Entrevistas

CURSED CHRIST – Três Décadas de Inversão

“...aquilo que cultuamos nunca foi passado para outras gerações e estará perpetuo apenas com quem carrega estas ideias...”

Eis aqui uma das bandas remanescentes dos anos noventa, que resistiu bravamente ao tempo e conseguiu manter sua postura e ideologia sinistra durante três décadas. Cursed Christ foi daquelas bandas do cenário underground brasileiro que esteve envolta em denso nevoeiro e, assim como muitas outras de sua época, passou por problemas de formação, financeiros, mas manteve-se firme em seus ideais e foi caindo e se reerguendo que chegou aqui. Assim como é um prazer tê-los pela primeira vez no Portal Lucifer Rising, nos sentimos mais honrados por termos conseguido essa entrevista, visto que o próprio Avernoth nos confessa que não tem muito hábito de ceder entrevistas e que não se interessa tanto na exposição. Aqui o que vocês irão perceber que foi um bate papo de grandes e velhos amigos, que se comunicam muito bem um com o outro e esse entrosamento é nítido no encaixe das perguntas e na sintonia das respostas, aqui falamos de tudo, desde o início, formações, lançamentos e o quesito ideológico não se manteve distante, acompanhe esse Ritual Profano da Morte.

Saudações meu nobre amigo de muitos e muitos anos, como tem seguido com a Cursed Christ após todos esses anos? Nos faça um breve histórico da banda desde sua fundação até o presente.

Avernoth: Saudações Naberius e a todos os necromânticos leitores deste pergaminho, é uma honra primordial estar novamente em contato com você, principalmente porque trocamos uma serie de cartas e materiais nos anos 90 e sabemos bem o quanto foi foda viver todos aqueles obscuros dias… Quanto ao Cursed Christ eu não poderia estar mais honrado, como sabem começamos nossos trabalhos em 1993, sobre a nomenclatura “Blasphemous Attack” depois de gravarmos duas demos-reh em 1995 mudamos o nome para “Cursed Christ”… gravamos umas serie de demos, lives, Splits entre outros materiais… em 2010 gravamos nosso full lenght “Via Negativa” e teve uma repercussão incrível no underground, e muitos shows foram realizados, mas nesta ultima década tivemos uma serie de contratempos o que ocasionou em um ostracismo profundo, em 2014 saiu nosso baterista Bruno Pesce, devido a sua mudança de cidade, ele tocou conosco por mais de 12 anos e para substitui-lo contamos com o apoio de Maycon, um amigo aqui da cidade, por algum período e no ano passado, Malekiavel também se desligou da banda por motivos de ordem pessoal, tocou na banda quase 20 anos e sei da importância deles assim como os membros que tocaram conosco nos anos 90 (Thaphtharath e Black Angel) mas cerca de um ano atrás a formação sofreu uma significativa mudança, contando com a entrada de Herr Akvan na guitarra e Holokhaosto na batera o que eu poderia afirmar que foi uma mudança um tanto significativa e muito importante para a banda, mesmo nesse período de pandemônio pandêmico registramos uma importante demo tape ¨The Dark Times Are Calling¨contendo três sons que marcam a entrada deles na banda e o tape foi lançado pelos selos Unholy War Prod e Acta Non Verba… Como consequência deste trabalho registramos a pouco mais de um mês atrás nosso novo full lenght: “Unholy Ritual of Death” que conta com 7 sons e um cover em memoria dos velhos dias…

A abordagem lírica da banda em sua criação tinha um cunho satanista e blasfemo no sentido de profanação ao cristianismo. Essa proposta inicial sofreu alguma alteração no decorrer dos anos?

Avernoth : Cursed Christ sempre abordou em suas letras assuntos relacionados ao culto as trevas em toda sua essência!!!

Por alguns períodos o Cursed Christ foi uma one-man-band e somente depois de sua segunda demo que outros integrantes se aliaram a você Avernoth. O que levou, primeiro, a ser apenas você um integrante da banda e, segundo, ter surgido a possibilidade de ingressar outros membros?

Avernoth: Bom, em 1993 quando eu e o baterista Ednei formamos o Blasphemous Attack eu nunca pensei em um projeto one-man, gravamos duas demos e bem no inicio de 1995 ele foi tocar no Eternal Solitude que é uma importante banda aqui de Franca e era bem mais a identidade dele naqueles dias e naquele instante eu decidi seguir sozinho e mudei o nome da banda talvez por uma influencia profunda que eu sofria de bandas que eu correspondia na época como o Azael e Evil eu achei que deveria gravar uma demo como one-man e assim o fiz, registrei a “Scourge to the Christ” contendo dois sons, peguei a bateria emprestada e acompanhei gravando duas musicas que eu tinha feito, coloquei o vocal e divulguei esses sons e os releases na época, pena que este tape era a única máster que eu tinha e ele enrolou no deck e não há como salvar estes sons,,, em 1996 gravei a demo “The Satanun Adorer” contando com um baterista novamente e em 1997 entraram Thaphtharath e Black Angel e a banda seguiu com uma formação ate inicio de 2001, fizemos uma serie de shows, gravamos a demo oficial “Consagratione’98” foi muito foda aqueles dias, porem novamente ficando sozinho na banda registrei a demo “In The Name of the War” em 2002 com dois sons e esta novamente eu registrei como one-man foi uma experiência incrível, o material teve uma repercussão bem foda e divulgamos mais de 500 copias na época… ate os dias de hoje algumas pessoas me pedem esse material… meses depois entraram na banda Malekiavel e Bruno Pesce e a historia que já sabemos seguiu em frente…

Como foi se apresentar ao vivo pela primeira vez? Aliás uma apresentação é sempre memorável.

Avernoth: A primeira aparição ao vivo do Cursed Christ foi em Lavras/MG. Tocamos com Abysmal Forest, Apeiron, Corpse Grinder, Ayperos, Para Tu Eterno e Impaler Lord, foi um show memorável, me lembro que naquela ocasião vieram amigos de vários lugares, o ambiente, a nostalgia, a penumbra e o sentimento permanecem vivos em minha memoria como se fosse ontem… palavras sempre serão poucas para expressar o quão extremo e poderoso é uma apresentação de bandas que cultuam o lado negro…

Nos anos noventa, o Real Radicalismo era uma lei natural no meio Black/Death Metal, porém os anos forçaram o Radicalismo, ironicamente, se transformar com outros parâmetros. Obviamente, Cursed Christ nasceu com aquele conceitos do Real Radicalismo da década de noventa, como você enxerga essa mutação?

Avernoth: Talvez para a cena e outras dissidências houveram uma mudança… aquilo que cultuamos nunca foi passado para outras gerações e estará perpetuo apenas com quem carrega estas ideias… para o Cursed Christ é muito complicado pensar em mudanças, viemos do underground noventista, do maldito da coisa e é muito distinto para uma banda como nós que pertence ao lado B pensar em mudanças, não queremos exposição, até divulgamos nosso material mas nossos amigos e abnegados sabem que o oculto nos basta.

O Metal Negro sempre foi cercado e impregnado de simbologias ocultistas, tendo o Satanismo como principal agente ideológico das bandas, porém também nos anos noventa, muitas bandas de Black Metal começaram a ceder espaço para ideologias Nacional Socialista e muitas vezes abandonando o Satanismo e assumindo uma postura Política, qual a visão da Cursed Christ sobre esse aspecto polemico do Black Metal?

Avernoth: As pessoas tem suas próprias ideias e talvez sejam os aspectos estéticos, muito mais que religiosos que atraiam as pessoas para o NS… Cursed Christ é uma banda que foi criada para difundir um profano Black Metal em reverencia ao culto as trevas!!!

Cursed Christ, no ano de 2010, lançou seu primeiro Full-Lenght álbum, é realmente difícil de alcançar esses objetivos estando no underground por tantos anos? A que você atribui essa “demora” de uma banda underground conseguir lançar álbuns?

Avernoth: Sinceramente existe muitas situações em tudo isso, eu vejo bandas que começam e mesmo sem historia alguma já lançam seus full-lenghts e bandas de muitos anos demorando a gravar seus primeiros trabalhos oficiais… eu só posso dizer pelo Cursed Christ… Sinceramente eu gostaria muito de ter grana para bancar todo trabalho de estúdio, produção, mixagem, masterização e prensagem… mas não é assim que a coisa funciona sou um cara simples de recursos financeiros voltados a minha vida aqui no interior… Nem sempre posso tirar do bolso para bancar tudo na banda… a demora em termos lançado o Via Negativa se da por estes fatores e por outro lado que eu nunca mandei minhas demos para um selo esperando uma avaliação e um possível lançamento, o que aconteceu com o “Via Negativa” por exemplo (?), tenho amizade com o Luis que é o mentor da Hammer of Damnation Rec. desde 1995 e em um momento de 2008/2009 ele nos convidou a lançar este trabalho representando a historia da banda ate aquele momento e isto que deu ainda mais dignidade a este lançamento e posso dizer que foi uma parceria acertada e ficamos muito honrados!!!

O Via Negativa saiu pela Hammer of Damnation Rec., certo? O que fez vocês optarem por outro selo para lançar o “Unholy Ritual of Death”?

Avernoth: Sim o álbum Via Negativa saiu pela Hammer of Damnation, e sinceramente foi a coisa mais acertada, recebemos o convite como já disse e fizemos esse álbum que ficou um trabalho surpreendente para a época, não poderíamos estar mais honrados. Mas agora o álbum Unholy Ritual of Death saindo pela Acta Non Verba Rec e com o apoio da Total War Rec não houve outro motivo senão pelo fato dos responsáveis pela ANVR serem também os membros atuais da banda… Foi por esse simples motivo e posso afirmar que estamos muito bem por isso também.

Após 10 anos de lançamento do “Via Negativa” qual sua avaliação sobre sua repercussão?

Avernoth: O álbum conta com 10 músicas, sendo 4 inéditas e outras 6 regravadas especialmente para este CD que resgatam a memoria de nossas demos, tanto a parte gráfica quanto musical tem todo um conceito voltado ao ideal da banda, para mim este é um trabalho muito importante, poderia afirmar que este álbum é uma extensão da minha vida inclusive após todos estes anos. Com este lançamento tivemos a oportunidade de tocar em vários eventos underground, dividir o palco com bandas muito representativas na cena e mesmo após todos estes anos o álbum ainda é procurado, sempre recebo mensagens se ainda tenho copias… não poderia estar mais convicto!!!

Exatamente neste momento, Cursed Christ está trabalhando na divulgação do seu segundo álbum “Unholy Ritual of Death”, nos conte sobre o trabalho, as músicas, as letras, o trabalho gráfico e nos conte sobre esse intervalo de dez anos entre o primeiro álbum e o segundo.

Avernoth: Exatamente, estamos divulgando nosso novo álbum, Unholy Ritual of Death, o álbum nos remete ao passado e a uma transcendência ritualística que nós, meros mortais, vivenciamos entre o limiar da vida e da morte durante nossa existência. Este álbum marca a entrada de Herr Akevan e Holokhaosto na banda como um divisor de aguas, musicas que foram criadas de uma maneira muito especial para este trabalho lembrando que moramos cerca de 500km de distancia uns dos outros. Falando especialmente de algumas músicas “The Wolves Howls Again” remete ao passado desde aqueles dias em 1993, os tempos sombrios chamam novamente… “Gates of Destiny” portas que podem ser abertas desde que tirado o véu da ignorância, bem sabemos que tudo é ira, medo e morte… “Katharsis of the Black Aura” é uma música um tanto especial, o humano é a ferida na terra, somente a morte é real!!! E entre outras musicas gostaria de citar também a música “Peste Negra/Black Death” pela primeira vez na historia da banda fizemos uma musica em português, os vocais foram divididos entre eu e o baterista Holokhaosto e acredito que ficou matadora, ela remete aos dias atuais e por mais que as pessoas “normais” clamam pela existência, sabemos que o humano em nós morreu… e a música título “Unholy Ritual of Death” trata de uma aliança com o anjo da morte bem sabe-se que a morte pode não ser o fim para aqueles que se entregam ao caminho das trevas e o álbum também possui outras musicas e um cover do Mayhem: “Life Eternal”, resgatando a magia daqueles velhos dias. O desenho da capa foi feita por Azael e todo layout por Sancler Melo que é praticamente o responsável por todas nossas capas… o álbum foi lançado em parceria com os selos Acta Non Verba Rec & Total War Rec. Saiu uma versão em tape oficial pelo selo Armada Producciones que estamos ansiosos pela chegada no Brasil…

Invariavelmente, músicos, artistas da cena contracultura ou não, costumam carregar uma série de referências que lhes servirão de influência, quais foram e são as suas influencias para compor para a Cursed Christ? Você acredita que hoje a banda conseguiu emitir sua própria sonoridade ou as referências estão presentes em suas composições de forma viva?

Avernoth: É inegável que uma banda como o Cursed Christ não sofreu influencia direta na sua criação, bem como em suas questões líricas… a base do Black Metal está ligada ao meu começo neste estilo de vida desde aqueles primeiros dias, inegável dizer que quando ouvi Venom, Bathory e Celtic Frost, Slayer e Sarcofago pela primeira vez eu não tenha pirado, tempos depois vim a conhecer Beherit, Impaled Nazarene, Profanatica, Blasphemy e o Mayhem que me influenciaram terrivelmente, ai que pensei em formar minha própria banda e expor meus sentimentos, comecei a corresponder com uma serie de seguidores no underground e assim também comecei a conhecer um pouco mais da escuridão literária o que moldaram meu caráter e minha personalidade dentro destes conceitos, hoje em dia continuo da mesma maneira garimpando bandas underground, comprando tapes, lps, cds e zines, lendo livros sobre tais assuntos enfim, mas sendo sincero para compor nos dias de hoje consigo ser bem mais espontâneo do que influenciado eu diria… o Cursed Christ tem uma identidade própria e isto é muito perceptível basta ouvir nossos sons.

Agora, com o lançamento de “Unholy Ritual of Death”, quais são os planos da banda? Independente desse cenário pandêmico em que estamos vivendo.

Avernoth: Antes de mais nada estou muito honrado com este lançamento e com a nova formação, temos previsão para novos materiais que serão anunciados em momento apropriado e estamos vendo para nos apresentarmos em breve em algum evento subterrâneo mais reservado… apesar desse pandemônio de pandemia.

É com muito orgulho que encerro aqui este bate-papo e por isso agradeço imensamente por ter cedido essa entrevista. Quero aqui deixar registrado nossa velha amizade, sem entregar a idade (rs), e o espaço está aberto para suas palavras, forte abraço meu nobre amigo de muitos e muitos anos…

Avernoth: Salve Naberius e todos os leitores que acompanharam ate aqui este bate papo, para mim foi uma imensa honra poder responder esta entrevista ate porque são raras as vezes, nestes últimos anos participei apenas em três ou quatro zines, não que eu não goste mas prefiro falar mais através da música do Cursed Christ, e pode deixar que não vou revelar nossa idade não mais sabemos que nossas correspondências já vem de quase 25 anos atrás… então hahaha… Aos interessados em nosso novo álbum entrem em contato com os selos responsáveis pelo lançamento ou pelo meu e-mail pessoal ([email protected]). Um grande abraço camarada!!!

Hail to the Unholy Ones!!! Hail SATANIC MAJESTY!!!

Confiram no vídeo abaixo, faixa do novo álbum: “Esse é especial pois foi a primeira vez na história que usamos uma versão cantada em português aonde divido o vocal com o Holokhaosto (RMC)” Avernoth

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Anton Naberius

Vocalista da Eternal Sacrifice (Pagan Black Metal) Professor de Arte Visual, Artista Plástico e Especialista em Arte e Patrimônio Cultural.

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