Entrevistas

NEROS BENEDICTIOS – O Black Metal como uma manifestação da Maturidade

"...Black metal, uma das mais obscuras expressões de arte"

Neros Benedictios – Foto Divulgação

Como é bom ver uma banda como o NEROS BENEDICTIOS surgindo na velha Veneza brasileira, Recife. Minha formação inteira como músico está ligada a essa cidade e posso afirmar sem sombra de dúvidas que esses caras criaram um dos melhores álbuns já gravados em solo recifense. A qualidade de sua música e a seriedade com que encaram o seu trabalho já é razão suficiente para ter a banda nos domínios do Portal da LUCIFER RISING. O guitarrista João Paulo concedeu essa entrevista e falou sobre a banda, planos, shows, underground…

O debut álbum “Ermo” foi lançado pelo selo americano DEAD PARADISE RECORDS, do batalhador Belchior Melo (Belchior, Infected, etc). Como se deu esse contato? Que expectativas a banda tem em relação ao alcance que a sua música pode ter?

João Paulo: Saudações ao Fabio Brayner, ao LUCIFER RISING e aos demais leitores que acompanham o portal. Não haveria melhor definição para Antonio Belchior, eis um cara que rala pra caralho e que emana autenticidade em tudo que faz. Quando o assunto é música, até hoje sempre fico de cara com as inúmeras referências que ele possui não só no âmbito do metal, mas em muitos outros gêneros que possuem diálogo com o heavy metal, este obviamente tomado aqui de maneira mais genérica possível. Antonio entrou em contato comigo um dia depois que lançamos o material digital no bandcamp. Teceu sinceros elogios ao trabalho e perguntou por qual selo o material sairia; a verdade é que não tínhamos nada certo em termos de lançamento físico para o álbum, por outro lado, um selo nacional tinha entrado em contato antes, e posteriormente ao contato de Antonio mais dois selos (um russo e outro polonês) também o fizeram. Contudo, a proposta de Antonio era imbatível, além do mais, tinha também a questão da afinidade com a pessoa (pense num cara tranquilo); sem falar que quando criei a ideia da arte capa do álbum, tudo foi pensado para um formato digipack, em outras palavras, a ideia da Dead Paradise Records atendia totalmente minhas expectativas. A aliança foi estabelecida e o álbum está em processo de encaminhamento para a fábrica. No que concerne às expectativas, depois do advento das plataformas digitais, a música pôde ganhar novos ares no que diz respeito ao alcance que ela pode ter. Todavia, isso também não é garantia que os apreciadores do estilo irão ouvir o seu som uma vez que todos os dias, mais e mais bandas lançam seus materiais em formato digital, isso é um fato. Nossos ganhos inusitados de conhecimento de bandas que descobrimos a cada dia são pagos com ganhos inusitados de ignorância acerca de outras bandas que desconhecemos e que podem ser tão geniais quanto as que acompanhamos. Então sendo realista, minha expectativa é que nosso som alcance ao menos aquelas pessoas que tenham alguma afinidade com o tipo de sonoridade que realizamos para que estas possam cultivar com o decorrer dos anos o hábito de acompanhar nossas produções fonográficas. A cada pessoa em particular que escute o nosso trabalho, que possa dispor de um tempo (elemento tão precioso em nossos dias atuais) para apreciar nosso som, considerarei uma conquista pessoal.

Foto: Divulgação

“Ermo” oferece uma variada gama de influências na sua construção musical. O black metal grego é evidente, assim como sonoridades não tão conectadas com a estética mais extrema do metal. Quais são as influências que o Neros Benedictios tem e como elas se conectam durante o processo de construção da sua música? Algo fora do metal se soma a essa estética mais extrema?

João Paulo: Seguramente algo externo ao metal nos influencia. Apesar de gostar das vertentes norueguesas do black metal, a escola grega sempre me fascinou, Varathron, Rotting Christ, Thou Art Lord eram bandas de cabeceira, não é à toa que alguns anos depois em meados de 2010-11 terminei fazendo parte de uma banda cover do Rotting Christ em Recife. Quando o assunto é música, e mais particularmente composição, acredito que dá pra pensar em muitas paisagens estéticas que podem vir a somar no processo de construção das canções, contudo, não dá pra agradar todo mundo, alguns vão gostar das experimentações outros não, e a vida segue. Quando a banda encerrou as atividades em 2007, nós (Ivan e eu) já vínhamos vislumbrando outras possibilidades sonoras para a Neros; e aqui me refiro aos elementos folks presentes nas músicas. Na Demo de 2005 (Novarum Era Portae Curriendo) já apresentávamos indícios de uma certa inclinação para instrumentos acústicos. Mas foi com o debut que pudemos experimentar os instrumentos acústicos de maneira mais independente com canções inteiramente folks. O talento e formação de Ivanubis em música permitiu irmos um pouco além nessas composições, explorando arranjos com instrumentos que fogem do lugar comum das guitarras elétricas.

“Ermo” – o primeiro álbum da banda

“Neros Benedictios” é um nome muito bom para uma banda. Tenho reparado que é cada vez mais difícil encontrar bons nomes para bandas, tanto que muita gente começou a usar o português como forma de nomear seus grupos. Qual a origem desse nome e qual a conexão de sua significação com a música e a parte lírica da banda?

João Paulo: Excelente questão! Não sou o fundador da banda embora desde a demo passei ficar encarregado de muitas coisas; quando entrei a banda estava sendo encabeçada por Alexsandro Borges (baixo) e Tácio Costa (guitarra) e a mesma iria se chamar Black Blessing. Cara, as músicas iniciais eram tão legais, mas com esse nome não dava, foi ai que pensamos que poderíamos passar o nome para o latim que apesar de ser ‘manjer’ seria bem melhor que o clichê inglês. Naquela época não tinha noção de porra nenhuma, nem existia Google tradutor (risos…), mas ai Alexsandro tinha um amigo que sabia latim, e ele ficou encarregado de fazer essa transição e nos dar o feedback, com isso chegamos ao Neros Benedictios. Contudo, se quiséssemos ser rigorosos, o certo mesmo seria ‘Nero’ que no italiano corrente significa ‘negro’ onde em algumas interpretações de sua etimologia deriva do latim ‘nigrum’ que tem como acusativo a palavra ‘niger’ de onde saiu a palavra inglesa ‘nigger’. ‘Nero’ como nome próprio significa vigoroso e forte, é aqui que encontramos o sentido do nome no imperador romano Claudius (Nero). Por outro lado seguindo a representação histórica do imperador romano, não temos a melhor das referências positivas, sobretudo ao que concerne a relação dele com os cristãos, onde a palavra Nero passou a ser associada a algo negativo. Algo parecido ocorreu como o nome de Maquiavel que com o passar dos anos ganhou na expressão inglesa “the old Nick” a associação com a figura do diabo. O ‘s’ de ‘Neros’ foi adicionado como mera estilística para o nome da banda que ficaria melhor para Benedictio(s), esta ultima significando bênção. Daí o significado que queremos traduzir com o nome da banda é simplesmente benção/dádiva negra. Se tratando de Black metal, uma das mais obscuras expressões de arte dentro dos gêneros do Heavy metal, acredito que não tenha ficado tão ruim assim, isso por sua vez reverberou nas próprias letras da banda que inicialmente, direta ou indiretamente, se relacionavam com o nome Neros Benedictios.

E uma entrevista recente de vocês, li que o Neros Benedictios foi a primeira banda de metal de vocês. Isso diz respeito somente a você ou a todos os membros? Vocês chegaram a tocar outros estilos musicais antes dessa experiência com o metal? Se sim, o que você acha que foi trazido como experiência para dentro da música criada por vocês hoje em dia?

João Paulo: Tenho algumas lembranças de que Athos Magno (baterista) já tinha tocado em algumas bandas, Alexsandro (baixo) e Tácio (guitarra) se não me engano também; mas falando por mim, a Neros foi minha primeira banda de metal, assim como também o foi para Alan (teclado), Alexandre (baixo) e Jorge (voz); antes disso tive experiências de garagem tocando punk/hardcore, mas nada que se configurasse como uma banda com nome e composições próprias. Ivanubis que veio assumir a segunda guitarra da banda em 2007 já tocava em duas outras bandas da cena local (Empty Book e o Dogma – Saint Tread of Hate). Douglas que é o nosso atual baterista também teve experiências com outras bandas (Alcoholocausto, Trovador, Fulminante, Subinfected). Então, no que diz respeito à formação que a banda tinha na demo de 2005, tirando Athos (baterista), todo o resto (Alan, Alexandre, Jorge e eu) estavam em sua primeira experiência com banda de metal.

Foto: Lidiane Gomes

Vocês formaram a banda no início dos anos 2000. Que lembranças da cena local você tem? Fazendo uma comparação entre aquele momento e hoje em dia, o que mudou?

João Paulo: Muita coisa mudou. Naquele tempo as coisas eram bem mais precárias, principalmente para fazer uma gravação, conseguir equipamentos e por ai vai. Hoje, as coisas estão mais “fáceis”, é muito comum músicos terem seus próprios Home Studio e realizarem grande parte do processo de gravações em casa sem precisar se deslocar para um estúdio. Por outro lado, apesar da precariedade e dificuldade muita coisa boa foi produzida no underground daquele tempo. Naquele tempo também percebia um público maior nos shows, não importava se era banda gringa ou apenas bandas locais, se era no centro da cidade ou em bairros periféricos, sempre tinha um público massa, afinal a internet não tinha se tornado (ainda) a second life que é hoje, cheia de web-bangers. Minhas melhores lembranças são de shows, de saídas com os amigos para o Recife Antigo, de longas conversas que varavam noites, estas memórias, aquilo que podemos chamar de indexicais (eu, este/isto, aqui/agora) da nossa existência, parecem cada vez mais distantes quando observamos o quão supérfluo tudo está se tornando.

“Ermo” traz uma parte lírica muito apurada e sendo você um acadêmico na área da Filosofia, de que maneira você incorpora esses elementos do conhecimento filosófico na sua experiência como letrista? Essas duas coisas realmente se conectam ou andam por caminhos diferentes?

João Paulo: Conectam-se até demais. Embora goste de pensar na filosofia como um background que te impulsiona para outros nichos (literatura, poesia, política, ciência, mística, arte, música, etc.), uma espécie de lente/telescópio que serve de mapa/guia pela da história do pensamento humano e gênesis das ideias. Uma vez de posse disso (mesmo que em parte), o seu olhar para qualquer outra área do conhecimento e do agir humano jamais será o mesmo. Somos um contingente resultado causal de todo um processo de aprendizado pelo qual passamos por escolhas ou não, mas somos também muito mais resultado daquilo que buscamos por autonomia para nos engrandecermos enquanto seres humanos, para tornar a nossa existência suportável ou ao menos interessante dependendo da perspectiva. Minha formação hoje mais do que nunca se reflete muito na maneira como penso a música como um todo.

Nos últimos anos houve uma explosão de bandas muito boas no metal extremo no mundo todo e aqui no nosso país também. Muitas delas tem buscado ideias que ajudem a criar uma música que fuja do lugar comum do estilo. Para vocês (com o som e influências que possuem) é importante essa busca por uma própria identidade? Que bandas vocês destacariam que se encaixam nesse perfil?

João Paulo: Acredito que a busca pela identidade é um lugar comum na grande maioria das bandas hoje em dia, todavia, sabemos também que existem algumas bandas que buscam uma sonoridade de espelho com bandas já consagradas, este espelho se dá de tal forma que toda a estrutura das composições conflui para uma referência imediata a bandas que ganharam seu lugar no hall dos imortais da música. Alguns exemplos são Orchid/Black Sabbath, Gruesome/Death, Attic/King Diamond, Greta Van Fleet/Led Zeppelin dentre outras… No entanto, ao menos na minha concepção, isso não significa algo ruim, eu as vejo como uma espécie de gene egoísta da música em que o legado de outras bandas passa a sobreviver a partir do legado de novas bandas que replicam uma determinada estética. Nunca fui muito paranoico com essa coisa da identidade própria, mas acho fascinante fazer um tipo de som que seja facilmente identificado por qualquer conhecedor do estilo. Bandas que para mim assim o fazem/fizeram são Rotting Christ, Borknagar, Dissection, Emperor, Blind Guardian, Death, Opeth, Kreator, Black Sabbath. Nas mais atuais (2000 prá cá) que tenho ouvido são Nightbringer, Schammasch, Mgla, Bölzer, Drudkh, Craft… A lista se estenderia demais.

Realmente foi um prazer conversar com vocês. Espero que “Ermo” receba o reconhecimento que ele realmente merece e mais uma vez parabéns pelo excelente trabalho feito nesse álbum. Obrigado por aceitarem fazer parte do portal da revista LUCIFER RISING.

João Paulo: Em nome da Neros, eu que agradeço a oportunidade e o espaço, por estar aqui compartilhando um pouco da nossa história. Espero que o nosso debut álbum alcance mais e mais pessoas ao longo dos anos. Como a produção não pode parar, já estamos elaborando um Ep para 2019, e esperamos que ele seja tão bem recebido quanto “Ermo” vem sendo, ao menos até agora. Obrigado!

Para contatos: https://www.facebook.com/nerosbenedictios/

Ouça a faixa “Carcosa” do álbum “Ermo”:

Mostrar mais

Fabio Brayner

Editor do The Old Coffin Spirit zine e um completo metal maniac desde 1985. Ex-membro de bandas como Sanctifier e As the Shadows Fall.

Veja também...

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar