Dark Reflections

O que visto diz quem sou

A história da indumentária na vida social é muito, mas muito antiga mesmo e por isso se torna, dentro desta mesma sociedade, um símbolo de significância, seja cultural, social ou simplesmente necessária. Existem aqueles que se enquadram em cada um dos itens supra citados, e outros que não se enquadram em nenhum deles.

Esse transito na vida social determina, conscientemente ou não, como devemos nos vestir em cada ocasião, com que roupa devemos nos apresentar em público, já que muitos, a depender do clima de onde moram, gostariam mesmo é de estarem sempre nus! O certo é que temos muitos parâmetros para nos vestir, como ao sair, ao ir à praia ou piscina, numa festa formal, numa festa informal…

Temos também uma variedade de trajes que se relacionam até com a religião, com o status, com o trabalho e, neste caso, com a padronização, dando um significado bem explícito e tacanho sobre igualdade a fim de não despertar outros interesses se não o foco no trabalho. Diante deste pensamento sobre a roupa que se usa no trabalho, ou a farda escolar, com o intuito de padronização e não individualização da pessoa, algo não exclusivo das sociedades capitalistas, podemos dizer que, em muitos casos, essa tese anda falhando, visto que muitas fardas hoje chamam muita atenção sobre aquele determinado indivíduo.

O certo é que a roupa pode ajudar ou destruir a individualidade, depende mesmo de uma série de fatores, desde as escolhas, os desejos até os gostos. A roupa, desempenha um importante papel na sociedade, não simplesmente para cobrir as partes, pois existem roupas que podem revelar mais que simplesmente esconder, porém, como dito acima, ela possui um poder simbólico muito grande, capaz de definir personalidade, de enquadrar em nichos sociais, grupos, seitas, organizações etc. a simbologia marcada pela roupa, tem um poder gigantesco sobre a sociedade em geral e isso pode agregar ou desagregar como algo invisível, imaginário, intangível.

Black Sabbath

Talvez, a temperatura e a religião sejam aspectos que mais incidem sobre a orquestração e ordenamento da indumentária humana do decorrer do tempo. O instinto de se proteger do frio, da chuva e a apropriação que a religião vai fazer do desnudo e o “pecado” por exemplo, são questões que pairam unanimemente, salvo sempre por algumas exceções. No meio Metal, após ter espelhos como Black Sabbath nos anos de 1970 do século XX com suas batas negras e Judas Priest nos anos de 1980 com suas roupas de couro ou sintéticas fazendo alusão ao sadomasoquismo, os apreciadores do estilo musical se apropriam destes fatores simbólicos não apenas das indumentárias como da relação simbólica da cor negra das vestes e dos temas sombrios, violentos, pessimistas e outros desenvolvidos por essas mesmas bandas para se identificarem e serem identificados por esse vestuário quase como uma armadura ou um invólucro identitário sobre seus corpos. Claro que as bandas de Metal não foram as primeiras a usarem as roupas negras como arquétipo, antes as bandas de rock já o faziam e continuaram fazendo concomitantemente, não à toa vestir-se de preto no ocidente é muito comumente associado ao “roqueiro”, mesmo que esse não seja efetivamente, pois os amantes do Metal se quer gostam ou se auto intitulam roqueiros, mas a roupa preta é o maior dos símbolos visíveis que carregam nestes anos todos.

Judas Priest

Entre essa forma de expressão através da roupa, curiosamente, existe o uso da mesma para expor seus gostos musicais ali atrelados e há uma forma espontânea de se divulgar as bandas também, tornando essa indumentária um ciclo inquebrantável e infinito de exposição. É fato que questões ideológicas implicaram em muitos pensamentos distorcidos sobre o que vem a ser o uso do negro como símbolo de identidade do headbanger, existem casos levados ao extremo, aos quais sou testemunha, que aconteciam com muita frequência entre os anos 80 e 90 do século passado. Por exemplo, encontrar alguém na rua com a camisa de uma banda e ir imediatamente perguntar o que a pessoa curte além daquela banda ali estampada na camisa e isso tinha, ou melhor, podia ter duas intenções: fazer amizade ou quebrar aquela pessoa na porrada!

Sim, exatamente, muitas pessoas eram espancadas caso não respondesse a contento o que fora questionada sobre aquela banda que estava carregando no peito. Podemos atribuir estes fatos a um certo ciúmes de ver outro alguém se não aqueles do seu círculo de relacionamentos conhecer “tal banda” e uma certa indignação – “mas como esse cara conhece essa banda se eu nunca vi esse cara em lugar nenhum?” – e ali estava estampada a prepotência e o fulgor adolescente em acreditar que sabe de tudo, sempre. O tempo passou, muitas coisas mudaram, mas e a roupa? A roupa também mudou, as pessoas mudam constantemente, mesmo que muitos ainda queiram se manter fiéis ao passado e preservar um série de conceitos, será que preservar o conceito da indignação de ver o outro que não conhece com a camisa de uma banda que seu círculo de amizade admira ainda cabe o questionamento ameaçador? Por outro lado, ainda há o julgamento daquele que “não usa” a roupa preta com a banda que gosta estampada no dia a dia, como se isso fosse a violação deste código ético e moral impresso no imaginário do headbanger radical para toda a eternidade. E vestir-se de negro então pode ser considerado uma farda? É o que parece diante das ideias propagadas em muitos meios nos últimos anos, é fácil perceber que as cobranças e vigilâncias e julgamentos continuam, mas com outro teor!

E será que é a roupa mesmo que define quem é a pessoa por dentro? Como a farda do cárcere define o encarcerado, a farda do soldador o define, a farda do soldado o define, a farda do estudante o define, a farda do headbanger o define e se ele não estiver de farda ele vai deixar de ser o encarcerado, o soldador, o soldado ou o headbanger? Então, eu que sou formado em arte tenho de usar a farda do artista? Sou formado em licenciatura tenho de usar a farda de professor? Sou especialista em patrimônio tenho de usar a farda do analista? O tempo todo? A roupa pode identificar, aliás esse foi um dos usos dado a roupa na sociedade, a identificação e até a segregação, porém o passar do tempo nos deu a compreensão do que vem a ser a liberdade de escolha, o livre arbítrio e o entendimento que ninguém tem nada que ver com a vida do outro!

Ao passo que essa escolha é pessoal e intransferível, infelizmente vivemos entre aqueles que se preocupam, se ocupam e se instalam na vida do outro como se as suas não importassem ou importassem tanto que o outro precisa fazer o que eu faço, ou ainda pior, fazer o que eu digo, o que eu penso e o que eu mando! Além de todas esses indagações e afirmações o prazer deve ser levado em consideração em primeiro lugar, estar vestido é uma regra ética e moral da sociedade, logo: obrigação, sendo assim vista-se com prazer!

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Anton Naberius

Vocalista da Eternal Sacrifice (Pagan Black Metal) Professor de Arte Visual, Artista Plástico e Especialista em Arte e Patrimônio Cultural.

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