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MARTELO NEGRO – Honrando A velha Escola do Metal Oitentista!

" ...o povo brasileiro sofre uma tragédia sem precedentes por inoperância de um déspota ignorante"

Além mar, atravessando o Atlântico, atracamos em terras portuguesas para conhecer um pouco mais sobre a banda MARTELO NEGRO. Conversamos com o vocalista/baixista Beyonder, que nos fala sobre a trajetória da banda, seus projetos, ideologias, bem como, sua forte ligação com o Brasil…

Algo que me chamou logo atenção é o estilo que vocês se auto denominam: N.W.O.P.P.O.B.S.T.M. Qual o significado e o por que dessa denominação?

New Wave of Proudly Obsolete Black Speed Thrash Metal. É uma brincadeira, obviamente, mas sintetiza bem qual a direção artística da banda. No fundo, somos uma banda de Heavy Metal maldito da velha escola e as nossas influências são todas do metal da década de 70 e 80. Esse acrônimo representa apenas isso, mas não deixa de ser uma piada interna pois não se trata de um verdadeiro movimento organizado ou um fenômeno como foi o N.W.O.B.H.

Percebo um ar de “brincadeira” e sarcasmo da banda. Como quando dizem que uma das influências é: “testemunhas de Jeová que nos batem a porta durante o domingo…” ou interesses como V.A.G.I.N.A” . Vocês gostam de trabalhar com essa ironia em temas diversos?

Eu penso que o sarcasmo e a ironia fazem parte do código genético do MARTELO NEGRO! Somos uma banda que explora assuntos relacionados com o oculto e com a religiosidade mas não abdicamos de uma visão sarcástica sobre os mesmos! O ser humano é tão patético que, por vezes, é inevitável rir da sua estupidez! E a religião consegue ser algo muito estúpido!  Penso também que as bandas de Metal não devem abdicar de algum humor na sua música! O humor pode estar disfarçado de várias formas, pode ser escárnio absoluto e desprezo pelo sagrado ou apenas uma boa dose de sarcasmo sobre algo ridículo! A nossa música não é feita com o intuito de provocar gargalhadas a alguém mas, se o fizer, é sinal que o ouvinte entendeu a nossa mensagem!

Há um ano vocês lançaram o terceiro álbum”Parthenogenesis”. Fale-nos um pouco sobre este último trabalho. Qual a diferença principal para os anteriores?

O “Parthenogenesis” é o fruto de uma banda amadurecida! Não é uma mudança radical em termos de estilo mas é um disco que foi pensado e concebido pela banda numa fase mais madura. A principal diferença em relação aos anteriores está na obscuridade do mesmo, é um disco mais soturno que os anteriores. A temática continua a ser o oculto e a religião nas suas formas mais negras e decadentes! Dificilmente abandonaremos essa temática no futuro porque, no fundo, define o que a banda é! No entanto, o disco foi gravado num período de desconforto na vida de alguns membros da banda, e penso que a música reflete essa aura sombria!

Qual a origem do título do CD?

O título relaciona-se com o fenômeno da concepção de Cristo, que ocorreu de forma assexuada! A Partenogenése é algo que acontece na natureza e que se define pela reprodução na ausência de um macho! Ou seja, refere-se ao crescimento e desenvolvimento de um embrião sem fertilização! Será que Cristo foi o primeiro humano a nascer dessa forma? De quantas mentiras precisaremos realmente para fazer um funeral digno a todas as religiões organizadas?

Foto por: Pedro Roque

Lembro que aos 14 anos escrevi na capa do caderno da escola: “A Religião é a Desgraça do Mundo”. Depois de quase 30 anos não mudei de opinião. Percebo também o repúdio que o MARTELO NEGRO tem as religiões. Você acredita na queda dessas instituições manipuladoras ou isso não passa de utopia? Que as religiões serão as verdadeiras causas de um Apocalipse na terra, originando guerras, fome..?

Acredito que as religiões são o câncer da humanidade e estão na base da maioria das tragédias genocidas deste mundo! Não acredito na queda das religiões pois a humanidade é demasiado fraca para acreditar em si própria ao invés de acreditar em divindades! E enquanto for assim, a crença colectiva será sempre instrumentalizada pelo poder oculto, por aqueles que governam o mundo nas sombras: banqueiros, magnatas, oligarcas, etc. A religião é o instrumento soberano do poder oculto e é indestrutível, infelizmente!

Voltando a falar do “Parthenogenesis”. Este último trabalho proporcionou bons shows? Qual o mais marcante?

O “Parthenogenesis” proporcionou um único show pois ficamos sem baterista e não encontramos novo elemento de imediato para suprimir a falta do Maalm! O show foi no Swr Barroselas Metal Fest, na companhia de bandas como BENEDCTION, VOMITORY, MIDNIGHT etc, e foi memorável. Anos antes, em 2014, já havíamos partilhado o palco com o MYSTIFIER e o WARHAMMER, no mesmo festival! O MARTELO NEGRO, por opção própria, não toca muitos shows! A nossa filosofia é tocar poucos shows mas bons! Acreditamos mais no efeito perene do registo fonográfico! Somos uma banda que gosta de gravar discos!

Que foda! Sou da mesma cidade onde surgiu a MYSTIFIER! Mas falando em formação, como está atualmente a formação da banda após a saída de Arrno Maalm? Qual o motivo da saída dele?

O Maalm saiu por motivos pessoais, foi uma saída pacífica e sem conflito, mantemos a nossa amizade com ele! Atualmente, não temos baterista oficial mas podemos contar sempre com a colaboração do Rolando Barros do GROG que também é um amigo de longa data e um baterista fenomenal! A banda, no momento, é composta por 3 pessoas: eu, no baixo e na voz, Melkor e Thamuz nas guitarras. Iremos seguir como trio até encontrarmos o baterista ideal que terá que ser alguém que se enquadre na filosofia da banda!

O responsável pela arte de capa é o brasileiro Márcio Menezes, correto? Como vocês o descobriram? Pretendem continuar utilizando o trabalho dele?

Nós descobrimos o Márcio através do nosso selo, o Márcio já tinha feito alguns trabalhos para a Helldprod! Curiosamente, a nossa identificação com o Márcio é enorme, posso inclusive assumir que, mais do que admiração pela sua arte, temos amizade genuína com ele, apesar de não nos conhecermos pessoalmente! A honestidade e frontalidade do Márcio são verdadeiramente admiráveis, mesmo que represente um incômodo para muitas pessoas! A sua arte é transgressiva e reflete bem essas suas facetas pessoais! Felizmente, as redes sociais ainda têm a virtude de encurtar distâncias entre as pessoas! Considero o Márcio um amigo e um artista genial e é óbvio que queremos continuar a utilizar o trabalho dele!

É verdade que um membro do MARTELO NEGRO tem uma proposta de fazer um projeto com o Márcio? Fale um pouco mais sobre isso.

Sim, é verdade! O Melkor, guitarrista, está a trabalhar num projeto em que o Márcio irá gravar os vocais. Não estou muito por dentro mas creio que se trata de Black Metal rápido e com alguma melodia, no estilo do DISSECTION.  No MARTELO NEGRO nós temos essa coisa de fazer projetos paralelos, é algo que nos dá prazer. Esse projeto com o Márcio é mais um dos inúmeros projetos paralelos do Melkor.

No primeiro trabalho ” Sortilégio dos Mortos” há duas músicas com os títulos escrito de trás para frente, como ‘Orgen Oletram’ e ‘Ocitemreh Oltuc’. Algum significado especial? Qual era a intenção?

A intenção foi apenas dar continuidade à tradição satanista de inverter coisas e valores. Não tem um significado particularmente especial mas é a nossa forma de perpetuar uma tradição. Temos também alguns interlúdios em reverse, é a nossa forma de homenagear o VENOM que é uma das nossas principais influências!

Falando ainda em Letras, uma faixa que chama bastante atenção é ‘Um dia em Texas’. Do que se trata?

Essa faixa é uma versão. A faixa original é de uma banda punk de Espanha chamada PARALÍSIS PERMANENTE. É apenas uma faixa que nós gostamos bastante e também uma homenagem ao Eduardo Benavente, vocal do PARALÍSIS PERMANENTE que faleceu tragicamente num acidente de automóvel, precisamente quando a carreira da banda estava na trilha do sucesso! Não sei se a banda é conhecida no Brasil mas eu recomendo a todos os bangers brasileiros que conheçam essa pérola da movida madrilena da década de 80. A letra da faixa é inspirada no filme Texas Chainsaw Massacre.

Foi feito um vídeo para faixa ‘Rameira Necromante’. Orgia, luxúria e devassidão são os pontos forte do vídeo. Qual a opinião de vocês sobre o sexo feminino no Metal? Vocês acham que o Heavy Metal ainda é machista?

Eu acho que o mundo está a mudar demasiado rápido. Eu nunca achei que o Heavy Metal fosse verdadeiramente machista ou que fosse mais machista que o resto da sociedade. Aliás, o hip hop corporativista é bem mais misógino do que o Metal, basta assistir à forma como as mulheres são reduzidas à condição de objetos nos videoclips desses artistas. O Heavy Metal acompanha as tendências evolutivas da sociedade e torna-se um reflexo da própria sociedade. O MARTELO NEGRO não é uma banda machista ou chauvinista mas o fenômeno do female fronted metal por vezes roça a prostituição artística e eu, pessoalmente, repudio todas essas bandas que atuam como clones de WITHIN TEMPTATION e EVANESCENCE! Na minha óptica pessoal, o Metal deve ser tocado por pessoas talentosas e apaixonadas, independentemente do gênero sexual, raça ou proveniência geográfica. É necessário que mais mulheres talentosas queiram tocar Heavy Metal pelas razões certas e não porque são, simplesmente, bonecas de montra!

Quando ouço falar de Metal em Portugal, logo me vêm no pensamento quatro bandas. O que vocês acham do:
DECAYED
MOONSPELL
THORMENTHOR
FILII NIGRANTIUM NFERNALIUM

DECAYED e FILII NIGRANTIUM INFERNALIUM são o pilar do Black Metal português e têm mantido a tradição viva, são duas bandas verdadeiramente admiráveis e ambas são influência direta na música do MARTELO NEGRO.
O THORMENTHOR, no vértice do Death Metal tecnicista, é outra lenda absoluta e regressaram recentemente à atividade. O THORMENTHOR é o pioneiro inquestionável da música extrema em Portugal e o regresso da banda é uma notícia que deve ser aplaudida por todos.
Em relação ao MOONSPELL, eu não sou apreciador da música nem sigo a carreira com particular atenção, mas respeito o percurso da banda e todo o sucesso que alcançaram tem o seu mérito. Gosto dos registos seminais da banda e, juntamente com o DECAYED e o FILII NIGRANTIUM INFERNALIUM formaram o triângulo maldito do Black Metal português no início da década de 90. Mas a mudança de som do MOONSPELL não me agradou e perdi o interesse na banda.

O FILLI NIGRANTIUM NFERNALIUM deu uma entrevista para um fanzine brasileiro, onde ao ser questionado sobre White Metal respondeu: “Gosto do Strypper e dos ABBA.”. O que vocês acham dessa afirmação? E qual opinião da banda sobre White Metal?

Eu conheço pessoalmente o mentor do FILII (Belathauzer) e sei que o cara gosta mesmo da música do STRYPER. Consigo compreender isso, se isolar a música da mensagem, um disco como o “To Hell With the Devil” é soberbo! Nada de errado nisso, o fato de o cara gostar de uma banda de White Metal não vai manchar a sua filosofia adversaria! Se existe uma banda que vive de forma vertiginosa, essa banda é o FILII! Aliás, o Belathauzer tem um lp do STRYPER totalmente autografado pelo…VENOM! Esse tipo de coisas faz parte da forma jocosa e sarcástica como o FILII encara o mundo! Em relação aos Abba, todo o mundo sabe que os Abba são a melhor banda de pop de todos os tempos! 

Foto por: Pedro Roque

E como anda o cenário lusitano atualmente? O que destaca ? E fanzines impressos, ainda existem em terras portuguesas?

O cenário lusitano está saudável, apesar de estar tudo parado devido ao Corona vírus. Temos assistido a uma renovação na cena portuguesa, com bandas novas e músicos novos a fazerem coisas interessantes! Eu ando um pouco desligado do cenário nacional mas destaco bandas como PERPETRATOR, RAVENSIRE, MIDNIGHT PRIEST, GROG, FILLI NIGRANTIUM INFERNALIUM, ASKO, DECAYED, VENENO CALIFÓRNIA, ROADSCUM, INFRA, ARCHAIC TOMB, SPIT GRAVE, SUMMON, FESTERING, PROCESS OF GUILT, BIZARRA LOCOMOTIVA e LA CHANSON NOIRE. Ainda temos algumas zines impressas, como a BLESSED ALTAR, a FALL OF THE IDOL, a METAL HORDE (*) e THRONE OF CHAOS. Temos as revistas LOUD! E a METALEGION.

(*) Nota do Editor: Atualmente em Londres/Inglaterra.

Foto por: Pedro Roque

O que podemos aguardar de novidades do MARTELO NEGRO ainda em 2020?

Iremos participar no tributo ao BLACK CROSS e iremos também lançar um split com uma banda brasileira. Lamento não poder revelar o nome da banda brasileira mas posso garantir que é uma banda FODA cujas influências são as mesmas do MARTELO NEGRO! O split será lançado pelo selo brasileiro Macaco de Guerra Records.

Agradecemos muito por atender nosso chamado e por retornar com tanta rapidez. Coisa rara ultimamente. Deixe aqui suas considerações finais…

Agradeço, desde já, a oportunidade por dar a conhecer o Martelo Negro ao Brasil. A carreira da nossa banda nunca estará completa até ao dia em que tocarmos no Brasil! Sigam o nosso trabalho na medida do possível e mantenham a tradição viva! Metal não é lucro, Metal é paixão! Saudações a todo o povo brasileiro que está a sofrer uma tragédia sem precedentes por força da ignorância e inoperância de um déspota ignorante cujo nome nem ouso proferir sob o risco de bolsar sobre o teclado! Saudações, irmãos! RESISTAM!

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Giovan Dias

Editor do The Glory Of Pagan Fire Zine, trabalho iniciado ainda na década de 90, voltado ao Black, Death, Doom Metal.

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