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GAAHL: “A minha música é uma manifestação do meu “eu”, mais do que uma fuga dele.”

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(Divulgação)

Gaahl é um deus do Black Metal. A voz do Gorgoroth, God Seed, Trelldom. Kristian Eivind Espedal nasceu em 1975 em Sogn og Fjordane na Noruega. Gaahl conheceu o Black Metal em 1993 quando formou o Trelldrom. Ele se juntou ao Gorgoroth em 1998 no álbum “Destroyer” e cantou apenas a faixa título. Mas no mesmo ano ele saiu em turnê com o Gorgoroth ao lado do Cradle Of Filth.

Em 2002 Gaahl foi preso  – de fevereiro a dezembro – por agressão a um homem e obrigado a pagar 158,000 coroas norueguesas. No mesmo ano o Gorgoroth iniciou a gravação em maio do álbum Twilights of the Idols. No entanto Gaahl não pôde gravar seus vocais até janeiro de 2003 e o álbum foi lançado em julho deste ano.

Em janeiro de 2005, o Gorgoroth começou a trabalhar em seu novo álbum. O instrumental foi gravado entre janeiro e maio de 2005 e Gaahl iria inserir os vocais em março de 2006, assim “Ad Majorem Sathanas Gloriam” foi lançado poucos anos depois.

De abril a dezembro de 2006 Gaahl esteve novamente preso por agressão e por torturar um homem por seis horas, extraindo seu sangue e ameaçando fazê-lo beber em um copo. Gaahl alegou legítima defesa.

Em 2007 Gaahl foi um dos focos do documentário “True Norwegian Black Metal” e no mesmo ano Gaahl e King Ov Hell tentaram expulsar Infernus do Gorgoroth, o que deu início à disputa pela banda e sua marca.

Em 2008 Gaahl iniciou uma grife de roupas femininas chamada Wynjo. Ao lado de Dan De Vero, e a designer Sonja Wu. Após inúmeras alegações de “íntimo relacionamento”, Gaahl revelou sua homossexualidade para o mundo. No ano seguinte,em Oslo, Infernus recebeu a notícia judicial que era o dono por direito do Gorgoroth e King Ov Hell e Gaahl foram expulsos da banda e iniciaram o God Seed.

Após acusações entre 2009 e 2010 de apoio ao incêndio às igrejas norueguesas no passado realizados por Varg Vikernes, Gaahl foi impedido de tocar em alguns clubes de Oslo, mesmo com o Bispo católico defendendo sua inocência nos incidentes.

Gaahl e sua família ainda passam um bom tempo em Bergen, Noruega. Após um breve hiato musical, Gaahl inicia um novo projeto, mas a cena Black Metal vem mudando bastante nos últimos anos. Eu havia desistido de entrevistar Gaahl e um grande amigo Jonatan Goreheadda Lucifer Rising  – que conhece muito o Gorgoroth! – me encorajou neste projeto.

A entrevista foi realizada no lançamento do álbum e entrou em hibernação por alguns meses por razões diversas. Gaahl tinha saído de estúdio e feito as primeras apresentações ao vivo. Foi numa fria tarde de Julho e eu já tinha feito a review do CD “Ghosts Invited” para o Portal Lucifer Rising quando após tentar semanas o contato de Gaahl, Carla Morton da Suicide Magazine e da Anne Swallow, consegui conversar com a figura mais controversa do Black Metal, com tempo limitado, Gaahl foi extremamente generoso e pudemos conversar por uma boa parte da tarde.

A entrevista não é convencional. É uma entrevista com o Gaahl. Se você não leu a introdução da entrevista, não vai entender a essência da entrevista, recomendo a leitura. Foi assim que recebi em uma fria tarde a atenção de um ícone do Black Metal norueguês.

Obrigado Jonatan Gorehead pelo apoio.

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Primeiramente, é uma grande oportunidade realizar esta entrevista e agradeço também a oportunidade de contatos através da Carla Morton. Como vai você?

GAAHL: Estou bem.

Você está iniciando a turnê agora após o lançamento do novo álbum, como está sendo?

GAAHL: Sabemos que será uma longa jornada e cansativa, mas estou satisfeito. O último show foi muito bom, foi bem íntimo e interessante. A plateia tem se concentrado bem nas músicas e têm sido bem receptivos ao novo álbum.

Gaahl Jorn Veberg 2019
(Divulgação)

Você lançou este novo projeto após trabalhar um bom tempo no GOD SEED, o que te levou a este novo projeto?

GAAHL: Bem, fizemos no God Seed tudo que pôde ser feito, os contratos acabaram e os festivais agendados (Summer Festivals) e eu já tinha pensado em criar algo assim, não tinha o nome, mas tinha a ideia até que reunimos alguns membros e esperamos até setembro para entrar em estúdio neste período intenso de dois meses e depende muito de como vamos trabalhar, estar independente no início é uma meta.

Mas você vem tocando ao vivo várias músicas de outros projetos, isso vai continuar?

GAAHL: Estamos mesclando material que as pessoas querem ouvir e eu não tenho pressa de jogá-los um material novo de forma imprudente, com pressa.

Quando você deixou o Gorgoroth, havia a ideia de dar sequência com King Ov Hell (Tom Cato Visnes), mas vocês não estão mais trabalhando juntos, o que houve?

GAAHL: Caminhos diversos, e tínhamos em mente várias coisas distintas, então no futuro é possível que trabalhemos juntos. E ele estava cansado das turnês também, então um “time off” e outras prioridades levaram à decisão.

Você ainda ama estar no palco? Grandes públicos ou pequenos festivais?

GAAHL: Grandes palcos são um atrativos, mas eu prefiro a energia de algo mais íntimo.

Como você vê o Black Metal hoje comparado ao que era quando você estava no GORGOROTH ou no Trelldom?

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Gaahl’s Wyrd (Divulgação)

GAAHL: Humm… ah, bom, eu não sei nada sobre a cena de Black Metal hoje. Eu não acompanho o que as outras bandas estão fazendo ou o que estão ouvindo. Eu não faço ideia do que está por ai, eu apenas apresento minha música e eu não a rotulo, não dou um nome ou uma marca.  Mas acredito que… a cena hoje está bem diferente do que a juventude criou nos anos 90.

Bom, tenho que dizer que está bem diferente do que você imaginaria…

GAAHL: Sim, eu acredito em você. Eu sei que os anos recentes têm liberado e produzido mais do que a mente dos anos 90 que ainda era bem limitada e estreita. Na época o Black Metal pareceu lógico e um grito de independência de uma sociedade fechada. A juventude é sempre quem leva os gritos de liberdade e agonia nas sociedades ao seu limite.

Bom, Gaahl, você é um ícone do Black Metal e todos te conhecem, o mundo sabe que você tem um lugar neste totem, especialmente devido ao GORGOROTH.

GAAHL: Obrigado por dizer isso. Eu realmente não presto atenção nestes rótulos ou na limitação que as pessoas me impõe ou impõem à música. Eu….eu não (pausa)… eu não sigo o que escrevem e eu não indico o que leiam…por que eu deveria perder meu tempo com coisas que as pessoas falam sobre mim ou sobre o que acham?

Ricky Lunardello: Sim, muitos falam na Internet e expõem suas opiniões online…

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Gaahl’s Wyrd – Ghosts Invited

GAAHL: As pessoas podem fazer o que quiserem e se esconderem atrás das telas dos seus computadores. É como soprar a poeira na mesa para tentar limpá-la, você simplesmente espalha isso por ai.

Como se não bastasse esse projeto novo eu soube que você pinta também, é algo em que pretende focar um dia? Pois houve exibições etc.

GAAHL: Sim, faço muitas coisas no meu tempo livre e eu não considero um elemento mais importante que outro, mas eu tento tratar com igualdade as coisas que venho fazendo. Eu sou simplesmente muito grato pelos dons que tenho e tento usá-los da melhor forma. Muitas das coisas que faço, não faço para torna-las públicas ou para difundir para os outros inicialmente, eu as faço e fiz inicialmente para mim. E faço também alguns projetos musicais mais modernos com alguns artistas fora da área que vocês são acostumados a ouvir.

E como é para você tocar as faixas que escreveu mais ou menos 20 anos trás?

Gaahl: Ah, eu tenho algumas com até 28 anos de idade e é difícil ter o espírito que se tinha lá atrás. Em 2015 no Oregon foi a primeira vez que fizemos um show com elementos de várias fases da minha carreira e foi bem difícil.  Escolhi 6 faixas do God Seed e seis do Gorgoroth, etc. Os colaboradores eram diferentes, então você pode imaginar. Mas nos ensaios…elas voltaram a minha mente.

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(Divulgação)

Já li que você não é muito social, você é mais fechado. Como é trabalhar com outros músicos?

GAAHL: É verdade. Então…. é estranho porque eu nunca revelo completamente minhas ideias aos outros colaboradores.

Ricky Lunardello: Então tem diferença se você os conhece ou não por longos anos…

Gaahl: Não, é….eu não sei. Eu acho que eu não penso muito nisso quando chega o momento de trabalhar com outras pessoas no processo criativo, mas eu meio que trabalho na contramão disso, você sabe (risos). Nunca é como se prevê ou como se espera, mas no fim, acontece.

Quando você entra no palco você parece desligado do que te cerca.

GAAHL: Huhum. Eu entro na minha “bolha” e nada que está em volta importa, mas apenas o que eu foco em fazer que é entregar a música com alma. Da forma que a criei em minha mente.

Para muitos artistas isso funciona como uma forma de abraças a arte, para outros é uma forma de escapismo como teorizou Frode Stensen, mas também um elemento presente no Romantismo do século XIX, pois para os românticos o mundo é sempre uma frustração dos seus idealismos e sonhos. Qual é para você?

GAAHL: Eu acredito que é um canal de comunicação comigo. Eu me interligo. Não é uma fuga, com certeza. Eu já atuei e sei que nesta área é como você disse, eles atuam para se desligarem e para se encontrarem. Para mim é uma forma de acreditar no que sou e no que apresento. A minha música é uma manifestação do meu “eu”, mais do que uma fuga dele.

Você não tem as letras escritas, você não entrega a letra para o público nos álbuns.

GAAHL: Eu nem tenho elas escritas para mim. Isso…

Ricky Lunardello: Isso é fascinante!

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GAAHL: Obrigado (risos). Uma vez um fotógrafo dinamarquês queria usar alguns fragmentos de músicas escritos, letras, em seu livro de fotografias e ele tinha usado parte das letras nas imagens e foi quando eu percebi….

Ricky Lunardello: Ah, não acredito…

GAAHL: Sim, ele usou o que entendeu que eu estava dizendo nas letras e eu tive a exata noção do quanto eu posso ser mal interpretado. E eu o corrigi em algumas coisas e ele me agradeceu, mas eu pude entender bem o que acontece com todos que buscam as letras. Mas eu quero que as pessoas sintam e aprendam a ouvir do que alimentá-las com tudo pronto em uma colher e fazê-las engolir as ideias. No futuro posso sentar, ditar e alguém digitar mas… eu realmente não quero que isso ocorra, por mais frustrante que isso possa parecer. Eu não quero que as pessoas as tenham em mãos. Se você quer chegar ao topo da montanha você deve andar o caminho.

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Interessante, porque era assim que o Black Metal era antigamente.

GAAHL: Era individualista com certeza e eu não sou um ovinte, você sabe, mas é bom que cada um tenha sua individualidade e determinação para oq eu lhes diz respeitos. Em termos de conduzir e administrar suas ideias.

E você já assistiu ao filme “Lords Of Chaos”?

Gaahl: Não.

Planeja assistir?

Gaahl: Não. Eu não sou nada interessado no entretenimento americano. Há claro, pouquíssimas, pouquíssimas exceções, mas o “American Way” de contar histórias não me interessa nada.

E você permitiria que alguém fizesse um filme sobre a sua vida?

GAAHL: Não sei, até mesmo biografias ou livros em si, eu não dou muito foco a essas coisas. Mas eu já tive várias propostas para algo assim.

No caso do novo álbum Ghosts Invited”, eu sei que de você devemos sempre esperar o inesperado, após ouvir o álbum, como você sente que ele foi recebido?

GAAHL: Hummm….o que eu posso responder sobre isso? O que eu acho é que cada música do álbum deveria ser um single. E representar uma peça única com elementos únicos. O álbum funciona como um todo mas existe muitas energias diversas que o tornam único. Ele não é um álbum extremo. Não é um álbum tedioso, não vai te matar de tédio (risos). Mas tem coisas que chegam a ser embaraçosas para mim.

É possível você se envergonhar ou ter timidez com algo? Como assim?

GAAHL: Sim, há muita vaidade envolvida nisso, então eu tento não fazer a mesma coisa sempre e migrar por caminhos desconfortáveis para mim. Permitir que algumas coisas sejam mais vivas que outras. A cada álbum eu tento dirigir sem os cintos de segurança, sabe? É isso.

Mas é isso que te faz interessante o longo do tempo, quer dizer, é sempre interessante ouvir você. Então não devemos levar o título do álbum “Ghosts Invited” como algo literal ou você já teve experiências sensoriais como fantasmas ou algo sobrenatural?

GAAHL: Sim, fantasmas podem ser o que as pessoas acham, o sobrenatural, mas para mim, fantasmas são memórias. São influências. Quando eu trabalhava no título do álbum eu percebia certas similaridades nos riffs e na construção lírica. E há algo que desde os meus anos iniciais como músico me acompanham e eu tento sublimar até esta álbum, então estes elementos que vieram a tona são meus fantasmas, que sempre me perseguiram.

Ricky Lunardello: Os vocais são incríveis!

GAAHL: Nestes elementos também. Nestes elementos eu pude invocar o que eu estava em minha mente por anos e mesclar com diferentes formas de me expressar livremente. São partes das evocações de memória de que falei. São diferentes personagens, por mais que seja eu, são evocações sempre distintas. São elementos difíceis de enxergar se você não ouvir com atenção, mas está lá.

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Ricky Lunardello: Caramba. Fiquei todo arrepiado agora. (risos)

GAAHL: É intenso (risos).

Após a morte de Keith Flint (Prodigy) e toda a temática sobre o suicídio estando em alta, muitas pessoas consideram fraqueza, outras no Black Metal um privilégio, pois você termina sua vida quando bem deseja, o que você acha disso?

GAAHL: Há muito a ser dito sobre isso e muito se diz para a mídia. Eu sou a favor do seu livre arbítrio. Mesmo eu não sendo um suicida potencial. Tenho conhecidos que foram nesta direção e isso afeta muitas pessoas em volta. É algo desesperador e de curto prazo. Mas é algo que eu não acho fácil de compreender. As pessoas são formadas de muitas camadas, não dá pra saber na hora definitiva. Ms eu não desapareceria por minhas próprias mãos. (risos)

Que bom! Ótimo! (Risos) Muito obrigado Gaahl pelo seu tempo e por esta longa conversa.

GAAHL: Muito obrigado!

 

Review do Novo ÁLBUM!

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Ricky Lunardello

Historiador e Sociólogo, Pagão de alma Viking, apaixonado pelo Metal Extremo e pela cultura underground.

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