Entrevistas

DENIED REDEMPTION – Música Mórbida e Obscura para um Tema Igualmente Mórbido e Obscuro

Denied Redemption, banda de black metal de DF, formada em 2005. Possui duas demos, um full lenght e um split lançado esse ano (2019) com o poderoso Vultos Vocíferos.
Nesta entrevista, o guitarrista Baphomenum Antichrist compartilha com muita erudição e profundidade a ótica da Denied Redemption. Caos!

“Não existe salvação, proteção ou auxílio que não sejam provenientes da própria Vontade. Ninguém age contra a Vontade, e mesmo assim ela age segundo nossos passos.”

“Os olhos da serpente brilharam e devem durar para sempre”
Saudações! Obrigada por aceitar o convite. A Denied Redemption é uma expressão ocultista. O que as letras representam para vocês, no dia a dia?

Baphomenum Antichrist, Foto Por: Divulgação

Baphomenum Antichrist – Saudações Sophia, agradecemos pela oportunidade de expor nossas reflexões holísticas sobre os signos que nos cerca a partir da visão artística, “ideológica” (baseado na falsa consciência), mística e política. São raras e privilegiadas oportunidades de termos interlocutores que nos instiguem a tecer considerações tão amplas.
De uma forma geral toda concepção relacionada a Confraria partem de meditações e conclusões esotéricas que se concretizam em uma expressão exotérica. Isso não significa que por si só possuam uma lógica concreta, mas apenas âncora, que juntamente com o lodo de nossa experiência humana formam um amálgama mórfico. Partindo disso acredito que a autofagia – sob a luz de nossa vivência diária – se dá em uma eterna conciliação e despedida com nossa consciência primal, encarar cada pulsar como um tatear a beira do abismo, perder-se na jornada interna sem nenhum anseio de resgate. Não existe salvação, proteção ou auxílio que não sejam provenientes da própria Vontade. Ninguém age contra a Vontade, e mesmo assim ela age segundo nossos passos.

O trabalho de composição é bem particular. Foi produzido inicialmente por um membro só?

Baphomenum Antichrist – Exatamente! Necrogoat, é membro fundador e mentor intelectual da cf. Denied Redemption. Foi dele a concepção e estrutura de todo o arcabouço temático que regeu as primeiras obras e, sem dúvida, nos legou importantes orientações para as demais emanações. Sob sua persona social, publicou as obras “Sociedades Secretas – Um Breve Panorama por Trás do Véu” e “Maçonaria – Uma Abordagem Histórica e Filosófica”, além de ser extremamente ativo nas diversas expressões da arte negra, principalmente ao que concerne ao nosso Necro Underground. Mesmo não compondo formalmente o nosso círculo, levamos o seu axioma à ponta da lança: “música mórbida e obscura como fundo para um tema igualmente mórbido e obscuro”.

“Possuir e ao mesmo ser possuído pela egrégora é o deleite do delírio e o emergir das vozes que sibilam no silêncio.”

Zalmonix Cervicapri, Foto Por: Divulgação

A Denied Redemption vai dos vocais limpos e inteligíveis, passando por vocais raw rasgados. E até vocais dsbm, semelhante ao Natthramn do Silencer. Há um propósito particular para essas variações?

Baphomenum Antichrist – Invariavelmente, antes de compor a cf. Denied Redemption os membros já tinham vivências dentro do metal negro, vociferando sob outras alcunhas. Quando inseridos nessa nova experiência, alguns conceitos pessoais foram abissalmente alterados, mas fez-se ecoar essas pretéritas emanações. Possuir e ao mesmo ser possuído pela egrégora é o deleite do delírio e o emergir das vozes que sibilam no silêncio. Isso influencia diretamente toda a concepção lírica, demandando a entrega pessoal em canções dissonantes, narrativas, citações, brado do âmago. Se há um propósito arriscamos atribuir como vislumbre do caos ao qual experimentamos.

Como as percepções de vocês sobre o mundo interpretam essa época de fanatismo e polarizações que estamos vivendo?

Baphomenum Antichrist – Nos seduz a ideia repetir as palavras do “demônio” apresentado por Nietzsche em “A Gaia e a Ciência”, ao conceber uma natureza cíclica aos passos do tempo, a ponto de que a ampulheta sempre será virada outra vez, e cada dor e cada prazer há de retornar. No entanto os ares austrais faze-nos supor que esse convulsionismo não é acaso, e sim projeto. É inegável o vilipêndio da memória através de um revisionismo histórico débil. Surpreende-nos que muitas vozes de ordens iniciáticas ou mesmo do metal negro se posicionem ao lado, e em sintonia a discursos comuns a conglomerados neopentecostais. Além de expurgos ultra nacionalistas, racistas e homofóbicos. Urge nos posicionar, é óbvio, nosso antagonismo a essa via.

“O Metal Negro Pátrio teve êxito em fomentar um movimento que tinha muito a dizer, se discernindo do eclodir de banalidade europeias e pseudo satânicas”

Mist, Foto Por: Divulgação

Quais as principais influências? O som de vocês soa único, parece ter influência de hordas bem diferentes.

Baphomenum Antichrist – O fato de soarmos diferentes, pode ser explicado por termos vivência em uma atmosfera em que eram outros os ideais e outro o sentimento que envolvia o Black Metal em si. O Metal Negro Pátrio teve êxito em fomentar um movimento que tinha muito a dizer, se discernindo do eclodir de banalidade europeias e pseudo satânicas. Observamos no movimento sonoridades e posturas fundacionais, uma entrega mais coesa e verdadeira, visceral em diversos sentidos, e isso sem dúvida nos influenciou frontalmente. Fazer apontamentos específicos seria pecar com a própria Mnemosine, mas acredito que o Planalto Central seja um grande catalisador dessa atmosfera vinda de diversas hordas.

Quais livros ou outra forma de arte inspiram as composições? Reparei que, no álbum “Egregora Tenebrae” tem tracks usadas no filme “A Profecia”, por exemplo.

Baphomenum Antichrist – É uma questão de sintonia. Inspiração e loucura são termos que se confundem ao trabalhar com essas forças e a propriedade em defini-las é bem etérea. Quando imersos em uma intenção trava-se vários diálogos com lembranças, pensamentos, sons, imagens, silêncio, sem uma limitação formica. A ideologia propagada pela cf. Denied Redemption é embasada nas diversas linhas de conhecimentos filosóficos, e ocultos. Tratando sobre obras literárias alguns nomes saltam-nos como: Edward Kelley, John Dee, Gérard Encausse, Heinrich Cornelius Agrippa, Eliphas Levi, Kenneth Grant, Aleister Crowley, Jack Parsons, Dion Fortune, H.P Lovecraft, Pharzhuph, Marcelo Ramos Motta, Euclydes Lacerda. Na sétima arte a supracitada obra em específico de Graham Baker, Kenneth Anger, Alejandro Jodorowsky. Os quadrinista Alan Moore, Neil Gaiman, Lourenço Mutarelli, isso em uma hercúlea e sintética tentativa de listagem exemplificativa.

“Esse evolver (sobre apresentações ao vivo) torna claro que o propósito não se restringe à manifestação musical, com toda certeza vai além. Nada mais natural que exista um certo zelo ao se propor-se a essa entrega”

N.N.V., Foto Por: Divulgação

Como vocês vêem a experiência de tocar ao vivo?

Baphomenum Antichrist – Uma catarse. Não por vaidade ou orgulho, mas justamente por ser um momento privilegiado de comunhão de propósitos. Acende-se a chama negra alimentada por nossas paixões, o tempo extingue-se em um deleite epicurista, congrega-se o vinho ao lado de heresiastas, compartilham-se histórias. Esse evolver torna claro que o propósito não se restringe à manifestação musical, com toda certeza vai além. Nada mais natural que exista um certo zelo ao se propor-se a essa entrega. Orgulhamo-nos de todas as oportunidades ao qual nos foi permitido professar nosso vaticínio.

A obra lírica de vocês é dedicada, possui cuidado e erudição na escolha das palavras. E ainda tem referências hebraicas, da cabala em inglês e em latim. Há a intenção de ser inacessível ou é apenas a construção natural segundo a temática?

Baphomenum Antichrist – Acreditamos que apesar de trabalhar de forma profunda o círculo simbólico tudo se concebe como um ornamento, um véu sobre a pedra oculta. A cada interlocutor esses elementos irão ou alcançar o místico ou se restringir-se a estética. Os nossos interlocutores poderiam supor que a narrativa só pode ser compreensível por poucos, inacessível ao não iniciado, mas acreditamos que o fato de lançarmos nossas reflexões aos seguidores da Arte Negra cada palavra pode ser a fagulha da chama interna, então inexiste uma intenção clara de restrição além dos próprios elementos. Sobre a escolha linguística, como a concepção é rigorosamente coletiva para alguns de nossos confrades se torna mais natural conceber em inglês pela riqueza de fontes em tal língua, a outros a poética da língua pátria permite devaneios sem amarras, os demais elementos são termos insignes da práxis ocultista.

Igniferos.,Foto por: divulgação.

No metal negro underground há muito uso de simbologias. Esteticamente, inclusive, esse é o mais identitário elemento do gênero, a relação com ocultismo, anticristianismo e satanismo. Eu observo uma tendência desse processo seguir uma ordem que considero invertida: primeiro há a identificação com o som e, depois, há a apropriação desses símbolos não pelo seu significado próprio, mas por aquele símbolo “representar” o black metal. O que você pensa a respeito disso?

Baphomenum Antichrist – Nem todo apreciador do estilo será um magista, e nem todo o magista apreciará o estilo. Mas de qualquer forma, dialogam muito bem entre si. Primeiramente, deve-se pontuar que o Black Metal é um movimento que possui uma filosofia própria, muito além da estética e se calca em elementos que não são genuinamente próprios – como absolutamente tudo, inclusive a linguística – mas possui um conjunto de significados singulares. Acreditamos que qualquer coisa possui o valor que se atribui a ele e a verdadeira alquimia está além do simbólico, e não apesar dele.

Vocês farão parte de um dos eventos do metal negro underground que mais me chamou a atenção neste ano. Fale um pouco sobre:

Baphomenum Antichrist – Será a primeira vez em que estaremos em São Paulo. Nos parece bastante auspicioso compor o mais tradicional festival de inverno de nosso underground. O festival Malefic Cold Weather Underground Fest brinda a mais de duas décadas os ascetas da arte negra com grandes nomes de nosso Necro Underground. Em sua XI edição iremos compor essa heresia ao lado de Promethean Gate, Blazing Corpse e Lábar’Oculto. Com certeza uma noite negra que ficará na memória.

(V.I. · .A. · .O. · .V.) | Ritual “7” Split”

Este ano vocês lançaram um split com o Vultos Vociferos, com uma faixa cada banda. Fale sobre esse lançamento:

Baphomenum Antichrist – (VI · .A. · .O · .V.) | Ritual é um Split idealizado por nosso selo Misanthropic Records. Apresenta duas liturgias em português, ode à insanidade. Em meio a visões da natureza soberba e impregnada de misticismo, é um vislumbre ícone da profanação emanada neste ponto do planalto central. A esplêndida composição visual e diagramação levam a assinatura de Paolo Bruno. Tudo isso substanciado no formato vinil 7 polegadas.

Obrigada por compartilhar suas aspirações. Fica este espaço aberto para sua expressão.

Baphomenum Antichrist – Reiteramos nossos agradecimentos por nos instar a um diálogo profundo de questões tão caras a essa Confraria. Saudamos a todos que mergulharam nas linhas dessa incursão. Aos que se sentiram instados, convido-os a um momento privilegiado de expansão no Malefic Cold Weather Underground Fest. Aos cultistas recomendamos a experiência da audição do 7ep Split (VI · .A. · .O · .V.) | Ritual. No mais…estaremos ombro a ombro nas noites infindáveis do culto negro.

Obrigada por compartilhar suas aspirações. Que a negra chama nunca deixe de queimar! Caos!

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Sophia Losterh

Editora do zine Natimorto e organiza eventos de metal extremo underground em SP. Amante das expressões blasfemas de arte. Hail caos, Hail metal negro!

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