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MORTIIS – Spirit Of Rebellion CD

Omnipresence Productions / Deadseed Productions (Importado)

Confesso que desde o álbum “Smell of Rain” de 2001 eu parei de acompanhar a obra de Havard Ellefsen , o MORTIIS . O direcionamento dado  à esse projeto deixou de me agradar pois todo aquele apelo místico e medieval dos álbuns anteriores  se perdeu e a meu ver  era justamente essa ambiência  que tornava a sua música grandiosa, original e interessante para mim. Passados quase vinte anos me chega às mãos “Spirit Of Rebellion” que numa tarde de sábado coloquei para ouvir totalmente sem expectativas, justamente  para não ter decepções e minha surpresa não poderia ter sido maior…

“Spirit Of Rebellion” é um trabalho absurdamente maravilhoso não apenas por se encharcar totalmente nas raízes Dark Dungeon Synth do projeto, mas por se tratar de uma releitura do fenomenal  “Ånden Som Gjorde Opprør”, segundo (e em minha opinião melhor) álbum lançado por MORTIIS.

Já me perguntei muito sobre os motivos que  levariam um artista a revisitar sua obra, muitas vezes regravando e relançando a mesma, mas o fato é que toda criação é um reflexo de seu criador e como seres humanos estamos condicionados a não sermos criaturas estáticas ; o caos que nos move nos leva a constantes mudanças em nós mesmos e  muitas vezes para um artista , observar sua obra com alguns anos de distanciamento é ver seu passado de uma perspectiva nova e se você puder mudar algo que possa “sintonizar” sua criação com aquilo que você se tornou atualmente, por que não o fazer? Sei que muita gente torce o nariz para isso encarando a coisa toda como um verdadeiro sacrilégio, outros (como eu) curtem demais pois entendem que a obra original continua lá imutável e o que vem a mais só acrescenta. E nesse caso em especifico a releitura acrescenta muito permitindo um crescimento absurdo à música; as duas faixas do álbum original foram aqui divididas em treze, sendo as seis primeiras “ A Dark Horizon part I – VI” correspondentes aos diferentes “movimentos”  da música original “En Mørk Horisont” e as sete seguintes “Visions Of An Ancient Future part I – VII”  correspondendo à faixa “Visjoner Av En Eldgammel Fremtid” do álbum de 1994. Essas divisões juntamente com o cuidado na escolha dos timbres de teclados utilizados permitiram a expansão das ideias harmônicas na música criando mais texturas e nuances na atmosfera obscura que “Spirit Of Rebellion” transmite. A maior mudança nos novos arranjos porém foram as partes  percussivas que tornaram a música mais épica, bombástica e por que não dizer cinematográfica ? Destaque total às partes de piano que estão sensacionais. E tudo isso sem perder a aura minimalista que a versão original possuía. A arte da capa feita por David Thiérrée responsável por trabalhos das bandas BEHEMOTH, PRIMORDIAL entre outras ficou belíssima e é em sí um show à parte.

Foto – Divulgação

Pra finalizar se eu pudesse traduzir minha experiência com ambos os álbuns abordados nessa resenha em imagens eu diria que ouvir “Ånden Som Gjorde Opprør” é caminhar por um grande palácio em épocas imemoriais e do alto de uma torre observar pela janela a paisagem que se descortina ao redor com suas florestas, montanhas e rios tudo envolto em uma gélida neblina enquanto que “The Spirit Of Rebellion” seria retornar a esse mesmo castelo eras depois e encontra-lo enigmático, empoeirado e com toda aquela aura de imponência misteriosa que o tempo se permite dar às coisas e ao se olhar pela mesma janela se surpreender com as mudanças na paisagem agora livre da neblina te permitindo enxergar muito, muito além…

Recomendo totalmente e já estou de olho na versão em vinil pra minha coleção particular.

Nota 9,5 de 10

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Juliano Bonacini

Tecladista e letrista da LoneHunter (Death Metal), historiador e editor do Crypt of Eternity - fanzine da década de 90.

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