Dark Reflections

Imagem in Musicka (beleza grotesca e sons de demolição)

Francisco de Goya y Lucientes

É verdade, é muito verdade que as capas de discos de Metal, historicamente, lidaram com obras de arte composta por “anônimos” que ganharam espaço no universo artístico convencional e vice versa, assim como no próprio meio da sub cultura underground como a mesma propõe. O meu gosto pela arte foi, também, desencadeado por admirar estas “novas” formas de expressão com teores e pitadas drásticas de Romantismo. É bom esclarecer que o movimento Romântico nas artes visuais do século XIX, não tratava de amor entre duas pessoas e sim da tragédia, da morte, da loucura, da psique humana vide as famosas gravuras e pinturas do artista romântico espanhol radicado na França Francisco de Goya y Lucientes (1746 – 1828) “El Aquelarre” 1798, “Witches Flight” 1798, “Los Desparates”, “Asmodea” entre outras, assim como fatos históricos trágicos como as invasões bárbaras e outras relações pessimistas entre a soberania da natureza e sua grandeza e a fragilidade da existência humana.

As capas dos discos de metal, principalmente na época em que o vinil era o único meio de contato direto com esse tipo de arte grandiosa, salvo algumas raríssimas demos com alguma produção um pouco maior, o que era muito difícil, estreitou esse laço de união entre a música e arte plástica. Ademais, uma capa pode atrair ou repulsar o ouvinte, pode aguçar a curiosidade, amar ou odiar uma banda, qualquer banda! E as capas, assim como as logos das bandas, sempre foram muito atraentes para mim, quiçá a maioria destes que leem esse artigo exatamente agora.

Derek Riggs, Foto por: Divulgação

É fato que Iron Maiden nos deu capas tão fantásticas, que ficaria esquisito não citar Derek Riggs, caso eu desejasse apenas enveredar pelas águas turvas do metal extremo. Talvez, o Iron Maiden, tenha sido a maior vitrine para um artista plástico, maior que os livros de história da arte possa ter alcançado na vida. Aliás, perpetuar sua arte ligando-a à uma outra linguagem como a musical por exemplo, torna sua obra ainda mais potente, mais massificada no sentido de notoriedade. E sim, todo adolescente dos anos 1980, admirava as capas do Iron Maiden e pode ter assombrosos pesadelos com a imagem de Eddie. De fato que as capas que mais me chocaram, foram das bandas de speed thrash da época como Exodus “Bonded By Blood” de Richard A. Ferraro álbum de 1985, Slayer “Raining Blood” de Larry W. Carroll álbum de 1986, Dark Angel “Darkness Decends” do artista Sean Rodgers no álbum de 1986, nesse álbum Rodgers divide a autoria com Ron Contenza. Sean Rodgers tem outra famosa capa que é a do álbum “Survive” de 1988 da banda Nuclear Assault. Entre as bandas de Black Metal como Celtic Frost “To Mega Therion” de H.R. Giger de 1985, assim como o EP “Emperor´s Return” de Phil Lawvere de, também, 1985, aliás esta capa tem aquele tom marcante de quadrinhos bem característicos dos anos 1980, principalmente das revistas para “adultos” como Heavy Metal. A lista deste último, Phil, é super extensa para a época, com capas para bandas como Hirax, “Morbid Tales” do próprio Celtic Frost, “Pleasure to Kill”, “Endless Pain”, “Terrible Certainty” Kreator (além de outras da própria banda), o alemão tem um traço muito tradicional, nítido e dá um ar caricato as obras, muito bom.

Claro que, como admirador do Death e Black Metal, essas capas também formaram meu gosto pessoal sobre o trabalho de alguns artistas, entre eles está Dan Seagrave, Andreas Marschall e Crys Moyen. Estes, com toda certeza, foram os responsáveis pelo tipo de arte mais fantástica para as bandas extremas, não só elas, mas para um apanhado de bandas das mais variadas vertentes metálicas, porém que marcaram mesmo, com as capas de bandas de Death e Black Metal no início dos anos 1990.

Dan Seagrave, Foto por: Divulgação

Dan Seagrave, se tornou meu ídolo na capa do Entombed “Left Hand Path” álbum de 1990, ali eu tive a certeza, mais que quando vi a capa do “Altars of Madness” do Morbid Angel álbum de 1989, que se tratava de um artista extremamente criativo, detalhista, que conseguiu com seu dom natural extrair coisas inconscientes e ao mesmo tempo perfeitas para as temáticas mórbidas daquelas bandas. Como não amar a capa de “Like an Everflowing Stream” álbum do Dismember de 1991? Como não ficar paralisado com “Considered Dead” de Gorguts álbum de 1991, “Penetralia” de Hypocrisy 1992, “The Key” de Nocturnus 1990, “Imperial Doom” de Monstrosity 1992, “Effigy of the Forgotten” de Suffocation 1991 e “Breeding the Spawn” 1993, “The Ultimate Incantation” de Vader álbum de 1992? Não há como dissociar a obra de arte da capa destes álbuns históricos para a cena de Death Metal mundial, dada a importância de uma arte de capa para um disco de metal.

Andreas Marschall, Foto por Divulgação

O Andreas Marschall é um alemão autodidata que nos surpreende com suas paisagens insólitas, com suas criaturas abissais, com texturas íngremes e o resultado são obras memoráveis em álbuns como: “The End Complete” Obituary 1992, “Down of Possession” Immolation 1991 e “Here in After” 1996 (apesar de existirem outras artes para o Immolation, citei apenas estas por representatividade afetiva e gosto pessoal), “Coma of Souls” Kreator 1990, “Agent Orange” Sodom 1989. Apesar de ter uma lista enorme de bandas de Heavy Metal no seu portfólio, Andreas fez marcantes obras para o Metal Extremo, fazendo com que seu nome, de um autodidata, figurasse o cenário por mais de 30 anos de trabalhos brilhantes.

Crys Moyen, Foto por: Divulgação

Já o Crys Moyen é a mina dos olhos da cena Black Metal mundial, seu estilo inconfundível, com demônios, crânios, Cristos podres, imolações, violações, sodomias, perversões, se mostra um artista afinado com a proposta das bandas e com uma característica muito, muito peculiar e copiada até hoje. Meu primeiro contato com a arte de Moyen foi através da capa do primeiro álbum da Beherith “The Oath of Black Blood” álbum considerado compilação lançado em 1991, com toda certeza, o maior símbolo do Death/Black Metal mundial a partir do fim dos anos 1980 e início dos anos de 1990. Aquele disco, não só marcou época, como abriu um precedente enorme para um estilo de capas inconfundível, do mesmo teor que o “Fallen Angel of Doom” que traz uma capa no mesmo estilo lançado pelos canadenses do Blasphemy em 1990. Moyen fez a escola do Death/Black Metal ruir com suas obras, que fazem do estilo uma marca registrada através das características técnicas usadas em preto, branco e vermelho, vez ou outra o cinza e prata, porém a predominância do preto e do branco em desenhos atormentadores e precisamente satânicos, não há como negar que são adorados, perversos.

Thorncross – Black Ink & Metal “Livro”

Crys Moyen, tem sua obra marcada em trabalhos como: “Whore of Bethlehem” da Archgoat álbum de 2006 e quase todos os outros da discografia da banda desde o EP “Angelcunt…” de 1993, “Desecration of the Holy Kingdom” da Balck Witchery de 2001 e “Unpheaval of Satanic Might” de 2005, “Live Ritual; Friday the 13th” da Balsphemy de 2001 e mais quilos de desenhos pra banda no decorrer da carreira, “Reflections” Centinex 1997, “Blasphemous Cremation” Incantation EP 2008, “Profana la Cruz del Nazareno” Morbosidad de 2008 e mais uns seis a oito registros da banda, “Mysteria Mystica Zofiriana” Necromass em um relançamento feito em 2011 pelo selo alemão Funeral Industries, “Recremation” Nominon 2005 e mais uma tonelada de bandas do cenário. Aos que tiverem interesse de conhecer mais o trabalho de Crys Moyen e ainda conseguir encontrar disponível por aí, foi lançado um livro com muitos dos seus preciosos trabalhos com as bandas undergrounds, o material é belíssimo e tive o prazer de adquirir anos atrás. O livro chama-se “Black Inc & Metal (Death Black Metal Art by Chris Moyen)” e vem com uma produção incrível em capa dura nas dimensões de um vinil e encadernação ultra, super especial, cada arte mais admirável que a outra e, para completar, simplesmente um vinil 12” com Incantation e Archgoat, do Incantation trata-se de um ensaio gravado em 1990 relíquia e do Archgoat uma demo gravada em 1991 chamada “Jesus Spawn”, pense ai!

Hans Rudolf Giger, Foto por: Divulgação

Outra figura importante, que foi citada mais acima, porém deixei para comentar um pouco agora, é o H.R. Giger, excepcional artista falecido em 2014, mas daqueles que sabem, tem um conhecimento de causas obscuras em alto grau. Responsável por capas de bandas excepcionais na década de 1980 com a já citada “To Mega Therion” da Celtic Frost em 1985, com toda certeza uma capa perturbadora e profana, até hoje um dos trabalhos mais belos em capas de bandas obscuras na história do Metal Negro. Os trabalhos de Giger ultrapassaram os limites das telas de pintura e passearam pela escultura, pelo cinema vide “Alien, o oitavo passageiro”, “A Experiência” e as criaturas de “Predador” com aquelas insanas misturas de extraterrestres diabólicos com formatos fálicos. A obra de Giger também figurou em capas de outras bandas como Horrified em seu álbum “In the Garden of Unearthly Delights” 1993, Order From Chaos no álbum “Stillbirth Machine” de 1992 e Atrocity no álbum “Hallucinations” de 1990, Caracass “Heartwork” álbum de 1993 que nesse caso é a foto de uma escultura de Giger. É possível que muitas outras bandas tenham usado obras sem permissão do artista, visto a quantidade de demos que possuem obras suas nas capas, porém não há como saber sobre todas essas histórias e por isso, prefiro mencionar os materiais lançados oficialmente. A carreira do artista foi muito bem sucedida, assim como imortalizada sua obra dentro da cena metálica.

Kev Walker, Foto por: Divulgação

Algumas capas são, também, muito importantes para o direcionamento de outras capas na história do metal, como a capa do segundo álbum da banda americana Autopsy “Mental Funeral” de 1991 feita pelo artista Kev Walker, o mesmo que também fez a capa do primeiro álbum “Severed Survival” de 1990, porém a carreira desse no metal não teve expansão, ainda assim, seu trabalho no segundo álbum do Autopsy abriu um precedente interessante sobre as obras idealizadas. O trabalho em si, destoa dos temas tratados no disco, porém traz uma ilustração esquisita e asquerosa, talvez seja por isso que a capa acabou calhando muito bem ao produto final que é a música e deu uma moldura interessante para o disco. Outra importante capa de disco da história é da banda Suffocation em seu EP “Human Waste” de 1991 feita por Ron Spencer em sua única aparição em toda a história do metal.

Ron Spencer, Foto por: Divulgação

No Brasil, podemos citar também alguns importantes artistas que deixaram seu legado no cenário nacional também com obras preciosas, é o caso do Kelson Frost e aí, amigos, estamos falando de uma verdadeira sumidade, o cara simplesmente fez as capas de “Rotting” Sarcófago 1989 e “The Laws of Scourge” 1991, “Mental Slavery” da MX álbum de 1991, “The Man is His Own Jackal” da Chakal álbum de 1990, “Mirror, my Mirror” da Witchhammer álbum de 1990, “Born… Suffer… Die…” da Headhunter D.C. álbum de 1991 e como não citar duas capas magníficas da banda The Mist em seus conceituais “Phatasmagoria” de 1989 e “The Hangman Tree” de 1991, onde podemos notar toda sua destreza e precisão. Pesquisando para escrever esse artigo, encontrei uma interessante entrevista do Kelson Frost, falando sobre sua trajetória como artista dessas bandas no final dos anos 80 e início dos 90. Em uma das respostas ele fala sobre o fazer artístico e o conflito entre a fruição artística e o desejo de quem a encomenda, ali você, que não conhece esse lado do autor de uma obra, pode compreender melhor o que passa por dentro de quem faz porque gosta e quem faz porque precisa mais do que porque apenas gosta!

Kelson Frost, Foto por: Divulgação

“Roadie Metal: Quando começou a fazer as capas dos álbuns das bandas nesta época, qual era seu método de trabalho? Você criava baseado no que as bandas e as gravadoras pediam ou você tinha liberdade para criar todo o conceito?
Kelson Frost: Na época, eu precisava me manter em BH e então eu me sujeitei a fazer o que me pediam, por mais que isso me incomodasse. Eu, particularmente, sempre gostei de trabalhos originais e que destoariam de algumas propostas quase “modistas”. Mas não era fácil. Primeiro, a metáfora pede um certo embasamento e as pessoas confundiam o “expressar” com o “impor”. Vem em mente aquele bordão: “de médico e louco todo mundo tem um pouco”. Diria eu, de “pintor” porque todo mundo quer opinar e eu é quem vou assinar, assumir. Era, e é comum que as pessoas venham me dizer como deve ser a capa. Faltam pouco para pegarem a minha mão e executar o trabalho, uma vez que acham que já dominaram meu cérebro… (risos). Algumas pessoas não se dão conta de que um profissional consegue compreender com mínimas palavras e referências. O importante é eu me sentir dentro do projeto, como um membro da banda. Eu não me senti livre para desenhar ou pintar as capas que me apareciam… deixo claro que essa insegurança era de todos, tanto eu com minha necessidade financeira e as bandas com suas inseguranças. Era comum que algumas bandas chegassem até mim com um desenho pronto ou pinturas de outros artistas e que também não me permitiam usar apenas como referência ou influência… era aquilo e pronto. Às vezes me deparo com comentários bem cruéis sobre estes trabalhos, mas por desconhecimento, preferem me atacar não imaginado que foi uma imposição. Respondendo a sua pergunta, raramente, poucas bandas me permitiram ser o artista de livre pensamento, somando ao trabalho musical.”

http://roadie-metal.com/kelson-frost-o-desbravador-artista-do-metal-brasileiro/ consultado em 22/03/2019

Uma das obras que mais admiro no cenário nacional, é a capa do primeiro álbum da banda Impurity “The Lamb´s Fury” de 1993, ali está impregnada um sentimento indescritível de beleza sublime, elevada. Talvez a capa mais bonita já lançada por uma banda de Black Metal Nacional, mas aí acabamos por incitar o gosto pessoal e opinião também. Ron Seth, ex integrante da banda e atualmente na Mutilator desde 2018 (em seu surpreendente retorno), também fez outras capas interessantes e importantes na cena Black Metal como “Therion Rising” da Akerbeltz álbum de 1999, “Jesus, Intense Weeping” da banda Calvary Death em seu álbum de estreia de 1994, “Decade of Decay” álbum compilação do Sarcófago de 1995.

Michael Whelan, Foto por: Divulgação

Outro grande artista que fez capas históricas, principalmente para a banda brasileira Sepultura, foi o Michael Whelan. “Beneath the Remains” 1989 e “Arise” de 1991, talvez sejam as mais emblemáticas e que ficaram mais conhecidas, o ilustrador de séries de ficção científica e fantasias, fez trabalhos magníficos em álbuns como “Cause of Death” da banda Obituary de 1990, aliás se tem uma coisa que a Obituary sempre fez muito bem foi escolher os temas de suas capas e os artistas, a banda é uma galeria de arte ambulante. Outro trabalho importante do artista foi no álbum “Epidemic of Violence” da poderosa Demolition Hammer de 1992. Outro é o Edward J. Repka, simplesmente autor da capa do álbum “Scream Bloody Gore” da banda Death de 1987, não satisfeito ele ainda fez “Leprosy” 1988 e “Spiritual Healing” de 1990, não bastasse essas capas emblemáticas a carreira do artista ainda tem no seu portfolio: “Game Over” Nuclear Assault álbum de 1986 e “Beyond the Gates” da Possessed álbum de 1986. Mais recentemente muitas bandas tem procurado seu trabalho como uma sósia da banda Death chamada Gruesome, simplesmente ele fez capa para quase todos os lançamentos da banda, ademais Toxic Holocaust, Suicidal Angels sem citar a discografia da Megadeth que Ed Repka trabalhou em discos capitais como “Peace Sells… But Whos´s Buying?” de 1986 e “Rust in Peace” de 1990, também figuram na sua lista de obras.

Edward J. Repka, Foto por: Divulgação

Depois desse universo que se mostrou inteiramente dominado por homens, eis que conseguimos trazer à tona uma mulher, trata-se da americana Miran Kim. Kim é a encarregada de capas muito destruidoras para a cena, o caso de simplesmente “Onward to Golgotha” de 1992, “Mortal Throne of Nazarene” de 1994, “Upon the Throne of Apocalypse” de 1995, “Diabolical Conquest” de 1998, “The Infernal Storm” de 2000 e “Decimate Christedom” de 2004 da banda Incantation. Aliás o trabalho da artista é muito original e tem uma textura impressionante, uso de cores e formas de uma maneira caótica, porém que, ao mesmo tempo, encontra uma harmonia obscura, consegue sintetizar bem a imagem com a sonoridade da banda e, além de tudo isso, existe um flerte bem acentuado com a arte abstrata. É bem verdade, que Incantation investe num visual voltado ao profano e ao Satanismo, Kim conseguiu trazer essa aspiração da banda para a arte com muita maestria, não à toa que ela figura como artistas em tantas capas de discos da banda. Miran Kim ainda tem trabalhos em álbuns como: “Purity Dilution” do Defecation álbum de 1992, “Black Earth” da banda Arch Enemy de 1996 e o fantástico “The Karelian Isthmus” da Amorphis álbum de 1992.

Miran Kim, Foto por: Divulgação

Acho que as capas do Cannibal Corpse, a partir do “Tomb  of Mutilation” de 1992, foram as que começaram a incomodar muito. Sinal disso é que a versão brasileira do álbum foi completamente censurada, aparece mesmo somente a mão da figura feminina nessa versão, aliás as capas, especialmente essa, são bem doentias que cabem muito bem ao nome da banda e as temáticas usadas por eles em suas músicas. O artista dessa capa é o Vincent Locke, que não apenas essa, mas do “Eaten Back to Life” de 1990 até “Red Before Black” de 2017 são assinadas por ele de tão estreita a relação entre a obra dele e o trabalho da banda, faz de Locke um integrante da mesma através de sua arte expressa em suas capas. O estilo quadrinista dele, fez com que as capas tivessem um pouco desse universo de horror ilustrado, apesar das imagens chocantes, elas ganham uma certa leveza artística, o tal sublime romântico das imagens grotescas, bem diferentes de outras bandas do gênero que preferem a realidade das fotos de cadáveres putrefatos, autopsias, mutilações e secreções verde amareladas.

Vince Locke, Foto por: Divulgação

Capas bizarras mesmo foram da banda australiana Pungent Stench, não apenas musicalmente eles tentaram passar seus pensamentos doentios, mas as capas de seus álbuns foram verdadeiras obras a fim de despertar este desconforto ou talvez prazer em seus fãs. Certamente que a capa do álbum “Been Cought Buttering” de 1991, também lançado no Brasil, sem censura ao contrário da Cannibal Corpse, traz na capa um beijo entre dois homens decapitados fazendo alusão à imagem com Leonid Brezhnev e Erich Honecker se beijando nas comemorações do 30º aniversário da ex-República Democrática Alemã em 1979, ato que foi considerado e rotulado “O Beijo Fraterno” e que foi cenário até de grafite no muro de Berlim em 1990 feita pelo pintor Dmitri Vrubel. Por trás da capa do Pungent Stench está o artista Joel-Peter Witkin, o mesmo que é responsável pela capa do primeiro álbum “For God Your Soul… For Me Your Flesh” de 1990. Witkin é um artista que gosta de abordar os corpos humanos mutilados, os transexuais, o bizarro, o deformado e fazer releituras de obras de outros artistas e tabus religiosos, perfeito para o Pungent Stench.

“O Beijo Fraterno” e que foi cenário até de grafite no muro de Berlim em 1990 feita pelo pintor Dmitri Vrubel
Joel-Peter Witkin, Foto por: Divulgação

Outras formas de expressão, também importantes nas capas dos discos foram as fotografias e com certeza a Capa com foto que vem à mente de primeira é a foto do “I.N.R.I.” da Banda Sarcófago álbum lançado em 1987, creditado simplesmente à um indivíduo chamado Borges, e assim ficou a incógnita. Acho que nem eles mesmos da banda poderiam prever que ali estava nascendo um dos álbuns mais aclamados na história do Metal Extremo mundial. Outra foto emblemática de álbuns nacionais é do “Sexual Carnagem” da banda Sexthrash lançado em 1990, não sei se coincidentemente, esse álbum foi fotografado pelo mesmo Borges da capa do Sarcófago, e mais coincidentemente, ambas as bandas tinham o mesmo baterista D.D. Crazy como integrante. A capa do “Sexual Carnage” até os dias de hoje causam algum incomodo, recentemente, em 2018, fiz uma postagem em uma rede social falando sobre o álbum como um todo e, claro, exaltando as qualidades da capa, o arrojo e a presença de uma modelo atraente na mesma, e simplesmente a postagem foi denunciada e excluída pelo servidor da rede, maluquices retrogradas do século XXI.

No Black Metal, diferente de outros estilos de Metal Extremo, é um tanto quanto comum as capas serem fotografia, talvez pelo fato da temática das bandas permitir que esse tipo de arte tenham mais peso e possam ser usadas com maior frequência. De fato, capas com fotos marcantes que me recordo são do “A Blaze in the Northern Sky” da banda Dark Thorne álbum de 1991 e tirada por seus próprios integrantes, aliás algo muito comum também entre as bandas do gênero, esse ar descompromissado e até amador de tratar sua obra, particularmente gosto muito deste despojo sobre as coisas. Outra capa fantástica, talvez a mais bonita entre as bandas estrangeiras está a capa do “Pure Holocaust” da banda Immortal álbum de 1993, qual não existe credito ao fotógrafo, já o subsequente “Battles in the North” de 1995 o credito vai para alguém que atende apensar pelas iniciais O.I., aliás o Immortal tem um batalhão de álbuns em que a capa são fotos dos integrantes, que vão mudando de tons, assim como estas que citei. Como o Dark Throne que levou um tempo lançado álbuns com fotos dos integrantes na capa, em geral apenas um integrante. A textura dessas fotos também, me parecem propositadas a parecerem simples, diretas, porém ao mesmo tempo passam uma emoção obscura, já que, em geral, usa-se o corpse paint e tiram-se estas fotos em ambientes pouco iluminados e a predominância do preto e branco nos tons das fotos. Outras fotos comuns à algumas bandas de Black Metal são das paisagens, rios, lagos, montanhas cobertas de vegetação ou de neve, paisagens íngremes e muitas vezes os integrantes nesses locais como a já citada Immortal.

David Penprase, Foto por: Divulgação

Outra foto de capa emblemática está no álbum “Serenades” da banda Anathema de 1993, talvez, entre as citadas anteriormente, a que mais tem tratamento artístico em sua produção, houve toda uma preocupação em compor o tema, os ângulos, as texturas e aquela aparência sobrenatural e dantesca ao mesmo tempo. O artista aqui, neste trabalho foi o fotógrafo David Penprase, e não distante, trabalhou pouco na cena Metal, mas só esta capa já é suficiente para deixar seu nome no rol dos trabalhos fotográficos mais bem sucedidos da história. O artista londrino, possui uma carreira bem calcada, inclusive com exposições e livros lançados. Entre esses fotógrafos notáveis tem o Dave Mckean, aliás o trabalho de Dave se estende à designer, quadrinista, cineasta, musico… haja função! Seu trabalho, em minha opinião, mais bonito está na capa do grande e único álbum do Disincarnate “Dreams of the Carrion Kind” de 1993, ali está encartado uma obra e tanto, que mescla bem essa multifuncionalidade do artista em misturar fotografia, escultura e pintura numa mesma obra, aliás, graficamente, o trabalho é soberbo. Em outros trabalhos, Dave mostrou sua habilidade gráfica como “Demanufactore” da Fear Factory álbum de 1995, “Obsolete” de 1998 e outros lançamentos da banda entre singles e compilações.

Dave Mckean, Foto por: Divulgação

No portfólio de Dave McKean ainda podemos listar “Renewal” da Kreator álbum de 1992, “Burn My Eyes” da Machine Head álbum de 1994, “Shades of God” da Paradise Lost álbum de 1992, “Low” da Testament de 1994 e a maravilhosa capa do primeiro álbum da banda My Dying Bride “As the Flowers Withers” de 1992. Aproveitando o ensejo, cabe falar da capa do primeiro e fantástico álbum da Paradise Lost “Lost Paradise” de 1990, um do primeiros álbuns de Death Doom Metal da história e traz na sua capa uma imagem insólita. A ilustração é de um bem sucedido quadrinista chamado Duncan Fegredo, o mesmo tem uma tonelada de trabalhos publicados da DC Comics, Fleetway e Vertigo.

Em 1990 a banda Morgoth lançou um EP chamado “The Eternal Fall” sabe aquele impacto que você recebe ao ver uma arte surpreendente? Pois foi exatamente o que senti ao ver esta capa pela primeira vez. Como já disse anteriormente, a capa tem o poder de aguçar a curiosidade em ouvir o som da banda, até aquele momento eu não conhecia o som da banda, mas senti uma vontade incontrolável para ouvir aquele disco por causa da capa. A arte, ahhh arte era de um cara chamado Axel Hermann, um alemão que certamente tem uma mente perturbada, ou ao menos pesadelos insanos. Outras capas de Hermann são nada menos que “The Rack” da banda Asphyx álbum de 1991 e mais praticamente todos os álbuns até o “Incoming Death” de 2016, confesso que a capa que mais me cativou entre os trabalhos que ele fez pro Asphyx é a do “Deathhammer” de 2012. O mesmo também é o responsável por capas como “In the Eyes of Satan” da banda Deiphago 2015, “The Oath of a Iron Ritual” da Desaster de 2016, a maravilhosa capa do primeiro álbum da sueca Grave “Into the Grave” de 1991 e ainda o segundo “You´ll Never See…” de 1992, “Wolfeheart” da Moonspell de 1995 e “Revelation 666: the Curse of Danmnation” da Old Man´s Child álbum de 2000 onde trabalhou num processo hibrido de fotos e design gráfico.

Axel Hermann, Foto por: Divulgação

Entre as capas que mais me impressionam até hoje, também, são as capas dos primeiros álbuns de King Diamond, aquelas capas são clássicas demais, tem aquele ar tradicional e carrega consigo toda a atmosfera ideal de terror pretendida pelo músico e muito bem traduzida pelo artista, neste caso o Thomas Holm, que além das capas de “Abigail” 1987, “Them” 1988, “Conspiracy” 1989 (fotografia com moldura), “The Eye” 1990 e “House of God” 2000 ele é responsável nada menos que por “Melissa” da banda Mercyful Fate de 1983 (outra banda de King Diamond) “Don´t Break the Oath” de 1984 e “9” de 1999. Ou seja, o Thomas e o King têm muito em comum e compartilharam dos mesmos desejos em trabalhos recorrentes. Outro trabalho do Thomas que gosto muito e convém citar é o “Envoy of Lucifer” da Nifelheim álbum de 2007.

Thomas Holm, Foto por: Divulgação

 

Gorefest, banda holandesa de Death Metal, também foi uma banda que investiu em uma capa, ao menos do seu primeiro álbum de estúdio “False” de 1992, num estilo fora da curva, claro que a capa possui imagens e recursos peculiares ao mundo do Metal como violência, religião e morte. Porém a arte de Mid (Rob Middleton), um britânico, também músico que tocou na Deviated Instinct, qual também foi o autor de muitas de suas capas, fez na capa do Gorefest uma espécie de obra em estilo Cubista, numa obra com aparência de remendos, colagens e ideias montadas numa tela bem na linha vanguardista. Outra banda que teve as obras de Mid em suas capas foi a também inglesa, Napalm Death em seu álbum “Utopia Banished” de 1992, neste caso, já gosto mais do trabalho feito por Mid, me pareceu um pouco mais coerente e inspirado, talvez as obras mais objetivas me cative mais que as subjetivas…

Mid (Rob Middleton), Foto por: Divulgação

Um ponto negativo em minha busca, é perceber que pouca atenção se dá em creditar aos artistas seus feitos, parece que foi a própria banda que fez as capas, foi preciso recorrer aos encartes, as leituras das assinaturas nas próprias capas e aquela memória velha em que os neurônios nem são mais os mesmos. Lamentável, visto que são peças que marcam a vida de um headbanger tanto ou mais que as próprias músicas ali gravadas, vide o tanto que essas imagens circulam no meio, não apenas nas próprias capas, como nas camisas e merchandisings afins.

Claro que as fotos, as pinturas e os desenhos marcam e marcaram época na história do Metal em geral, especialmente no Metal Extremo que, ao que me parece, dá um maior valor a este elemento no contexto como um todo, em se tratando de público consumidor das obras. Como um intimamente envolvido com arte visual, é um fator primordial na manutenção deste movimento, o pilar de sustentação atrativa aos olhos daqueles que ainda não conheceram a música de uma banda, é o primeiro estimulo que potencializa a vontade de alguém querer conhecer aquele som. É fato que a imagem e a música são aliadas uma da outra e o Metal criou fórmulas perfeitas para que estas linguagens se juntassem para propor uma enorme variante de beleza grotesca e sons de demolição.

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Anton Naberius

Vocalista da Eternal Sacrifice (Pagan Black Metal) Professor de Arte Visual, Artista Plástico e Especialista em Arte e Patrimônio Cultural.

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