Entrevistas

AÇOITE – Fúria Headbanger Forjada no Aço Oitentista!

"Cultivamos total repúdio e desrespeito por som limpo e moderno, esse tipo de produção deixa a sonoridade plástica, artificial, pálida e castrada"

AÇOITE é uma banda de Death/Thrash de São Paulo de 2017, com letras contra a moral e o cristianismo. Lançaram seu primeiro material em 2018, um som agressivo e pegado tal qual atmosfera do enxofre oitentista! Em 2019 lançaram o full “Açoite” e estão em estúdio para novo lançamento. Conheçamos aqui algumas das ideias desses diabos!

Salve! Obrigada por aceitarem o convite para expor suas ideias! Ouvindo o primeiro álbum “Açoite”, é nítido o apreço pela velha escola. Riffs furiosos, bateria pegada e estilo de mixagem na linha daqueles que acenderam o fogo infernal na Terra nos anos 80! Às evidentes crias do old school, pergunto: o que acham a respeito dos estilos de gravação e dos potentes equipamentos usados nas bandas de sonoridade mais limpa e moderna?

Defenestrador: Saudações! Nós é que agradecemos a oportunidade e o interesse pelo trabalho da banda. Cultivamos total repúdio e desrespeito por som limpo e moderno, esse tipo de produção apenas estraga a sonoridade deixando-a plástica, artificial, pálida e castrada.
Invasor: Hail. Agradecemos a oportunidade e a sua perspectiva sobre o álbum! Procuramos manter a gravação o mais visceral possível no momento que gravamos, tentando minimizar técnicas digitais de edição de som. Acredito que fazemos mais parte de uma vertente de pensamento que foca na qualidade sonora e não em tipo de equipamentos. Além disso, tentamos focar na maneira analógica de produzir, consumir e criar música. Isso as vezes é difícil nos dias de hoje, pois equipamentos analógicos são muito caros e exigem certo conhecimento para operação e manutenção. No que tange as plataformas de divulgação digital fica ainda mais complicado, pois ficamos a margem dessa ferramenta inescrupulosa de comunicação, não obedecendo seus algoritmos e formas de utilização que exploram o tempo e a imagem de pessoas que estão na cultura por paixão.

Achei interessante a capa do álbum. Abre muitas interpretações. Tem um vitral (que geralmente é um elemento presente na estética de casas que adoram o falso deus) com uma figura celestial. E o vitral está quebrado, com algumas raízes, acredito, saindo da imagem. O que quiseram passar com essa arte?

Espantalho: A arte é simples e com objetivo direto: o ataque a uma igreja, ou a instituições de poder como um todo. Os galhos que você citou são na verdade a representação do chicote, elemento que açoita tudo que somos contra. A arte tem uma leve referência a capa de uma banda brasileira antiga que levamos como influência.
Invasor: Para mim, esta capa representa a nossa vingança contra o status quo e a vida convencional, açoitando os vitrais dos palácios das mentiras hipócritas e conservadoras, na investida contra as torres celestiais.

Açoite remete, entre outras coisas, a uma das mais memoráveis humilhações que cristo passou até a cruz. É um ato histórico de domínio/punição sobre algo. Como vocês correlacionam essa simbologia à banda?

Defenestrador: AÇOITE surge como castigo e flagelo contra tudo o que nos opomos: moralidade, bons costumes, castidade, obediência, fraqueza, conformismo e demais atributos das ovelhas.
Invasor: Vejo como nossa vez de tiranizar aqueles que nos tiranizam no dia a dia e historicamente. Açoite público e incessável aos messias e malafaias.

O anticristianismo é um tema frequente em várias bandas do Metal. Mas algumas vezes, vemos discursos moralistas partindo dessas mesmas criaturas que ostentam escarros na cruz. Como vocês enxergam isso? A união metal existe?

Defenestrador: Sempre existem turistas orbitando eventos de Heavy Metal que vêm e vão, porém a maioria segue paradigmas de rebanho e não acompanham a mentalidade extrema e abundante necessária para absorver a essência do gênero. É inútil e ingênuo blasfemar o cristianismo e proceder com a mesma moralidade de um cordeiro religioso. Os curiosos e medíocres jamais prevalecem. A união existe de forma limitada e apenas entre os semelhantes, o que predominará sempre será discórdia e conflito, não existe uma “cena” homogênea, mas alguns círculos de indivíduos que compartilham gostos em comum.
Invasor: Infelizmente esses seres infestam o verdadeiro Heavy Metal. Jamais vou entender como alguém canta contra o anticristianismo e prega os valores e bons costumes da família tradicional. FOAD posers. Enxergo que o conceito de união é falacioso. Existe sim união, mas como apontado por Defenestrador, apenas dentro de certos círculos de confiança e é dessa maneira que todo grupo social se comporta.

“Reivindico meu lugar em seu trono (…) a revanche do terceiro mundo cobra seu lugar”, é um trecho de uma letra do AÇOITE. Observo que vezes existe uma apologia de pessoas a ideias que não as aceitariam. Esse trecho mostra uma revolta com uma força vigente, porém sem se colocar no papel do humilhado e sim no do carrasco, do que vinga, que vai atrás do seu orgulho, da vitória. Como vocês veem lideranças históricas?

Espantalho: Esses são trechos do som chamado ‘Calvário em Chamas’, que estará no nosso segundo disco. A ideia que permeia esta música foi extraída do primeiro capítulo do Evangelho Segundo Jesus Cristo, do escritor José Saramago. Essa ideia levanta a questão do tratamento dado apenas a um filho, deixando todos os outros largados a própria sorte, por que um ladrão morrendo nas pontas não pode ter o mesmo tratamento do filho preferido, do messias? É uma crítica ao pensamento religioso, que venera seu próprio algoz. Ao mesmo tempo falamos sobre a dominação do poder religioso, e consequentemente político, que explora e marginaliza o Terceiro Mundo. Porém nunca iremos nos curvar aos impérios, sejam eles religiosos ou governamentais, que impõe suas regras pela força ou medo. “Ação de destruição proclamo ao teu podre poder”.
Defenestrador: Admiro feitos de alguns indivíduos notáveis que marcaram o seu legado através das eras, porém jamais me curvando a nenhum líder ou mestre. Coloco-me sempre em primeiro lugar como adversário dos que cruzam meus objetivos.
Invasor: Quanto as lideranças históricas, elas sempre serão necessárias e sempre condensarão pensamentos coletivos levando-os para a ação prática. Mas como dito acima, sem jamais se curvar e sem jamais acreditar ou depender como se fossem figuras messiânicas.

Foto por: Dani Moreira

Sobre apresentações ao vivo: o que levam em consideração na decisão de tocar em um evento? Inclusive, tratando-se de underground, o que vêem como pontos positivos e negativos, tratando-se da criação de materiais e eventos?

Invasor: Teoricamente nada nos impede de tocar em um evento, seja ele qual for. Seguimos apenas o bom senso quanto as bandas que participarão do evento (se são pertinentes e dialogam com o verdadeiro aço), ou as questões de custos mínimos para chegar e sair do local. O ponto positivo dos eventos é a paixão do público e dos organizadores, a mesma que nós sentimos e que nos faz resistir e existir como banda e membros ativos do underground. O negativo sempre vai ser a questão de infraestrutura, que está mais ligado a precariedade econômica que nos encontramos como nação de terceiro mundo. É complicado ter a disposição equipamentos caríssimos num país onde ainda temos que brigar para conseguir comer todo dia dignamente.

Quais as principais influências para o AÇOITE, seja banda, estética ou de outras formas de arte?

Espantalho: As nossas influências sonoras são das mais variadas dentro do que gostamos, passado por bandas de Hard Rock e Rock progressivo dos anos 70, pelo Heavy Metal da NWOBHM e afins, Hardcore antigo, para chegar no Death/Thrash/Black Metal como um todo, sempre seguindo os ensinamentos ancestrais dos mestres. Porém nosso maior foco de influência no AÇOITE é da velha guarda brasileira, de bandas como: Dorsal Atlântica, Vulcano, Sarcófago, Attomica, Metralion, Headhunter D.C., Holocausto, Necrobutcher, Psychic Possessor, Exterminator, Taurus, Extermínio, Sepultura, Chackal, Sextrash, Mutilator, MX, Korzus (Sonho Maníaco), Mystifier, Amen Corner, Harppia, Alta Tensão, Expulser, Astaroth, Panic, Antítese, Explicit Hate, The Mist, etc. As influências agregam não apenas sonoramente, mas também como referências e influências líricas e estéticas, e além dos discos e bandas, também usamos filmes, peças de teatro, e a literatura como um todo.

Foto por: Dani Moreira

“Música boa é aquela que eu gosto”. Porém, em uma banda, são pessoas diferentes e, apesar de evidentemente terem algo em comum musicalmente, pode ser que vezes aconteça alguma divergência em alguns momentos. Isso acontece? Como no AÇOITE vocês resolvem essas questões?

Defenestrador: Divergências são raras pois todos os combatentes estão sintonizados na missão que é flagelar os ouvidos alheios com aço profano! Se por acaso surgir um desacordo, provavelmente será resolvido na base de quem tem a força de vontade e mente mais poderosa.
Invasor: O AÇOITE é uma banda alinhada ideologicamente em questões de som e estética. Entramos em estúdio com o ego fora da sala.

Há uma tendência moderna no Metal que traz uma estética mais limpa nas bandas undergrounds. Menos spikes, menos frases de força, mais neutralidade e mais vontade de agradar. O que acham a respeito?

Defenestrador: Essa postura débil é consequência do Metal ter sido acolhido pelas grandes mídias, hoje qualquer zé ruela de condomínio pode se sentir extremo atrás uma tela de computador. O AÇOITE trás e revanche dos esgotos e das ruas pestilentas para mostrar como se forja a magia sonora!
Invasor: UGH! Honestamente, estamos por fora de todas essas tendências modernas e hipsters, mal vejo ou sinto a presença de tais posers. O Heavy Metal é sobre paixão e ação, não a neutralidade, não o agrado. Prefiro mil vezes encontrar desconhecidos bêbados carregados no visual agressivo no finado bar do mineiro, do que suportar um show onde ninguém bate a cabeça.

Satisfação, pragas! Fica livre esse espaço para suas considerações finais. Caos!

Espantalho: Nós que agradecemos o espaço. Arrebentaremos suas cabeças!
Invasor: Agradeço o espaço, a entrevista e a todos que leram e nos apoiam! 666999 Uma salve do verdadeiro AÇOITE a todos vocês! UGH!
Defenestrador:Obrigado mais uma vez a entrevistadora e a Lucifer Rising pela entrevista, parabéns pelas perguntas pertinentes.

Atenção aos incautos pois uma nova praga será lançada esse ano na forma do nosso segundo álbum intitulado “REVANCHE! HECATOMBE!

Pau no cu do nazareno !! UGH

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Sophia Losterh

Editora do zine Natimorto e organiza eventos de metal extremo underground em SP. Amante das expressões blasfemas de arte. Hail caos, Hail metal negro!

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