Dark Reflections

Apenas meu PONTO DE VISTA

Há muito pouco tempo atrás em uma conversa entre amigos, o amigo zineiro que edita o importantíssimo Death Metal zine brasileiro comentou sobre a falta de público nos eventos undergrounds. E ao invés de falar mau do público começamos a analisar quais seriam as causas desse afastamento, e, trago para vocês neste artigo duas opiniões minhas (Eden Lozano) em resposta aos questionamentos proferidos. Como está escrito no título deste artigo, apenas meu PONTO DE VISTA, ponto de vista este que fui construindo com o passar dos anos e minhas vivencias no underground. Vamos lá! 

**Zine Death Metal – Hoje temos presenciado certa falta de interesse do headbanger para comparecer aos eventos de metal que ocorre na sua região, temos exemplos claro disso acontecendo o tempo todo, podemos citar a apresentação da banda peruana Anal Vomit junto com outras bandas na cidade Passo Fundo/RS, o público pagante foi estimado de 40 pessoas, e além desse eu soube de inúmeros outros que deu até muito menos pagantes. Em sua opinião porque está ocorrendo isso e o que poderia ser feito para mudar esse paradigma? O que é necessário para que um evento atraia a sua presença além, claro das bandas que irão se apresentar? Também me diga qual o valor que você acha justo pagar em um evento com bandas nacionais e um evento misto contendo alguma banda internacional? **

Eden Lozano – Em primeiro lugar agradeço a honra de participar desse estimado zine.

Há um bom tempo venho observando a cena aqui em São Paulo e em outros estados que tive o prazer de visitar e presenciar apresentações dignas, e o principal ponto que notei é que o público não está se renovando, e sim, a cena está envelhecendo.

Não vejo os jovens empolgados e interessados em dar continuidade a tudo que foi construído com muito sangue, suor e dedicação até aqui. Há pouco tempo estive em um show onde só tinham grandes nomes como, Pentacrostic, Genocídio, Havok 666, Chaoslace e Funeratus. Como observador que sou, vi que 90% do pouco público que ali estava a faixa etária era dos 30 anos para cima. Jovens? Quase não tinham.

E atribuo isso a vários fatores que realmente afastam e que tiram todo interesse das pessoas, um deles é o radicalismo exagerado, pois todos se esquecem que ninguém iniciou suas trajetórias no underground ouvindo Morbid Angel, Napalm Death, Benediction e etc., nem eu e nenhum dos meus amigos começaram assim. E isso o público atual se esquece, daí não entendem que o jovem que hoje está iniciando a sua história dentro underground precisa conhecer, ouvir, ter acesso aos materiais e o principal, ser respeitado nos eventos, esteja ele usando a camiseta que for. Pois tenha certeza que hora ou outra ele vai se encontrar e ter certeza de qual vertente ele vai seguir.

O que vejo é infelizmente são os mais velhos querendo ser fodões por terem 15, 20, 25 anos de vivência na cena e para saciar seu ego usam de seus vastos conhecimentos e experiências adquiridas ao longo do tempo para ridicularizar, agredir física e verbalmente os jovens. Como se fossem os donos da verdade, os detentores das leis metálicas… Presenciei várias situações como essa na minha terra, Salvador, e aqui em São Paulo também. Infelizmente algumas vezes essa atitude vergonhosa veio de pessoas que eu admirava, decepcionante.

Então um dos fatores é o que proferi acima.

Os produtores de eventos têm que se profissionalizarem, infelizmente as produções são mambembes e que não oferece nenhum tipo de estrutura adequada tanto para as bandas como também para o público.

Tenho presenciado ultimamente alguns shows que me senti desrespeitado como público, casas com infraestrutura de dar dó, equipamentos de som deploráveis e nenhum suporte financeiro para as bandas. Como sei disso? Tenho muitos amigos pertencentes de inúmeras bandas deste país e alguns deles conversam abertamente comigo e relatam coisas absurdas.

Não citarei nomes… Um amigo meu foi convidado para tocar em um desses Rock Bares da vida e que era muito longe de sua residência, quando ele simplesmente falou que seria necessário uma ajuda para o custeio do transporte (Gasolina) o dono do bar o chamou de mercenário e disse que tem outras bandas loucas para tocar no referido bar. Porra! Esses produtores têm que parar de achar que está fazendo um grande favor para bandas os deixando tocar em sua estrutura podre.

Temos que ter em mente que as bandas têm custos, sim, custos altos. Manter uma banda no Brasil na atual situação econômica requer muita determinação e dinheiro. E o que acho incrível no underground é que dinheiro é um assunto delicado de se falar, como se ninguém precisasse comer, se vestir e adquirir seus CDs, LPs, K7s e Zines.

Bom voltando, as bandas têm ensaios (hora estúdio que custa uma fortuna), manutenção de seus instrumentos, transporte e alimentação.

Já os produtores, deixo aqui bem claro que não são todos, que não dispensam o dinheirinho do ingresso, as vezes tem participação no lucro das cervejas e outras bebidas e não querem contribuir nem com 100,00 para que as bandas pelo menos não tenho que custear seu transporte.

Aí eles falam, mas tem o som e iluminação pra pagar…. que som? Que iluminação?

O que vejo nos palcos são cubos de guitarra que muitos nem usam pra estudar em casa, vejo bandas tomarem prejuízos de seus pedais, pedaleiras e outros equipamentos danificados por má estrutura elétrica. Aquela velha extensão com 10 ou mais aparelhos ligados…

O público vê isso tudo, os que realmente se importam vê e acaba não indo aos eventos, pois já sabem o que vão encontrar.

É muito decepcionante você sair do conforto do seu lar, no meu caso, deixar a companhia agradabilíssima de meus três filhos para ir a um evento e não escutar um som decente…

E isso é muito ruim para as bandas, afinal boas bandas se tornam bandas ruins por tocar em um equipamento ruim, sim, isso mesmo! pois para um público que nunca ouviu a sua banda a primeira impressão que eles terão será ruim.

Eu já passei por essa experiencia, já fui para alguns shows que logo de primeira achei algumas bandas horríveis, mas depois quando comprei os seus CDs fiquei bestificado com as suas qualidades técnicas e musicais.

Esse é outro fator que causa o afastamento do público, um fato lamentável e que é a mais pura verdade.

Para atrair o público é necessário que os produtores se profissionalizem, que não apenas achem que fazendo um evento sem estrutura está apoiando a cena. Não está apoiando e nem fortalecendo. É necessário a locação de um bom lugar, não precisa ser uma casa de shows top, mas que seja um lugar decente. Que escolham bem qual som vai contratar para sonorização do evento, pois assim, banda e público estarão satisfeitos mesmo que o valor do ingresso custe um pouco mais.

Não concordo quando leio reclamações nas redes sociais quando escrevem coisas do tipo: “O público brasileiro não dá valor para a cena nacional, não pagam 10 reais para ver um evento com bandas nacionais e pagam 100 reais para ver um show gringo”.

Em primeiro lugar devem se perguntar… “qual a estrutura oferecida nos eventos de bandas gringas?” “quais os equipamentos oferecidos para essas bandas tocarem?” “O acesso ao local desse evento é facilitado?”…tudo isso são fatores determinantes para que publico esteja lá e apoie o seu evento.

E também as bandas tem que se respeitar mais, pois quando receberem um convite para tocar, questionem… “Qual backline será oferecido?” “vai rolar pelo menos uma ajuda de custos para que possamos ir?”

Depois de todos esses anos presenciando shows em lugares terríveis, hoje me atenho em me informar mais sobre esses eventos, sim, pergunto para os amigos que já estiveram nestes lugares uma série de coisas.

Pois para eu sair de minha residência e ir a um evento esdrúxulo, prefiro ficar em casa e continuar ouvindo confortavelmente meus materiais.

Eu como publico pagante, exijo que pelo menos minha presença seja respeitada como um seguidor e apoiador que está lá para prestigiar o evento.

No tocante aos valores que acho justo ou não, depende muito do evento. Pois se for em uma estrutura deplorável, mesmo pagando 10 reais eu me sinto roubado. Um palhaço!

Eu pagaria satisfeitíssimo 50, 60 ou 70 reais para ver um bom show de bandas nacionais, as nossas bandas são de altíssimo nível e imagina eles tocando em um bom local, com ótima sonorização e com uma ótima produção.

Então sendo mais direto, o preço justo depende da produção do evento. Uma boa produção tem mais custos e repassar parte desse custo no ingresso é o justo.

Já os shows internacionais, falo pelo que vejo aqui em São Paulo, alguns deles os preços são exorbitantes. E outros que acho justo, por exemplo, pagar 150,00 para ver o Unleashed… Não é caro… temos que nos levar em conta que os custos são elevados para uma produção desse nível.

E também temos que estar cientes que além dos custos com ótimo som, o aluguel da casa de shows… tem passagens aéreas, alimentação dos músicos e hospedagem…

Quanto ao que aconteceu no show do Anal Vomit não posso me estender, pois seria muita presunção minha falar à respeito, eu não estava lá. Mas posso sim, me basear em alguns shows de bandas internacionais que não estão no gosto do grande público e realmente a estrutura oferecida não é adequada, quase que a mesma estrutura oferecida para as bandas locais. Um Exemplo… há uns anos atrás o Master fez um show aqui em São Paulo em um bar que não estava adequado para um show desse porte… não tinha nem palco… preciso falar mais?

A falta de publico nos eventos é um triste reflexo das produções precárias que vem acontecendo. Querem nos enfiar goela a baixo essa falta de respeito e como o público pagante não é idiota, esses acabam não indo e esperam um evento melhor acontecer.

Nós temos muito público e esse público ao qual também me encaixo está cada vez mais exigente. E em quanto não houver essa conscientização de melhoria e profissionalismo, tudo isso tende a piorar até chegar ao ponto de ter público zero nos eventos.

Estamos ficando velhos e cansados do mais do mesmo.

**Zine Death Metal – Irmão… sobre sua resposta eu achei muito interessante a parte que você aborda sobre a maneira de tratar os mais novos, eu achei muito válido e concordo com você sim.
Mas veja bem, eu quando comecei a ouvir som não fui aceito pela galera mais velha da época, eu era tachado de poser e tudo mais… portanto isso não me abalou e cada vez mais eu busquei conhecer novas bandas e entender do que se tratava pra chegar ao ponto de realmente me intitular um headbanger…. então será mesmo que aquele radicalismo que você cita afasta esses novatos de forma que eles não vão se tornar reais guerreiros do metal quando estiverem mais velhos???**

Eden Lozano – Afasta até porque estamos falando de uma outra geração. E é provado que a cada geração as reações comportamentais também mudam. Observe os mais jovens de hoje com um olhar mais crítico e detalhado.

Essa geração é a geração das múltiplas escolhas e de tudo ao mesmo tempo agora… sendo assim ao contrário de nossa época, eles tem acesso ao que querem, podem conhecer muito mais coisas em dias do que levamos anos pra conhecer… estudei psicologia por 3 anos… infelizmente não conclui esta graduação e durante estes estudos abri mais a minha mente quando me aprofundei nos estudos comportamentais das diferentes gerações… Quando puder leia alguns artigos acadêmicos sobre este assunto… geração baby bummers… geração Z…

No tocante a ter uma prova de fogo para se tornar guerreiros e talz… Não concordo… acredito que se não tivéssemos esse radicalismo infundado no passado hoje poderíamos nos comparar com cenas realmente fortes como a cena europeia.

E também já vi muitos “guerreiros” das antigas, aqueles que eram mais preconceituosos com tudo e todos, não resistirem à pressão impostas por eles mesmos.

E ao mesmo tempo é uma filosofia contraditória já que o tempo inteiro ostentamos e proferimos frases de união na cena para que assim possamos estar mais fortes.

Então toda essa união cai por terra quando há comportamentos como esses com bases filosóficas e ideológicas furadas.

Eu mesmo estou na cena desde o início dos anos 90 e desde então sempre fui um apaixonado pela música underground… sofri no passado? Sim… concordo? Não…

E também não vou submeter aos jovens o mesmo tratamento a que fui submetido no passado, não concordo que todos para serem “reais guerreiros” tem que sofrer o que eu sofri, tem que falar do jeito que acho certo, se vestir da maneira mais “True”. Eu seria mais um contraditório e idiota.

Hoje eu quando percebo que o cara quer ser o brutal, o mais subterrâneo, o detentor das verdades que ele mesmo construiu… eu me afasto, não quero discutir o que uma pessoa veste, quais bandas ele apoia…

Eu apoio à cena sem distinção.

Ninguém está cena e mantém uma banda se não for por amor ao que faz… um amor sádico na maioria das vezes.

Com base nesses fundamentos eu acredito que todos estão na luta e cada um contribui de sua forma, sem leis impostas do que é certo e errado. Somos livres e o maior dos maiores o Mega Therion Aleister Crowley foi muito claro em uma única frase que se seguirmos toda essa confusão mental entre os headbangers acaba.

Faça tudo que tu queres, pois é tudo da lei.

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Luis Lozano

Programador e designer gráfico para a web, com diversos trabalhos realizados com foco na informação e fortalecimento do underground.

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