Entrevistas

CLÁUDIO HIGA – O olhar por trás das lentes de um fotógrafo do underground

Do outro lado das luzes do palco, existem alguns profissionais que documentam e perpetuam momentos e ajudam a ilustrar a história do underground. Um desses profissionais são os fotógrafos. Atrás das câmeras, tentando abrir caminho nas multidões enfurecidas e buscando aquele “click” que perpetuará a energia que está sendo emitida naquele momento. Artistas atrás de máquinas, que nem sempre tem o devido conhecimento.
Hoje falaremos um pouco sobre as percepções de um dos melhores olhares que temos no underground nacional: o fotógrafo de São Paulo Cláudio Higa.

Cláudio Higa, Foto por: Acervo Pessoal

Hail! Você é um fotógrafo profissional, que tem um olhar muito atento para significar imagens. Como começou a fotografar eventos undergrounds?

Cláudio Higa – Hail, Sophia! Primeiramente obrigado pelo convite, eu me senti muito honrado e surpreso por isso! O começo com fotografia de shows foi em 1997 e, se não me engano, o primeiro evento do underground foi a cobertura da apresentação do Obscure Mind, a pedido do Willian Munrefni, na Fofinho em 2001 ou 2002.
Mas eu tenho uma trajetória errática na fotografia; fiquei bastante tempo fora do país, trabalhando em fábrica e longe deste gênero. Então eu tenho como marco o ano de 2012, que foi meu retorno de fato; em outubro do referido ano fui convidado para fotografar o Atomicide War Now Fest em Francisco Morato. A partir daí os convites aumentaram muito e não parei mais.

Herege, Foto por: Cláudio Higa

Você é um ótimo profissional. Todo trabalho tem suas dificuldades e o artista tem que dar seus saltos para conseguir driblar imprevistos. O que mais dificulta uma boa foto em eventos undergrounds?

Cláudio Higa – Sem dúvida, é quanto a iluminação e a mobilidade dentro dos lugares onde ocorrem os eventos. Normalmente são lugares muito mais escuros e apertados, então é sempre uma briga grande pra conseguir fazer o registro.
Mas quer saber? Não existe escola melhor para um fotógrafo de show do que o underground. Você aprende a se virar, fica casca grossa; sai do evento suado, cansado, molhado de cerveja e cheirando a cigarro de cem pessoas e ciente de que vai precisar dar uma geral na câmera no dia seguinte. Eu acho que isso tudo até faz a coisa ser mais especial!

As bandas em geral gostam de ter registros de seus momentos de fúria no palco. Como é para você poder contribuir com algo que vai pertencer a história de um músico?

Cláudio Higa – Isso é o que mais me motiva! Há um mês atrás, um cara da Grécia que está escrevendo um livro sobre as bandas do underground helênico me consultou sobre a possibilidade de lhe ceder as fotos da apresentação do Kawir, que a Storm Productions trouxe em 2016. E ele comentou que o maior problema que está encontrando é justamente na parte de registro visual das bandas; a maioria tem poucas imagens dos eventos que tocaram no fim dos 90’s e começo dos 2000. Entendo que era outra época e que aqui também foi assim; mas desta conversa me veio a reflexão e o pesar sobre as bandas fodas do nosso underground que tiveram pouco ou nada de registro de seu legado. Então, já que agora a tecnologia facilitou isso e já que temos muito mais bons fotógrafos na cena, a gente precisa contribuir para que a memória destes tempos sejam registrados para a posteridade.

Inquisition, Foto por: Cláudio Higa

A tecnologia é veloz e os celulares estão cada vez mais potentes, mas nem só de definição de imagem é feito um fotógrafo. Esse avanço tecnológico em equipamentos pessoais ameaça a sua profissão?

Cláudio Higa – Essa é uma discussão interessante e que é muito comum na nossa área. Mas eu penso que, se pra uma pessoa um registro de celular é o suficiente, então tudo bem. Se o pensamento da pessoa é esse, fica claro que não é meu público alvo e a vida segue.
Por outro lado, vão sempre ter pessoas que vão querer algo um pouco mais trabalhado, com uma estética e linguagem que possam ressignificar e perpetuar aquele momento; é aí que entra o trabalho do fotógrafo.

Qual foto você acha que foi a melhor que você registrou no metal extremo?

Cláudio Higa – Não saberia te dizer qual foi a melhor, se vc levar em conta critérios técnicos… porém, posso te citar uma foto que está longe de ser boa tecnicamente, mas que foi complicada e prazerosa de se fazer.
Foi no show do Inquisition na Vic Club; eu estava frustrado de não achar um bom ângulo pra fotografar o batera. Daí tive a ideia de subir até o camarote/mezanino. Chegando lá subi numa mesa e alcancei a estrutura de palco acima e atrás do batera, uns oito ou dez metros do chão, talvez. Fiquei pendurado bem em cima dele e disparei a foto no exato momento em que ele levantou o rosto pra cima, com os olhos fechados e os braços pousados nos pratos, numa expressão intensa. Fotógrafos precisam ter sorte também.

Torqverem, Foto por: Cláudio Higa

Imagino que, em contextos diferentes, além da luz adequada, enquadramento etc, você busca também a mensagem da foto. Para fotos de casamento uma, moças sensuais na praia outra, em um show outra. O que busca captar dos músicos em um registro?

Cláudio Higa – Você precisa captar a essência do que é a banda e o som dela. Você precisa fotografar com os olhos e com os ouvidos, significando dizer que vc precisa prestar atenção no andamento da música, porque geralmente uma parte alta da música coincide com o ápice da performance do músico visualmente falando.. Não adianta vc ter uma foto tecnicamente perfeita do guitarrista se ajeitando enquanto espera o vocal anunciar o próximo som por exemplo ; vc precisa estar pronto pra hora que ele vai solar com sangue nos olhos, gritando e encarando o público. Ou quando é a abertura do show e a banda vem quebrando tudo; é aí que vc vai conseguir as fotos mais significativas.
Eu meio que sigo o que o (fotógrafo de guerra) Robert Capa dizia: ” se suas fotos não estão boas, é porque você não chegou perto o suficiente da ação”. Então é por isso que preciso ficar sempre grudado ao palco, levando cotovelada, empurrão, no aperto com o público; e sendo baixinho multiplique por 3 a dificuldade! Só ali grudado vc vai sentir aquela massa sonora saindo dos PA’s e a sinergia entre o público e o artista. Daí vc vai junto nesse fluxo. Ali embaixo não vou me preocupar muito se o enquadramento não está certinho: em muitas fotos minhas eu acabo cortando partes das mãos ou dos instrumentos. Por mim tudo bem, sei que seria criticado por outros fotógrafos, e com razão. Mas na real, eu me concentro em pegar a expressão do músico o melhor possível, nem que tenha que deixar a composição em segundo plano. É uma abordagem mais orgânica, eu acho.

Blazing Corpse, Foto por: Claudio Higa

A parte dos registros dos palcos, você fotografa bastante mulheres. Olhares, expressões e corpos femininos tem a atenção das suas lentes. Você já se deparou com moralismos por ser um homem que fotografa mulheres, muitas vezes sensuais?

Cláudio Higa – Sim, o tempo todo ahahaha! Acho isso previsível porque, afinal, vivemos numa sociedade moralista e extremamente conservadora que adora julgar os outros, né? Não só o fotógrafo mas principalmente a pessoa fotografada é muito julgada; as pessoas acham que é tudo exibicionismo, ego. Ou “falta de vergonha”, para estes moralistas. Mas posso te dizer que 90% das mulheres não estão fazendo ensaios sensuais para se exibirem, a maioria nem posta estas fotos em redes sociais. Tampouco fazem pra presentear marido ou namorado. Elas fazem como auto-afirmação, para celebrar uma nova fase, para sair de uma depressão, para aceitarem seus corpos, para abraçar sua sexualidade. Tem implicações muito mais profundas do que simplesmente querer provocar e ser admirada; e mesmo se for esse último caso o motivo, por que não né? As pessoas são ou deveriam ser livres.
Quanto ao fotógrafo homem que faz fotografia sensual, muito da má fama também se deve a casos de assédio cometidos por gente não profissional. Então, se vc não vê a fotografia sensual como uma arte e uma coisa natural, que deve ser feita da forma mais respeitosa possível, melhor nem fazer. Você vai ser aquele que vai fazer besteira.

É possível aproveitar um evento enquanto fotografa em que medida?

Cláudio Higa – Quando estou fotografando não consigo, rs. Se são bandas que curto muito e começarem a tocar aquele som pelo qual sou doente, vou parar de clicar e curtir o momento. E depois, se não tiver material suficiente ainda, retomo o trabalho.
Há também o problema de estar tão concentrado no trabalho que pode acontecer de um camarada passar por mim e eu acabar não o cumprimentando! Quero aproveitar esse espaço pra me desculpar a cada um que não cumprimentei, juro que não foi proposital ahahaha!

Primordial Idol, Foto por: Cláudio Higa

Qual foi o momento em que mais sentiu que sua arte foi reconhecida?

Cláudio Higa – Cara, não sei ao certo… nunca desejei muito ser reconhecido ou ganhar notoriedade. O que mais gosto mesmo é a sensação de felicidade ao tirar uma boa foto, pra mim ou pra outra pessoa.

Dentre as fotos mais emblemáticas do metal (como por exemplo Quorthon cuspindo fogo com um colar de ossos) qual é sua favorita e porque? Quais fotógrafos você tem como inspiração para sua arte?

Cláudio Higa – Acho que nada se compara a foto da capa do primeiro álbum do Black Sabbath! Porque se hoje em dia eu fizer uma foto de divulgação de banda, vou ter mais de 40 anos de referências visuais de foto de metal pra ter uma ideia e uma direção a seguir. Já o Marcus Keef não, porque afinal não existia metal, foi o Sabbath que criou. Ele se baseou no som da banda e em referências de histórias de horror pra fazer a capa de disco mais perfeita e intrigante da história. Uma locação incrível, uma composição simples mas eficiente, uma modelo misteriosa e um tratamento químico específico na hora da revelação do filme pra dar aquelas cores e textura. Absolutamente brilhante!
Artistas que gosto muito e que tem uma influência muito grande em como vejo a fotografia: Brassai, Man Ray, Sebastião Salgado, Eikoh Hosoe, MacCurry e Francesca Woodman. Gosto muito de pintores também, em especial do Caravaggio, do qual chupinhei tudo em relação a luz e sombras, ou pelo menos tentei.
Dentre os que trabalham com música, o Marcus Keef com certeza, só por esta capa do Sabbath; Todd Owyoung pelos ensinamentos.

Promethean Gate, Foto por: Cláudio Higa

Mas deixa prestar meus respeitos a alguns dos caras do nosso underground que arrebentam: Fernando Pires que faz tb um trabalho mágico na Quatro Rodas; Leandro Cherutti, um mestre e verdadeiro guerrilheiro das lentes; Diego Vieira, que tem um estilo de fotografar em planos muito mais abertos, que eu simplesmente não consigo. E dois que tem modos de enquadramentos que gosto muito, até porque faço as mesmas escolhas estéticas: o Gil Oliveira, fora de série para captar o momento decisivo e o Quercia Rogerio Luque, que mesmo sendo muito recente na fotografia de shows, tem um olhar muito bom! Sou fã de todos eles.

 

Frequentemente, vemos reclamações de artistas sobre não terem seu trabalho valorizado referente a pagamento. O que tem a dizer sobre?

Cláudio Higa – Eu sei como eles se sentem, eu ganho muito mal também rs. Na realidade, todos que trabalham com arte sofrem isso e não é exclusivo do underground. Exceto claro, quem está no mainstream, na tv e tal
Trabalho com algumas companhias e produtoras de dança, teatro e música instrumental e observo que a maioria ganha muito pouco. O mesmo acontece com tatuadores, ilustradores, desenhistas. Problema é que no Brasil muitos não valorizam a cultura e o artista; acham que tudo isso não é essencial ou que é só entretenimento.
Daí quando o artista fala o valor justo que deseja receber, a outra parte vira o olho, acha caro, desmerece o trabalho, tenta pechinchar. Ficam querendo determinar preço pro trabalho do artista, sem saber o quanto a pessoa estudou, o quanto demandou do seu tempo e dinheiro pra chegar naquela excelência de ofício

Morcrof, Foto por: Cláudio Higa

Sem as lentes, por sua própria retina: como você enxerga a cena metal nacional?

Cláudio Higa – Eu acho que não deve nada a nenhuma outra cena gringa em termos de qualidade, sem ufanismo ou puxação de saco. A gente tem tantas bandas tão diversas e fodas em todo subgênero, que pra onde vc olhar, vai ver grandes trabalhos. Do metal tradicional ao thrash, do death ao black, passando por todas as variações possíveis.
Também sempre ouço falar que a cena não é unida, que não se apoiam. Que o público não comparece aos eventos ou não compra os materiais das bandas; pode até ser, mas generalizar é perigoso. Às vezes a pessoa só não tem grana pra adquirir todos os materiais ou apoiar todos os eventos mesmo.
Fora isso, tem toda a galera de zines, publicações, webradio, produtores e distribuidores de materiais das bandas. Pode ser uma visão otimista demais da minha parte, mas acho que estamos bem servidos.

Creio que a única coisa que me incomoda mesmo é quando vejo pessoas do metal tendo uma postura conservadora e moralista, tal qual um religioso fanático. Isso acho o fim..

Obrigada pelo seu tempo! Fica esse espaço para você deixar suas considerações finais!

Cláudio Higa – Eu que agradeço imensamente a oportunidade, foi uma honra conversar com você num veículo tão sério e tão comprometido com o underground como é a Lucifer Rising!

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Sophia Losterh

Editora do zine Natimorto e organiza eventos de metal extremo underground em SP. Amante das expressões blasfemas de arte. Hail caos, Hail metal negro!

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