Dark Reflections

BURZUM – “Hoje eu estou de volta ao começo, esperando este mundo ser destruído”.

Uma breve análise do niilismo e desconstrução de imaginários

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Muito além de tudo que se escreve, lê, imagina e se sabe do Burzum e de seu criador Varg Vikernes se esconde um princípio caótico visionário que mudou para sempre o metal extremo. Há uma chama primordial que incendeia tudo que toca.

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O filósofo alemão Friedrich Nietzsche

Hoje vamos além dos eventos que mudaram para sempre o destino de Varg Vikernes e Euronymous.  Varg Vikernes traçou conscientemente seu caminho ao longo dos anos de Burzum. Tudo que fora produzido, idealizado e ilustrado refletem um conjunto de significados que prioriza minar a cultura dominante que se apossara da Noruega, que tremeluzia as luzes do Norte, que tornava criaturas de almas livres, prisioneiros da sua existência.

Em seus textos, Varg deixou claro o quanto o Black Metal mudou e vem mudando, e ele pressentia essa mudança em meados de 1992, tanto que em 1993 ele já vinha preparando o álbum ‘Filosofem’, o qual se propõe trilhar um caminho distinto, segundo Varg: “Eu gravei ‘Filosofem’ no início de 1993 e fiz o que deveria ser um álbum “anti-Black Metal“. Eu quis mostrar a quem me copiava que não precisávamos todos soar igual. Você pode fazer as coisas do seu jeito. E, claro, eu falhei miseravelmente, e de repente, todas as bandas começaram a soar como ‘Filosofem’ e eu desisti…Minha mente estava fechada, meu coração estava fechado”.

O sentimento que nutre Varg, ainda é o mesmo sentimento de desconstrução. Vikernes carrega o peso da mudança, de que o Black Metal estaria corrompido, destruindo-se pelo toque incauto de muitos, e como um pai que protege sua cria, ele lamenta e traça para o Burzum uma perspectiva pautada da negação niilista de tudo que está estruturado em torno do de sua música. A mudança de sonoridade do Burzum ao longo dos anos foi uma aura protetiva ao que Varg imaginava para o Black Metal. Ao limitar o Black Metal, ao sufocar sua criação, estrangulando seus alicerces, ele guarda para si, em seu âmago, o que havia idealizado primordialmente e nos fornece em seu últimos álbuns a anti-matéria do Burzum, mas cuja chama… ainda é a original.

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Álbum “Filosofem” (1996)

Então se você “não ouve Burzum após ‘Filosofem‘ ou se parou de ouvir a banda em “Belus“, Varg Vikernes alcançou seu objetivo. O Burzum é escuridão. Pouco se distingue na escuridão, poucos a adentram, poucos a compreendem ou sabem sua dimensão. Sondá-la? Dificilmente. Quando a escuridão chega, nós procuramos abrigo, ou qualquer conforto aparente distante dela. Seja uma fogueira em uma clareira gelada, seja uma lâmpada que nos traz luz diante do que não compreendemos. Todos encaramos nosso inconsciente de forma extremamente particular, ela é indomável e nunca é a mesma.

O filósofo italiano niilista Gianni Vattimo caracteriza o niilismo como algo positivo quando pela crítica e pelo desmascaramento nos revela a abissal ausência de cada fundamento, verdade, critério absoluto e universal e, portanto, convoca-nos diante da nossa própria liberdade e responsabilidade – imperativa -, agora não mais garantidas, nem sufocadas ou controladas por coisa alguma.

Varg Vikernes hoje vive a aurora da desconstrução. O Burzum acabou? Jamais. Ele é indomável, intangível. E esta é uma das características do niilismo, um ciclo de autoconfiguração, transmutação, destruição que se redefine em si mesmo, pois não há moldes e nada estabelece suas fronteiras. Hoje é um precatório existencial que paira suspenso no limiar de sua existência material e atmosférica. A sonoridade do Burzum não mudou, ela se refez, a cada álbum, a cada ciclo infindável ele se refez.

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Quadro A Niilista, de Paul Merwart (1882)

Após negar a existência da divindade cristã como centro do mundo –  e retornar ao crepúsculo dos deuses –  e de se negar a seguir a moralidade estabelecida em padrões claustrofóbicos, de acordo com Friedrich Nietzsche, o homem toma em suas mãos aceitar a morte ou provocá-la e deve aprender a ver-se como criador de valores e no momento em que entende que não há nada de eterno após a vida ele depara-se com a vida como sendo um eterno retorno e foi nesta fase que o Burzum, chegou ao seu fim.

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The Ways Of Yore (2014)

O álbum “The Ways Of The Yore” (2014) e a faixa que nomeia o álbum trazem tal evocação Nietzschiana quando Varg clama “Retorno….Retorno”, e ao referir-se ao “maravilhoso mundo branco”, o que nos remete ao “nada”, o princípio de um novo ciclo.

O “nada” é a destruição significativa da nossa cosmovisão,  e ao colocarmos a discografia do Burzum em uma linha reta, desde o debut álbum até o último lançamento “The Ways Of Yore”, temos a materialização de uma alma indomável. Varg Vikernes assumiu desde o princípio as rédeas de sua existência e nos proporciona em cada álbum uma forma de vermos nossa desconstrução como caminho. “Como um lobo na sociedade, eu sou indomável.”

“Hoje eu estou de volta ao ponto que estava no começo, esperando este mundo ser destruído”. A frase salta de um texto publicado por Varg Vikernes em seu site oficial. Ao assumir para si o ideário pagão, portanto anticristão, Varg dissemina sua subjetividade humana que o permite e permitiu no limiar do nascimento do Black Metal, levar sua vida adiante e redefinir um espaço diante de um mundo que ele julgava em declínio.

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Varg Vikernes (1999)

Em seu relato Varg ainda fala que não criou o Burzum para ser músico ou para ser famoso, o Burzum é um lobo Alfa de uma grande matilha que agrega almas inquietas, atemporais que preferem redesenhar suas significações a viver em um mundo encerrado em padrões estabelecidos.

O Burzum é escuridão em sua etimologia. É oposição a tudo que circunda sua existência. Há uma chama inerente a ele. Isso já foi dito, mas o que nos toca é o quão caleidoscópica é o seu reluzir. Como o Burzum ainda consegue libertar, antagonizar uma sociedade na qual ele não se sente inserido. O quanto ele agride, faz definhar, ideais e ideias, como se tudo que fosse sólido se desmanchasse no ar diante de sua sonoridade, algo que se priva, mas se faz presente, está ausente, mas suas teias nos prende e sentimos o quão árida é a nossa existência.

Que o retorno chegue. Que o porvir seja esmagado pela recriação de si e que o Burzum possa descansar na ausência de sua material existência, mas que sua chama seja eterna e primordial.

Vídeo “The Returning” do canal The Thulean Perspective

História do Burzum (Parte XIV) do site oficial

*Referências:

BELIOTTI, Raymond A., Jesus Or Nietzsche: How Should We Live Our Lives? (Rodopi, 2013), 195-201

NIETZSCHE, F. Beyond Good and Evil. Nova Iorque: Dover Publications Inc., 1997

NIETZSCHE, F. «Friedrich Nietzsche: encruzilhadas de um espírito livre». Colunas Tortas. Consultado em 16 de agosto de 2015

PECORARO, Rossano, Niilismo e Póis-modernidade. Introdução ao pensamento fraco de Gianni Vattimo. São Paulo: Loyola, 2005.

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Ricky Lunardello

Historiador e Sociólogo, Pagão de alma Viking, apaixonado pelo Metal Extremo e pela cultura underground.

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