Entrevistas

CURSED CHRIST – “indesejados como um câncer”

"Não quero que a banda exista se eu não for capaz de me sacrificar e sangrar por ela"

Comprometimento e autenticidade . Essas palavras resumem a postura da banda CURSED CHRIST com o Black Metal cru e frio que executa. Formada em Franca, interior de São Paulo em 1993 com o nome de “Blasphemous Attack” a banda  mudaria seu nome em 1995 após o lançamento da demo “Dead Messiah”  mas vinte e cinco anos após sua criação, oito demos e um álbum, o ótimo “Via Negativa”, ainda manteria intactas as propostas originais de tocar um Metal Negro direto e sem frescuras carregado de blasfêmia. Após um hiato de quase uma década a banda se encontra em pleno processo de composição de um novo álbum a ser anunciado em breve. Ás vésperas de subir ao palco em um evento especial em que serão apresentadas em primeira mão várias dessas novas composições batemos um papo com Rodrigo Von Avernoth, guitarrista e vocalista desse projeto e falamos sobre o passado, presente e futuro da banda.

Rodrigo Von Avernoth. Foto : Cláudio Higa

A gente viveu o metal em uma época anterior à internet e pegar som muitas vezes era uma coisa bem mais complicada que hoje em dia, muitas vezes a gente só conseguia uma gravação em cassete de um álbum que acabava sendo a cópia da cópia de uma cópia e isso tirava muito a qualidade do som. Além disso, muitas demos daquela época eram caseiras, ensaios e o som era bem mais cru que a maioria do que se vê hoje em dia. Como você vê os dias de hoje com tanta tecnologia e velocidade? Fale mais sobre os velhos tempos.

AVERNOTH : Antes de tudo saudações aos cultuadores do necro underground. É uma honra figurar nestes arquivos sangrentos. Acredito que a maioria hoje em dia nem imagina o quanto era difícil pegar uma demo do Blasphemy, Beherit, Mayhem, Azael, Bestymator, Sarcófago e tantas outras, tínhamos que primeiro conseguir o endereço, escrever para os caras e esperar a resposta. Muitas vezes eu troquei gravações de materiais bem raros no underground com camaradas e aconteceu muito de pegarmos a gravação da gravação…. Muitas vezes os tapes vinham com um chiado que era ate difícil sacar o som direito. Hoje acho que poucos entendem este espirito underground a nova geração se acostumou a ter tudo de mão beijada, sites e blogs com downloads aos milhões… Acho que não há nenhuma esperança dos tempos áureos retornarem… Aqueles que vivem e cultuam este meio de vida que continuem a perpetuar este culto ate o fim da existência. Aos que entendem este sentimento que ao menos procurem manter este culto vivo.

Aliás, já que tocamos no assunto, você ainda é um adepto do cassete?

AVERNOTH: Sim, tenho vários materiais em formato tape, acho este formato um item Cult ao underground Black metal. Sei perfeitamente que o que importa para a essência verdadeira de uma pessoa que curte som é o sentimento, integridade e honra ao underground, porém o formato tape se tornou algo nostálgico e item de colecionador, e com certeza continuo com minhas trocas com tape traders. Espero ainda lançar mais obras do Cursed Christ em formato tape com certeza.

Falando de épocas remotas, o que te levou a montar sua primeira banda, o “BLASPHEMOUS ATTACK” que viria a ser o embrião do “CURSED CHRIST”? Podemos considerar o CURSED CHRIST uma continuação do “BLASPHEMOUS ATTACK”? O que as diferenciaria além do nome?

Foto:Maggy Carrasco

AVERNOTH: O sentimento que habita meu ser, minha alma, quando eu conheci o metal negro, cada dia que passava eu sentia mais e mais a necessidade pessoal de criar uma horda de Black Metal e realizar os profanos rituais de morte através deste estilo que é tão temido e pavoroso isso, tomou conta de meu ser e através dos anos venho cultuando e perpetuando este caminho das trevas. Acredito que o Cursed Christ é sim a continuidade do Blasphemous Attack, apenas mudamos o nome, pois na época eu ouvi dizer que existia outra banda com este mesmo nome, agora diferenciar uma da outra é muito complicado cada uma viveu em um momento e com uma formação diferente, os conhecimentos musicas e experiências adquiridas através do tempo devem ser levados em consideração.

Após ter gravado as demos “Scourge to the Christ” e “The Satanum Adorer” sozinho, você conseguiu uma formação completa e começou a tocar como uma banda, segundo sua biografia no intuito de poder se apresentar ao vivo, porém foram raras as apresentações do CURSED CHRIST. Isso se deve a uma pouca procura de organizadores ou você evita a exposição excessiva da banda? Shows… Quantidade deles ou qualidade e ideologia?

AVERNOTH: De fato naquele tempo, após começarmos a divulgar as demos citadas alguns aliados e correspondentes começaram a mostrar interesse em ver o Cursed Christ em atos ritualísticos, então com a entrada de um baixista e um baterista fixo em 1997, fizemos algumas apresentações no interior paulista e mineiro. Mas em 2001 a formação se desfez e ficamos sem nos apresentarmos e em 2004 quanto R.Malekiavel e B.Terroristic Hammer entraram na horda retornamos aos palcos. Na verdade sempre estamos recebendo convites de shows, porém procuramos mesmo selecionar ocasiões certas e as bandas com as quais tocaremos, mas já aconteceu de não podermos mesmo por datas, questões financeiras com nosso transporte e viagens para os membros da banda. O Cursed Christ perpetua os verdadeiros valores do underground e conspira pela supremacia anticristã através de um impuro e frio Black metal. Pertencemos às profundezas do underground e sentimos que é melhor fazer raras apresentações carregadas de energia do que uma sequência de apresentações vazias e sem vontade, enquanto muitos querem ser a menina dos olhos da dita cena, nós vamos na contramão e queremos ser indesejados como um cancer.

Falando sobre apresentações ao vivo vocês tocaram com algumas bandas que imagino que já foram influência para a criação do próprio Cursed Christ como o Profanatica por exemplo,  como você vê isso ? Fale-nos mais sobre o Cursed  Christ ao vivo, como é pra você estar em cima de um palco ? Muito em breve vocês estarão se apresentando em um evento especial em duas partes chamado “Yperborea” juntamente com o Opus Bélico, RMC e Evil, por que um evento em duas partes ? O que podemos esperar dessa apresentação ?

foto Cláudio Higa

AVERNOTH: Realmente, não há nada mais honroso do que ter tocado com bandas que foram nossas influencias, poderia citar varias bandas do underground brasileiro como exemplo, mas ter tocado com o Profanatica foi memorável!!! Sempre serei grato pela Storm Prod por ter convidado o Cursed Christ, lembrando daquele evento também tocaram Hammergoat que possuem membros de outras lendárias bandas e que são meus amigos pessoais, Slaughtbbath do Chile que é uma incrível banda e tivemos a oportunidade de trocar materiais, coisa que hoje em dia é algo muito valoroso para mim. Sinceramente, estar sobre o palco remete todo sentimento enraizado na alma envolto ao culto profano do black metal, poder disseminar sua ira, seu ódio, compactuar com reais bandas e abnegados do underground exprime tudo aquilo que acreditamos desde o principio da criação da banda!!! Sim, “Yperborea” será um evento que perpetua todo este sentimento e contexto descrito acima, pelas bandas, pelos camaradas, pela essência daquilo que ainda existe queimando e vive nas personalidades que por trás destas bandas pregam todo este ideal, a ideia do nome por ser algo inatingível para muitos, a intenção de duas datas, pois estaremos confraternizando com camaradas, sendo recebidos por eles e também recebendo tais irmãos, serão dois eventos distintos, com surpresas à parte, e pretensões futuras, então quem for em um perdera a essência do outro e quem for nos dois poderá celebrar uma ode as trevas envolto a uma essência fria, sombria, belicosa e de muito extremismo. Quanto ao que podem esperar deste show, só posso dizer, por enquanto, por parte do Cursed Christ, em um iremos apresentar musicas novas e inéditas, com algumas musicas que marcaram nossa trajetória e em outro tocaremos musicas em homenagens a bandas que influenciaram nossa fundação… ou seja perder essas infames apresentações será uma verdadeira insanidade.

Na época de gravação da demo “Consagratione”, você também estava tocando na horda “AYPEROS”. Sei que você não é muito de falar sobre isso, mas esquecendo dos problemas e diferenças surgidas depois, fale mais a respeito de seus anos no “AYPEROS”.

AVERNOTH: Sinceramente não é que eu não gosto muito de falar desta época, mas esse momento da minha vida faz parte do passado e agora estamos em outros tempos… O que posso falar é que durante os anos de 1996 até meados de 2001 eu toquei com os antigos membros do Ayperos e eles no Cursed Christ, dividíamos o mesmo local de ensaio e as formações de ambas as hordas eram basicamente a mesma. Compartilhávamos um ideal necro bem próximo dentro do Black metal e sempre estávamos juntos, ensaiando, saindo pra beber, arrumando umas belas confusões hehehe você sabe a gente sempre estava brigando com todo mundo aqui em Franca e os caras errados sofreram muito com a gente naquela época hehehe tivemos também a oportunidade de realizar vários shows com reais hordas e espalhar nosso sentimento através de um infame e profano Black metal, gravamos inclusive um split tape (Cursed Christ/Ayperos) “Satanic union of the Black Hordes”, tenho muito orgulho sim de ter vivenciado aqueles dias ao lado daquele pessoal, mas as coisas começaram a dar errado e os passos acabaram se desencontrando, foi realmente uma época alucinante, profana e intensa, mas cada um seguiu uma jornada, e eu continuo firme em meu obstinado caminho pela supremacia luciferiana através de um Black metal na velha veia e é isto o que mais importa.

Foto : Cláudio Higa

Sei que você tocou guitarra no vinil “Brazilian Underground Attack” em que participaram as bandas… MAUSOLEUM, BESTYMATOR e KAZYKLU BEY e não foi creditado seu nome. O que você nos diz a respeito disso?

AVERNOTH: Sim as musicas que estão nesse 4way split LP, são musicas retiradas da demo “Black Side”, do Ayperos e quando este álbum começou a ser cogitado eu estava muito envolvido com a banda e acho que foi um fudido lançamento na cena brasileira, mas aí eles resolveram  creditar as partes de guitarra a um cara que nem ao menos sabia tocar as musicas e entrou na banda. Muitas pessoas não sabem deste fato, mas quem me conhece sabe de minha integridade e devoção ao Black Metal, esta foi uma atitude pequena destas pessoas sendo assim me sinto honrado por ter seguido meu caminho e deixar essa página pra trás, garanto que enquanto eu estive naquele meio honrei meus ideais, diferente de outros que nem mesmo seguem mais os verdadeiros ideais dentro do necro underground.

Falando agora um pouco sobre o Opus Bélico, você foi um dos fundadores desse projeto que ficou adormecido por alguns anos e está retornando agora. Atualize-nos sobre a situação da banda e quais os planos para o futuro?

AVERNOTH: Sim,  com muito orgulho juntamente com alguns camaradas do Francanatica tivemos a honra de criar o Opus Belico, uma banda bem distinta  do trabalho relacionado ao Cursed Christ, mas poderia dizer o que ambas pregam conciliam em um ideal necro underground. Opus Belico toca uma musica muito mais melodiosa, bélica e apocalíptica, com raízes em bandas de War e Death Metal. Passamos por um período de ostracismo e mudanças de formação, alguns precisaram mudar de cidade e outros dar sequencia em suas vidas e nós entendemos perfeitamente já que ninguém sobrevive da banda em si. Tivemos a entrada de Johnny Hammer assumindo a bateria e fizemos alguns shows com ele que foram muito brutais e gravamos recentemente 4 musicas e um cover que serão parte de um Split com os camaradas do Ravendark’s Monarchal Canticle e que será lançado em março no evento “Yperborea” pelo selo  “Hammer of Damnation” já adianto que será um material digno de toda espera e ansiedade por todos. Estamos também em processo de composição de novas musicas e queremos logo registrar esse material como nosso primeiro full-lenght!!! Busquem por este Split e garanto que a crueldade e fúria estarão presentes!!!

Você também foi editor do “LUCIFERIUN” zine. Como você vê a importância dos fanzines nos dia de hoje em que se encontra quase tudo na internet? Os fanzines são obsoletos hoje em dia em sua opinião? Por quê? E o “LUCIFERIUN” zine está morto ou dormindo?

AVERNOTH: Sim foi com muito orgulho que tive a oportunidade de dar vida ao Luciferiun Zine em 1995, foram lançadas três edições, infelizmente naquele tempo eu estava trabalhando, estudando e ainda tocava em duas hordas então foi ficando cada vez mais difícil de dar continuidade ao trabalho e resolvi dar um tempo infelizmente o tempo passa e ate hoje ainda não retornei ate já cogitei uma volta, mas nada concreto. Pra mim os zines no underground são de uma extrema importância, pois são eles que ajudam a perpetuar o necro underground, esta é a maneira que o underground surgiu e se isso acabar, pra mim morrerá de vez. Com a massificação e uso exagerado de internet muitos caras de hoje nem sabem direito o que é um zine, Eu particularmente ainda continuo a trocar tapes e adquirir zines com reais sineiros e acho muito importante a continuidade e a perpetuação destes materiais, acho sim o uso da internet muito proveitoso hoje em dia, mas o culto por traz dos zines, aqueles comentários de demos, comentários de shows, entrevistas com perguntas mais profundas, o cheiro do papel… Só em zines mesmo, revistas coloridas e veículos da internet na maioria das vezes são muitas vezes tendenciosos e sem nenhuma postura ideológica, Então digo que algum dia ainda vou editar novamente o Luciferiun Zine, UNDERGROUND ZINES RULES SUPREME!!!

Voltando ao “CURSED CHRIST”, você está por trás do direcionamento da horda nessas quase duas décadas de estrada e crendo que a mesma seja uma extensão de você mesmo eu te pergunto o quanto e como você mudou nesse período e o quanto de você ainda é o mesmo?

AVERNOTH: Com certeza minha integridade, seriedade e postura diante ao Black metal sempre foram movidas pela minha sincera devoção. Acho que coisas como caráter e personalidade sempre são algo intimo e difícil de mudar, mas sempre procurei a vitória em qualquer situação, falando em termos de horda acho que melhorei muito em meu jeito de tocar, aprendi melhor a manejar minha guitarra e minha técnica com o vocal para mantê-lo gélido e cortante, minhas letras estão mais profundas, infernais e diretas, mas falando em mudanças no decorrer dos anos quando conheci o metal era um cara com 14-15 anos que estava conhecendo-o e querendo me aprofundar nas artes negras… Hoje estou mais velho e com os autos e baixos da vida aprendemos algumas coisas e vamos evoluindo conforme nossas necessidades, as mudanças na cabeça de um adolescente até se tornar um adulto são muitas, mais no final o que importa mesmo é aquilo que você FAZ.

Foto: Divulgação

 Essas mudanças decorrentes do tempo refletiram de alguma forma no som e nas letras da banda? Pergunto isso para ter uma resposta segundo a sua ótica, por que pelo menos para mim, o som da banda evoluiu muito nesses mais de vinte e cinco anos.

AVERNOTH: Posso lhe afirmar com certeza que com o passar do tempo as musicas que foram sendo compostas sempre possuíram algo relativo à sua época e ao que eu estava inspirado na hora de compor e escrever, Sempre deixei fluir ao máximo meus sentimentos para criar a musica do Cursed Christ, muitas pessoas podem dominar um instrumento e fazer ruídos sem sentimento algum, como uma pálida moldura vazia e sem vida, mas alguns poucos compreendem os sacrifícios e a devoção necessários para se criar hinos negros. Tudo que sempre compus reflete alguma coisa de mim. A evolução musical que você cita talvez seja consequência de nossa persistência e motivação em realizar um Profano Black Metal do mais profundo de nossa maligna alma.

Peguemos o som “Almight emperor” como um exemplo para ilustrar a próxima questão. Ele saiu pela primeira vez na demo “In the name of W.A.R.”, posteriormente na coletânea “Supreme celebration of the eternal blasphemy” e uma versão no álbum “Via negativa” e se pegarmos cada uma dessas versões elas possuem alguns detalhes nos arranjos que as diferenciam entre sí. Isso se deve a uma evolução natural no som da banda ou as diferenças no arranjo se devem às mudanças de formação nos três momentos da banda?

 AVERNOTH : Acho que ambos os casos. A meu ver a composição dessa música só foi realmente concluída no álbum “Via Negativa”. Na ocasião da demo “In the name of the WAR” eu gravei todos os instrumentos sozinho, na gravação que se encontra como faixa extra na “Supreme Celebration…” com a entrada de Malekiavel como baixista, estávamos passando os sons a um baterista que não ficou na horda mas mesmo assim na época  gravamos aquela versão, com a entrada do Bruno (Terroristic Hammer) como baterista permanente à época gravamos este hino com uma roupagem nova e nosso sentimento, esta formação para mim foi muito importante , pois todos sempre expunham seus sentimentos e deixavam fluir suas energias… Com uma banda com membros assim o som fica mais carregado e profundo com todos se entregando no culto ao todo poderoso imperador.

Aliás, completando a pergunta anterior, a partir da infernal promo track 2004 “Satanic Majesty”, o som do CURSED CHRIST se tornou muito mais complexo em termos de arranjo. Você acha que isso aconteceu devido a um maior envolvimento dos membros da banda no processo de composição?

AVERNOTH: Com certeza a entrada de Malekiavel e o antigo baterista Bruno deram às musicas uma adição de arranjos e improvisos que se tornaram fundamentais na sonoridade da banda. Particularmente meu conhecimento musical é um pouco limitado, mas sei que os demais membros possuem um conhecimento musical melhor que o meu, sempre observei e reconheço que a dedicação e a grande importância no trabalho que eles vem fazendo na horda é algo que sempre esteve nítido tanto na hora de compor, ensaiar ou tocar ao vivo!!!

Via Negativa lançado em 2010 pela Hammer Of Damnation

Fale mais sobre as gravações do álbum “Via Negativa”, como o mesmo se tornou possível e quais as maiores dificuldades para se gravar um álbum.

AVERNOTH: Cada ocasião em que se entra em estúdio é uma nova e diferente missão, Eu sempre tive uma grande amizade com o Warlord mentor do selo Hammer of Damnation que sempre acreditou em nossa integridade, seriedade e postura, então como você sabe e ele ate comentou com você sobre este ato, ele nos convidou e revolvemos realizar este opus, tivemos a oportunidade de gravar em um estúdio aqui em Franca mesmo… Após muitos ensaios estávamos preparados para registrar e perpetuar nosso primeiro full length , escolhemos as musicas mais importantes em nossa trajetória, uma de cada demo, usamos nossa primeira musica chamada “Hail Satan” com uma nova roupagem assim dizendo e adicionamos algumas faixas inéditas como: Via Negativa, A wolf among the sheeps e Antichristian Supremacy e então após muita luta e sacrifícios foi lançado o álbum “Via Negativa” o caminho para as trevas.

Vocês já tinham cerca de 80 % do álbum gravado e limaram tudo para começar do zero usando de menos tecnologia de estúdio (buscando um som mais orgânico?). O CURSED CHRIST é contra excesso de tecnologia nas produções de Black metal? Fale mais sobre isso.

AVERNOTH: De fato a maioria das musicas já estavam presentem em nossas antigas demos, este álbum se trata de um testemunho histórico de nossa trajetória no necro underground,  retratamos com orgulho o que é o verdadeiro Black metal da horda em todos estes anos, pegamos todas estas musicas lapidamos, acrescentando arranjos e improvisos e muito mais sentimento necro, sobre a outra parte da questão na verdade qualquer tecnologia e recurso que se puder usar para engrandecer uma musica ou gravação deve ser feita. Nós na verdade não somos contra excesso de tecnologia nem nada nas produções de bandas, nós apenas fazemos o que achamos certo para nós mesmos, usarmos o suficiente de equipamentos e recursos em um estúdio.

Vocês regravaram o som “Lord Satan” agora rebatizado “Hail Satan” e presente pela primeira vez na história da banda quando a mesma ainda se chamava “BLASPHEMOUS ATTACK” e esse som em minha opinião é fortemente influenciado por Sarcófago, Beherit e Blasphemy. Concorda? Fale mais sobre isso.

AVERNOTH: Assim que nos começamos a trabalhar para definir as musicas para o álbum, decidimos que deveríamos regravar uma musica daquela época, pois estávamos retratando a historia da banda nestes quase vinte anos de jornada, nada melhor do que não apenas regravar uma musica antigo, mas em especial esta que foi a primeira musica que compus quando comecei a historia do Blasphemous Attack, e concordo que esta musica assim como varias daquela época eram influenciadas nas bandas citadas, era o que mais eu ouvia na época e quando se esta começando uma banda você sempre procura ter uma base em hordas que você admira, porem o Cursed Christ sempre terá seu estilo e características particulares.

 Você acha que poderão regravar algum outro som dessa fase no futuro?

AVERNOTH: Com certeza será muito importante trazer para esta época musicas de outrora principalmente com esta formação, com certeza iremos fazer isto em materiais futuros.

 Apenas para citar alguns exemplos, o som “Cursed Christ” começa com a declaração “apoie a guerra contra o cristianismo”e o som “Hail Satan” joga direto na cara que “Jesus Cristo está morto, ele nunca vai retornar” . Qual a sua opinião sobre o cristianismo e por que devemos combate-lo?

AVERNOTH: Minha opinião não apenas com relação ao cristianismo, mas também com toda religião que cega e escraviza, não servem para mim, porem o ser humano esta fadado a usar muletas devido a fatores mundanos, pois bem, nossas letras visam sim demonstrar repudio e ódio, nossas letras são frias e diretas sempre conspirei pela supremacia anticristã e para o inimigo falhar em seu caminho para a imortalidade. Não estamos a espera de nenhum pastor, somos como leões e nãos ovelhas entre os rebanhos, o matadouro do fracasso não é nosso destino.

Aprofundando um pouco mais o tópico, Nietzsche diz em seu livro “O Anticristo” que “… só existiu um cristão, e esse morreu na cruz. o Evangelho morreu na cruz.“. Você concorda com isso? Fale mais…

Foto:Cláudio Higa

AVERNOTH: Acho que ele usou a razão em dizer que só existiu um cristão, ou você e qualquer outra pessoa acha que há um único homem sequer que não tenha atitudes profanas, ódio, intolerância, aversão e culpa? Esse mal habita o ser humano, acho difícil perdoar o tubarão que amputa sua perna, um homem aceitar seu próprio sofrimento e ainda oferecer a outra face? Se este homem misericordioso, bondoso, complacente realmente existiu morreu na cruz, desde que o messias foi vomitado das entranhas de uma mulher, suas pálidas idéias somente profanaram os grandes desejos de todos os homens e todos os supostos redentores herdarão uma grande cruz e três sangrentos pregos.

Sei que o satanismo já foi não apenas um ponto teórico em sua vida, mas algo prático e tangível. E hoje, como é sua visão religiosa?

AVERNOTH: Durante um bom tempo de minha vida eu estive envolvido com um grupo de pessoas que vivenciaram o culto as artes negras, isto é algo que já esta inserido em minha vida, hoje em dia continuo estudando e adentrando ao caminho da mão esquerda, ainda tenho muita sede de conhecimento em relação ao lado negro, mas não sou um praticante diário de rituais, pois o verdadeiro ritual já foi realizado com êxito, minha alma é regida pela radiação luciferiana e não preciso mais ficar reafirmando algo que já faz parte do meu “EU”.

Os sons “Almight Emperor” e “Consagratione Di Imperatore Sathanas” são declarados no encarte do álbum “Via Negativa” como sendo pessoais demais para serem transcritas as letras, eles são de alguma forma experiências reais vividas dentro do ocultismo?

AVERNOTH: Exatamente por este motivo estas letras e algumas outras estarão apenas escritas nas paginas sagradas dos nossos pergaminhos das artes negras, observe que as letras foram publicadas apenas parcialmente, não acho necessário publicar totalmente esse conteúdo, pois nossas letras refletem nossas visões e experiências e o culto em torno do que a banda prega e executa. Não quero que as pessoas moldem nossas letras à sua própria maneira, mas sintam a verdadeira energia de negros rituais sob a estrutura de nossas musicas. Perpetuar e manter o oculto, este é o caminho da mão esquerda.

O Cursed Christ se encontra em um hiato de lançamentos há nove anos, há algum material novo vindo por aí? Oque você pode nos adiantar? Porque essa demora em um novo material ?

Avernoth: Janeiro de 2011 marcou o lançamento do álbum “Via Negativa” e fizemos alguns show pelo interior paulista e um em BH divulgando este lançamento, e nossas demos e splits também, mas em 2013 passei por um serio problema de saúde e precisei me ausentar por um período de quase um ano para me restabelecer, em meados de 2014 eu já pretendia voltar com a banda e shows mais além de ainda estar me restabelecendo nosso ex-baterista Bruno havia mudado para uma cidade no litoral paulista, ficava muito difícil vir frequentemente para Franca, ou seja mais uma vez ficamos impossibilitados de seguir com a banda. Em 2017 recebemos o convite para tocarmos com o Profanatica na capital paulista e não poderíamos perder a oportunidade. Convocamos um amigo para nos ajudar e tocamos neste show. Ficou decidido que ele se tornaria membro efetivo da banda. Desde então estamos aos poucos compondo, não somos uma banda que realiza muitos lançamentos em um curto período de tempo, cada época fomos marcados por uma situação. Mas posso garantir que dentro em breve estarão sendo assaltados por um novo ataque de blasfêmias que é a marca registrada do Cursed Christ.

Foto:Cláudio Higa

Como se deu a entrada de Maycon na bateria? Como ele tem se integrado na formação? Pode se considera-lo já como parte do Cursed Christ ou apenas um session?

AVERNOTH: Como mencionei anteriormente, em 2017 recebemos o convite para tocarmos no evento “None Sit Higher Than US” e convidamos o baterista Maycon para nos apoiar nesta fase, o Rodrigo já era muito amigo dele e acabamos nos relacionando muito bem, visto que em Franca os bateristas que já tem aqui ou tocam em outras bandas ou nós não somos tão “amigos” assim… não iria colocar um batera aqui só por necessidade. A integração deve ser muito mais além do que quesitos musicais, ele é um batera da cena Heavy Metal, já tem sua banda e também um fanático por Iron Maiden, mas além disso se mostrou um grande camarada e nada mais justo que ter ele como um membro fixo na banda, estamos muito satisfeitos com isso e já estamos compondo musicas novas, pegando alguns covers que serão apresentados em nossas futuras apresentações em homenagens e claro nos preprarando para nosso próximo tormento infame, nosso segundo full lenght.

E qual a sua opinião sobre o Black metal hoje em dia ser um movimento mais musical e menos ideológico. Digo isso por que nós que temos alguns cabelos brancos vimos o movimento ser muito mais vinculado a uma raiz filosófico/religiosa sendo a parte musical algo complementar. Hoje em dia as novas bandas parecem se preocupar apenas com o lado musical e se esquecem do restante. Qual a sua opinião sobre tudo isso? Como o CURSED CHRIST se enquadraria dentro dessa concepção? Defina Black metal em sua visão.

AVERNOTH: A cena atual é um péssimo exemplo a se tomar a alguém que se interessa em adentrar ao culto das trevas no Black Metal. As habilidades com instrumentos significam mais do que a devoção e o resultado é este que estamos vendo por ai, musicas cheias de harmonias e melodias em demasia e vazias e pálidas em termos filosóficos. Apenas musica sem outra razão. Acho que muitos podem dominar seus instrumentos, mas poucos entendem os sacríficos pessoais e devoção requeridas para criar visões pessoais e converter este sentimento em forma de musica. A cena hoje é muito diversificada se comparada aos bons velhos tempos, quando era muito mais difícil de entrar, exigia muito esforço e entendimento, As pessoas se esquecem de que estão se envolvendo com o culto as trevas, a cena tem tomado outros rumos com estes indivíduos inúteis desprovidos da percepção Black Metal, e para piorar qualquer banda hoje lança um material, é muito fácil conseguir um acordo para um lançamento e o resultado é uma avalanche de péssimos álbuns que tiram a atenção que  muitas boas e verdadeiras bandas satânicas underground poderiam estar tendo. Os valores por trás da musica se tornaram materialistas demais pessoas muitas vezes nem conseguem compor algo que seja o reflexo de si mesmas e clonam o que outras dezenas já fizeram. E é este o caminho contrario que o Cursed Christ sempre seguiu desde o inicio de sua existência. Eu não quero que a banda exista se Eu não for capaz de me sacrificar e sangrar por ela. Eu sempre senti a energia negra que habita escondida sob as estruturas de nossas letras e musicas, nós não falamos de campos floridos, bosques encantados, tristeza e merdas politicas, nós falamos de satanismo, morte, destruição, anticristianismo e escuridão o verdadeiro modo do Black Metal ser tocado. Eu sou o que a Horda é. Black Metal nunca será apenas musicalidade. Definitivamente a sonoridade  do Cursed Christ esta para mim como filosofia e devoção e esta interação entre estes termos e minha necessidade pessoal de praticar rituais de filosofia satânica em forma de musica são a motivação de continuar com minha total devoção.

Foto:Cláudio Higa

Qual a sua opinião sobre o dito unblack metal que teria uma sonoridade típica do Black metal aliada a letras de cunho cristão? Muitos dizem que o termo metal cristão é contraditório, você concorda? Por quê?

AVERNOTH : Sinceramente desde os primórdios em que o metal estava surgindo, sua base ideológica sempre foi ligada a termos obscuros, violência, maldade, ódio, intolerância, acho totalmente contraditório e um insulto usar o metal extremo abordando benevolência, misericórdia e amor ao próximo. Minha opinião não precisa ser expressa em palavras, mas meus punhos estarão sempre erguidos, esteja certo disto.

 Você acredita em uma cena Black metal? Em sua opinião, o dito movimento ainda existe Avernoth? Explique.

AVERNOTH : Não acredito nem sigo cena alguma, talvez se você me perguntasse isto a uma década e meia atrás eu ate diria que sim, pois as coisas eram mais pelo sentimento mesmo, as trocas de materiais por cartas, intercambio com abnegados de outros estados e países, as famosas trocas de demos e informações em zines que só aqueles que viveram  de verdade sabem o que estou falando. Hoje é muito mais fácil um cara começar a ouvir som, basta comprar umas camisetas e encher o computador de mp3 sem preocupação nem responsabilidade alguma com o esforço das bandas que lutaram pra criar aquilo.  Outros só querem beber e se drogar e usam o metal como desculpa.

Porém ainda existem muitas pessoas sérias  no meio, adoradores e hordas realizando as mais verdadeiras e profanas artes negras e que ainda podem oferecer muito ao necro underground. Essas sim tem o respeito do Cursed Christ.

O que você anda ouvindo nos últimos tempos? Cite algumas novas bandas que chamaram sua atenção e merecem apoio.

AVERNOTH : O mesmo que em pouco mais de 20 anos, ou seja: METAL. Não sou eclético, gosto mesmo do verdadeiro Heavy,Thrash, Satanic, Death e o puro Black Metal. As bandas que me cativam a alma são as mesmas do passado que sempre irradiaram uma energia poderosa em seus álbuns, prefiro não citar nomes, mas ainda continuo com meu interesse em novas hordas, pois acho que a raiz do underground seja essa, sempre procurar coisas novas, nomes desconhecidos e sempre achamos algumas pérolas negras, sempre encontro, pois a verdadeira devoção ainda queima no coração de alguns verdadeiros fanáticos.

Foto : Cláudio Higa

Liste-nos cinco álbuns que mudaram sua vida e o que os tornam únicos?

AVERNOTH : É muito complicado citar cinco álbuns apenas,  porem citando alguns importantes e que mais de fato marcaram uma época importante em minha vida, acredito que o Gods of War do Blasphemy, o nome “Blasphemous Attack” que usávamos no inicio da banda foi retirado deste álbum, oThe Return do Bathory que pra mim, sem sombras de duvidas é um dos lançamentos  mais obscuros dentro do Black metal, o Drawning Dawn the Moon dp Beherit teve uma forte impressão em mim, a primeira vez que eu ouvi este álbum fiquei possesso, aquela introdução falada com uma voz demoníaca e som com guitarras rasgadas e com partes frias e cadenciadas, um vocal ainda mais doentio, é um álbum com um conteúdo especial e que verdadeiramente incendeia a alma.

Desde quando eu comecei a ouvir metal pesado sempre pegava um clássico mais fodástico que outro do Slayer, mas acho que Show no Mercy é o ápice dos caras com aquelas guitarras velozes, violentas e destruidoras, os riffs dos caras sempre foram devastadores, mas um álbum que eu diria que realmente foi importante e que mudou muito minha jornada… ele não foi o primeiro que eu ouvi, mas o primeiro que eu ganhei na vida quando comecei a escutar Heavy Metal, o primeiro doIron Maiden, cara eu ouvia dia e noite aquele disco, putz aquele sentimento metal e o ideal headbanger pulsando nas veias, foi o estopim que faltava para acelerar o processo de metalização no meu sangue, foram naquelas primeiras audições que eu resolvi tomar a decisão que mudou minha vida, ser um cultuador da musica pesada, porem deixo claro que citei apenas este cinco por ser o que você me questionou mas nunca poderia deixar de lado e ficar sem citar os clássicos Venom”Black Metal”, Celtic Frost “To Mega Therion”, Morbid Angel”Altars of Madness”, Dark Throne “A blaze… e Under funeral Moon”, Mayhem” live Leipzig e De misteriis…” Sarcofago “ INRI”, Burzum”Det Son…”Impaled Nazarene”Tol Cormptz Norz Norz Norz”, “Emperor “In the nightside Eclipse” Enthoned”Towards the Skullthrone of Satan” e muitos outros que fizeram/fazem deste culto ao metal o mais extremo, agressivo, temido e doentio e que motiva as verdadeiras almas malignas a perpetuarem-se no mais profundo do necrounderground.

Foto : Maggy Carrasco

Essa é meio clichê, mas  já fez parte de uma época, deixe suas ultimas palavras…

AVERNOTH : Agradeço imensamente pelo apoio, por acreditar em nossa horda e pelo espaço cedido nesse grande veículo que é a “Lucifer Rising” e sua equipe que tem se mostrado imparcial e dedicado ao metal extremo underground!!! Aos reais cultuadores realizem vossos impuros desejos, cultuem a face do bode, realizem vossos rituais sujos de ódio, se entregando de corpo e alma ao caminho oculto, pois a morte não é o fim àqueles que se entregam ao caminho das trevas. Aos interessados em adquirir nosso material, entrem em contato.

Assista abaixo a apresentação do Cursed Christ  em 24/06/2017, música A Wolf Among The Sheeps:

Mostrar mais

Juliano Bonacini

Tecladista e letrista da LoneHunter (Death Metal), historiador e editor do Crypt of Eternity - fanzine da década de 90.

Veja também...

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar