Entrevistas

ALEX RODRIGUES – Uma história que está cravada na cena underground desde os anos 80.

Alex Rodrigues é um guitarrista paulista cuja história está cravada na cena underground desde os anos 80. Ainda no início dos anos 90 o encontraremos formando o Lethal Curse, banda que teve grande repercussão no cenário ao abrir as primeiras turnês que bandas como Anathema (94) e Rotting Christ (98) fizeram por aqui e lançar o ótimo disco ‘’Rpae the Innocence’’ pela Cogumelo Records em 1997. Após alguns períodos e alguns materiais com menor divulgação, em 2003 a banda mudou seu nome para Of the Archaengel com proposta diferenciada, lançou um excelente álbum em 2011 chamado ‘’The Extraphysicallia’’ e o resto é a história que deixaremos o próprio Alex Rodrigues contar nessa entrevista.

Alex Rodrigues, Foto por: Divulgação

Saudações Alex. É muito bom estar novamente em contato contigo, após alguns anos de ausência. Para início de conversa e para quem não te conhece você é um cara que vem ainda lá do underground paulistano do final dos anos 80, Ficou internacionalmente conhecido com o trabalho do Lethal Curse, que se tornaria posteriormente o Of The Archaengel. Nos conte como é trilhar os caminhos do Metal por tantos anos e ainda sentir queimar no peito a vontade de criar, de fazer música, de experimentar os largos caminhos que o Metal tem à oferecer:

Alex Rodrigues – A satisfação é minha! Quando se tem uma ligação como a que eu possuo com a musica isto se torna simultaneamente um dom e uma maldição. O tempo passa a ser apenas uma variável e as circunstancias ao redor só um pano de fundo que influenciam em  determinado nível  o como, o quando e o de que maneira a arte em formato de heavy metal irá ser manifestada.

Nesse momento agora em 2019. O seu ressurgimento em cena aceitando dar entrevistas significa algo? Você está retomando as atividades do Of The Archaengel ou surgirá com uma nova banda, um novo trabalho?

Lethal Curse, Foto por: Divulgação

Alex Rodrigues – Realmente estive afastado por longos anos e por inúmeras razões, e acredito ter sido algo benéfico para me dar uma perspectiva diferente para com o cenário musical e para com a estória que estive construindo nele. Em razão disto pretendo sim retomar as atividades do Of The Archaengel.  Estou à procura de novos músicos (guitarrista/baixista/vocalista) que curtam a proposta da banda, sejam competentes em suas funções, e estejam dispostos a produzir seriamente. Possíveis interessados entrem em contato!

No início dos anos 90 o Lethal Curse obteve excelente repercussão, aparecendo em quase todos os fanzines da época no Brasil, além de ter tocado em eventos e shows memoráveis, como por exemplo a abertura para o Anathema em 94, em plena turnê do álbum ‘’Serenades’’, um marco para a época. Depois em 98, quando vocês já haviam lançado o debut album, abriram a turnê nacional do Rotting Christ que aparecia no Brasil pela primeira vez.  Nos conte quais foram os saldos positivos da existência do Lethal Curse nos anos 90 na cena nacional.

Of The Archaengel, Foto por: Divulgação

Alex Rodrigues – Olhando hoje para trás, tudo isto que você cita e até mesmo aquilo que não achávamos ser ideal na época (roubadas, limitações técnicas, desonestidades e eventuais criticas) foram positivos. Ajudou-nos a “criar casca”, ajudou-nos a nos tornarmos mais profissionais, competentes e aguerridos. Fora que foi um período impar na estória e na cena em que tenho orgulho de ter vivido intensamente e participado ativamente.
O Lethal Curse foi uma grande e importante escola e experimento musical alem de parte importante de praticamente uma década de minha vida. O saldo maior é que hoje “Rape The Innocence” é considerado por muitos um clássico do underground nacional alem de ter se tornado item de colecionador. Eu ainda tenho uma meia dúzia de copias dele a quem possa interessar.

No início do novo milênio muito pouco se ouve falar sobre o Lethal Curse. Em 2005 vocês reaparecem sob um novo nome Of the Archaengel e uma demo, com uma proposta sonora diferenciada. O que levou à mudança de nome na época? Talvez o fato de terem mudado o direcionamento sonoro e não querer manter a antiga nomenclatura por divergências de estilo?

1994 – Return To Obscurity “Demo”

Alex Rodrigues – No ano 2000 participamos do Tributo ao Sarcófago com um medley de 2 musicas “Rotting” e “Screeches from the Silence”, depois disso ainda gravamos um material promo como Lethal Curse em 2001 mas este não foi voltado ao publico, nos próximos anos continuamos a nos concentrar em compor criteriosamente, e isto nos tomou um grande tempo e posteriormente este esforço tomou a forma da demo “Dante´s Children Extravagance” de 2005.  Sobre a mudança de nome, creio que poderíamos continuar com o nome anterior independente de direcionamento sonoro, pois o Of The Archaengel  não descarta o nosso passado mas sim constrói sob as suas estruturas. Mudamos porque foi um nome que escolhemos muito jovens e sem muito critério, e porque muitos o interpretavam erroneamente e com o tempo isto passou a nos incomodar.

Em 2011 a banda lança um disco magnífico que é o ‘’The Extraphysicalia’’, pela gravadora grega Sleasy Rider. O mesmo é de uma sonoridade, originalidade e produção ímpar, trilhando as paisagens sonoras de gêneros como o Doom, Gothic, Dark e Death Metal , altamente emocional e inspirado. Participações de nomes como Sakis Tolis (Rotting Christ), mixagem na Suécia e capa assinada por Seth Siro Anthon dão ao álbum atrativos especiais. Já que os demais atributos falam por si só, música, encarte belíssimo e vanguardista pra época.  Como foi compor um álbum ao meu ver clássico hoje?

1997 – Rape the Innocence “Full-length”

Alex Rodrigues – Foi um trabalho monumental onde cada detalhe foi cuidadosamente pensado.
Este silencio de nossa parte que você menciona na pergunta anterior já era em função do “laboratório” para este álbum. “Dante´s Children Extravagance” serviu de pré-produção para ‘’The Extraphysicalia’’.
Boa parte da banda voltou a ter aulas de seus instrumentos e eu também li muito para poder escrever suas letras. Foi um grande desafio pessoal e artístico ter materializado este álbum. Sempre admiramos álbuns de bandas que deram grandes saltos evolutivos e quisemos seguir estes passos.
Este é um álbum nunca poderá ser alvo daquela fala  “falta originalidade, produção, maturidade, etc, etc, bla-bla-bla para o metal nacional”.

Cientes do aspecto clássico de ‘’The Extraphysicalia’’e todo o seu arcabouço artístico de inegável talento, o que faltou para que o Of the Archaengel não estourasse com esse belo lançamento? A banda parece ter se dissolvido logo depois…

2005 – The Dante’s Children Extravagance: Chapter Alpha “Demo”

Alex Rodrigues – Nós assinamos com um selo Grego e infelizmente o pais foi assolado por uma grande crise econômica logo após isso.  Este fato influenciou fortemente as ações que iriam ser (e só poderiam ser) empreendidas por eles e não foram, entretanto o álbum impactou por onde passou com notas altíssimas,  ficamos a frente de medalhões do metal extremos em alguns charts do período que o álbum foi promovido e por aqui tocamos com nomes como Paradise Lost, Opeth, Dark Tranquillity e Katatonia alem de ter feedbacks inimagináveis de pessoas como George Corpsegrinder, Fredrik Akesson, Daniel Liljekvist entre outros. Nós decidimos encerrar as atividades após ter terminado a promoção do álbum em 2013 e com a consciência tranqüila de ter feito absolutamente tudo aquilo que estava a nosso alcance para ser feito.  O que possivelmente tenha faltado foi estarmos dentro de um rótulo bem definido (o que intencionalmente não queríamos) e seguirmos os passos de irmãos mais velhos do metal como Sepultura/Angra/Krisiun naquela velha estória de “primeiro lá fora…”

Geralmente separações de bandas são envoltas por muita sobrecarga negativa e sentimentos de rancor, ressentimentos. Aconteceu algo parecido com vocês ou a separação foi uma idéia consensual, cada qual partindo para seu rumo? Você ainda mantém contato com os antigos membros tanto da era Lethal Curse como da era  Of The Archaengel?

2011 – The Extraphysicallia “Full-length”

Alex Rodrigues – Em uma longa jornada como a nossa por terrenos difíceis é inevitável que incômodos se apresentem e conosco não foi diferente. No entanto a decisão de encerrar atividades veio principalmente, pois nós não queríamos continuar  “a qualquer custo, fazendo qualquer coisa, da maneira que fosse possível” . Queríamos manter o nível alcançado e não estávamos em condições em nenhum aspecto mais para isto naquele momento, entre outras questões complexas. Com exceção do vocalista do Lethal Curse, ainda tenho contato com todos os integrantes de maior permanência.

Alex diante dos altos e baixos na carreira musical, hoje em 2019, quais seriam as atitudes que você não repetiria na condução de uma banda, gerenciamento, estratégia, logística, divulgação, contratos, etc?

Alex Rodrigues – Não seria tão paciente com integrantes que já davam pistas de serem inaptos para a banda assim teria perdido menos tempo. No mais creio que tudo o que fizemos foi o mais acertado e integro possível para cada momento.

Bom, acho que é tudo por enquanto meu velho amigo dos tempos das trocas de cartas. Se há algo que não perguntei e você queira retificar, reiterar, o espaço é todo livre. Sorte e que venham novas criações sob sua alçada!

Alex Rodrigues – Antes de qualquer outra coisa o parabenizo por continuar lutando e fortalecendo a cena com o seu tempo e trabalho. Isto deve ser valorizado! Agradeço-lhe por mais esta oportunidade e a todos que leram estas linhas até aqui. A quem possa se interessar em conhecer e/ou adquirir os materiais tanto do Lethal Curse quanto do Of The Archaengel entre em contato diretamente comigo. Pensem por si mesmos, não é apenas a religião que se propõe a manipular a todos .As estratégias se refinaram. Horns up always!
https://www.facebook.com/alex.archaengel

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Tiago Siqueira

Tiago Siqueira edita fanzines impressos desde 1994. É editor do Akkeldama e do Rip Ride. Trabalha com jornalismo comunitário em Planaltina-GO.
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