Dark Reflections

Cordeiros fantasiados de lobos

A questão é: estes cordeiros cabem dentro deste covil? Até quando viveremos cercados ou cheios de infiltração?

Faz algum tempo, e não é pouco, que o Metal Extremo vem mostrando uma tendência esquisita de pessoas fantasiadas. Não, não há nenhuma alusão ao Entrudo, é apenas uma reflexão obscura mesmo, sobre os tempos aterradores em que vivemos, com ou sem Pandemia/Pandemônio.

A cultura é algo extremamente móvel, vivo e mutante, carrega consigo o que teorizava o antropólogo Claude Lévi-Strauss não é possível estabelecer uma hierarquização das culturas, ou seja, em termos de cultura, não existe melhor ou pior, mais desenvolvido ou menos desenvolvido, mas sim culturas distintas, que florescem junto a outros elementos das diversas estruturas sociais.” Todavia, no Metal Extremo, há sim uma tendência que coloca a cultura, ou contracultura musical, como os sociólogos percebem a cultura de forma segregada em vários tipos como erudito, popular, material, organizacional, imaterial e o separa de forma elementar.

Houve um aspecto, principalmente há uns trinta anos atrás, em classificar o Metal Extremo, de forma bem pretensiosa, como Elite e que tal elite criava sua Arte para estes e ninguém mais, percebem a semelhança entre as divisões culturais sociológicas de Erudito versos Popular? No Brasil isso permeia uma faixa muito perigosa que se assemelha a faixa do status social, imediatamente conectada com a condição econômica e as possibilidades que os privilegiam. Por outro lado, sou testemunha e atuante neste mesmo quesito, posso autenticar que não, não estava associado ao quesito socioeconômico e sim aos critérios intelectuais e ideológicos, os quais, mais uma vez, no Brasil se encontram em espaços criados por um status, não só no Brasil, porém aqui este acirramento se tornou específico, único.

Esse artigo pretende articular um pensamento sobre a formação do integrante do Metal Extremo de lá, de trinta anos atrás, até aqui e quais foram essas modificações que os tiraram da Elite pretendida e os transformaram em “massa” comum e, pior uma série de cordeiros disfarçados de lobos? Sim, os lobos são vorazes, sanguinários, impiedosos e valentes, por outro lado são estrategistas, farejadores, silenciosos, noturnos muitas vezes e circulam nas sombras na espreita de um bote, já os cordeiros são guiados, admitem serem manipulados para cima e para baixo, sem rebeldia, sem expertise e podem e devem ser abatidos a qualquer momento, pois possuem dentro de si a obediência e a alienação necessária para perdurarem pouco. Ah, sim! Não podemos esquecer do pastor, o principal agente que consegue fazer do cordeiro seu párea.

Muitos de vocês devem estar estranhando o fato do dizer estar invertido, quando em verdade o que se diz é que, na metáfora, o lobo é que se traveste de cordeiro e não o contrário, mas no Metal, o que tenho visto é exatamente os cordeiros arrotando bravura disfarçados de lobos. Sim senhores, o Metal extremo tentou cultivar uma cultura que pudesse corresponder ao termo literalmente, mas há um movimento contrário a tudo isso quando vejo ou escuto ser proclamado que isso ou aquilo não deveria estar onde está. Vou além, desde quando Arte, tem limites? Quem dita os limites da arte? Afinal, a cultura do Metal, em si, se baseia em música, logo: Arte e, como tal, não deve haver limitações.

Sempre verbalizei que a ideia de se fazer arte obscura deveria primeiro dizer verdade a aqueles que a fazem e não aqueles que a consomem, os que consomem podem e devem se identificar com essa arte, mas não interferir nela. Quando o artista passa a fazer o que o seu potencial público lhe pede, este perderá completamente sua identidade, sem identidade quem irá se identificar? Os gostos são diversos e se tem alguém que não gosta de algo é tão mais simples virar as costas, é tão mais honrado deixar de querer apreciar, mas o que vemos são ataques, julgamentos, xingamentos, justificativas para aquele artista corresponder aos desejos individuais seus em frases como: “ah, faltou colocar isso…”; “Se tivesse tal coisa, soaria melhor…” e a resposta? Merece ser dada?

À quem interessa que cada artista do Metal Extremo faça de sua obra um bloco de gesso imutável? Por outro lado, havemos também de respeitar as escolhas e estas não podem estar no crivo de gostos individualizados, do ouvinte, do “consumidor” e sim, única e exclusivamente daquele próprio que a criou, o artista. O princípio de Protágoras de Abdera do Relativismo Cultural é bem mais cabível a esta reflexão, quando se faz acreditar que “entender os valores culturais de uma sociedade a partir dos padrões vigentes neste grupo social”, ou seja, não há como trazer referencias individuais para um grupo que construiu pensamento concreto no decorrer de quatro décadas assim.

O Metal Extremo é a cultura da violência, mesmo que esta não chegue as vias de fato, o que sabemos que no decorrer desse tempo, as vias de fato aconteceram com muita frequência, a arte Extrema que o Metal cercou em estilos como Thrash, Death e Black Metal nunca abriram mão do sangue, das armas e da morte, porém existem aqueles que proclamam compaixão, solidariedade e perdão… logo, os cordeiros estão a nossa volta travestidos de lobos! A questão é: estes cordeiros cabem dentro deste covil? Até quando viveremos cercados ou cheios de infiltração? Até quando os cordeiros irão entender que a pele do lobo não é uma fantasia do Entrudo? Mas o entrudo é um banho de sangue e vinho, de luxúria, de ocultismo e perversão.

Em verdade, o Metal carrega muito mais de Etnocentrismo que de relativismo cultural, já que atua usando atos pessoais como superiores, ladeados de preconceitos e dificultando uma visão imparcial sobre a obra alheia. Aliás, rir daquilo que não faz parte do seu padrão de pensamento, daquilo que está longe de ser o que os hábitos do seu grupo criou como verdade é de extrema ação segregacionista, deveras hipócrita a vista de que quem prolifera esse Etnocentrismo é justamente aquele que prega amor e compaixão numa estrutura que dita justamente o contrário, será que é por isso que é considerada contracultura?

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Anton Naberius

Vocalista da Eternal Sacrifice (Pagan Black Metal) Professor de Arte Visual, Artista Plástico e Especialista em Arte e Patrimônio Cultural.

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