Entrevistas

CULT OF ENTHROPY – Um Culto ao Nada

O Cult of Enthropy transmite negativismo e introspecção por todos os poros de sua composição. Gravado no caótico 2020 em São Paulo, trata-se de um black metal gelado, com linhas de guitarra cuidadosamente compostas em sua sequência de notas melancólicas e belas. Extraídas de algum tormento particular.
Entrevisto o (NADA), criatura que concebeu essa obra.

A primeira conexão que me vem à cabeça ao ouvir essa obra é com uma atmosfera subjetiva, inconsciente. A composição é um buraco negro, que suga a mente do ouvinte para uma realidade reflexiva e paralela. Isso não me parece apenas a vontade de reproduzir uma linha específica de som e sim alguma expressão meticulosa de algum episódio ou uma coletânea de episódios nebulosos acumulados. O título da segunda faixa faz referência a isso, inclusive. Imagino que tenha demorado a compor. O que inspirou essa composição?

Embrace the Void “EP 2020”

Nada – Saudações e obrigado pela oportunidade, uma honra.

Não há nenhuma inspiração em especial, mas várias inspirações de diferentes campos da arte, pensamento, estética e diferentes culturas. O meu cansaço de existir e o acúmulo de dores, angústias e reflexões naturalmente me conduziram a externalizar meu estado de espírito no Black Metal. Acho que acaba sendo uma espécie de sublimação, apaziguo a angústia de existir com as minhas harmonias amargas.
A faixa que você mencionou em específico eu compus alguns temas em 2009, de lá pra cá eu vim compondo diversos temas ao mesmo tempo que me aprofundando nos conhecimentos sobre harmonia e relação entre os intervalos musicais. Em 2016 eu criei novos temas para essa faixa, estruturei e conclui. De fato não há vontade de reproduzir uma linha especifica de som, mas eu sempre me dediquei a trazer sonoridades novas para cada composição, novos caminhos e me afastar da sonoridade de sempre encontrada na maioria das bandas de black metal, aquela clássica sonoridade das bandas dos anos 90. As composições vão evoluindo na proporção que expando meu conhecimento sobre harmonia e aprendo ouvindo música. As influências diretas nas composições num geral não vem do black metal, mas sim de MPB, Bolero, Bossa Nova e canções dos anos 80/90, principalmente do Japão.
E se fosse dizer influências diretas do Black Metal seria Lutomysl, Drudkh, Peste Noire,  Luror, Grand Belial’s Key, algumas bandas com linhas de arranjos que aprecio.

Apesar de o trabalho não possuir vocais, é evidente o interesse na área linguística, já que os títulos são em português, francês, espanhol e japonês. Qual a ideia que quis transmitir usando diferentes idiomas e não incluindo a voz na obra?

Nada – De fato há um interesse na área linguística que é a área do meu trabalho, sou professor de língua japonesa. A princípio nenhuma música tinha título, eram chamadas de parte 1, parte 2, parte 3 etc.
Mas, um dia essa ideia me surgiu na mente e eu resolvi então usar línguas diferentes nos títulos em uma espécie de referência as línguas que aprecio.
Sobre não incluir voz é porque não tenho nada a dizer, nenhuma mensagem a transmitir.

Ainda no nome das faixas, a atmosfera desse álbum também me remete a grandes mestres do pensamento, na literatura e na filosofia. O quanto as criaturas mais negativas das letras te inspiraram nessa criação? Há alguma obra específica que se destaque?

Nada – Não há uma influência significativa dos mestres do pensamento que aprecio na criação da obra em si, mas sem dúvida há no meu viver. Na obra, eu só fiz algumas referências indiretas com os títulos a alguns desses mestres.
Eu não tenho um conhecimento muito vasto em literatura mas de fato cresci lendo muitas obras filosóficas. Sou bastante apreciador do pensamento filosófico do Arthur Schopenhauer e Emil Cioran. Na literatura destacaria Kafka e Yukio Mishima. A intro do álbum é uma referência minha ao Yukio Mishima, que possuia um niilismo forte em relação ao futuro do seu pais após a derrota na segunda guerra mundial. Kyomu no Kaze, o título da intro significa “os ventos do niilismo”, eu quis passar esse ar de não existir esperança em um futuro melhor. A faixa em francês é uma referência ao Arthur Schopenhauer que enxergava essa existência como um erro. O que nos aguarda é o mal definitivo, a nossa desgraça final.

A gravação combinou bem com a sonoridade. Sendo esse seu primeiro lançamento e levando em consideração que uma gravação ruim pode matar um som bom, como foi o processo até chegar no timbre final?

Nada – Todo o processo de timbragem do som ficou a cargo do baixista e baterista que me ajudaram na gravação junto ao profissional de áudio do estúdio que gravamos, aliás excelente profissional. Infelizmente devido ao meu trabalho e horários não pude comparecer no estúdio durante as mixagens, mas não foi algo que me preocupou pois sabia que a tarefa de encontrar um bom timbre estava em ótimas mãos. E diferente do baixista e baterista que possuem experiência com timbragem, gravação, mixagem etc. , eu tenho pouquíssima experiência com gravação e todo esse universo, basicamente só componho. Mas, eu ouvi cada uma das mixagens até a master pra conferir todo o processo de melhoria e ajustes.

Uma das faixas chama “Vícios e Virtudes”. Parece um bom contraponto de ideias. Seriam os vícios sempre maléficos e as virtudes sempre benéficas?

Nada – Interessante questionamento, algo a se refletir. Se há males que vem para bem, deve haver vicíos também. A ideia do título vem da minha observação sobre como alguns indivíduos conseguem transformar suas vidas, abandonar vícios e mal hábitos em prol de um melhor estado do ser. Eu convivo com meus vícios há muito tempo e não sinto vontade sincera de me afastar deles, eles vivem comigo junto com minhas virtudes, sou apenas um pobre diabo intoxicado pela existência. E penso, um individuo que abandona vícios e hábitos não acaba por fim a iniciar novos vícios e hábitos pra substituir os anteriores? Deixar de fazer tudo o que se deseja, quer e pode em prol de saúde mental e corporal é ser melhor? Qualquer vício é negativo? Ou qualquer vício e hábito pode trazer resultados negativos e positivos? Será que meu vício em estudar kanjis é maléfico?
Questões para refletir.

Possuindo o Cult of Enthropy uma atmosfera tão particular, o que imaginou para essa obra ao externa-la e lançar?

Nada – Nada,é só música. Por mais que tenha toda uma atmosfera que naturalmente se faz presente com a junção do todo envolvido na obra, que os títulos e artes contribuam para isso, na verdade eles só existem como adereço estético. Não há temática, não há letras, não há nada a ser dito, não há mensagem, não há mística, não há esoterismo, não há religião, não tem ideologia, não tem nada de especial por detrás desse EP.É só o resultado das minhas investigações e estudos de harmonias transformados em composições.

Interessante a combinação da sonoridade com o nome, Cult of Enthropy. Sendo a entropia um conceito caótico – que combina com as variações harmônicas criadas nesse trabalho, transitando entre o imersivo, o belo e alguns momentos de repetição de notas que transmitem agonia – como você descreveria esse culto?

Nada – Com sinceridade eu não tenho nada a dizer no que concerne há um descrição do que seria esse culto, acho que fica pra cada um interpretar. Embora eu já tenha pesquisado, lido sobre e me deparado com o conceito de entropia por ai em obras, eu mesmo não tenho muitos conhecimentos ou profundidade sobre ele. É só um nome pro projeto que achei bom, trago comigo a interpretação de entropia em que tudo tende ao caos, a desordem, ao fim. Entretanto, nem penso nisso quando penso em Cult of Enthropy, não me vem nada de especial ou profundo, é só o nome do projeto das minhas composições.

Introspecção tem uma relação direta com incômodos sociais. O quanto essa obra expressa seu repúdio pela humanidade?

Nada – Embora eu tenha um natural e inevitável repúdio pela humanidade e concorde com Schopenhauer quando ele diz que a existência é um erro, essa obra não expressa nada em relação a isso, é só música mesmo.

Agradeço pelo seu tempo e pela obra que produziu. Fica aqui esse espaço para suas reflexões além dos temas abordados. Pragueje, ofenda e divague a vontade. Hailz!

Nada – Obrigado pelas observações, perguntas sobre a obra e a oportunidade de expor o EP para futuros interessados em ouvir minhas composições.

Conforme nos diz Philipp Mainländer, a vida é sem valor e a vontade, inflamada pelo conhecimento de que o não ser é melhor do que o ser, é o princípio supremo da moralidade.
Maldito seja o dia em que o sono eterno do nada foi interrompido.

Mostrar mais

Sophia Losterh

Editora do zine Natimorto e organiza eventos de metal extremo underground em SP. Amante das expressões blasfemas de arte. Hail caos, Hail metal negro!

Veja também...

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar