of Humanity. Essa versão limitada em CD inclui uma faixa bonus especial. Trata-se de um lançamento do selo brasileiro “Terceiro Mundo Chaos Records”. Sobre as minhas parcerias musicais, tudo começou com meu grande amigo Lord Evil, mentor da grande banda francesa Melek-tha, que abriu as portas da Europa para o Posthuman Tantra, lançando as muitas boxes já citadas em parceria com o Posthuman Tantra que somaram mais de 20 horas de música! Mas no Brasil a primeira parceria que estabeleci foi com o lendário mestre dos teclados e musicista Amyr Cantúsio Jr., responsável pelo Alpha III, projeto de música progressiva reconhecido internacionalmente. Quem foi o responsável por materializar essa parceria para o mundo foi o seu selo ANAITES RECORDS, meu grande amigo Hioderman ZArtan, e o Gothik Kama Sutra é um dos CDs mais incríveis da trajetória do Posthuman Tantra! Grato pela oportunidade e espero voltar a lançar materiais pela Anaites! (N.E.: E esperamos que sim meu nobre, passando esta fase ruim, voltaremos a lançar material, temos um projeto engavetado há uma década, kkk).

Meu amigo Edgar, agradeço imensamente o tempo e paciência pra responder meus questionamentos, desejando sempre supremas vitórias em tua jornada, e, deixo este espaço para algo mais que o amigo deseje relatar!

Ciberpajé (Edgar Franco): Agradeço imensamente esta fantástica oportunidade de ser entrevistado por você com questões tão sagazes e instigantes de um verdadeiro conhecedor de minhas obras musicais e transmidiáticas. Aproveito o espaço para divulgar o lançamento de meu novo álbum em quadrinhos RENOVACENO com 13 de minhas HQs curtas pós-humanistas e transcendentes. A obra – com 68 páginas e formatão A4 – abre o catálogo de quadrinhos da Editora Merda na Mão, dedicada a publicar os impublicáveis e totalmente calcada nos princípios underground, com TODA a renda obtida com as vendas das publicações revertida para novos lançamentos. Primeira tiragem limitadíssima a 100 exemplares. Para adquirir a obra acessem o blog da editora: https://editoramerdanamao.blogspot.com/

Saiba mais e conheça as obras do Ciberpajé (Edgar Franco):

– Blog A Arte do Ciberpajé – divulgação de todos os lançamentos artísticos transmídia: https://ciberpaje.blogspot.com

– Posthuman Tantra no Youtube, Bandcamp e Facebook:

https://www.youtube.com/user/posthumantantra

https://posthumantantra.bandcamp.com/releases

https://www.facebook.com/posthumantantra

– Projeto Musical Ciberpajé – Ouça os 35 EPs no Bandcamp:

https://www.facebook.com/projetociberpaje

https://ciberpaje.bandcamp.com/

Os Aforismos do Ciberpajé – Página do Facebook com mais de 3 mil seguidores: https://www.facebook.com/aforismosdociberpaje

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Hioderman ZArtan

Editou os zines "Anaites" e o "Guerreiros Zineiros". Designer gráfico Underground e mentor do Anaites Records.
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