Entrevistas

Fenriz – “Hoje o Darkthrone é como um organismo vivo em mutação”

 

Talvez um dos maiores nomes do Black Metal mundial. Fundado em 1986 e com grande influência de Bathory e Celtic Frost, o Darkthrone se tornou um dos grandes líderes do black metal norueguês. Seus três primeiros discos de black metal — A Blaze in the Northern Sky, Under a Funeral Moon e Transilvanian Hunger (as vezes apelidados de “Unholy Trinity”) — são considerados o ápice da carreira da banda e figuram entre os mais influentes do gênero.

Desde 1993 a banda é um duo entre Fenriz e Nocturno Culto e se mantém afastada do mainstream. Além disso a banda recentemente vem incorporando Heavy Metal, Punk e Speed Metal ao seu som, o que os tornam bem característicos, uma iguaria do metal extremo.

A entrevista foi realizada em Agosto e desde o lançamento de Old Star em Maio, venho tentando entrar em contato com Fenriz ou Nocturno Culto, enfim, após inúmeras tentativas frustradas e muita insistência, consegui conversar um bom tempo com Fenriz via skype e o que segue abaixo é a tradução pontual de tudo que foi conversado. O que parecia ser algo ríspido de início, tornou-se uma conversa agradável para além do álbum Old Star. Uma das entrevistas mais difíceis que pode realizar, nada melhor para finalizar o ano com chave de ouro!

Confiram!

 

Ricky Lunardello: Olá Fenriz, obrigado pelo seu tempo. Você deve ser a pessoa mais difícil de contactar do Black Metal.

Gylve Fenris “Fenriz” Nagell: “Se não fosse underground, não seria Black Metal. Obrigado por contactar. (risos). Há muita burocracia envolvendo a banda e tudo o mais.

Desde 2016 estávamos aguardando algo novo e Old Star foi um “boom” desde o lançamento.

“Fenriz”: Old Star é uma sequência. Ele é a continuação de “Artic Thunder”. Naquele álbum as músicas eram mais Black Metal e eu quis continuar com algo mais sombrio e no mesmo estilo. Mas levando mais além, esta era a ideia do “Nocturno Culto”. Apesar de ser mais lento, mas ele é a sequência exata, não dá para prever o que vai sair quando nos reunimos.

 Se pudéssemos voltar ao início do Darkthrone e perguntar como você descreve o som que fazem, o que você diria?

“Fenriz”: Ah, a banda, achei que seria sobre Black Metal em geral, não só sobre a banda (risos). O Darkthrone é a soma de tudo que eu já ouvi na vida. Sabe, é um resultado de tudo que vem no seu caminho quando tento escrever uma música. Gravei algo tipo “merda1” e “merda2” e isso é Darkthrone e fui dando sequência. Mas no início eu acho que a meta era assinar com um selo, mas isso estava muito além do que podíamos. E no início o Darkthrone era um pouco de Celtic Frost e um pouco de Metallica também e um vocal mais Death Metal e tudo isso misturado  Até que eu abri mais o espaço e outros contribuíram, Ted assumiu os vocais e chegamos à direção atual. Mas Slayer e Celtic Frost foram as razões de eu iniciar uma banda.

Darkthrone (Divulgação)

 E o corpse painting? De onde ele surgiu? Do Sarcófago? do Kiss? Várias bandas começaram a utilizar.

“Fenriz”: De tudo isso acho. A minha pintura de “morto” era bem genérica, era o que geralmente faziam e no underground, pelo menos uma em cada 20 bandas tinha uma pintura parecida.

E por que você gostava de usar o corpse paint?

“Fenriz”: Eu não gostava de usar isso nem um pouco (risos).  Lembro que a primeira vez que tive que usar foi para um vídeo e eu não tinha essa coisa. Então raspei um lápis de grafite e passei embaixo dos olhos e ficou tipo o que o Slayer fazia no início. Sem nada de branco em volta. Mas deu certo porque era o objetivo fazer e a música era meio death metal, então deu certo. E você pode usar corpse paint se faz death metal também, não é regra.

Então você curtia o visual que a imagem causava.

“Fenriz”: Não cara (risos), não tinha grana, não lucrávamos nem tínhamos a pintura. Fizemos algumas vezes e para uns shows na Finlândia e promos.

 Com o passar do tempo e dos anos 90, os anos 2000, o Black Metal inflou, mudou, ganhou outros ares. Evoluiu, porque pra você manter as raízes primitivas é tão importante? Você tem um ponto interessante de focar em um som criado e específico, fechado ao mundo exterior.

“Fenriz”: Mas essa é a única maneira. O que nós realmente queremos? Veja o caso do Jimi Hendrix  que acabou acatando tudo de sua época e misturando elementos sem frear e não dá, não é certo. Tudo tem seu lugar.

A regra então é preservar?

“Fenriz”: Não, eu quero que as coisas soem como elas devem soar. Bateria com cara de bateria, sem me preocupar em forçar as coisas para soar bem no rádio ou em mp3, ou digital.  Você deveria pensar assim também.

Ricky Lunardello: Concordo! Penso sim.

“Fenriz”: É eu relmante te convenci! (risos).

Como foi o processo de gravação deste novo álbum?

Darkthrone (Divulgação)

“Fenriz”: Gravamos Old Star em duas sessões. Literalmente dois finais de semana. A pressão é enorme em nós e não precisávamos correr e fazer tudo assim, mas é como vem funcionando desde meados de 2005, então é assim que é. E tanto Artic Thunder como Old Star foram gravados em um abrigo antibombas que usamos para ensaio nos anos 80. É como gravar em meio a uma guerra e nós lançamos a sorte na guerra, nós realmente gostamos de combater esses elementos naturais e forjar o som como queremos. E isso vem sendo feito por quase 20 anos, não sabemos as letras, não sabemos o que cada um compôs até entrarmos em estúdio e o eu repassar os arranjos e ensaiarmos. Aprendemos juntos o que cada um fez. Hoje o Darkthrone é como um organismo vivo em mutação.

Mas os outros álbuns foram gravados em estúdios profissionais? Com todo o aparato necessário?

“Fenriz”: No caso desde 2005 nós temos dois locais que geralmente gravamos, um deles é uma casa bem isolada na floresta. Mas Artic Thunder foi complicado porque você pode imaginar a acústica de um bunker. (risos), mas todo o equipamento necessário estava lá.

Darkthrone – Old Star

No caso, se não me engano Nocturno Culto  foi produtor e engenheiro de som do álbum. Isso alterou alguma coisa em específico?

“Fenriz”: Tentamos explorar um som específico, uma sonoridade específica neste álbum e não nos importamos com o que as pessoas vão ouvir ou o que vão achar ou como vão avaliar o álbum. Nós não fazemos música para as pessoas apreciarem hoje. E tanto faz se você por pra tocar Old Star ou Underground Resistance, eles soam perfeitamente frescos, recém lançados e isso se deve em grande parte ao som. Várias bandas gravam álbuns e você consegue datá-los ao longo do tempo, tipo “soa anos 90“, etc. Isso não ocorre conosco. Criar a nossa mmúsica é importante, mas ao mesmo tempo o nosso som característico também o é.

Estão satisfeito com o seu status hoje.

“Fenriz”: Cara, poderíamos ser a maior banda de Black Metal hoje. Poderíamos soar tecnológicos, grandes, muito visual, muita propaganda, shows ao vivo, poderíamos trabalhar para isso, mas nós temos o nosso papel e é assim que o Darkthrone funciona, é como a engrenagem gira e como fazemos. Às vezes gravamos separados, mas muitas vezes gravamos juntos a faixa inteira, então não enganamos seu ouvido inserindo um looping, mudando guitarras, refazendo trechos de bateria, picotando o som e colando de novo. Não é assim.  Você pega o disco e fala “ah, ok, os caras tão tocando para nós“, é diferente. Não tem truques de estúdio, nós tocamos a faixa inteira e nossos fãs sabem disso.

Acho que pelo pouco que conheço o Darkthrone, falando em termos de álbuns…

“Fenriz”: Há quanto tempo ouve Dartkthrone?

Ricky Lunardello: Desde Dark Thrones and Black Flags.

“Fenriz”:Desde 2010?

Ricky Lunardello: 2008.

“Fenriz”: hum.

… Então, acho que a música ela tem um apelo mais forte do que os rostos de vocês. Ok que Fenriz é uma entidade conhecida, é uma marca. Mas quando falamos da banda não vem seu rosto na mente a primeiro momento.

Darkthrone – Divulgação

“Fenriz”: É…a ideia sempre foi divulgar a música não nossos rostos. Queremos que o Darkthrone seja música não imagem. Prefiro que esqueçam de nós e ouçam Darkthrone. Pronto. Não estamos por ai fazendo apelos nas redes sociais, você não nos acha por ai, e acho que as pessoas valorizam isso, por mais que a mídia hoje seja algo que as pessoas estão dependentes e valorizam muito, mas nós não. Não sou tão sociável, sou quando tenho que ser.

Mas isso tem a ver com a decisão de não tocar mais ao vivo?

“Fenriz”: Não, o problema é que show envolvem muitas coisas, encontros, reuniões, logística, investimento, empresários e eu não nasci para isso. Não é algo que quero. Não está nos nossos planos. Gravar um álbum e lançar é uma coisa, estar em palcos entretendo é showbiz e eu não quero isso.  O Darkthrone tem uma estabilidade há 30 anos e isso é o que importa. Há um espaço onde podemos er quem somos e fazer o que fazemos.

E como é seu contato com o nosso underground em geral?

“Fenriz”: Ouvia muito Sepultura, lembro de pegar o Bestial Devastation e o Schizophrenia com o Max Cavalera na época. Ouvi muito Sarcófago, cheguei a ver o Grave Desecrator ao vivo e o Krisiun mais recentemente. Mas curto muito o que o Brasil faz nos anos 60, gosto de Caetano Veloso e especialmente Bossa Nova, por mais que soe exótico por aqui.

E como está a cena extrema na Noruega comparada aos anos 90 do “boom” do Black Metal?

“Fenriz”: Melhor, na minha opinião os anos 90 foram a pior fase do Metal na Noruega. Prefiro os anos 80 e os anos 2000, bem mais saudável e organizada e principalmente mais diversificada do que imaginamos, não só na Noruega, mas em todo o mundo. Por aqui bandas como Aura Noir levam a cena à outro nível. Ou mesmo a Deathhammer bem nova.

Muito obrigado pelo seu tempo e por conceder essa entrevista para o Portal Lucifer Rising e para os fãs do Metal Extremo brasileiros e da América do Sul em geral. A mensagem é por sua conta e risco:

“Fenriz”: Obrigado por não ser um saco, gostei da conversa e obrigado por ouvir e compartilhar da nossa música com todos.

Mostrar mais

Ricky Lunardello

Historiador e Sociólogo, Pagão de alma Viking, apaixonado pelo Metal Extremo e pela cultura underground.

Veja também...

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar