Entrevistas

HELGRIND – A força obscura e os desafios do underground cubano

O mais interessante no Metal é que ele não tem fronteiras. A adoração pelo som das guitarras distorcidas e a energia que esse tipo de música proporciona aos ouvintes está muito além das delimitações que o homem ilusóriamente cria. Prova disso é que diariamente vemos novas bandas surgindo mesmo em regiões inusitadas , aliás mesmo em lugares da Terra em que o simples fato de ter uma banda pode ser um risco à própria vida como em alguns países muçulmanos. Um lugar que eu particularmente tenho pouco conhecimento da cena underground é Cuba, essa ilha cujo povo vem sendo vitima de um embargo econômico há tanto tempo e cujos filhos da banda HELGRIND me surpreenderam muito com seu Pagan Black Metal melódico excepcionalmente bem composto, bem produzido e feito com uma criatividade muito acima da média. Como minha ignorância sobre o underground cubano precisava ser sanada resolvi bater um papo com os caras e o resultado está logo abaixo:

  • Essa primeira pergunta pode soar meio clichê e eu gosto de fugir um pouco deles, mas como sei que muitos dos nossos leitores podem não estar familiarizados com a banda, vou ter que faze-la. Como surgiu o HELGRIND? Fale-nos um pouco mais da trajetória e propos ta da banda desde sua criação

HELGRIND é uma banda de PAGAN METAL de Havana, Cuba, fundada no verão de 2012 pelo guitarrista Jordy Fuentes Serrano e o baixista Daniel López Lameiro logo tendo se juntado à banda o vocalista Ernesto Riol Betancourt. Essa foi a formação que lançou as bases para o que seria a linha musical da banda.

No início de 2013 juntaram-se a nós o guitarrista Pablo Robbio Borrego (ex – Abbadon) e a tecladista Celia Rodríguez Luis, com essa formação nós realizamos nosso primeiro show em Havana, no dia 26 de outubro, no local conhecido como MAXIM ROCK Hall. No ano seguinte, o baterista Damian Vivas Gergundes (ex – Abbadon) se juntou à banda para uma única apresentação deixando a  banda pouco depois por motivos pessoais, .. A banda lançou uma DEMO chamada “Time To Conquer”, produzida de forma independente  tendo Jorge A. Marín Grogg, na gravação, mixagem e masterização das faixas em seu estúdio em Havana.

Em 2015, Carlos A. González assumiu a guitarra e Carlos E. Cepero na bateria do HELGRIND, ambos vindos da banda de Metal Melódico AVENTI. No final daquele ano, o guitarrista Carlos Armando deixou o país, o que manteve a banda em estado de inatividade por vários meses até a reincorporação do guitarrista Pablo Robbio.

 Ainda no final daquele ano, HELGRIND concluiu e lançou de forma independente a gravação de seu primeiro álbum intitulado “Through the Helgrind’s Gates”. O álbum foi gravado em dois estúdios independentes em Havana e reflete musicalmente um híbrido entre DEATH, VIKING e MELODIC DEATH METAL, e inclui versões de músicas lançadas na demo de 2014, com um novo som e novos arranjos que se adaptam ao formato atual do banda, servindo como uma etapa de transição ao PAGAN METAL que impera no conceito das novas composições do quinteto.

Durante o ano de 2019 a banda terminou o processo de gravação de seu segundo álbum “Return To Motherland” com uma linha musical mais melódica e experimental que a anterior.

No início de 2020, HELGRIND só conseguiu fazer duas apresentações ao vivo e na última, o guitarrista Pablo Robbio decidiu sair para cuidar de seus projetos musicais pessoais. Com isso, Ramsés Limonte Montero (Congregação, Ex Abbadon) tornou-se membro oficial da banda que rapidamente entrou nos estúdios DEPBLAST para fazer sua próxima gravação, o EP “The Tragedy of Túrin Turambar” lançado em 29 de novembro pela BLACK SPARK RECORDS, selo britânico com o qual a banda tinha acabado de assinar. O EP tem obtido críticas muito positivas, veiculadas em meios digitais, sendo também elogiados por bandas estrangeiras entre as quais estão aquelas que o HELGRIND fez versões cover nessa produção, que são as bandas WOLFCHANT e FOREFATHER.

Em 17 de janeiro de 2021, a gravadora BLACK SPARK RECORDS lançou oficialmente o álbum “Return To Motherland”.

  • Vocês fazem um tipo de música que à primeira vista não parece ter muita conexão com a região em que vivem. Como surgiu essa paixão pelo estilo e pelos temas abordados e qual a relevância da “geografia” na música da banda?

Sabemos que pode parecer  estranho para  as pessoas encontrar uma Banda Pagan Metal em Cuba, na verdade optamos pelo estilo pelos seguintes motivos: Primeiro  que os membros fundadores da banda sempre se sentiram atraídos pelo tema da mitologia germânica assim como por muitos outros mitos europeus, eles acharam que seria interessante começar uma banda assim,porque a pequena cena do metal cubano nunca teve esse tipo de banda antes, em segundo lugar nós temos uma grande paixão pelo metal extremo melódico seja ele  Black Metal, Death Metal, Doom ou Viking e nós ouvimos muitas dessas bandas que principalmente vêm da Europa e por último podemos dizer que Cuba não é apenas um país de rumba, salsa, reggaeton e música que vem da África e da região do Caribe, temos muitas influências musicais que vieram da Europa e principalmente da Espanha onde estão nossas raízes.

  • Já que estamos falando em “Geografia” vocês vivem em um país que não possui muita tradição no Metal e no Metal Extremo mundial e mesmo assim possuem uma criatividade e qualidade musical que, a meu ver, os coloca de igual pra igual com grandes nomes mundiais. Como é ter uma banda de Metal em Cuba? Quais os maiores desafios? Nos dê um panorama geral da cena Metal em seu país; bandas, headbangers, shows,etc. Indique-nos algumas bandas de seu país que você recomendaria .

Bem, falar sobre o metal cubano e a cena do metal extremo é difícil às vezes haha, vamos começar dizendo que chamá-la de “cena” é meio complicado pois para desenvolver uma cena de metal apropriada, faltam coisas importantes que são essenciais para esse movimento como por exemplo: instrumentos, promoção, locais para tocar, lojas de merchandising de qualquer tipo etc. É importante mencionar que nos últimos dez anos com o aprimoramento da internet aqui a promoção tem crescido e também tem se tornado mais fácil encontrar novas músicas para ouvir e dessa forma as bandas têm a oportunidade de compor e criar novos materiais, porém pensamos que existem algumas bandas que preferem continuar como eram antigamente, estão apenas focadas em tocar aqui e ser promovidos aqui, eles não têm olhos para a cena mundial. Nós como banda temos um grande desafio que é mostrar para todo mundo que existimos e queremos nos tornar pelo menos uma das mais importantes bandas do gênero em nosso continente, participando também de shows fora do nosso país e dividindo isso com fãs e músicos de todos o mundo. Existem algumas bandas que achamos que são boas aqui, como: Infector, Hivernal, From the Abyss, Combat Noise, Shrine ov Absurd, From the Graves, Skjult, Folklorica, Holodomor.

  • Vocês lançaram uma demo em 2014 e depois demoraram cinco anos pra lançar mais material. Em compensação vocês lançaram dois álbuns no ano de 2019 “Return to Motherland” e “Through the Helgrind Gates”. Qual o motivo desse hiato e porque lançar dois álbuns em um período tão curto de tempo

– A respeito do lançamento de nossos álbuns, algo que gostaríamos de esclarecer é um dado sobre o lançamento de nosso álbum “Through The Helgrind Gates” que aparece no Metallum (Metal Archieves) como lançado em 2019 quando na verdade ele foi lançado em 2018, isto se deve um erro de atualização de nossos dados, aqui é quase impossível conseguir isso e por isso alguns fãs e amigos que enviaram as informações. “Return to Motherland” foi lançado em 2019 de forma independente e digital e depois em CD físico (formato Digipack) pelo selo britânico “Black Spark Records) à qual pertencemos, e é importante dizer que o nosso Ep” A Tragédia de Túrin Turambar também foi lançado pelo mesmo selo em formato digital em 2020.

  • Fale-nos mais sobre “Through The Helgrind Gates” e “Return To Motherland”… Aliás algo que me chamou a atenção em “Return To Motherland” além da ótima música é a ótima produção, fale-nos mais. Como os leitores interessados podem adquirir esses trabalhos?

– “Through The Helgrind…” começou a ser gravado em 2017 e foi finalizado em 2018. Decidimos regravar nossas primeiras músicas gravadas da demo: “Time to Conquer” (2014) As guitarras e o baixo foram gravados em um estúdio  independente  em Havana e as vozes nos estúdios “PMC” também em Havana. A  banda porém não gostou muito da mixagem das músicas e decidiu gravar e finalizar o master no DEEPBLAST STUDIOS com a ajuda de Jorge Indio Garcia das bandas Congregation e From the Abyss. Consideramos que ele fez um ótimo trabalho ao tentar consertar o som previamente gravado e então começamos a trabalhar com ele. Ao mesmo tempo em que “Through the Helgrind Gates” estava sendo gravado, estávamos compondo as músicas para Return to Motherland, que foi gravado e lançado em 2019.

  • O que você tem ouvido recentemente? Há alguma banda brasileira que você goste?

Bem, existem muitas bandas novas que estamos compartilhando e ouvindo, todas boas e que podem constituir algumas novas influências possíveis para a banda, tais como: Havukruunu, Bhleg, Dwarrowdelf, Burden of Ymir, Iku- Turso, Belerian, Hawkmoonmor e muitos outras. Com certeza gostamos de bandas brasileiras e recentemente começamos a ouvir: Iron Woods, Crown of the Fallen Heroes, Walsung e Land of Fog, bandas realmente incríveis.

  • Como a atual crise da pandemia global afetou a banda e seu cotidiano?

A crise atual da pandemia global também nos afetou, assim como o resto do mundo. Todos os shows estão parados aqui desde março de 2020, pelo menos na capital onde a banda pertence e ainda está sendo difícil ensaiar nessa época, é proibido se reunir e se dividir em grupos, então o jeito que temos é fazer isso escondido haha. Empregamos o tempo que temos principalmente na composição e promoção, esperamos que isso acabe logo pois essa falta de shows; festas e encontros realmente afetam a cena e a nós mesmos emocionalmente falando.

  • O Helgrind já se apresentou ao vivo? Se sim como você descreveria um show da banda?

Helgrind tocou ao vivo pela primeira vez em outubro de 2013 e foi muito legal sabe, ficamos com um pouco de medo porque era a nossa estreia e a primeira vez que o público ouvia esse estilo em Cuba. Todos os shows são muito enérgicos e com muita paixão, é extraordinário ver pessoas cantando os refrões de nossas músicas haha. Adorariamos dividir o palco com bandas como: King of Asgard, Ereb Altor, Moonsorrow, Havukruunu, Skyforger, Hammer Horde, Thyrfing, Wolfchant etc.

  • Liste-nos cinco álbuns que mudaram sua vida e porque?

Para esta questão, decidimos como uma banda mencionar um álbum para cada membro da banda, pois somos cinco e você está pedindo cinco álbuns. No caso de Ernesto (vocal), ele declarou que “Infernal Overkill” do Destruction foi um dos álbuns que o introduziu no metal extremo devido ao estilo rápido, agressivo e poderoso de sua música. Para Jordy (Guitarras), foi “Hatecrew Deathroll“ do Children of Bodom que o pegou pela alma quando ele tinha 16 anos e ele diz ter sido muito  influenciado pela música que Laiho tirava da guitarra. Para Daniel (baixo) foi “Fate of  Norns” do Amon Amarth  o álbum que que o introduziu no metal extremo melódico e da mesma forma na mitologia Viking na música. Já Ramsés (Guitarras) apontou “ Spiritual Healing” do Death como uma de suas primeiras influências no metal extremo e na guitarra devido à força e riffs destrutivos que esse álbum tem acompanhados pela voz penetrante de Chuck !!!. Para finalizar esta pergunta, The Faceless (Drums) disse que “Wolfheart”  do Moonspell o levou a uma música melódica e melancólica e a letras profundas que são evidenciadas em seus projetos musicais.

  • Suas últimas palavras…Há algo mais que você gostaria de falar aos metalheads brasileiros e que eu não tenha perguntado?

Gostaríamos de agradecer a oportunidade de compartilhar com vocês metalheads brasileiros nossa música e história, sempre respeitamos a cena brasileira e a consideramos uma das mais importantes do nosso continente,. Também gostaríamos de  lembrar que nosso álbum “Return To Motherland” está disponível na Black Spark Records caso você queira ouvi-lo e comprá-lo . Interessados podem encontra-lo AQUI

Esperamos poder tocar aí em seu país um dia. Stay True!!!! . Saudações de Cuba.

 

 

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Juliano Bonacini

Tecladista e letrista da LoneHunter (Death Metal), historiador e editor do Crypt of Eternity - fanzine da década de 90.

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