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PATRIA – A gênese e a evolução da estética e do som de uma mente incansável

O PATRIA é uma das bandas extremas que mais admiro no cenário nacional. A banda surgiu em 2008 e possui 6 álbuns em sua discografia, além de várias demotapes e splits. Reconhecido como um projeto coeso e sério da cena underground, minha conversa foi com o Mantus (guitarrista) e pude conhecer melhor e entender porque o PATRIA é uma banda tão singular na nossa cultura underground.

Confiram!

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PATRIA (Divulgação)

Olá, excelente dia e muito obrigado por ceder este espaço para uma entrevista para o Portal Lucifer Rising. Tem sido uma boa trajetória desde 2008 para cá. Poderiam comentar como a banda surgiu e como delimitaram o estilo e temáticas escolhidas para o debut Hymns of Victory and Death?

Mantus – Nós que agradecemos o interesse no nosso trabalho. Bom, o Patria nasceu quando me mudei do Rio de Janeiro para a Serra Gaúcha, em 2008. Era apenas um projeto e não haviam muitas pretensões, apenas a ideia de fazer um som que fosse de encontro com a linha da velha escola do Black Metal. Honestamente na época não houve um planejamento muito concreto sobre a parte lírica. Tínhamos um punhado de músicas ríspidas e sujas, então a temática apenas seguiu o clima das canções, quando começamos a escrever as letras.

O impacto visual do Patria em algumas fotos de divulgação são bem interessantes, vocês tem essa chama Black Metal noventista do apelo “true norwegian black metal”, vocês tiveram essa intenção?

Mantus – Exato. O Patria realmente nasceu inspirado na estética e no som do Black Metal norueguês dos anos 90. Tentamos reproduzir essa atmosfera sonora com o máximo de fidelidade possível nos nossos primeiros álbuns. Algo quase como uma homenagem! Analisando a linha evolutiva da banda, é perceptível que passamos a nos preocupar muito mais com a produção e a qualidade das gravações. E isso aconteceu naturalmente, muito em função de experimentalismos que resolvemos criar e adicionar na música. Apesar de hoje apresentarmos algo mais polido, em termos de produção, é muito claro que continuamos uma banda de Black Metal, exatamente como no início, apenas com umas pitadas maiores de ousadia, digamos assim.

São 6 full lengths até agora, o que podemos esperar ainda do Patria para 2019/2020?

Mantus – 2019 foi um ano atípico para o Patria. Usualmente somos muito produtivos, mas acabamos tirando o pé este ano. Houveram alguns lançamentos comemorativos de 10 anos, como o Box de Tapes lançado pela Nihil Productions, gravamos alguns covers que irão aparecer em tributos a serem lançados em breve e faríamos até poucos dias atrás a abertura do show do Abbath, em Porto Alegre, junto com o Rebaelliun, mas que infelizmente foi cancelado. De qualquer forma, após o período de férias no início deste ano de 2020, vamos começar a trabalhar em novas músicas e quem sabe num próximo disco.

O último álbum soa gélido e tem muitos elementos que dão um clima austero ao álbum. A faixa “Two-Way Path” é bem característica  e me remete muito ao trabalho de vocês. Há um clima sufocante e intenso que acaba se espalhando por todo o álbum.  Como foi o processo de composição deste último álbum “Magna Adversia”?

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Mantus, PATRIA

Mantus – Até o álbum “Individualism” as músicas foram todas compostas e gravadas no meu home studio. O PATRIA nasceu como um projeto de estúdio, de duas pessoas, e não havia o interesse de sermos uma banda que faz shows, logo, não havia a preocupação em reproduzir o que era criado, com exatidão, ao vivo. Como você pode imaginar, esse pensamento mudou e nos tornamos uma banda “de verdade”. Com essa mudança, percebemos que algumas músicas simplesmente não funcionavam tão bem ao vivo como funcionavam em estúdio. Essa situação fez com que o MAGNA fosse composto de uma maneira diferente dos outros álbuns e resolvemos testar as músicas ensaiando normalmente e gravando Demos, como uma espécie de pré-produção, com a banda completa participando,  para ver se o que tínhamos em mente soaria realmente bom ao vivo. O resultado foi ótimo apesar de bem mais trabalhoso. Possivelmente vamos repetir esse processo nos próximos lançamentos.

Já soube desde o pré-lançamento (e encomendei!) de um box junto a Nihil Productions do meu amigo Yuri Gross, como foi essa parceria e o que podemos esperar deste box incrível?

Mantus – O Yuri nos ofereceu essa parceria, e, pela maneira como foi desenvolvida, achamos fantástica a iniciativa. Os boxes contém exatamente as mesmas versões que foram gravadas em nossos primeiros álbuns (Hymns of Victory and Death, Sovereign Misantropy e o EP Gloria Nox Aeterna), sem retoques na parte sonora. Já a parte visual recebeu um tratamento todo especial, com novos encartes e fotos nas tapes, um pôster exclusivo, um patch e uma embalagem de madeira fantástica, feita a mão. Procurem a Nihil Productions e chequem esse material limitado o quanto antes. Está matador!

Box PATRIA lançado pela Nijil Production

Como está a cena underground no Rio Grande do Sul e como ela é diferente (ou não) de 2008 quando a banda começou?

Mantus – É uma pergunta bem difícil de responder de maneira geral. Acho que para o público de Metal a cena está muito melhor. Há eventos acontecendo praticamente toda a semana pelo estado. As bandas têm se tornado cada vez mais profissionais e há muita coisa boa acontecendo e sendo lançada. Na contramão disso, ainda se vê muito descaso por parte de alguns produtores, que surgem do dia para a noite e fazem ofertas de shows quase absurdas para as bandas. Acredito que isso seja um mal que afeta todo o Brasil, não apenas o RS.

Quais as principais influencias da banda e como a cena de Black Metal hoje impacta o trabalho de vocês? Ao vivo eu tenho sempre a sensação de haver um “ar” de Taake. Acho “Triumphsword” bastante performático e um excelente frontman!

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Triumphsword, PATRIA

Mantus – Depende muito do que as pessoas entendem por “influência”. Muitos tomam a palavra como ”aquilo que você quer copiar”. Eu penso em influência como algo muito mais amplo que isso. Desse ponto de vista eu acredito que a cena Black Metal atual não nos afeta muito. Somos todos fãs de muitas bandas atuais de Black Metal, mas gosto de pensar que chegamos em um ponto em que temos o som do Patria muito bem delimitado. De alguma forma, sabemos onde podemos pisar com nossas “invencionices”, e onde não devemos nos meter. Quanto ao que realmente nos influencia como compositores, e que vai estar aparente em nossos trabalhos, eu citaria toda a velha escola do Black Metal 80/90, o Death Metal sueco do início dos anos 90, toda aquela onda de Metal brasileiro do final dos anos 80, música progressiva, pop dos anos 80, cinema, poesia e artes visuais. Parece confuso isso, não? Mas para o Patria faz sentido essa miscelânea toda (risos). Quanto a Triumphsword, estamos falando de um inveterado fã de música, cinema e trilhas sonoras. O que você vê dele no palco é 100% honesto e espontâneo. Eu diria que é a personalidade dele, contribuindo para o PATRIA e retribuindo o que ele está recebendo naquele momento.

Apesar do peso sólido há passagens atmosféricas que apesar do peso e urro dos vocais alucinantes, temos uma melodia no background, como na faixa “Porcelain Idols”. Como funciona o processo criativo de vocês neste sentido?

Mantus, PATRIA

Mantus – Música é uma forma de arte de expressar sentimentos através dos sons, no meu entender. O momento que estamos vivendo enquanto estamos compondo é uma influência que complementa o que citei na pergunta anterior. As músicas não nascem pré rotuladas, destinadas a serem mais rápidas, mais pesadas ou atmosféricas. Gostamos de trabalhar com camadas diferentes e experimentar nuances de dualidade, totalmente opostas umas às outras. Isso faz com as músicas nasçam com uma cara e terminem indo para o álbum completamente diferentes, o que é algo que a gente curte bastante e torna tudo mais interessante.

E quanto a outros projetos paralelos, o que tem ocorrido em paralelo ao Patria? Sei que vocês tem andado um pouco ocupados.

Triumphsword, PATRIA

Mantus – Sim, temos coisas acontecendo em outras frentes também. É uma válvula por onde canalizamos coisas que não funcionariam tão bem no Patria. Temos o I Gather Your Grief, que basicamente é a mesma formação do PATRIA, com a adição de um guitarrista e a minha ida para a bateria. No IGYG temos um leque bem maior de influencias que afloram e eu diria que é algo que bebe muito na fonte do Doom Metal antigo, mesclado com coisas mais contemporâneas e melancólicas. Vulkan e Ristow tem o Litosth, que faz uma mescla de Black Metal com Death Metal melódico bastante apoiado em cima da temática lírica e cheio de harmonias intricadas. Triumphsword participa como baterista e vocalista da Land of Fog, fazendo um Black Metal misturado com Folk, mais denso e agressivo. E eu ainda tenho meus trabalhos com o Mysteriis, Le Chant Noir e outros que andam na geladeira, mas devem ressuscitar uma hora ou outra, como o Hellscourge e o Darkest Hate Warfront.

Quais bandas hoje vocês estão apoiando no Underground nacional ou quais bandas vocês poderiam nos indicar que mais ouvem recentemente ou de longa data?

Mantus – A cena nacional é algo imensurável. É quase injusto apontar um nome ou outro correndo o risco de deixar alguém de fora. Na prática, passamos o dia inteiro ouvindo música e falamos sobre música o tempo todo. Respiramos isso no dia a dia. Arrisco dizer que acompanhamos a cena nacional como um todo, ouvindo bandas novas com frequência e tendo muitas surpresas positivas, mas sempre há uma expectativa maior quando há um lançamento de alguma banda que está na ativa há anos ou que voltou de algum hiato.

O que é o METAL EXTREMO para vocês e como veem a cena no BRASIL de modo geral?

Mantus – Eu entendo a necessidade humana de se categorizar as coisas, mas não acho que METAL EXTREMO seja algo que diga muito a respeito das bandas que estão sob essa categoria. Se pode levar as coisas ao extremo em qualquer gênero de metal, mantendo a classe e a característica de cada banda. Em contraponto, o desejo de extremar as coisas as vezes descaracteriza algo que era bastante espontâneo, transformando em algo genérico e apenas veloz. Me parece que a maioria das pessoas associa unicamente velocidade com extremismo, coisa que não estou plenamente de acordo.

Sobre a cena brasileira, é chover no molhado. Brasil é um celeiro de bandas de primeira linha. Se você analisar o fato de que não se ganha nenhum dinheiro para fazer Metal no Brasil, não há uma estrutura consolidada para shows ou tours somado ao fato de sermos um país de dimensões continentais, ainda assim produzimos Metal de extrema qualidade e com uma personalidade extremamente única.

Vou deixar o espaço para que vocês nos deixem uma mensagem! E caso haja algo não dito e que deva ser pronunciado, é com vocês! Muito obrigado!

Mantus – Valeu! Nós que agradecemos pelo espaço! Comprem material das bandas que vocês gostam, compareçam aos shows e divulguem como puderem os trabalhos que merecem! Nos vemos na estrada qualquer hora! Grande abraço!

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PATRIA (Divulgação)

Links:

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PATRIA Bandcamp

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Nihil Productions

PATRIA na Black Metal Store

 

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Ricky Lunardello

Historiador e Sociólogo, Pagão de alma Viking, apaixonado pelo Metal Extremo e pela cultura underground.

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