Coberturas

ABRIL PRO ROCK 2019 – Uma catarse metálica na Veneza Brasileira

Exorcismo – Foto por Fábio Brayner

Quando morava em Recife, o festival ABRIL PRO ROCK era quase sempre o programa obrigatório do mês de abril de cada ano por causa da oportunidade de ver bandas que dificilmente veria em outras oportunidades. Depois que mudei para Brasília o festival passou a ser algo distante, ainda que a vontade de ir em uma ou outra edição continuava devido às bandas que estavam sendo confirmadas.

A última edição que pude ir foi a de 2012, que trouxe nomes como EXODUS, BRUJERIA, CRIPPLE BASTARDS, RATOS DE PORÃO e várias bandas mais undergrounds.   2019 chegou e a oportunidade de rever a velha cidade e mais uma vez ir ao ABRIL PRO ROCK, dessa vez para cobrir o evento para o PORTAL LUCIFER RISING, se materializou.

Pesado – Foto por Fábio Brayner

A edição desse ano contou com dois dias voltados à música mais pesada. No dia 12 (dia que infelizmente não poderia estar presente devido à distância e outros compromissos) as bandas que se apresentaram foram o CAMUS (PE), MALKUTH (PE), JACKDEVIL (MA), MAESTRICK (SP), MALEFACTOR (BA) e AMORPHIS (Finlândia), que pelos vídeos que vi no youtube fez um show muito bom, inclusive executando várias músicas mais antigas.

Finalmente o dia de embarcar para a Veneza Brasileira chegou e fui para o aeroporto.  Felizmente nenhum emprevisto rolou e por volta do meio dia já estava suando igual a uma chaleira nessa tão “fria” capital Nordestina. Hehehehehe  Os shows estavam previstos para começar por volta das 17:30. Cheguei ao local antes disso e houve um pequeno atraso na abertura dos portões o que deixou o público de fora um tanto inquieto pois começava a cair uma chuva um tanto irritante. Abrindo um parêntese aqui, parece que levei uma quantidade enervante de água comigo na viagem e praticamente choveu quase o tempo todo em que estive na cidade.  Mas voltando ao que interessa, por volta das 17:40 os portões foram abertos e o público começou a entrar no Baile Perfumado, que apesar do nome horrível é  uma casa de show bem legal. Espaço amplo, com uma área central e iluminada onde todos os estandes de merchandising foram montados (e como havia material de todo o tipo à venda… tive que fingir cegueira e loucura para evitar sair gastando dinheiro, ainda que pelo menos um cdzinho do Grim Reaper e o novo do Câmbio Negro HC tenham voltado comigo na mochila) e uma ampla area de bar.  Saindo dessa area ainda havia um espaço com diversos tipos de comida à venda, o que é louvável já que normalmente o pessoal que organiza show acha que público de metal se alimenta de som e fedor de CC. Então do ponto de vista de estrutura o Abril Pro Rock foi um evento que cobriu as mais diversas necessidades.

Eskrota – Foto por Pei Fon (Rock Meeting)

A primeira banda a se apresentar no palco secundário foram os pernambucanos do EXORCISMO. Conhecia a banda apenas por nome e esses moleques me surpreenderam de forma muito positiva com seu thrash metal carrancudo e com total influência do velho thrash metal nacional de bandas como MX, Mutilator, Sepultura, Nephastus. A banda realmente fez um show muito energético e que agradou realmente ao público que ainda entrava, mas já se aglomerava para apoiar a banda em sua apresentação. A próxima banda a se apresentar foi o PESADO, que estreou o palco principal nessa noite chuvosa e quente. Para quem não conhece a banda leva o apelido de seu vocalista como nome da banda. Pesado foi vocalista do lendário Câmbio Negro HC, uma das lendas do punk/hardcore pernambucano desde os anos 80. A banda fez um show forte, com vários momentos de protesto claro contra a atual situação política do país e que ao executar músicas da época do Câmbio Negro HC colocou a galera para agitar muito. Gostei realmente dos sons da banda, totalmente crus e calcados no velho punk/HC. O destaque, é claro, ficou com o vocalista Pesado, que com sua voz característica conduziu o show de forma muito energética.

The Mist – Foto por Fábio Brayner

Enquanto o PESADO dava os seus acordes finais, no palco dois a banda ESKRÖTA, de São Paulo já esquentava o que para muitos, foi um dos melhores shows da noite. Confesso que musicalmente a banda não me empolgou, talvez pelo fato de nunca ter escutado o som deles antes e também por o som ter ficado um pouco embolado. Mas a banda colocou o público para se manifestar de forma insana com as mensagens de apoio ao feminismo, contra o machismo que impera na sociedade e principalmente, contra o atual governo e situação que o país enfrenta. Foi muito positivo ver que, ao menos no Nordeste, essa piada de mau gosto do atual governo não é nem de longe uma unanimidade.  A banda deixou com certeza uma grande marca no público pernambucano. A próxima banda destruir o palco do Abril Pro Rock foi o speed/thrash/death/black do FLAGELADOR, do Rio de Janeiro. A banda fez um show realmente muito bom e se sentiram muito à vontade tocando para um público já bem expressivo que enchia a casa. Segundo a produção o público da noite metal do festival foi de algo em torno de 2000 pessoas, o que é muito foda de se ver em uma época em que colocar 400 pagantes em um evento é um trabalho hercúleo.

Manger Cadavre? – Foto por Pei Fon (Rock Meeting)

O MANGER CADRAVE?, também de São Paulo veio na sequência e, pelo menos para mim, sofreu do mesmo problema do ESKRÖTA.  Um som não conhecido por muita gente e uma sonoridade mais porradona, o que dificulta compreender a proposta da banda. O show em si foi bastante energético e agitou o público. Com certeza é uma banda que irei procurar ouvir com atenção para poder ter uma opinião mais sólida sobre o trabalho deles. Após o término do show deles a expectativa e ansiedade tomaram conta de todos, pois a próxima banda a se apresentar seriam os mineiros do THE MIST, que estavam realizando, creio eu, o seu primeiro show depois da volta da banda e ainda por cima, tocando apenas músicas clássicas da primeira fase da banda. Foi um show memorável em muitos aspectos, embora a qualidade do som aqui tenha deixado um pouco a desejar. A guitarra de Jairo Guedez estava muito escondida por trás dos outros instrumentos e isso atrapalhou um pouco, mas ainda assim foi mágico vez essa formação nos palcos novamente e ter a chance de rever o THE MIST após mais de 20 anos desde a última vez que tinha visto a banda em um palco, se não me engano no show de lançamento do “Phantasmagoria” lá mesmo em Recife.  Músicas como “Phantasmagoria” (pqp, ouvir isso ao vivo foi lindo), “Barbed Wire Land”, “Peter Pan Against the World”, “Scarecrown” entre outras foi uma volta no tempo com toda a certeza.  A meu ver a banda precisa urgente de uma segunda guitarra para dar mais volume e peso na apresentação. Fora isso é pura nostalgia e metal mineiro em sua máxima qualidade.

Desalmado – Foto por Pei Fon (Rock Meeting)
Nuclear Assault – Foto por Fábio Brayner

A próxima banda foi o DESALMADO, de Sampa, que tinha a difícil tarefa de se apresentar depois de uma lenda do metal nacional e a banda não se fez de rogada e mandou um puta show. Grindcore na cara de todos sem meias palavras. O público pirou no show deles e agitou muito. Assistam as cenas do show deles no youtube e vocês verão o inferno criado. Grande apresentação com toda a certeza.

Nuclear Assault – Foto por Pei Fon (Rock Meeting)

Hora de correr para tomar uma cerveja, filar algumas doses de cana do velho brother Osvaldo Magno e me preparar para o primeiro show do NUCLEAR ASSAULT em Recife. Já havia visto a banda em 2016 nos Estados Unidos, então já sabia o rolo compressor que viria pela frente e foi exatamente isso que aconteceu. Os veteranos do thrash metal americano chutaram bundas sem cerimônia alguma. Clássicos de várias fases da banda foram executados e colocaram todos para agitar. O saudosismo dos velhacos como eu era evidente. “Game Over” foi um álbum que ouvi milhares de vezes quando era adolescente e ver aquelas músicas sendo executadas na sua frente foi foda, de novo. Quem ouvir músicas como “Game Over”, “After the Holocaust”, “Hang the Pope”, “Critical Mass”, “Stranded in Hell” e “Butt Fuck” e não querer sair no meio do público agitando tem que estar morto. Eu posso dizer que estava bem morto, por isso não fiz isso. Velhice te dá perspectiva das coisas, não energia sobressalente. Hahahahahaha Mas agitei muito por dentro. Hahahahahahaha  A banda fez um puta show, apesar de que enfrentou alguns problemas técnicos, principalmente para o guitarrista/vocalista John Connely, que várias vezes mostrava seu descontentamento com alguma coisa. Para nós, fãs da banda, estava tudo dentro dos conformes e grande problema foi a banda não ter tocado mais, mas tendo um horário a cumprir  eles fizeram isso (algo totalmente normal em festivais mundo afora).

Sanctifier – Foto por Fábio Brayner

A próxima banda a subir no palco dois foram os mestres do lovecraftian death metal SANCTIFIER.  Não tenho problema algum em comentar sobre o show da minha antiga banda já que ali deixei verdadeiros irmãos, uma família tentacular oriunda das profundezas de R´yleh.  A banda fez um show excelente e conseguiu fazer o som melhorar muito durante a sua apresentação. Foi o show de estreia do novo vocalista da banda, Jefson Souza e ele fez um excelente trabalho a frente da banda, ainda mais porque estrear em uma banda com público já consolidado e em um festival enorme como o Abril Pro Rock não é tarefa fácil e ele fez isso de forma primorosa.  Ano após ano sempre me pergunto porque o resto da cena nacional não dá a devida atenção ao que esses natalenses fazem com seu death metal odioso e old school. Músicas de várias fases da banda foram executadas, tais como “Cycle of the Entity”, “Damned Messiah”, “Necronomicon” , “Lone Wolf Syndicate” e “Evil Presence Spell” mostram o porque o SANCTIFIER é uma das melhores bandas de death metal nacional. Show fudido !

Ratos de Porão – Foto por Pei Fon (Rock Meeting)

A banda que ficou com a responsabilidade de fechar a noite do metal do Abril Pro Rock 2019 foi o fudido RATOS DE PORÃO, que comemorava o aniversário de lançamento do seu mais icônico disco de estúdio, o atemporal “Brasil”, que mais do que nunca mantém a sua atualidade e possivelmente (e assustadoramente) está ainda mais atual e relevante hoje do que a 30 anos atrás.  Após a intro que trouxe a famigerada musiquinha da hora do Brasil (“Hino da Morte”, de O Guarani), a banda soltou na íntegra o álbum “Brasil”.  É preciso realmente dizer o que é esse álbum sendo tocado ao vivo, em 2019, em um momento em que mais de 50 milhões de brasileiros resolveram abraçar o obscurantismo e a ignorância como ideal político ? É assustador ouvir isso e perceber que nada mudou, pelo contrário, piorou em vários sentidos. Não vou citar o set list. Quem conhece o “Brasil” sabe qual é. RATOS DE PORÃO no Abril Pro Rock foi um show para abrir os olhos, corações e mentes. Qualquer um que estivesse ali e fosse partidário da “coisa” com certeza enfiou a língua no lugar mais obscuro possível e se recolheu a sua insignificância.

Ratos de Porão – Foto por Pei Fon (Rock Meeting)

O resultado final do ABRIL PRO ROCK 2019 foi de um evento que uniu cerca de 2000 pessoas sedentas por metal, que estavam lá para curtir uma noite foda. Muito obrigado à curadoria do festival, nas figuras de Alcides Burn e Paulo André, pela oportunidade dada ao Portal LUCIFER RISING de estar presente cobrindo esse tão tradicional festival, que mais uma vez mostrou sua relevância, esse ano ainda mais, pois ter a coragem de trazer à tona e abraçar temas tão espinhosos e considerados polêmicos hoje em dia não é para qualquer um.  Espero poder estar presentes em edições tão incríveis quanta foi essa aqui. Encontrar velhos amigos, conhecer alguns novos, assistir a bandas fodas a noite toda é algo que o metal proporciona de forma única.  Uma noite para não ser esquecida com certeza.

Nota: O PORTAL LUCIFER RISING agradece à fotógrafa oficial do festival PEI FON (Rock Meeting) pela gentileza em autorizar o uso de algumas de suas fotos nessa matéria: Manger Cadrave?, Eskröta, Desalmado, John Connely (Nuclear Assault) e Ratos de Porão).

Texto por Fábio Brayner

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Fabio Brayner

Editor do The Old Coffin Spirit zine e um completo metal maniac desde 1985. Ex-membro de bandas como Sanctifier e As the Shadows Fall.
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