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Malefic Cold Weather XI – Emanando pura energia escura no tradicional evento de inverno de São Paulo

Em 15 de junho de 2019 foi realizada mais uma edição de um dos mais tradicionais eventos de metal extremo de São Paulo, o Malefic Cold Weather. Nessa 11° edição, foram apresentadas a Promethean Gate, Lábar’Oculto, Blazing Corpse e Denied Redemption. Nesse ano, a edição foi na casa Morfeus, próximo ao metrô Santa Cecília (que há dois anos vem recebendo cada vez mais apresentações de metal extremo). A casa tem dois ambientes: um iluminado onde fica o bar e onde ficam as distros (neste evento, estavam presentes a Sphera Noctis, Black Hearts, a Culto Tirânico e a Impaled Records. As bandas também vendem seus materiais nesse local) e o subterrâneo, iluminado por luz negra, onde fica o palco.
Às 22h já haviam muitos bangers na região do local do evento, reunindo desde as nefastas faces já tradicionais nas blasfemas celebrações na cidade, a um bom número de pessoas do interior de São Paulo e mesmo de outros estados.
Foi um evento marcado por bandas diferentes, que tinham alguns elementos em comum: variações no vocal em todas (indo do uso impetuoso de drivers, a guturais e vocais limpos) e a parte lírica cuidadosa, com ímpetos poéticos, filosofias elaboradas e habitantes do reino dos caídos.

Apresento a vocês com grande satisfação essa resenha, em ter presenciado esta celebração. E uso aqui a palavra “celebração” não como recurso estilístico; e sim porque é a palavra adequada para descrever o que quem presenciou percebeu ali. Hail!

Abertura: Promethean Gate

A banda a abrir o evento foi o Promethean Gate, black metal one man band fundado em 2016, de São Paulo. Possui uma demo, um single e dois splits. No evento, o fundador e criador do projeto, Promethean P. Priest, fez o vocal. Compõe a apresentação junto com Kasdeya (Absyde) na guitarra, Thanathus (Absyde) no baixo e J. (Carpatus) na bateria. Foi a primeira manifestação ao vivo da banda. E já nos primeiros riffs, foi possível entender que aquela noite se trataria de um evento não-convencional.
Promethean P. Priest sobe por último no palco, com uma indumentária peculiar. O capuz, posicionado de modo a aparecer apenas uma faixa central do rosto, era sustentado por uma coroa cinza de aspecto rústico e hostil, que poderiam remeter a uma elevação/coroação do mundo inferior.
Inicia-se então, a 0h, o Malefic Cold Weather com Promethean Gate e a faixa “The Call of the Nameless God”. Logo o ambiente é envolvido por uma atmosfera escura, devido a boa execução do instrumental junto a um vocal torpe, que começa em profunda agonia, variando de timbre sem perder a intenção. Uma essência black metal com vociferações guturais segue o som. A apresentação atraiu bastante a atenção do público local, que foi atingido por uma imersão quase imediata. Apesar de ser a primeira manifestação ao vivo, todos os membros já estão habituados ao palco, só que vocal e baixo estavam em funções diferentes de costume (até então bateria e vocal, respectivamente). Notei uma certa tensão no início no vocalista, mas no decorrer da manifestação sua presença de palco evoluiu, fazendo configurações de mão mágicas e se impondo na função que executava. A faixa “It Took Me The Whole Night to Believe in”, a terceira executada, foi a que mais chamou minha atenção. Os riffs e as batidas são bastantes simples, mas o nível de absorção é absoluto. Energia obscura em estado bruto. A apresentação chega em seu ponto alto com o cover do Emperor (Lord of the Storm) e com a faixa “Enthroning of Lucifer With the Crown of Phosphoros”, que provavelmente justifica a coroa utilizada, em um símbolo luciferiano de ligação entre Lucifer e o portador do fogo (portador da luz). Phosphoros é uma outra forma de chamar Prometheus.
Em um determinado momento da última faixa “The Horned Dragon That Travels Throught the Gates of Sithra Ahra and Spreads Words Of Truth” Promethean P. Priest joga o tripé que sustenta o microfone para fora do palco. Faixa muito boa inclusive, possui força e introspecção no instrumental, além de variações na voz, incluindo vocais limpos bem empregados.
A manifestação foi encerrada sem delongas, quando o vocalista joga o microfone no chão e sai do palco. Foi uma execução muito boa no todo. A bateria inflama, dá corpo ao som, foi muito bem reproduzida; e a variação nos timbres do vocal conferiram identidade a banda. Baixo e guitarra também bem executados – inclusive, o baixista Thanathus pareceu tocar sem enxergar por um período, já que estava com o rosto enfaixado por um pano preto no início. Em alguns momentos houveram algumas falhas técnicas no microfone, mas não chegou a comprometer a apresentação, que foi muito boa e rendeu uma imersão unânime no subterrâneo do Morfeus.

2° manifestação do evento: Lábar’Oculto

A segunda manifestação da noite foi a Lábar’ Oculto. A horda é de Pirajú, interior de São Paulo. Formada em 2013, hoje com uma demo e dois singles, composto por membros do Wodanaz e ex-membros do Necr’Occasvs. Odes in Tenebris também compõe o Mausoleum e o Pactum e W. Sabazivs, Arbovirus e Escuridade.
De referências black metal 90 – principalmente gregas – unida a um forte hermetismo lírico, simbologias, densidade (bom trabalho das duas guitarras e baixo) e ao peso característico do doom metal, Lábar’ Oculto é H. Kheprianvs (voz e teclado), Odes in Tenebris (guitarra), W. Sabazivs (guitarra), Funeratus (bateria) e Lord Vamphyr Occultum Lapidiem (baixo). Possuem uma demo e dois singles, um deles inclusive lançado no início do ano, o single Astrvm Invicts (O Caminho do Diamante), que justamente inicia a apresentação. O som é imersivo e em português, com passagens diversificadas. Os membros se apresentaram de capuz e o teclado utilizado pelo vocalista tinha um suporte revestido por um tecido pintado a mão pelo guitarrista W. Sabazivs, com a figura de Lilith coroada com louros. A forma como o tecido estava disposto junto ao teclado criou um altar, cercado de crânios de animais, contribuindo ainda mais com a atmosfera hermética que transmitem desde as letras, a condução das músicas, até a apresentação. A faixa “Fragmentos de um Crânio” inicia mais arrastada, com uso de teclado, mas faz uma variação magistral para um blast beat e um vocal vociferado limpo. Faixa muito boa, o baterista faz um bom uso dos pratos. Igualmente boa a quarta faixa apresentada, “Tributo de um Espírito Noturno”. O riff de guitarra da introdução dessa faixa tem profundidade e foi executado de forma bastante espirituosa. O público estava bastante concentrado na execução. O vocalista H. Kheprianvs é bastante dinâmico e expressivo, fazendo o vocal, intervenções no teclado e agitando ao mesmo tempo. O instrumental é bastante preenchido, característica geralmente própria de banda que tem duas guitarras. Bateria e baixo se entendem muito bem, inclusive gostei bastante do baixo, apesar de nas primeiras faixas ele ter saído um tanto escondido. O baixista faz backing vocals também. Interessante comentar também que as linhas de teclado, apesar de não serem tão complexas, são bem usadas na função de dar o tom ritualístico que caracteriza a banda. Nota-se que o instrumento não é usado de forma vazia e é bem trabalhado na composição.
Para fechar com grandeza, trazem no fim um cover do Bathory, “Enter the Eternal Fire”, que acumulou ainda mais próximos ao palco e insandeceu os presentes. Boa apresentação.

3° manifestação do evento: Blazing Corpse

Foto:Cláudio Higa

Para endossar de vez o clima de introspecção e escuridão da 11° edição do Malefic Cold, sobe ao palco o Blazing Corpse, em um sonoro ode a morte. Desde 1994 fazendo dark/doom metal, a banda de Paulínia, interior de São Paulo, conta com Adriano Luís (vocal e teclado), André Luiz (guitarra), Cláudio (baixo) e F. (bateria). Possui quatro demos, uma compilação, um full length e um split de 2018 com o Temple, “The Blazing Temple”.
Blazing Corpse é denso, poético, grave, sério. “Nox Splendor” é uma faixa boa e incansável, apesar de longa. As linhas de guitarra são de profunda melancolia. O baixo vibra negativo, escuro, durante toda a execução. A bateria é marcada ao sabor funerário do gênero. O vocal é orgulhoso, de extensão, segura notas vezes bem difíceis. Quem estava presente conferiu um genuíno representante da face obscura e mórbida do metal. “Before Sunrise” invade o ambiente com sua atmosfera negativa. Tem um trabalho bem feito de composição e detalhes delicados que contrastam com o peso, seguida de “Listen of the Storm”, da demo de 2002 “Nocturn Delirium”. No Blazing Corpse é mais densa e menos rápida que as demais bandas da noite, o que resultou em um bom elemento de composição do cast. Destaque para o baixo, mostrando que nem sempre uma boa execução se baseia em velocidade. Uma curiosidade é que o vocalista Adriano tem um hábito antigo de carregar um baú em determinado momento da apresentação, que nunca abriu. O baú estava lá novamente, decorado com uma identidade antiga, assim como o traje do vocalista, que remete ao século XIX, enquanto executava densas linhas no teclado. Blazing Corpse sooa grande também por um forte domínio e convicção de sua arte, já que estamos falando de uma banda de 1996. Executaram também as faixas “Somber” e “Soturna” (do “The Universe Shouts My Name”) presentes no split que a Blazing Corpse fez com os chilenos do Temple em 2018, último lançamento da Blazing até então. Detalhe que ambas faixas são executadas pelo Temple neste lançamento. Encerra sua apresentação com “Inert”, aumentando o tom nessa execução, concluindo bem sua fúnebre manifestação.

Encerramento: Denied Redemption

Denied Redemption foi a manifestação mais aguardada da noite, pela primeira vez em São Paulo. Criada em 2005 a egrégora, como eles mesmos se definem, veio do Distrito Federal para sublimar sua poderosa energia por essas terras cinzentas. Possuem duas demos, um full-length e um split de 2019, com o Vultos Vocíferos. Formada por NNV (vocal), Baphomenum Antichrist (baterista/backing vocal), Ignirefos (guitarra/backing vocal), Mist (baixo), Zalmonix Cervicapri (teclado), Denied Redemption é um black metal imperioso, não apenas pela técnica dos instrumentistas – guitarra e bateria chamam a atenção – ou o fato de terem letras onde percebe-se cuidado e trabalho ou mesmo o fato de terem três vocais diferentes e essa integração ser fora de série – baterista, guitarra e o vocalista principal. Ou ainda o fato do baixo e do teclado fazerem um ótimo trabalho na criação das atmosferas, a utilização de idiomas diferentes. Mas principalmente pela força que todas essas características reunidas conseguiram transmitir nas catacumbas do Morfeus. Denied Redemption é a personificação de sua própria criação. Há uma energia que emana de forma muito visceral e muito natural na execução das faixas e acentuo que, quem previamente conhecia a gravação do EP “Egregora Tenebrae” por exemplo e ainda não havia presenciado, certamente foi novamente surpreendido pela apresentação ao vivo.
O vocalista faz jus a sua posição de frontman e mostra ferocidade, é enérgico, convence do que está sendo passado ali. Sua presença de palco é forte e contribui e muito para o impacto da egrégora nos ouvintes. A introdução se carrega de emitir seu chamado. “Espirais do Caminho da Serpente”, é uma faixa muito boa e nesse momento observei um público bastante agitado e imerso, pressionado frente o palco. Percebi isso ao vivo, mesmo com a iluminação de luz negra da casa e depois confirmei observando o público de outras direções, através das fotos tiradas pelo fotógrafo Cláudio Higa (sempre muito competente, inclusive), que realmente a melhor palavra para descrever o efeito da apresentação é hipnose. E como se não bastasse, ainda vem um cover de “Father of Son” do Bathory para gerar um coro sonoro vindo da platéia. A faixa-título do EP “Egregora Tenebrae” é uma obra-prima, desde sua introdução, a forma como a bateria cresce no refrão, o teclado nos momentos exatos, solo de guitarra no momento exato, em prol da composição e não de algum exibicionismo barato. Baixo se destacando em intervalos. A variação entre os vocais é excepcional. Que criação! Destaque para o vocal do guitarrista, um grave subterrâneo que era um contraponto muito bom com os outros vocais, mais rasgados, agoniados e limpos. Em geral as faixas mantinham o impacto da anterior, o que não amorteceu a platéia em nenhum momento. Mesmo quando houve um erro, logo seguiram em diante e a energia não foi dissipada. “Lucifer Luciferax” e “Black as the Night” foram as duas faixas matadoras que encerraram a egregora, em alto nível. (Lucifer, Luciferax!) Vieram dispostos a fazer um evento grandioso mesmo e tocaram quase tudo o que produziram, desde as demos até o split lançado neste ano com o Vultos Vocíferos.

Destruídos, os sobreviventes extasiados dessa manifestação se despedem do Morfeus por volta das 5h da manhã. 2019 está apenas no meio, mas certamente esse será um dos melhores eventos do necrounderground desse ano. Um bom cast, que se complementou como um todo. Hail caos!

Setlist:
PROMETHEAN GATE:
* The Call Of the Nameless God
* Invocatio Et Consecration
* It Took Me The Whole Night to Believe in
* Lord Of the Storm (Emperor Cover)
* Enthroning of Lucifer With the Crown of Phosphoros
* The Dragon that travels Throught the gates of Sithra Ahra and Spreads Words Of Truth

LABAR´OCULTO:
* Astrvm Invictvs – O caminho do diamante
* Lábar’Oculto (Contravulgata)
* Fragmentos de um crânio
* Tributo de um espírito noturno
* O Trono do Iconoclasta
* Enter the eternal fire (Bathory)

BLAZING CORPSE:
* Nox Splendor
* Before Sunrise
* Listen to the Storm
* Fever
* Soturna
* Somber
* Inert

DENIED REDEMPTION:
* Intro
* Towards the Satan Millennium
* Espirais do Caminho da Serpente
* The Grandiose Manifestation of Satan
* O Segredo das Noites do Tempo
* Father to son (Bathory cover)
* V.I.T.R.I.O.L. (Sepulchral Darkness)
* Egregora Tenebrae
* O Rito do Touro Negro
* Signa Baptismatis Extremum (Postremum Bellum)
* Lucifer Luciferax
* Black as the Night

 

 

GALERIA DE FOTOS

(Créditos a Cláudio Higa)

PROMETHEAN GATE

 

LABAR’OCULTO

 

BLAZING CORPSE

 

DENIED REDEMPTION

 

 

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Sophia Losterh

Editora do zine Natimorto e organiza eventos de metal extremo underground em SP. Amante das expressões blasfemas de arte. Hail caos, Hail metal negro!

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