Coberturas

FAUSTIAN RITES OVER LATIN AMERICA

Vic Club - 20/06/2019 - São Paulo/SP

Dia 20 de junho de 2019, a Storm Productions realiza o evento “Faustian Rites Over” em São Paulo, com a lenda do occult black metal grego Acherontas! O cast foi formado pelas hordas Black Achemoth, Wolflust e Walsung. Acherontas sempre foi uma entidade bem cotada para vir ao Brasil e possui um público bastante fiel. É um dos pioneiros de uma grande leva de bandas que estão seguindo pelo caminho místico, filosófico e introspectivo, com referências de culturas diferentes a esse respeito, nas letras, na imagem, no instrumental, quanto em suas vidas particulares. Algo que pode ser descrito como a música além da própria música. Um sentimento individual evolutivo a serviço de uma ideia de genuíno interesse e devoção pelo oculto. Inclusive, a endossar essa afirmação, ao concluírem suas atividades em nosso território fizeram passagens por antigos territórios incas nos países vizinhos, a fim de suprir um interesse verdadeiro. Essa turnê é do álbum mais novo da entidade Acherontas (2018), o terceiro da trilogia que iniciou em “Ma Ion” (neste ano, 2019, inclusive saiu um box dessa trilogia “Formulas of Reptilian Unification”). Segundo a própria banda, “Faustian Ethon” é “o capítulo mais intenso, profundo e apócrifo da trilogia”.

O local

O local do evento foi o VIC Club, casa localizada no centro de São Paulo, entre o metrô Santa Cecília e o metrô República. Em poucos anos tornou-se uma boa opção para eventos de médio porte, oferecendo estrutura de áudio, localização e espaço adequados. O VIC é comprido; bar, palco e distros ficam no mesmo piso.
Na data havia um público diverso; via-se desde camisetas do Oligarquia a camisetas do Der Strumer; pessoas de regiões diferentes, não apenas da cidade de São Paulo como do estado, de outras regiões do país e, conforme anunciado pelo produtor Robson Arulac, público de outros países. O evento foi oficialmente fotografado por Diego Vieira e a distro Hammer of Damnation estava com um stand vendendo seus materiais.
A Storm Productions é uma produtora bastante presente no underground extremo de São Paulo, geralmente trazendo bandas inéditas para o país ou para o estado. Fez uma boa divulgação, incluindo banners e chamadas em vídeo. Acho interessante comentar que, esse recurso de fazer chamadas em vídeo é relativamente recente, começou a ser mais usado há cerca de dois anos.
Às 18h havia um público significativo nas redondezas da casa. O evento começou às 18h30min, com a Black Achemoth.

Black Achemoth, Foto por: Diego Vieira

Abertura: Black Achemoth

Black Achemoth é uma horda black metal de São Paulo, de 2003. Possui uma demo, um split, dois debuts e participou de duas coletâneas. Conta com Molock (vocal), Vekum (guitarra), Dubh (baixo) e Despoutopoulos (guitarra).

O áudio do VIC Club estava muito bom e foi possível entender bem todos os instrumentos, o que no caso de uma banda como a Black Achemoth, que tem bastantes detalhes na composição, é muito importante. Baixo e guitarra solo fizeram um bom duo e especificamente nesses dois membros, pode-se notar muito sentimento na execução das faixas. Detalhe também para os backing vocals do baixista. Essa horda, apesar de ser aqui de São Paulo, não tem o hábito de se apresentar ao vivo com frequência, geralmente selecionam um evento ao ano para participar na cidade.
Na segunda faixa, “Bring the Darkness to your Kingdom”, chamou bastante atenção a marcação da bateria. Máquina de guerra! E olha que no dia recebi a informação de que este integrante não estava bem de saúde (infelizmente, até a presente data dessa publicação não recebi informação de melhoras, tomara que o demônio dos tambores recupere-se rápido!). Na faixa “Darkness”, um som denso e obscuro, ocorreu um probleminha na guitarra solo que foi resolvido rápido, mas os demais membros, principalmente a guitarra base, conseguiram cobrir a falha de modo a não perder a imersão e intensidade da apresentação. Em “Revealing the Somber Powers of Hell”, execução muito foda do baixista, caótico, o áudio tinha força e introsamento pontual da banda. Observa-se que a Black Achemoth é uma horda bem ensaiada e que compõe com dedicação. A seriedade transmitida é latente. Na “The Splendor of the Black Art” uma das músicas mais fortes da apresentação, o refrão ecoou no VIC Club. A essa altura já estavam reunidas bastantes pessoas em torno do palco. Em eventos que contam com a participação de bandas grandes, muitas pessoas acabam por presenciar apenas a última banda por questões banais. Infelizmente, esse é um hábito de parte da cena de metal extremo underground de São Paulo. Não que com isso eu queira determinar o que é certo ou errado na atitude de cada um, mas ao conversar com algumas pessoas percebemos não um discurso de identificação e sim de status: estar presente por simplesmente querer marcar presença em um evento grande. E, superando a mediocridade de alguns discursos tacanhos, a Black Achemoth conseguiu, na escuridão de suas vozes e cordas e no ecoar de seus tambores, já na abertura, atrair um bom número de demônios da área de fumantes para dentro do VIC. Encerram a apresentação magistralmente com a faixa “Satan Come Forth… Your Unholy Black Tower. I Am.” Eis uma horda que reúne força no feeling e técnica!

Wolflust, Foto por: Diego Vieira

2° manifestação: Wolflust

2° manifestação: Wolflust

Após uma pausa conforme o previsto, exatamente às 19h30min inicia o Wolflust, um duo violento formado por C. (vocal e guitarra) e T. (bateria). Na apresentação, também contou com baixista, Bruno Schimidt (membro live do Wolflust, possui um projeto one man band chamado Divulsor). Com uma introdução blasfema e luxuriosa, onde uma mulher copula com um demônio. Os gemidos eram bem altos, o que observei gerar uma reação de incômodo em algumas pessoas da platéia. Interessante como uma referência antiga (como “The Lust”, Rotting – Sarcófago) ainda pode gerar incômodo no cenário negro. Certamente intencional que isso acontecesse e blasfêmia é para isso mesmo, para romper moralismos. Até a segunda faixa senti a sonoridade um pouco diferente. Na “Murder Crucifixion”, terceira faixa, o nome da faixa entoado no VIC introduz um sentimento de ódio bestial que só ia crescer cada vez mais nos sons a seguir! A apresentação seguiu até um cover de “Satanic Lust”, do Sarcófago. Gostei da escolha. Além do som em si, também porque com certa frequência escolhem “Nightmare” quando se trata de cover da banda supracitada. Observei uma situação: as cordas da guitarra do vocal não estavam enroladas na estrutura de afinação, estavam soltas. E ele agitava o cabelo de forma circular, tive por vários momentos a impressão de que a cara dele iria pegar no aço das cordas! Deixou a apresentação ainda mais odiosa esse detalhe.
A partir da quarta faixa, veio uma onda war de pura ignorância e fúria absoluta. O baterista Trojillo (inclusive trajado com a devastadora Diabolical Messiah) DESTRUIU o instrumento, puro tanque odioso de guerra! A guitarra ficou absolutamente insana! Dessa faixa até a última, foi pura pancada de ódio e intolerância de todos! Subiu uma onda e possessão agressiva, bangers agitando pentagrama descendo o braço, frenéticos, com a quarta faixa “March of Infernal Legions” e a quinta faixa “Bestial Desecration”! E êxtase total na última, um cover destruidor da “Blasphemer” do Sodom, que encerrou com total poder de fogo a apresentação. A manifestação foi curta, mas carregada da pura lava vulcânica da qual é feito o gênero! Brutais maníacos do war e do black/death metal que ainda não ouviram ou presenciaram essa sessão de escalpos, certamente apreciarão tamanha devassidão e impacto sonoro. Apesar das demais apresentações possuírem mais instrumentistas, a apresentação do Wolflust não ficou para trás em energia e trouxe um contraponto de calamidade muito interessante ao cast! Incineraram a porra toda!

Walsung, Foto por: Diego Vieira

3° manifestação: Walsung

Anunciado como a única apresentação que fariam nesse ano, pontualmente, às 20h30min, inicia o pagan black metal da Walsung. Nesse horário a casa estava mais cheia e muitas pessoas se posicionam próximo ao palco. À luz vermelha, em um palco com candelabros, estandartes com sóis negros e um indígena, provável referência ao sangue ancestral; e parte lírica sob diretrizes enfatizadas pela banda em sua divulgação “somos contra o mundo moderno” e “a degeneração do homem começa com a distorção da cultura e dos costumes”, entram os integrantes, cobertos por capuzes. Com o primeiro trabalho lançado em 2016, um full-length e três splits, Walsung é originalmente um duo (Nidhogg na bateria e Oldwolf nos demais instrumentos, parte lírica e voz). Para essa manifestação, incorporou Dizruptor (Carpatus) no baixo e Spiritlord na guitarra. Parte do público que era específico da região do ABC – alguns fazem raras presenças nos eventos na cidade de São Paulo – aproximam-se do palco com certa dificuldade, pois nesse momento a casa está mais cheia e já começa a se tornar difícil garantir uma posição com boa visibilidade sem entrar em um aglomerado.
Iniciada a apresentação. Todos demonstram habilidade, produzindo um som preenchido, frio e preciso. A faixa “Autumn Aurora”, do split com o Blutfahne, tem muito feeling. Nas vozes, nos riffs, apesar do instrumental simples. Seguido da faixa “Wolf’s Journey”, que cobriu o ambiente com uma luz roxa aumentando a atmosfera. Destaque para um vocal limpo e potente, intercalado com duos. Na faixa “The Hammer Fall on Them”, houve uma pequena dificuldade no início no vocal – talvez relacionado a algum problema no pedestal, como ocorreu na banda seguinte e a voz saiu distante. Mas logo foi resolvido, a situação foi bem breve. O baixista fez backing vocals que ajudaram no preenchimento do som. Na faixa “The Call of the Owl”, o riff é poético e forte, épico. O vocal é rasgado em medida ideal para faixa, sem exageros; uma boa combinação entre o uso da voz, equipamento utilizado e composição. Sob a fúria de uma iluminação vermelha começa “We Bring your Death”, cover do Evil, sobe ao palco para fazer a voz o próprio vocalista do Evil, Warlord. Essa faixa de levada punk gera bastante empolgação dos presentes frente ao palco, que conheciam a letra.
A apresentação encerra com a melhor construção de som dessa manifestação, “Last Breath of a Nation”. O trabalho instrumental da Walsung é de nível alto, criativo e introspectivo. E a apresentação foi competente. Observa-se empenho e investimento ao que fazem, a analisar do instrumental a estrutura que montaram no palco, para representar os símbolos de sua parte lírica. Segundo a produção do evento durante a divulgação, estão estudando uma turnê na Europa e talvez tenha sido o último show que fazem por aqui.

Acherontas, Foto por: Diego Vieira

Encerramento: Acherontas

Após uma pausa, às 21h37min inicia o Acherontas. O VIC estava cheio nesse momento. Entram os membros Dothun e Hierophant e V. Priest com os rostos cobertos de modo a aparecer apenas os olhos. O Acherontas está atualmente com 5 membros na formação: V. Priest (vocal e guitarra), Dothun (bateria), Hierophant (baixo), Indra (guitarra) e Saevus H (guitarra). Na formação do coven ao qual presenciei, o baixista Hierophant fez a segunda guitarra, logo tocaram sem o baixo. Me perguntei como ficaria isso, já que o Acherontas tem um som preenchido e submersivo. Importante dizer que os três membros são da formação do último álbum “Faustian Ethon”, a quem o nome do evento faz referência. Na primeira faixa “Interlude”, já senti a sonoridade um pouco diferente das demais apresentações, mais potente. Talvez a aparelhagem tenha sido trazida pela própria banda. Todos os instrumentos muito nítidos. Em determinado momento o microfone cai – mas foi resolvido bem rápido, o assistente de palco estava atento e logo reposicionou. Mas parecia haver alguma instabilidade com o pedestal, que persiste na segunda faixa. V. Priest chega a reclamar. Resolvida a questão, vem a terceira faixa “The Lamp of the Deserts”. Ao início de cada som, V. Priest e o segundo guitarrista se virar de costas para o público. A quarta faixa, “Sorcery and the Apeiron” é extremamente imersiva. Eu olhei ao redor e o que encontrei foram pessoas absolutamente compenetradas. Nesse ponto da manifestação o áudio era quase personificado, como uma energia muito forte presente. Minha faixa favorita da apresentação – provavelmente contrariando a maioria, que teve seu maior momento de euforia na música seguinte -, foi “Conjuration of the Five Negatives”. Apesar da ausência do baixo ser sim notada, puta que pariu que rito. O som mais maligno e de energia mais escura que ouvi na data. Parecia uma espécie de ruído branco bloqueando qualquer interferência externa; a luz azul era bastante forte, parecia tomar todo o ambiente interno. Como se os ouvintes fossem levados a algum tipo de plano diferente. Foi possível isolar-se completamente, apesar dos muitos presentes e de certa aglomeração próximo ao palco. Tanto que, em minhas notas durante a apresentação, me limitei a escrever sobre a experiência um adjetivo bastante usado por um amigo que julguei adequado: supremo.
Enfim inicia a aguardada “Legacy of Tiamat”, a faixa mais conhecida do Acherontas, que levou os presentes ao êxtase imediato nas primeiras notas. O som dos pratos de Dothur, muito bem trabalhados nessa faixa, ecoavam em pura beleza metálica pela casa! As cordas tocavam com bastante perfeição e a presença de palco incrível. Vem com a magistral “Blood Current Illumination” do álbum Vamachara e a total dedicação do membro da Temple of the Vampire em “Wampyric Metamorphosis” do álbum de 2004 “And Cosmos from Ashes to Dust…”, do Stutthof. Execução de mestre. Em seguida logo um combo do que considero um dos melhores álbum da banda, “Ma Ion”, com “Fires ov Prometheus” e a faixa-título “Ma Ion”. Apresentação incrível de ambas as faixas, com uma resposta de total compenetração do público. As músicas do Acherontas tem inerente culto e contemplação de uma banda que não mantém seu título de pioneiros do gênero por questões mais triviais como desde qual ano produzem tal sonoridade e sim pela energia que de fato transmitem em suas notas. O mérito não está no tempo e sim no que transcende a ele; que é a permanência, algo que manteve-se real a essência a cada álbum. Por fim, “Horned Moon”, do projeto Stutthot. Ao saírem, deixam o palco e a platéia novamente sequer se move. Passaram cerca de dez minutos para que a casa acendesse as luzes e tirasse o público no transe que estava emergido. Durante o show houve situação igual, um momento de pausa, sem maiores avisos. A platéia estática demorou um pouco para começar a se mover em direção ao bar, apesar de os instrumentos ainda estarem no palco e ser nítido que logo voltariam.
Sem dúvida, o Acherontas por essas terras, foi algo muito diferenciado. As faixas cobriram bem a medida do possível diferentes fases da banda. O evento inteiro, desde a escolha do cast até o público foi algo atípico. Muitos saíram comentando que tratou-se de um dos melhores shows internacionais que já aconteceram nessa cidade.

Black Achemoth
1. A Ígnea Morada do Belicoso Marte
2. Bring the Darkness to your Kingdom
3. Darkness
4. Revealing the Somber Powers of Hell
5. Regina Lilith
6. The Splendor of the Black Art
7. Satan Come Forth… Your Unholy Black Tower. I Am

Fotos:

Wolflust
Intro
1. Under Satan’s Command
2. Morbid Crucifixion
3. Satanic lust (Sarcófago)
4. March of Infernal Legions
5. Bestial Desecration
6. Blasphemer (Sodom)

Fotos:

Walsung
Spectral Renovation
Autumn Aurora
Wolf’s Journey
The Hammer Fall on Them
The Call of the Owl
We Bring your Death (Evil cover)
Last Breath of a Nation

Fotos:

Acherontas
Interlude
Amenti
The Lamp of the Desertse
Sorcery and the Apeiron
Conjuration of the five Negatives
Legacy of Tiamat
Blood Current Illumination
Wampyric Metamorphosis
Intro encore – Fires ov prometheus-
Ma Ion
Horned Moon

Fotos:

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Sophia Losterh

Editora do zine Natimorto e organiza eventos de metal extremo underground em SP. Amante das expressões blasfemas de arte. Hail caos, Hail metal negro!
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