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DEFORMITY BR – 25 anos de Brutalidade, Fidelidade e Sangue!!!

"...o artista tem que ter culhões para assumir suas posições. Nem sempre se consegue agradar a todos..."

São 25 anos de fidelidade ao Metal Extremo! A DEFORMITY BR está mais viva que nunca, cuspindo sangue e expelindo pus! Conversamos com um velho amigo, Yuri Hamayano, baterista e um dos membros fundadores da banda e com o vocalista Krusius. Fizemos uma retrospectiva dessa jornada de dificuldades, batalhas e superação! Satisfação pessoal da minha parte realizar uma entrevista com respostas inteligentes de quem tem bagagem para falar.

A PORTA DO AÇOUGUE ESTÁ ABERTA. PODEM ENTRAR…   

Saudações meu velho amigo Yuri e nobre Krusius ! Agora em 2020 a DEFORMITY BR está completando 25 anos de uma estrada manchada de sangue e brutalidade! Façam uma retrospectiva e nos diga quais foram os melhores momentos vividos como banda?

Krusius – Saudações, Nobre! Nesses 4 anos com a DEFORMITY, tem diversas coisas que serão inesquecíveis, poder fazer rolês pelo NE e conhecer integrantes do U.G que nunca havia ouvido falar, algumas vezes poder rever velhos conhecidos de guerra e em outras ocasiões, poder finalmente conhecer ao vivo pessoas que antes só tinha contato por meios alternativos… Em particular, desse período pra cá, tenho como inesquecível a participação no The Ripper Fest (Natal – RN), foi incrível tocar pra aqueles maníacos e finalmente ver algumas bandas que outrora só tinha acesso aos materiais, em particular o SANCTIFIER, que durante muito tempo fui obcecado pelos materiais e pude finalmente ver ao vivo! Poder tocar em Aracaju! Grande Fábio (R.I.P), me trouxe memórias que vou carregar pra sempre comigo! E não podia deixar faltar de mencionar nossas viagens à Paraíba! Foi lá que conheci e fiz amizade com os integrantes da DEMONIZED LEGION, que galera incrível! A única lástima de todas essas viagens é que a distância não nos permite ficar o tempo que gostaríamos com esses nobres irmãos, pois temos nossos trabalhos e vidas do dia a dia, mas revisito esses eventos gloriosos a cada instante que posso em meus devaneios particulares enquanto ouço o profano e maligno metal da morte!

Yuri Hamayano – 1996.

Yuri – Olá, grande Giovan. Cara, é muito difícil conseguir escolher apenas alguns momentos. Por incrível que pareça, lembro de todos os momentos vividos com a banda com um carinho imenso, mesmo naquelas situações em que viajamos para tocar e o produtor não pode nos dar uma ajudar custos… kkkk. Claro, existem alguns momentos emblemáticos para a banda, como a nossa primeira apresentação em Salvador, junto a SOWER(rip), MARTYRDOM e HEADHUNTER, em 1998. Ficamos impressionados com a receptividade daquele público destruidor e com a energia que eles passavam enquanto agitavam. Faltou pouco para colocar o clube abaixo! Nesse mesmo ano tivemos a oportunidade de ir a Itabuna, onde dividimos o palco com a extinta SECOND FACE. A banda ainda estava engatinhando e foi muito bem recebida em todos os locais por onde passou nessa época. Isso marca! A primeira experiência em estúdio, para gravar a “Disgrace is Coming”, em 1999. Abrimos a porta do estúdio e logo escutamos o cara falar que, a partir daquele momento, já estávamos pagando… kkkk. Lidar com essa pressão em meio à completa falta de habilidade com os instrumentos, em saber o que queríamos atingir sonoramente, os timbres, etc. Me acabei de rir ao escutar Lucio gravando o vocal – era muito engraçado vê-lo fazendo o gutural sem escutar o instrumental! Após isso, outra coisa que marcou foi observar a repercussão da demo “Fleshless Remains”, a ponto de conseguir integrar a coletânea “Killing all the Posers” (Kill Again Rec), em 2002, e, posteriormente, participar do show, em Brasília, com VALHALLA, CORPSE GRINDER, CHAKAL  e VADER – tudo relacionado com essa viagem foi foda, desde o deslocamento, as apresentações das bandas, o contato com a galera, as amizades feitas, etc. Depois disso, o grande momento que marca a história da banda são as viagens pelo nordeste (claro, tivemos diversas oportunidades de visitar Aracaju antes disso). Isso só veio a acontecer em 2014, quando resolvemos cair na estrada. Assim, tivemos a oportunidade de pisar em Maceió, Recife, João Pessoa, Campina Grande e Natal, dividir o palco com MALKUTH, VENOMOUS BREATH, CAIXÃO E VELA PRETA, CARRASCO, DECOMPOSED GOD, OUTSET, SANCTIFER, VELHO, CAVERNA, TERRIBLE FORCE, DEMONIZED LEGION, POEMS DEATH, MYSTICAL FIRE, dentre tantas outras. Como o próprio Krusius já sinalizou, é uma experiência foda poder dividir o palco com tantas bandas que admiramos. Esses momentos vão se multiplicando… e continuarão a acontecer enquanto estivermos vivos!

Como não vivemos num conto de fadas, ainda mais num país onde a arte nunca foi apoiada, principalmente a “arte marginal”, onde o Metal entra nesse contexto, nos diga também quais os piores momentos que passaram na estrada?

Júlio Nascimento, 1996.

Yuri – Apesar de gratificante, o processo é sempre cansativo. Na maioria das vezes pegamos o nosso carro, entupimos de gente e material, e pegamos o asfalto. Na ida, sempre estamos muito empolgados, mas o retorno é sempre sofrido: apertados, cansados e ainda tensos por ter que dirigir, muitas vezes, à noite. Em 2016, em Natal, Terminamos de tocar, ainda assistimos um pouco da apresentação da DECOMPOSED GOD, chegamos no hotel por volta das 5 horas da manhã. Às 6:30 já estávamos novamente no carro e só chegamos em Feira de Santana por volta das 20:00. Numa ida a Cícero Dantas, eu tinha um prazo de um trabalho a entregar, até as 0:00 daquele dia (um domingo). Tocamos cedo, mas ainda haviam algumas observações a serem feitas no trabalho, então tivemos que viajar mais tarde para eu cumprir com o trabalho. Algumas tantas vezes tivemos a triste experiência de ter o carro quebrado na estrada, principalmente no tempo em que viajámos na Kombi de Julio. Era certo que o carro quebraria, mas sempre encarávamos o desafio… kkkk. Esse carro já quebrou às vésperas de eu prestar vestibular para a UFBA; já quebrou na ida para Ribeira do Pombal, quando tivemos que alugar um outro carro no meio do caminho, que também quebrou na viagem de retorno; já pegou fogo quando os fios de alta tensão caíram sobre ele, em Santo Antônio; além das incontáveis vezes que ele quebrava rumo a Salvador. No final das contas, todos esses relatos, hoje, são até engraçados. Entretanto, as piores experiências que tivemos foi de encarar a estrada, tocar e, ao final, o produtor dizer que não rolou nenhum dinheiro para a ajuda de custos. Isso é uma péssima experiência, não somente pela sensação de impotência, sensação de estar pagando para tocar, mas, principalmente, por ser uma constatação da falta de organização e apoio ao submundo, como você mesmo comentou. É muito difícil manter os shows acontecendo com os produtores tomando inúmeros prejuízos, com as bandas tendo que arcar com seus próprios custos para se apresentar (isso sem comentar nos selos que não têm vendido, nos fanzines que não têm sido lembrados, etc.). Nos falta uma estrutura de apoio aos eventos e, infelizmente, nos tem faltado público. Acho que estamos justamente no ponto de ter que discutir e refletir sobre como serão as coisas daqui por diante.

Formação em 1999

Mas em que momento você acha que tudo desandou? Qual foi o principal motivo para você que o Underground e nossa cena ficou tão sem apoio, sem público…?

Yuri – É impossível ser generalista nesse assunto, pois a realidade do interior é completamente diferente da capital baiana, que é diferente de outros Estados, embora hajam alguns pontos em comum. Percebo que, em Feira de Santana, o cenário viveu de ciclos – o mesmo deve acontecer nas outras localidades. Num momento tem muita gente, muita banda, muita atividade, mas alguns cansam, outros desistem ou se desinteressam, outros se ocupam ou mudam de foco, etc. Dessa forma o cenário começa a encolher de forma geral, inclusive com o desaparecimento de bandas, zines, etc. Nesse meio tempo, novas pessoas vão surgindo e, com elas, há certa renovação da cena: outras bandas aparecem, novos zines, alguns selos, enfim, a movimentação retorna ao meio. Durante esse processo, algumas pessoas perduram entre os ciclos e outras novas aparecem. A grande questão é que, desde que estou no meio (início dos anos 90), tenho percebido uma constante queda na quantidade de pessoas. Certo, temos qualidade e isso é inquestionável. Por outro lado, tanto falamos de vender CDs, vinis, zines e outros produtos, falamos em não ter prejuízos na produção de shows, em pagar adequadamente as bandas. Como é que conseguiremos fazer isso aqui, na realidade do Nordeste, com uma quantidade extremamente diminuta de pessoas? Se 50 bandas nacionais, de estilos diferentes, lançam um CD no mesmo ano, temos mesmo a obrigação de comprar 50 unidades, mesmo não gostando da banda? Temos condição financeira para tal? Sendo assim, me parece que realmente falta gente. Pessoas defendem que não precisamos ter o metal aparecendo na TV ou nos grandes festivais, mas será que isso exerce alguma influencia para que as pessoas despertem o interesse pelo Metal? Tivemos uma grande repercussão com os eventos Rock in Rio (muito Hard Rock e Heavy Metal nos anos 1985 e 1991) e Hollywood Rock (muito grunge e hard rock nos anos 90), além dos clipes na MTV. Claro, muitas pessoas foram influenciadas e algumas delas perduram – eu sou um exemplo. O tempo passou e a forma de comunicação de massa tem mudado. Sendo assim, a pergunta a ser feita é: hoje, o que tem influenciado, ou atraído, as pessoas para o meio underground? Muito reclamamos de que as pessoas da cena não comparecem aos eventos, mas nos preocupamos em entender qual o motivo que tem gerado tal desinteresse? Montamos estratégias de manutenção do cenário, seja para manter as pessoas antigas atraídas, mas também para atrair novos adeptos? Será que nenhum desses questionamentos realmente importa? Sempre colocamos a culpa nas novas gerações, de que eles não se interessam em consumir nada que não seja conteúdo de internet. Mas, por outo lado, não discutimos possibilidades para atrai-los do youtube para os shows, das plataformas de streaming para os CDs, nem dos blogs para os zines impressos. Como estimular essas pessoas a ter uma mudança de atitude? Acho que falta planejamento, uma autorreflexão e mudança de atitude da nossa parte.

São 25 anos fazendo um Brutal Death Metal com temática Splatter. Sempre seguindo em linha reta sem mudanças experimentais no decorrer do tempo. Isso é algo que sempre foi de comum acordo ou já tiveram problemas com integrantes que queriam experimentar ou criar algo que estava na “moda” ?

Yuri – O engraçado em responder a sua pergunta é que todos os registros da banda possuem uma sonoridade Death Metal e temática splatter. Entretanto, foi apenas em 1998 que a banda adotou essa sonoridade, antes as músicas estavam mais na linha Death Doom; as letras não seguiam uma única linha – algumas eram splatter, mas havia outras flertando com temas obscuros. Como não temos nenhuma gravação oficial dessa época (além de shows e ensaios), registra-se que sempre fomos Death Metal. No ano de 1998 a banda resolveu, de comum acordo, seguir a influência do CANNIBAL CORPSE e fazer um som mais rápido, mas também trazendo riffs marcantes, que grudassem no ouvido e colocassem a galera para bater cabeça. Mais ou menos nessa época, também estava explodindo o KRISIUN. Claro, houveram algumas discussões para tornar a banda ainda mais “metranqueira”… kkkk. Acho que esses ajustes eram fruto ainda de nossa busca por uma identidade própria. Acabou que resolvemos fazer um som ao nosso modo e os integrantes, subsequentemente, entendiam que não queríamos mudanças bruscas, embora sempre houvesse espaço para as influências individuais. Isso foi sendo lapidado ao longo do tempo – acho que finalmente encontramos a cara da DEFORMITY, já sem a veia CANNIBAL, no lançamento do EP, em 2016.

Formação 2009

Ainda falando nesse assunto, lembro que senão me engano em 1998, vocês tocaram no Festival Palco do Rock em Salvador. Fizeram um cover da música “Massacre” do Titãs e não foi um cover bem aceito pelo público presente. Vocês lembram disso ? Que lição tiraram desse fato?

Yuri – Bem lembrado. Cara, você desenterrou esse acontecimento lá do ano de 2000… kkkkk. Isso mesmo, achamos que Massacre era uma das música marcante dos TITÂS… para além das músicas mais palatáveis, com uma veia punk, peso e letra não usual. Achamos que seria interessante fazer uma versão dessa música mas, hoje, acho que cairia bem uma versão grind de “A Face do Destruidor”… kkkkk. Em nossa concepção, não havia problema algum em fazer esse cover, afinal, se tocam covers (também) como forma de homenagear determinada banda. Realmente, o público não gostou. A lição é que o artista deve conhecer o seu público, mas também que o artista tem que ter culhões para assumir suas posições. Nem sempre se consegue agradar a todos… kkkkk. Ficamos contentes com a nossa decisão, apesar do susto com a reação da galera.

Apesar do Diego Fleischer Grinder já está na banda há muitos anos, para mim, a base pútrida e doentia da banda na década de 90 sempre foi Júlio, Yuri e Lúcio! Mas de repente temos a notícia de que Lúcio após longos anos se desligou da banda. O que aconteceu?

Yuri – Cara, foi um acontecimento triste para todos nós, principalmente porque a base de uma banda underground é montada, antes de qualquer outra coisa, sobre a amizade. Infelizmente as coisas já não mais estavam como no início da banda. Além disso, a partir de 2014, a banda se lançou com maior afinco às atividades de divulgação, fazendo viagens pelo Nordeste e montando uma agenda mais frequente de shows. Acho que esse ritmo também acelerou a decisão de uma separação. Mesmo sentindo falta dele, acho que esse foi o melhor caminho a seguir. Muitas pessoas (e nós, inclusive) acharam que seria difícil substituir a versatilidade de Lucio nos vocais, mas, felizmente, Krusius está aí desenvolvendo um trabalho à altura. A música recém lançada, “Hacked, Boiled…”, mostra justamente o poderio do trabalho dele. Nos resta seguir em frente.

Tiveram dificuldade de encontrar um substituto para o Lúcio? Como encontraram o Krusius?

Krusius Barreto, 2018

Yuri – Acho que fica mais fácil explicar isso ao montar uma linha temporal… Em 2016 havia uma data para tocarmos em Natal, no The Ripper Fest. Até então, Tarcísio era o baixista, mas ele não poderia fazer essa data. Eu havia escutado sobre um cara de Alagoinhas que estava morando em Feira de Santana por conta dos seus estudos, e que ele tocava baixo e vocal na banda ÍMPIOS – era o Krusius. Resolvi conversar com ele para ele fazer o baixo conosco em Natal e ele topou, mesmo tendo pouco tempo para pegar o repertório. Nos demos tão bem com essa experiência que achamos que seria imprescindível tê-lo trabalhando conosco e assim aconteceu. Ele ficou durante algum tempo apenas no baixo, mas, em 2017, quando foi decidido pela saída de Lucio, Krusius foi o primeiro nome em mente. Acabamos jogamos esse presente (puta responsabilidade) no colo dele. Felizmente ele se adaptou bem, já que não é uma tarefa tão simples acumular as duas funções… Ele até passou no teste do público soteropolitano, que é bastante exigente!!! Kkkkkk… Enfim, estamos contentes com o trabalho desenvolvido por ele, pois ele possui um timbre próprio (que conseguimos casar com o trabalho da banda), interpretação própria das músicas, além de uma identidade firmada. Só fez somar ao trabalho da DEFORMITY. Tivemos sorte em encontra-lo.

E você, Krusius, como foi receber esse convite para assumir os vocais na Deformity BR?

Diego Fleischer Grinder, 2018

Krusius – Desesperador, a priori! A DEFORMITY BR fez parte do meu crescimento e formação como banger, enquanto que a própria já estava consolidada no cenário sem nenhum problema. Desde que fui chamado pra fazer parte da mesma, é uma sensação um tanto irreal estar tocando na banda que um dia já fora fanático por ela. É quase viver um sonho, sacou? E aí veio esse problema ao meu colo, substituir um ídolo da formação clássica da banda.. já mencionei que foi desesperador, não? (kkk) Várias ideias me ocorreram sobre como fazer esse papel e preservar a identidade de mais de 20 anos de banda sem fazer cópia, mas produzindo algo particular meu. Não digo que esse objetivo ainda foi atingido, mas estamos trabalhando em cima disso. Nessa compilação que está para sair agora em 2020, poderão perceber a mudança gritante de estética no vocal, afinal duas pessoas diferentes produzem sons completamente diferentes, porém o resultado final tem nos agradado e cada dia que passa trabalhamos mais pra alinhar essa “nova voz” ao nosso trabalho, o que já ocorre há algum tempo (principalmente para os outros membros que já estão aí há muito mais tempo).

Como está a formação hoje? Todos só tocam na DEFORMITY BR ou tem projetos paralelos?

Júlio Nascimento, 2018

Krusius – A formação hoje da DEFORMITY BR é bem sólida, apesar d’eu ser o mais novo em ingresso, me sinto muito bem apoiado nessa formação, que conta com dois membros originais, Yuri Hamayano e Júlio Nascimento, e com Diego Fleischer, que entre idas e vindas já tem anos vários anos na banda, tendo seu primeiro ingresso lá em 2000 e bolinha kkk. Em suma, eu e Diego temos bandas e projetos paralelos à DEFORMITY. Diego faz guitarra na ROTTEN CADAVERIC EXECRATION, bateria na ROTTENBROTH e por aí vai com outros 664 projetos… Eu me divido em assumir o baixo e voz tanto da ÍMPIOS, oriunda de Salvador com o nobre Emanoel Martirizador, que pra mim é uma grande honra e responsa!

Atualmente, uma banda já nasce lançando um EP ou single, no mínimo. No caso de vocês foram 15 anos até o debut “AnthroposDeadGoreDisgurtingPhagia. O que vocês acham de toda essa facilidade de gravação atualmente? E no caso da DEFORMITY, qual o motivo para uma discografia vamos dizer, enxuta ?

Yuri – Realmente, o acesso a gravações no final do século XX não era algo tão acessível, principalmente fora da capital baiana. Aqui em Feira de Santana, além dos altos valores e poucos estúdios, não haviam técnicos que entendessem da lógica de nossa música, tanto que a nossa primeira gravação foi efetuada em Salvador (uma única música). Claro, com o século XXI houve uma abertura do acesso à informação, além de melhor possibilidade de comprar um computador, adquirir programas (piratas), interfaces, etc. Assim, muitas pessoas possuem estúdios caseiros e fazem suas próprias produções. Por outro lado, acabou aumentando o número de estúdios profissionais e o valor tem estado mais factível devido a concorrência. Essa facilidade de acesso às gravações é ótimo para todos. Assim todos temos a possibilidade de gravar e compartilhar as ideias das músicas, testar arranjos, compor bateria, etc. Essa tecnologia ajuda bastante as atividades das bandas e algumas até fazem suas próprias produções a nível de divulgação (hoje sequer é essencial possuir um ótimo amplificador em casa, pois todo o processo já está digital). Claro, se hoje todos as bandas podem gravar mais facilmente, mais difícil será o processo para ganhar visibilidade. É engraçado como os paradigmas vão mudando com o tempo: no final dos anos 80, início dos anos 90, a banda que conseguisse um gravação, tinha um visibilidade incrível. Nessa época, até mesmo as compilações funcionavam incrivelmente bem; lembro da lendária “The Winds of a New Millennium” (vol. I em 95, vol. II em 97), com bandas que se consagraram no cenário nacional – muitas delas ativas até hoje, como MALKUTH, MALEFACTOR, VIOLATOR, MYTHOLOGICAL COLD TOWER, etc. Hoje, são tantas as bandas e os lançamentos, que é necessário estar muito atento para manter-se atualizado. Quanto aos poucos lançamentos, a DEFORMITY sempre teve um processo muito lento. Primeiro demoramos um pouco até definir o estilo que seguiríamos dentro do Death Metal; a inexperiência e a falta de dinheiro também contabilizaram para o tempo até os primeiros registros. Mesmo após o primeiro álbum, o problema temporal entre os lançamentos persistiu, dessa vez devido ao lento processo de composição, mesmo tendo integrantes que perduravam desde o início da banda. Eu, por exemplo, nunca gastei energia para aprender a tocar um instrumento de harmonia, enquanto que Julio acabou perdendo o contato com a sua veia criativa e há muito tempo não consegue compor nada. Diego acabou assumindo o posto de compositor, ajudando a imprimir uma nova cara ao som da banda. Hoje, incentivamos o Krusius a também participar desse processo de composição, mas as coisas ainda andam lentas… kkkkk

Em comemoração aos 25 anos de banda, anunciaram o lançamento de um trabalho para os próximos meses. Fale um pouco mais do que está por vir aos nossos leitores.

Yuri – Isso mesmo. Não haveria como deixar de comemorar o marco dos 25 anos de banda. E nesse ano atípico, o melhor mesmo foi preparar o lançamento de um material, já que não haveria a possibilidade de uma comemoração física. Fizemos o registro da música inédita “Hacked, Boiled, Dismembered, Butchered” no segundo semestre de 2019, então surgiu a ideia de inclui-la no material e montar uma compilação com as demos. Muitas pessoas nos questionavam sobre a disponibilização das demos, mas nunca paramos para trabalhar nisso. Acho que essa foi a melhor oportunidade de todas para, finalmente, colocar novamente as demos para rodar. Para tal, resolvemos fazer o processo de remasterização dessas músicas, a fim de criar um clima ligeiramente diferente do original e tentar corrigir alguns problemas na equalização geral. Para completar o presente comemorativo, pensamos que seria muito legal em apresentar uma arte feita a mão, e foi assim que pensamos no Emerson Maia para essa tarefa. Ou seja, será um lançamento cuidadosamente planejado para representar a retrospectiva de nossa trajetória.

E Alguma novidade prevista para 2021 ? O que pode nos adiantar?

Yuri – Caso o mundo não acabe até lá, a ideia é entrar em estúdio para preparar novo material. O nosso último lançamento com músicas inéditas ocorreu em 2016, assim estaria mais que na hora de lançar músicas novas. Para viabilizar isso, já fizemos uma negociação com um estúdio e nos falta mesmo é preparar e finalizar as músicas. A ideia é ter um lançamento com 6 músicas inéditas, mais uma, ou duas, surpresas na forma de um tributo a trabalhos de outras bandas. As ideias já estão fervilhando aqui… Pensamos em manter o desenvolvimento de uma arte por um artista plástico, já estamos em contato com um selo para fazer a parceria, mas o distanciamento social ainda está nos atrapalhando imensamente. Além disso, a banda está completamente dispersa com Krusius em Alagoinhas, Diego em Salvador, enquanto que os demais em Feira de Santana (sem contato algum). Existem muitos planos, mas também muitas dúvidas.

Meu velho amigo Yuri e nobre Krusius. Agradeço imensamente em nome da LUCIFER RISING por essa entrevista. Grande satisfação pessoal fazer depois de mais de duas décadas, uma nova entrevista com a DEFORMITY BR. Deixem suas considerações finais…

Krusius – Nós que agradecemos, nos sentimos lisonjeados de fazer parte desta entrevista, tornando esse pedaço da nossa história eternizada na Lucifer Rising. Obrigado pelo espaço concedido e pelo convite.

Yuri – Grande Giovan, é sempre uma satisfação poder conversar contigo, embora não tenhamos nos visto tão frequentemente nesses últimos tempos. Somos nós a agradecer, novamente, pela força, pelo apoio e pelo espaço. Estamos ansiosos para poder compartilhar com todos o lançamento da compilação, assim como o material e as novidades que estão por vir em 2021. Espero que retornemos, o mais breve possível, à normalidade. Assim poderemos brindar num desses shows após o final do mundo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Giovan Dias

Editor do The Glory Of Pagan Fire Zine, trabalho iniciado ainda na década de 90, voltado ao Black, Death, Doom Metal.

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