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MGLA – Como foi o show que ficou “sold out” 2 dias antes do evento!

Foto por: Cláudio Higa

Chega o dia 06 de março, aguardado dia para as mais de 600 pessoas (!!) que adquiriram seus ingressos antecipadamente para ver o Mgla em São Paulo, pela primeira vez no Brasil, trazido pela Storm Productions.

Para se ter uma noção do enorme público que eles mobilizaram em São Paulo, a organização oficializou “sold out” antes mesmo do dia do evento. Dois dias antes! Esgotaram TODOS os ingressos logo nos pontos de venda. Fazia bastante tempo que um evento (que não fosse restrito ou fechado) não chegava a esse feito no metal extremo, em uma casa de tamanho médio. Em uma conversa sobre o assunto, observei que os eventos extremos onde isso aconteceu e que foram lembrados na conversa já estavam fazendo de cinco anos para mais que haviam ocorrido.

                                                                                                               

A banda

Foto por: Cláudio Higa Fotografia

Mgla é uma banda de black metal polonesa de 2000. Por aqui, cerca de cinco anos atrás, era difícil ver alguém divulgando-os de qualquer forma, seja a música, seja usando camiseta. Seu nome foi ganhando grande força por terras brasileiras devido a qualidade musical da banda e visibilidade também devido a polêmicas, onde várias pessoas começaram a defender N posicionamentos diferentes sobre a banda. A cerca desse período e, desde então, foi surgindo e atraindo uma legião fiel de admiradores do seu black metal reflexivo, encorpado e muito técnico. A âmbito mundial, a banda também se destaca no cenário atual por motivos que vão desde a parte lírica até a parte visual e seguem influenciando outros músicos. As letras são carregadas de niilismo e anti religião, falam sobre a humanidade decadente e sentimentos escuros de todo humano. Lançaram quatro álbuns entre outros trabalhos. O último álbum, “Age of Excuse”, foi lançado no ano passado, 2019.

O público

Foto por: Diego Vieira

Conforme anunciado no cartaz, a casa Vic Club, localizada no centro da cidade de São Paulo, abriu às 19h e a apresentação começou às 21h. Cheguei 20h30min e já havia uma fila extravagante que estava terminando na rua vizinha, dobrando a esquina. Havia muita gente pelas redondezas e bares pela extensão da rua e de todos os lugares, de estados diferente. Uma mancha negra de patches, balas de fuzil, símbolos ocultistas pela rua Marquês de Itu. Além das tradicionais almas obscuras do metal negro que sempre comparecem, haviam figuras conhecidas que raramente aparecem nos eventos. E bastante gente mais nova! Geralmente nesses eventos, até porque trata-se de um gênero musical underground, as pessoas em geral se conhecem ou ao menos já se viram. Nesse essa situação se manteve em maioria, mas a dimensão do evento também trouxe bastantes caras novas, pessoas bem jovens. Observei em alguns momentos uma meia dúzia tentando abrir rodas de bate-cabeça em momentos bastante introspectivos, por exemplo, mas sem sucesso. Discretos choques de gerações.

A casa estava lotadíssima, todas as áreas, até os camarotes. A organização fez bem em esgotar o ingresso, porque ainda ficou bastante gente querendo entrar e já havia certa dificuldade em se mexer lá dentro. A fila para o bar serpenteava imensa entre o público. O merchan trazido pelo Mgla ficou em novo lugar, próximo a porta de entrada, ao invés do lugar onde costuma ficar, próximo ao palco, permitindo mais espaço para o público. O merchan foi vendido veloz.

A apresentação

Não havia banda de abertura. Sem nenhuma delonga, práticos e pontuais, subiram ao palco do VIC M (Vocal e guitarra), E.V.T. (guitarra), The Fall (baixista) e Darkside baterista. Em silêncio, tomaram posse dos seus instrumentos e deram início a apresentação. A platéia reagiu de imediato à primeira nota com euforia. Na primeira faixa foi até complicado ver o palco, porque MUITAS pessoas resolveram ao mesmo tempo gravar o início pelo celular.
O som produzido pelo Mgla é reflexivo, introspectivo de uma forma intensa. Não ríspida ou odiosa, mas doída; é algo como ler um livro de filosofia e questionar a escuridão da própria mente, com nuances de beleza. O lado maligno que corta o peito de todos, que é olhar para si mesmo, analisar a existência. Essa variedade de percepções se dá pela musicalidade da banda e suas variações.
O áudio estava muito bom. Talvez a guitarra solo poderia estar um pouco mais alta, mas nada que desabone a qualidade do que foi presenciado. Os instrumentos e equipamentos pareciam muito caros, exóticos; e notava-se que eram muito bem cuidados.

Tudo reverberava dedicação. A postura de palco do Mgla é séria, neutra. O guitarra solo ainda era quem mais demonstrava alguma euforia agitando enquanto tocava, mas mesmo assim de forma comedida. Seus riffs pareciam causar reações físicas nele, como se a guitarra fosse uma extensão do corpo. O baixista The Fall também se movimentava um pouco. Toca de palheta, mas muito rápido. Muita profundidade vinha do baixo. O vocalista M tem presença, apesar de sequer podemos ver suas expressões e sabe bem fazer a função de vocal e guitarra simultaneamente. As vestimentas características da banda (moletom preto com capuz embaixo de uma jaqueta de couro e o rosto completamente coberto por um pano preto) causava curiosidade. Porque olhando de perto, percebi que o tecido que usam para cobrir o rosto é bem escuro. Não é tão fino e estava bem rente ao rosto deles. E não há abertura.

O Mgla é muito técnico e muito preciso, não cogito que estavam tocando sem enxergar absolutamente nada porque em suas poucas movimentações pelo palco, se movimentaram com segurança. Mas aquele tecido deve dificultar bem, fora que estava bastante quente dentro do VIC. Dava uma impressão até de asfixia olhando bem, mas tocaram com precisão e aparente tranquilidade.  Bruxaria! Fizeram questão de não mostrar nenhuma parte do rosto de forma nenhuma. Em dado momento, o baixista foi beber água e ficou de costas para a platéia, provavelmente para manter essa estética.
Mesmo a quem essa não seja a linha favorita de black metal, é inevitável são ser sugado para dentro daquelas notas e admirar a execução. E muito disso se dá graças a um músico específico, de quem vou até falar a parte.

Darkside: o baterista como protagonista oculto

Bateristas são ditos pelo senso comum como “a cozinha da banda”, muitas vezes de forma debochada, como se vocalista e guitarrista é quem fizessem todo o trabalho. Desnecessário dissertar sobre a falácia que é essa noção. E um dos grandes exemplos não apenas de relevância como de até um certo protagonismo é o Darkside, do Mgla. A musicalidade que o baterista traz à banda é o grande diferencial. Todos ali são muito técnicos e bons músicos, mas o trabalho que Darkside faz, principalmente com os pratos de bateria é algo fora da curva. Fiquei a maior parte da apresentação observando sua técnica. Na hora consegui contar aproximadamente 10 pratos que ele estava usando. É interessantíssimo observar o número de variáveis com a qual o instrumentista trabalha e a forma como as usa. Claro que isso não é algo inédito, mas certamente é algo diferente.
O som dos pratos e cúpulas eram de singela mas fundamental beleza, puro brilho metálico. Nuances de almas que faziam ali um ode a escuridão profunda da mente, do humano. Como um elemento caótico que surpreende costurando entre os riffs. Essa variedade de detalhes combina com a profundidade das letras do Mgla. Tanto liricamente quanto instrumental, a banda procura transmitir intensidade em detalhes, atenção.

A apresentação focou no álbum que mais acho interessante, o terceiro full “Exercises in Futility” (2015), mas também trouxe faixas do novo álbum “Age of Excuse”. Ainda teve uma faixa do EP “Mdłości”, de 2006 e uma do “With Hearts Toward None” de 2012. O público estava bastante eufórico com a apresentação. Chamavam o nome do Mgla, entusiasmavam a cada nova faixa. Em dado momento as luzes se apagaram durante introdução e mesmo assim não esmoreceram. A reação pós-show foi bastante enfática e positiva por parte do público. Inclusive o camarote, que geralmente não costuma se manifestar muito, evocou muito entusiamo do alto do VIC Club.

Termina a apresentação após 10 músicas, incluindo na hora adicionalmente a faixa “Age of Excuse VI”, que não estava prevista, devido a euforia do público. Essa faixa é do último álbum lançado e ainda não havia sido executada em lugar nenhum do mundo ao vivo.

Respeitosamente, os músicos se despediram da platéia com cumprimentos silenciosos. Em sua despedida do palco, Darkside fez um sinal com a mão inusitado que, ao menos aqui no Brasil, pode ser entendido como “até breve”. Será? A produtora Storm informou que gostaram do país e buscaram conhecer a culinária local. Na saída, fizeram vários registros com o público que se aproximou.

O evento terminou em um horário confortável para que todos conseguissem retornar para casa, tratando-se de transporte público.

Setlist:

1 – Exercises in Futility I
2 – Exercises in Futility IV
3 – MDLOSCI II
4 – Exercises in Futility II
5 – Age of Excuse II
6 – Age of Excuse III
7 – With Hearts Toward None VII
8 – Exercises in Futility VI
9 – Exercises in Futility V
Bônus:
10 – Age of Excuse VI

CONFIRAM ABAIXO O SHOW NA ÍNTEGRA:

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Sophia Losterh

Editora do zine Natimorto e organiza eventos de metal extremo underground em SP. Amante das expressões blasfemas de arte. Hail caos, Hail metal negro!

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