Entrevistas

HELLLIGHT – Desvanecendo Lentamente pelo Doom Metal

" O Funeral Doom é triste e belo".

Uma luz infernal surge ainda na década de 90 e com ela sentimentos e emoções que ecoam através do Doom Metal. Conversamos com Fábio de Paula, integrante de uma das mais representativas bandas nacionais do estilo. Confiram abaixo as idéias e pensamentos da HellLight…

Esd. para Dir.: Alexandre Vida (b), Renan Bianchi (d) e Fábio de Paula (g/v). Foto por: Shai.

Já com uma vasta e importante história no Doom Metal nacional, há pouco mais de 3 meses foi lançado o CD “ As We Slowly Fade”. Como está a divulgação deste trabalho? Além da já conhecida parceria com a Solitude Productions (Rússia) e Mutilation Records ( Brasil), há planos de lançamento por outros selos mundo afora?

Fábio de Paula – Olá, a divulgação está sendo excelente, estamos recebendo muitos feedbacks de pessoas do mundo todo elogiando o álbum. O trabalho das gravadoras é essencial para nós, tanto a Solitude que faz a distribuição pela Europa e Estados Unidos quanto a Mutilation que é responsável pelo Brasil, estão fazendo uma divulgação muito dedicada; Nós tivemos alguns convites de gravadoras em outros países, mas não vimos necessidade em agregá-las, uma vez que a cobertura das nossas gravadoras atuais são bem abrangentes.

Quais as principais características deste novo álbum ? O que difere do CD anterior, o “ Journey Throught Endless Storm”?

Fábio de Paula – Principalmente o tema das letras…o álbum anterior lidava com a jornada que é a vida, através do olhar de quem não se apóia em nenhuma religião para atravessá-la…é um tema angustiante e bastante introspectivo.. no novo álbum, nós retratamos o tema do tempo, como o tempo passa e quão insignificante nós somos para ele; como o universo se comporta independentemente do que a humanidade possa representar. as pessoas passam pelo tempo e simplesmente desaparecem.

Foto por: Divulgação

Na sua visão, influenciada pelo estilo musical que abraçou, o que acontece “ enquanto nos desvanecemos lentamente”?

Fábio de Paula – Na capa do álbum, pode-se notar a lua se desintegrando conforme o tempo passa… essa é a alusão à humanidade.. como já disse o astrofísico Carl Sagan, todas as pessoas que já existiram, todos os problemas causados, todas as guerras travadas, todas as amizades feitas e desfeitas aconteceram nesse ponto pálido no cosmo…o que demonstra o quão pequenos e insignificantes somos do ponto de vista universal. Eu acho esse assunto muito importante e acredito que quanto mais pessoas tiverem ciência disso, menos arrogantes e individualistas elas serão.

Conte-nos um pouco sobre a criação da arte de capa deste novo CD. Quem é o artista responsável?

Fábio de Paula – A arte esse álbum, assim como o anterior, ficou por conta do artista Rodrigo Bueno, que por ser inserido no meio do Doom metal, tanto com sua banda (LACRIMA MORTIS) quanto com seu blog, entende perfeitamente o conteúdo e como traduzir isso em forma de arte visual…achamos o trabalho dele fantástico e devemos continuar a fazer artes com ele.

2018 – As We Slowly Fade – Mutilation Records

Tempo atrás o HellLight ouviu a seguinte frase: “ Vocês são muito mais Doom que nós”. Como foi o receber esse elogio? É algo marcado na história da banda?

Fábio de Paula – Esse foi, com certeza, um dos grandes momentos que tivemos durante a carreira.. porque não é somente no sentido profissional da banda, mas também no sentido pessoal… Quem nos disse isso foi o guitarrista do CANDLEMASS, quando fizemos a abertura para eles… realmente foi um momento único e nunca vou esquecer. Dizem para nunca conhecer seus heróis, mas nesse caso, acho que demos sorte…foi realmente incrível.

São já 23 anos de história! Chegaram na “ fase adulta”. O que mudou na banda em termos musicais? Quem foram e o que são?

Fábio de Paula – Nesses 23 anos, certamente nós evoluímos como músicos, principalmente em termos de composição, porém, nunca mudamos nosso estilo…a banda soa da mesma forma, com as mesmas intenções desde o começo. Mas de fato, todo esse tempo, 6 álbuns, tours, shows, etc…fez com que evoluíssemos muito. Gosto de acreditar que a tendência é que continuemos a evoluir. Muitos músicos já passaram pelo HellLight, mas conseguimos sempre manter o foco e o estilo do nosso som.

Foto por: Leandro Pena.

Conte-nos o que aconteceu de melhor e pior na primeira turnê pela Europa que fizeram no ano passado junto com a banda ANDRALLS!!!

Fábio de Paula – O que houve de melhor foi com certeza a receptividade do público em todos os locais que nós passamos… teve um dos locais que foi especial, foi na Bélgica, que quando nossa van parou na frente da casa de show, o dono veio nos recepcionar e disse que haviam fãs do HellLight nos esperando o dia todo lá…esse foi um dia incrível. Em contrapartida, um dos momentos ruins (no mínimo engraçado) foi na Espanha…chegamos no meio da noite na cidade de Palência, estacionamos a van e descarregamos somente as malas de roupas para levar pra onde íamos dormir. todo o equipamento ficou na van…. na manhã seguinte. descemos pra tomar um café da manhã e, a van havia sumido…pânico total! o Xandão já estava desesperado gritando que haviam roubado a van..kkkk..quando eu fui até a calçada e vi um pequeno adesivo colado no chão, que dizia que o veículo havia sido guinchado pois estava estacionado em local proibido…foi um dia intenso, muita preocupação, mas no fim demos boas risadas sobre o que aconteceu.

Cartaz do Turnê Europeia

O Doom Metal tem uma característica marcante no que diz respeito ao lado lírico. Normalmente são expressados sentimentos e emoções muito pessoais do autor. Como as letras do HellLight surgem? O que expressam?

Fábio de Paula – Normalmente gosto de escrever sobre como é a vida da perspectiva de quem não tem religião para se apoiar nos momentos mais difíceis…o Doom é, na minha opinião, a forma de arte mais adequada para traduzir esse tipo de sentimento… é algo muito pessoal e profundo. Quando se tem uma religião, as pessoas tem a tendencia de se apoiar nelas para poder seguir com sua vida de forma mais confortável possível, colocando-se assim num tipo de anestesia moral e mental…nós, por outro lado, não temos esse tipo de apoio..o que faz com que grandes questões venham a tona e nos deixe cada vez mais consciente das dificuldades que a vida/morte nos apresenta.. É importante dizer que são assuntos ao mesmo tempo tristes e belos..que quando se traduz para a música , é exatamente o que o funeral Doom é…triste e belo.

Estou certo em dizer que outra característica do Doom Metal, é ser a vertente do Heavy Metal mais livre e exposta a influências externas, mesmo que seja do rock em geral? Penso nisso a ouvir vocês tocando de BATHORY à QUEEN, de BLACK SABBATH à PINK FLOYD.

Foto por: Divulgação

Fábio de Paula – Isso é verdade…nesse EP, nós quisemos dar uma ideia disso..que somos influenciados por todo tipo de rock…do Rock and Roll até o Black Metal. Foi uma experiência bacana e teve um resultado muito bom. Esse EP acabou até sendo lançado numa edição dupla especial do nosso segundo álbum, pela gravadora Solitude Productions. É possível que daqui à algum tempo voltemos a fazer outra experiencia dessas.

Vocês surgiram na década de 90, onde poderíamos contar, acredito, nos dedos, as bandas de Doom Metal no Brasil. E hoje como anda essa cena? O que você destaca?

Fábio de Paula – É verdade, quando começamos era muito raro vermos alguma outra banda de Doom…éramos realmente poucos; Felizmente isso mudou e hoje em dia vejo uma cena muito maior de Doom, tanto no Brasil quanto no exterior…temos uma gama muito grande de estilos dentro do Doom e um numero bem substancial de bandas do estilo. Entretanto, quando em comparação aos outros estilos de metal, o Doom ainda é pouco expressivo…vejo isso nos festivais de Metal onde raramente se vê alguma banda de Doom participando. Nós, particularmente somos uma banda bastante ativa, mas não é a realidade da maioria das bandas. Ainda existe uma resistência à bandas de Doom de uma forma geral.

Foto por: Divulgação

Se considerarmos que o Doom Metal no Brasil já tem aproximadamente 30 anos desde o surgimento de bandas como THE CROSS e PENTACROSTIC, quais trabalhos você destacaria como clássico e essenciais para uma nova geração que está conhecendo esse estilo?

Fábio de Paula – Particularmente sempre gostei muito do material do MYTHOLOGICAL, do IMAGO MORTIS e também do PENTACROSTIC (principalmente os primeiros álbuns)…todas essas bandas tem influência sobre nós de alguma forma O THE CROSS, estranhamente eu só vim a conhecer há pouco tempo, mas achei o material deles muito bom também. Acho que o pessoal que veio dos anos 90 tem muita qualidade e são responsáveis por álbuns sensacionais.

Foto por: Divulgação

Quais as novidades para o futuro próximo? Deixe suas considerações finais.

Fábio de Paula – Nós começaremos a gravar um novo vídeo clipe em breve, para lançamento até o meio do ano…também já estamos planejando uma nova tour, porém, essa deverá ser nos EUA e provavelmente no começo do ano que vem. Atualmente estou compondo dois álbuns em paralelo…um deles será o próximo (7°) album do HellLight e o outro é um projeto que estou fazendo com um pessoal dos EUA, estamos fazendo uma banda em conjunto e em breve teremos mais novidades para anunciar…ou seja, estamos com um ano bem atarefado, que é muito bom. Acredito que quanto mais as bandas brasileiras produzirem, maior será a cena, maior será a exposição e o volume de shows e festivais. Nós temos contato com fãs do mundo todo e durante todos esses anos percebemos o quão boas são as bandas nacionais; acho que esse é um momento bom para o estilo e acredito que os fãs desse estilo (que são os melhores de todos..rsrs) terão muito material para escutar em breve.. Doom On!

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Giovan Dias

Editor do The Glory Of Pagan Fire Zine, trabalho iniciado ainda na década de 90, voltado ao Black, Death, Doom Metal.

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