Entrevistas

PROMETHEAN GATE – “Abandonando costumes do eu anterior para a transformação do eu superior”.

Promethean Gate é uma horda black metal one man band de São Paulo, com uma rica temática que compõe luciferianismo, ocultismo, mitologia e literatura. Conversei um pouco com Promethean P. Priest, responsável pela criação dessa entidade, sobre esta obra. Procurando romper com a área comum na parte lírica, ele nos descreve como foi a concepção da horda, o primeiro ano em que houve uma manifestação ao vivo e pretensões futuras.

Promethean P. Priest, Foto por Divulgação

Promethean Gate faz, desde o título, referências ao mito de Prometeus, junto a temática luciferiana. Achei uma combinação de ideias interessante, como na faixa “Enthroning of Lucifer With the Crown of Phosphoros”. Como você desenvolveu a linha ideológica da entidade Promethean Gate?

Promethean P. Priest –  O conceito surgiu a muitos anos, quando comecei a me aprofundar em conceitos mais luciferianos de estudo sobre o oculto.
Eu estava lendo um livro chamado “A Revolução Luciferiana”, escrito pelo ocultista Adriano Camargo e lançado pela editora Madras. Em certo ponto livro, ele traçava diversos pontos de conceitos luciferianos com “lendas” antigas e como entidades eram vistas por povos de outras eras. Isso me marcou muito na época, inclusive me ajudou a entender diversos conceitos que vim a me deparar depois.
Como isso abriu uma chave de conhecimento, foi o nome perfeito para a entidade, cujo o objetivo mor era exatamente este.

Na primeira manifestação ao vivo, você utilizou como parte da indumentária uma coroa de estrutura rústica. Qual a simbologia que você quer transmitir?

Promethean P. Priest – Essa coroa utilizada pode ter diversos entendimentos e acredito que muitos deles serão verdade de acordo com a interpretação espiritual de cada um.
Coroar alguém significa uma elevação, normalmente atribuídas a Reis. Nesse caso eu quis trazer de uma forma mais visual a elevação espiritual que busco abordar nas letras das músicas, tudo isso longe de achar que eu sou superior a outros espiritualmente. A ideia é explorar a luz interior com crescimento e evolução, abandonando “costumes” do eu anterior para mostrar a transformação do eu superior.

2017 – Architecture and Concepts of the New God “Demo”

Você já tocou em outros projetos. O Promethean Gate é uma realização que é desenvolvida a quanto tempo? A faixa “The Call Of The Nameless God”, por exemplo, foi composta bem anteriormente, correto?

Promethean P. Priest –  A letra da música “The Call of the Nameless God” é realmente antiga, ela deve ser de 2012, ela já foi utilizada em músicas de dois projetos, mas apenas tomou forma no Promethean Gate, o que eu acho que era o lugar melhor para ela.
O projeto, na sua forma musical, tem sido desenvolvido desde 2016, quando procurei me aperfeiçoar em instrumentos de cordas para que então pudesse compor o material próprio.

Alguma das letras do Promethean Gate descreve alguma situação específica que você tenha vivenciado?

Promethean P. Priest –  Sim, a música “It Took Me the Whole Night to Believe In” foi feita sobre uma doença em minha família e como isso me afetou em minha vida pessoal e espiritual.

A horda é apenas você. Na situação de ter criado toda a obra sozinho (apesar de haver algumas participações), quais são os critérios que você utiliza para convidar outros músicos para compôr as manifestações ao vivo?

Promethean P. Priest – Todos os músicos que participaram foram aliados de longa data e/ou que estiveram conectados ao projeto por muito tempo. Por exemplo, Sepherus Dutra gravou o solo de guitarra no cover do Kiss, Unholy, e também todos os teclados na primeira demo, ele esteve conectado a horda desde 2016 atuando como produtor e ajudou a definir o som que teríamos naquele lançamento e no futuro. Magnus Hellhound gravou guitarra solo em nosso split com o Deviator, essa colaboração foi o resultado de 10 de amizade e a vontade de querer trabalhar juntos em algo.
As vozes femininas são todas proclamadas por Lady V. que também colcaborou nas letras. Ela provavelmente será a única pessoa a fazer uma participação nas vozes ou letras do Promethean Gate, acredito que por conta deste tema lírico só possa ser feito por alguém que esteja alinhado com os ideias da horda.

2018 – The Call of the Nameless God, “Single”

Recentemente, bandas com temas religiosos e ocultistas estão em grande visibilidade no underground black metal. Qual sua visão a respeito?

Promethean P. Priest –  Sim, hordas assim se tornaram mais evidentes do que eram a alguns anos. Particularmente, eu não me importo com essa evidência. Concordo que visibilidade seja bom para a desenvoltura de qualquer horda de Black Metal, mas quanto há esse tipo de “movimento” ou essa visibilidade repentina, sempre trás muito lixo.
Há hordas que já faziam esse trabalho muito antes e continuarão a fazer isso depois que essa visibilidade abaixar, como Cult of Fire, Eternal Sacrifice e o Vobiscum Inferni, essas são as nossas influências e são essas hordas que contam. Mas há certas “hordas” que irão mudar depois, assim como já mudaram com a maré antes.
Como eu disse, não me importo.

Há uma influência de bandas como Emperor (que inclusive você proferiu o cover de “Lord of the Storm”) e Acherontas. Quando se trata de ocultismo e de sonoridade épicas, referência é o que não falta. Apesar do título da banda fazer referência a mitologia grega, você pretende utilizar outras culturas e outras sonoridades (mais exóticas, por exemplo orientais) para implementar em sua produção?

Promethean P. Priest – Sim, estou estudando sobre Quetzalcoatl e procurando trabalhar algumas músicas que façam o mesmo paralelo que comentamos acima sobre Prometeu e Luciferianismo.
Algumas outras relações mitológicas nas letras do Promethean Gate são sobre mitologia suméria e babilônicas e sim, há outros pontos que gostaria de abordar no futuro, mas que admito precisar me aprofundar mais no estudo para não propagar besteiras, são sobre ritos africanos.

2019 – Rites and Passages of Lunar Transcendence and Chants of Aeons of Fire “Split”

Por se interessar por mitologia e observando a parte lírica, imagino que aprecie ler, entre outras formas de arte, como na faixa “The Tales of Modern Prometheus” (referência ao Frankenstein, o Prometeu Moderno). Entendo que as influências de um músico, mesmo adquiridas externamente a obra, aparecem de alguma maneira em suas criações. Por isso; entre filmes, livros e pinturas etc, gostaria que citasse ideias que te impactaram, independente de elas estarem explicitamente descritas em sua obra.

Promethean P. Priest – Agora você tocou em um ponto deveras interessante, filmes sempre foram uma paixão acima de tudo para mim, eu acredito que seja a forma definitiva de fazer arte, pois através dela você pode tocar as pessoas de todas as maneiras possíveis, seja com imagens, roteiro, música, cores e etc.
Há uma certa influência de todos os tipos de arte no Promethean Gate, nossos dois últimos lançamentos e assim como o próximo que sairá logo tem como capa quadros de Gustave Dore e Ulpiano Checa, assim como lyric vídeo de “…And She Came Riding the Beast and Desecrating Sin”, que é formado basicamente por artes de William Blake e alguns outros artistas. William Blake que também é de grande influência em sua poesia, “O Casamento Entre o Céu e o Inferno” tem as melhores poesias filosóficas que já li e que influênciou a mim e ao Promethean Gate.
Em suma, para mim, a arte que criamos é uma extensão do que vivemos e experimentarmos, ela é moldada pelos passos que demos até chegarmos aqui, por isso a arte é algo tão único e eu permito que o Promethean Gate seja influenciado por tudo nesse quisito.

Imagino que, apesar das dificuldades de uma one man band, há também a facilidade por não precisar conciliar horários e fatores humanos externos, por exemplo. A experiência de tocar sozinho tornou-se definitiva ou também há interesse em criar/participar simultaneamente de outros projetos no formato mais tradicional?

Promethean P. Priest – Estou trabalhando em um projeto com Sepherus Dutra da horda Morpherus, tudo será divulgado na hora certa. Mas estou sempre disposto a novos projetos, desde que sejam sérios.

2019 – To Those Who Have Fallen… Our Condolences “Split”

Uma vez, questionado sobre a temática da Promethean Gate, você disse que seu interesse é em “propagar a verdade”. Tendo em vista que também endossa pensamentos antihumanos, poderia comentar sobre essa verdade?

Promethean P. Priest – Essa questão de “anti humanismo” dentro do Promethean Gate sempre foi mal interpretada. O que procuro trazer com a morte humana é matar o seu “eu anterior” visando a elevação do “eu superior”, é necessário deixarmos algo para trás para possamos avançar.
A morte do ser humano é algo que nunca influenciou o Promethean Gate, nem irá, a vida é um “milagre” muito superestimado para que percamos nosso tempo lamentando, ainda mais quando a maioria dos seres humanos nunca agregam nada. É, talvez a maioria de nós mereça a morte.

Comente a concepção da faixa “The Horned Dragon That Travels Through The Gates Of Sitra Ahra And Spreads Words Or Truth”.

Promethean P. Priest – Foi a primeira música que compus todos os instrumentos e letra, mas tive auxílio de Lady V, já que o conceito original foi dela.
Ela faz uma relação do dragão luciferiano com os portões de nossa mente, subconsicente ou “do outro lado”. Em alguns versos há questões sobre o universo primordial e Árvore Sephirótica, mas acredito que esse assunto mais a fundo seja melhor encontrado em livros, posso recomendar “Qabalah, Qliphoth e Magia Goética” de Thomas Karlsson, lançado aqui recentemente pela editora Penumbra.

Promethean P. Priest, Foto por Divulgação

Você tem materiais lançados, inclusive muito bons. Split com o Deviator (Ukr), outro com Morpherus e o single “The Call of the Nameless God”, no intervalo de dois anos. Também tem a demo “Architecture and Concepts of the New God” foi lançada pela ucraniana Depressive Illusions Records, que tem uma infinidade de títulos no catálogo. Um ótimo início e bastante produtivo. Imagino que tenha ficado satisfeito! Como ocorreu tudo isso? O que ver sua obra criar forma muda sua vida pessoal?

Promethean P. Priest – Sim, estou muito satisfeito, tem sido uma experiência interessannte até agora e acho que todos lançamentos ocorerram na hora certa. Até mesmo nossa primeira manifestação ao vivo em um festival como “Malefic Cold Weather XI” foi algo extremamente recompensador. Ainda esse ano, lançaremos um ensaio que gravamos na Toca do Chico Preto, estudio aonde é registrado também o programa Eyes of Lucifer, como também um vídeo multi-câmera do “Malefic Cold Weather XI” (link abaixo). O ano ainda não acabou para nós.

Para finalizar, gostaria de informar aos interessados que, dia 01 de setembro o Promethean Gate irá fazer uma manifestação ao vivo (mais informações no flyer abaixo) e deixar esse espaço para sua livre expressão. Caos!

Promethean P. Priest – Sim, dia 01/09 estaremos ao vivo pela última vez esse ano, vamos reformular o set list após esse evento, então quem perdeu a primeira apresentação, essa será a última.
Queria lhe agradecer pela oportunidade dessa entrevista, que com certeza foi a mais longa e elaborada que escrevi. Muito obrigado.

Vídeo da primeira manifestação do Promethean Gate, no festival “Malefic Cold Weather”

Mostrar mais

Sophia Losterh

Editora do zine Natimorto e organiza eventos de metal extremo underground em SP. Amante das expressões blasfemas de arte. Hail caos, Hail metal negro!

Veja também...

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar