Entrevistas

CALIGO – Mais denso, mais soturno e alguns temas do Augusto dos Anjos

"Isso é um pesadelo real e brutal! Nunca na minha vida imaginei que o mundo atravessaria algo de tamanha gravidade."

Saudações, meu grande amigo Fellipe. Em nome da Lúcifer Rising e da Pagan Tales Records é uma honra fazer essa pequena entrevista com você para falarmos sobre a Caligo e a participação da banda na coletânea Brazilian Doom Metal e sobre a cena do doom metal no Brasil e no mundo como um todo…

Fellipe CDC, Foto por: Joelma Antunes

Fellipe CDC – Acredite: a honra é toda minha. Acompanho o trabalho da Lúcifer Rising há um bom tempo e um prazer enorme poder fazer parte dessas páginas, mesmo que sejam as virtuais. E já agradeço, em nome da Caligo, o espaço cedido dentro da Lúcifer e, claro, na coletânea Brazilian Doom Metal.

Para começar, como a banda tem levado esse período tão difícil de pandemia, que tem nos afastado dos shows e do convívio social? E como estão as atividades da Caligo durante esse tempo?

Fellipe CDC – Isso é um pesadelo real e brutal! Nunca na minha vida imaginei que o mundo atravessaria algo de tamanha gravidade. A última vez que a Caligo se reuniu foi em março do ano passado para gravarmos a música da coletânea, ou seja, há mais de um ano. O Sandro Santos está fazendo uns sons na casa dele e mandando para o restante da banda, enquanto eu escrevo uma letra ou outra ou pesquiso sobre poemas que possam se encaixar na sonoridade da Caligo. Confesso que está sendo um período complexo e doloroso. Ficar sem ensaiar, sem tocar, sem produzir, sem poder ver e abraçar os amigos, etc. Tudo isso foi uma mudança muito drástica e conturbada para todos, eu acredito. Temos que ter cuidado para não enlouquecer!

Caligo, Foto por: Joelma Antunes

Fellipe, a Caligo surgiu em 2012 com a proposta de fazer um doom / stoner cantado em português e você também é vocalista das bandas Terror Revolucionário e Death Slam, na qual já tive a honra e o prazer de participar. Nos diga como você consegue levar 3 bandas e ainda ser tão ativo na cena underground de Brasília, sendo organizando e divulgando shows ou atuando como radialista no programa ZINE-SE. Qual o segredo para tanta disposição? Seriam as longas madeixas? Você é uma espécie de Sansão do underground? Hehehe..

Fellipe CDC – Daí você tira o tanto que essa pandemia me tirou coisas! Não estou fazendo nada com nenhuma das bandas, nem produzindo shows (tive que inclusive cancelar 2 edições do Headbangers Attack Festival, em 2020 e agora em 2021). O que está me salvando mentalmente é o programa ZINE-SE, o qual estou roteirizando e o meu amigo Fábio Frajola fazendo todas as locuções desde que a pandemia começou a varrer e devastar famílias no Brasil e no mundo. E o Brasil ainda tem o agravante de ter um ser inumano sentado no trono presidencial! Gosto muito desse nosso universo underground, essa cena metal punk me ensinou muitas coisas positivas e produtivas e, por essas razões, procuro retribuir e somar o máximo que eu posso.
Fizemos boas músicas, bons shows e nos divertimos no pouco tempo que você esteve na Death Slam. Obrigado!

Templo da Descrença (EP 2015)

No EP Templo da descrença, de 2015, você usou poemas do poeta Augusto dos Anjos em algumas músicas. Me fale mais essa influência, sobre a parte lírica da Caligo e sobre a formação da banda…

Fellipe CDC – Sempre gostei de escrever e sempre gostei de poemas. Dentre as músicas da Death Slam, usei algumas poesias lá, como a do meu amigo escritor Nelson Bacco (R.I.P.). A sonoridade da Caligo clamava por algo mais denso, mais soturno, e alguns temas do Augusto dos Anjos se encaixam perfeitamente às melodias. Tem alguns sons novos sendo paridos nos quais utilizarei outros poetas como Glória de Sant’Anna, Drummond e, lógico, mais temas Augustinianos. O baixista Sandro Santos teve a ideia da banda e me convidou para a formação no final de 2011. No princípio, pensei que ele estive zombando com a minha cara, pois eu não sei cantar e nem sei tocar nada. Ele insistiu e eu resolvi ver o que ia dar. O primeiro ensaio foi em fevereiro de 2012 sob uma noite de céu negro com muita chuva e trovões. Clima mais apropriado para uma banda de doom era impossível! Santos já chegou com o baterista e com uns riffs para uns 3 sons. O guitarrista que foi ao primeiro ensaio ficou com medo do som ou viu que seria uma grande furada e nunca voltou e nem deu satisfação. Fizemos alguns ensaios somente voz, baixo e batera, até eu cogitar e convidar o guitarrista Walisson, que, felizmente, está conosco até os dias atuais e espero que por toda a existência da Caligo. Essa formação gravou o EP Templo da descrença, fez alguns shows e participou do projeto Valendo no Orbis (disponível no youtube). O baterista Sandro resolveu sair para se dedicar a suas outras bandas e no seu lugar entrou o Júlio, parceiro de longa data do Walisson. Nesse meio tempo tivemos o amigo Rodrigo como segundo guitarrista, que teve que sair por conta do seu trabalho como “caixeiro viajante”. Resumindo, a formação atual e que teve o privilégio de participar da coletânea Brazilian Doom Metal é: Sandro Santos (baixo), Fellipe CDC (vocal), Walisson (guitarra) e Júlio (bateria).

Coletânea Brazilian Doom Metal “Pagan Tales Records 2021”

Sobre a coletânea Brazilian Doom Metal, que também tem uma revista falando sobre as 11 bandas participantes e foi lançada recentemente pelo selo Pagan Tales Records, nos fale o que vocês acharam dessa participação e sobre a música escolhida para essa compilação…

Fellipe CDC – O convite veio em boa hora e fortaleceu a existência da Caligo. E dividir um trabalho desse porte e dessa importância com grandes bandas do doom brasileiro, como Helllight, The Cross e Serpent Rise, só nos enche de orgulho e satisfação. Gravamos a música no Texas Estúdio, cujo um dos sócios é o Rafael, baixista da Beholder’s Cult, outra banda candanga dentro da coletânea, sob a preciosa produção do músico Zezon (Vela Negra e outras milhões de bandas). Escolhemos “Monstro Manto” porque era um som que gostamos muito de tocar, seja nos ensaios ou nos shows.

O doom metal nunca foi um gênero mainstream dentro do metal, mas teve o seu auge nos anos 90 e atualmente parece vê crescendo e ganhando espaço novamente. Me fale o que você está achando da cena atual do doom metal no Brasil e no mundo, quais são as influências da Caligo e nos indique 3 bandas gringas e 3 bandas nacionais que você curte dentro do doom metal..

Fellipe CDC – Um auge que durou poucos anos, é bom ressaltar. Mesmo que de modo muito subterrâneo, o doom metal nunca deixou de existir e isso é bom que fique registrado. O retorno do estilo aos holofotes é natural, algo que aconteceu com o thrash, com o heavy e com o death-metal. Daqui uns anos outro estilo underground pode vir à tona novamente, sair da sua toca sagrada e ganhar alguns minutos de oxigênio sob a superfície. Talvez seja o grind, talvez o splatter, quem sabe. Esse novo boom do doom trouxe uma nova safra muito boa de bandas, mas eu vou acabar citando bandas antigas e que de certo modo servem como referência sonora para a Caligo também: Black Sabbath, Cathedral e Paradise Lost (a sagrada tríade britânica!) e Mythological Cold Towers, HellLight e The Cross.

Monstro Manto (Single 2020)

Fellipe, para finalizarmos, agradeço a boa vontade e o tempo cedido a essa entrevista. Agora deixo para você as considerações finais. Um grande abraço e..Stay Doom!

Fellipe CDC – Eu quem agradeço novamente em nome de todos da Caligo. Honra enorme estar aqui na Lucifer Rising e um privilégio estar na Brazilian Doom Metal ao lado de tantas bandas fodas. Obrigado! Louco para acabar logo essa pandemia para poder ensaiar e tocar novamente. Desesperado para subir em um palco e encontrar com todas pessoas amantes do velho som underground! Espero vê-los todos em breve e, quem sabe, no show de lançamento da coletânea Brazilian Doom Metal! Cuidem-se! Use máscaras, higienize sempre as mãos, mantenha o distanciamento social sempre que possível e, quando chegar a sua vez, vá correndo tomar a vacina!

ENTREVISTA POR: ROGÉRIO MARQUES

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Luis Lozano

Programador e designer gráfico para a web, com diversos trabalhos realizados com foco na informação e fortalecimento do underground.

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