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FORÇA OBSCURA – “Derradeiro Destino do Universo”

CD 2021 Black Hearts Records

Acho que a Black Hearts Records é um dos selos/gravadoras que mais tem se sobressaido nos últimos anos aqui no Brasil juntamente com outras, que tem valorizado muito o trabalho das bandas do Underground apresentando produções de muito bom gosto, muito bem feitas e que carregam uma áurea muito nobre em volta de suas obras.

Pois é assim que me deparei com o trabalho dessa banda que, na primeira audição não me agradou, porém me debrucei sobre o trabalho para analisar melhor e tentar diminuir a primeira impressão falsa que tive sobre o trabalho e posso lhes garantir se tratar de algo extremamente inspirado e cheio de referências que vão dos grandes autores da mão esquerda como Crowley e autores de interesse a fim como H.P. Lovecraft, até citações do Arthur Schopenhauer (filósofo metafísico alemão) e Sartre (filósofo existencialista francês) em seus escritos. Aliás, foi uma luta poder ler esse encarte, que é muito bonito por sinal, fora da curva, mas para mim que já tenho a visão prejudicada pela idade, fica realmente impossível ler as informações constantes no mesmo, tanto pelas letras minúsculas quanto pelo contraste das letras com a cor de fundo que prejudicam mais ainda, mas… recorri à expertises necessárias para poder analisar melhor esse trabalho e não ser injusto com aquilo que me despertou o interesse em ter na minha coleção. 

A One-man-band FORÇA OBSCURA é formado por Blackleather, experiente músico que tem passagens por diversas bandas do underground como Folklord, Iron Bastard, Witchkraft, Necronomicon Beast, Moriendi entre outras como baterista e vocal. Aqui ele mostra toda sua versatilidade gravando todos os instrumentos. A versão que tenho é uma versão especial que veio com itens à mais como cartas de tarô, as mesmas vem ilustradas no encarte do digipack, ainda conta com um pôster exclusivo e uma faixa bônus, qual comentarei mais à frente e um saco de veludo, dando toda uma atmosfera especial no artefato, para aqueles que gostam de itens especiais na coleção como eu, um deleite.

A faixa “Psiconauta Profano” abre o álbum em uma longa introdução ao trinar de um órgão bem medonho e sinistro, fato que já dá pra perceber toda influência do mestre King Diamond qual confirmei na última faixa deste trabalho. A narrativa menciona Hecate e construções da antiguidade mesopotâmica os Zigurates, que eram templos religiosos em formato de pirâmide, toda a música é extremamente atmosférica e cria muita expectativa sobre o tipo de som que vem pela frente. Essa mistura é interessante entre Hécate, divindade grega com os Zigurates mesopotâmicos, aqui deu pra notar a liberdade inserida na licença poética do FORÇA OBSCURA.

A segunda música “Herege” é aquela em que já podemos identificar a presença dos instrumentos tradicionais do Metal Negro, fazendo soar uma guitarra frouxa e básica acompanhada por uma bateria cadenciada e triunfante até a chegada de uma voz semi-rasgada e cheia de fúria. “Herege” é uma faixa muito interessante, pois apresenta uma espécie de acróstico, que não é acróstico, vou tentar explicar: no decorrer da letra da música profano foram destacadas letras em vertical onde podemos ler – “DEUS NÃO EXISTE” – porém não é um acróstico porque a frase não é formada pelas primeiras letras das frases e sim foi um arranjo que lembram as palavras cruzadas que vêm nos jornais, em que a palavra chave está na formação do meio vertical… A música inteira tem uma forte influência sonora de Heavy Metal Tradicional que fica muito acentuado por causa das letras serem em português e isso enriqueceu muito o trabalho da FORÇA OBSCURA.

A terceira Faixa, “Antes dos Deuses” segue a linha Heavy Metal oitentista com sucesso, com aquele agudo típico dos discos do Mercyful Fate/King Diamond. “Antes dos Deuses” é inspirada no Necronomicon, um tipo de livro muito complexo e cheio de marcas fictícias, porém muito usado como elemento de releitura no universo do Metal, sobretudo no Metal Negro, também gosto muito desse tipo de incursão e releitura. Além daquela tradicional invocação usada por muitos de nossos artistas do Metal Negro Mundial como Morbid Angel, Absu, etc.

Aguas Cosmogônicas” começa interessante, pois nos remete aos filmes de ficção científica dos anos 70, do tipo “Planeta dos Macacos” com aquele tipo de trilha sonora melancólica e planos de imagens infinitos, logo chega um entoar com similaridade oriental muito bem feita por bandas como Dead Can Dance, por exemplo, onde a FORÇA OBSCURA mostra seu ecletismo em trazer referências tão distantes da sonoridade ocidental fundindo instrumentos inusitados com cânticos em coro ou destaques dissonantes de vozes bem altas… em alguns momentos essa faixa tem alguns desafinos na voz, porém a essência será bem captada para os que estiverem dispostos. Após uma longa incursão neste clima, é a primeira vez no álbum que temos uma faixa que transita mais fielmente em um Black Metal mais rápido e ríspido, a letra dessa faixa também é profunda e filosófica, quero crer que esse tipo de escrita tem mesmo uma visão cósmica sobre a senda da mão esquerda, qual não se preocupa em traduzir estereótipos, nem tipifica-los, mas ressignificá-los diante de uma incursão própria e de leitura aterradora e pessimista, quem sabe aqui apareça a premissa do filósofo Schopenhauer que acreditava numa metafísica maliciosa em que ele caracteriza o mundo fenomenal como o produto de uma cega, insaciável e maligna vontade. Assim como na parte musical em que o músico Blackleather insere instrumentos orientais, calham com os pensamentos de Schopenhauer que trouxe os pensamentos do budismo para a metafísica alemã.

A faixa que fecha o álbum é a música título “Derradeiro Destino do Universo”, que instrumentalmente segue uma linha mais progressiva, criando uma simbiose interessante entre a música e a voz em tom hipnotizante. Outro fato incorporado a construção artística da FORÇA OBSCURA é o modo com que a língua portuguesa é abordada nas músicas, construindo uma melodia própria. As transições mostram outras influencias como da música cigana e de sonoridades até flamencas no meio de sonoridades que passam para o caos e vozes embebidas de cântico em transe. É nesta faixa que o autor busca referências dos filósofos Schopenhauer e Sartre explicitamente, como na frase “O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer.” (livro – O mundo como vontade e como representação, 1819) e na frase: “Somos indivíduos livres e nossa liberdade nos condena a tomarmos decisões…”(livros: Jean-Paul Sartre SARTRE, J., O Ser e o Nada, 1943.), ainda que ele tenha a pretensão de fazer as frases terem efeitos individualistas, retirando de si o sentido em si de cada pensamento de cada filósofo, assim aproximando do seu próprio discurso, que vai de encontro aos dizeres de Aleister Crowley sobre a vontade expressa em seu livro da Lei. Assim enxergo uma obra que se mostra aberta as interpretações e deixa indefinido alguns pontos, mas que sim, tem uma pauta mística isso é fato!

Fechando esse edição especial do disco, vem uma versão para a música “The Oath” – Don´t Break the Oath – do mestre King Diamond performado em uma das maiores bandas que o Metal já viu nascer, Mercyful Fate! A versão do FORÇA OBSCURA ganha um pouco mais na introdução mas tenta reproduzir com fidelidade o instrumental, na sua versão, a FORÇA OBSCURA mostra criatividade fazendo com que a letra seja traduzida para o português assim como o título que ficou como “O Juramento”. No decorrer da música, dá pra notar toda a fidelidade que foi necessária para fazer uma justa homenagem a uma das músicas mais emblemáticas do álbum “Don´t Break the Oath” lançado exatamente em 7 de setembro de 1984 (por coincidência escrevo esse texto dia 6 de setembro de 2021 e capaz desse ter sido publicado no 7 de setembro…) – Roadrunner Records, Força Obscura, nessa faixa, contou com a participação do baixista Warhammer (Folklord, Necronomicon Beast) que fez um trabalho extraordinário executando este som.

Então aqui estamos diante de um material poderoso qual pude notar coisas positivas e aspectos negativos também, porém reforça minha tese que, cada vez mais, estamos trilhando caminhos muito vitoriosos dentro da nossa própria “cena” underground, que ainda tem muitos passos importantes a serem dados, mas que ninguém se furte de apoiar devidamente toda essa cultura e, com certeza, não há de ser virtualmente.

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Anton Naberius

Vocalista da Eternal Sacrifice (Pagan Black Metal) Professor de Arte Visual, Artista Plástico e Especialista em Arte e Patrimônio Cultural.

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