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Quem são esses jovens ingressos ?

Uma reflexão sobre a nova geração no Metal

    Sempre que começo um novo artigo, a primeira coisa que vem na minha mente é o passado, o que ele me diz, o que ele me indica, como ele era e no que o passado se tornou no presente, o que o presente vai se tornar no futuro? Com essa tônica que meu pensamento vai permear as novas gerações, já que não as conheço a fundo e gostaria de conhece-las.

Quem são e quem serão estes que farão este estilo musical maldito, continuar existindo com o espírito de quem o criou e daqueles que o manteve vivo por estas cinco décadas? Eis a questão! A vista daqui aponta para uma geração que tem uma visão muito particular sobre o que é o Metal, como estilo musical complexo, cheio de nuances e repleto de regras morais e imorais desconstruídas, por um lado, e reconstruídas por outro… muitos significados de um lado e um apanhado de ressignificações de outro. É um espírito que carrega um fardo pesado sobre como devemos ser, agir, pensar mergulhados no paradoxo da liberdade ideológica, artística, cultural e de costumes as quais, como disse acima, possuem outros pontos de vista, acompanhadas de novas práticas, de novos formatos e novas estéticas.

Particularmente, minha visão sobre estes jovens ingressos no universo metálico, é pessimista! e explico. A quantidade de jovens interessados na música extrema na atualidade, me parece cada vez mais rara, cada vez mais distante, sendo assim, é neste momento que preciso fazer uma comparação com minha geração. O que nos atraia na música extrema nos anos 80, 90? Talvez a revolução musical, a estética, a autoafirmação, o desconhecido e um misto obscuro de pertencimento, sentido para a vida e um canal interessante de conhecimento de línguas (principalmente a língua inglesa), línguas essas que nos aproximavam de lugares inimagináveis, com sensações idem, a história destes lugares narradas em muitas dessas músicas, o pontos de vista filosóficos, fantásticos (leia-se fantasioso) de outras muitas, as mais variadas abordagens sobre a morte, a medicina na sua face mais vil, o sadomasoquismo e, principalmente no meu caso, o satanismo, esse sim era o principal assunto que me interessava dentro do universo da música maldita.

Capaz de estes mesmos temas ainda serem os principais atrativos para que um jovem se interesse pelo metal na atualidade, assim como eram os interesses dos jovens, hoje experientes e resistentes integrantes da “cena” metal mundo afora. Porém, meu principal questionamento diz respeito aqueles jovens ingressos no metal no Brasil e como é a postura deste jovem dentro deste contexto. Diante do que consegui sondar através que perguntas à velhos e novos, existe uma interessante diferença entre estes jovens ingressos de acordo com sua localização geográfica! Sim, em cada região ou estado do país, pude notar perfis diferentes entre estes jovens que fazem e farão com que o metal se perpetue… será? Será que o metal é e será um estilo imortal?

Então, vejamos: é certo que os hábitos dos jovens da minha época, estão ultrapassados ao passo que pouco ou nada restou daqueles momentos. O principal deles eu aponto como o extremo radicalismo, uma couraça protetora que nos colocava como guardiões deste estilo musical a fim de defende-lo de ingressos nocivos que não passavam de curiosos que um dia poderiam profanar algo tão sagrado para nós! Não podia vazar assim um som tão especial e específico para “qualquer um” que quisesse, este deveria carregar consigo requisitos muito alinhados com aquilo que acreditávamos, dentro de regras invisíveis e morais indestrutíveis, regras construídas a base do empirismo e que essas, quando quebradas produziam uma repercussão avassaladora sobre aquele que a infringiu. Ora era de primordial cunho preparatório e “iniciático” que o ingresso soubesse o quão importante eram aquelas demos, aqueles discos, aquelas camisas, aquelas artes violentas, aquilo não podia ser violado de forma alguma… aquele era o espirito do real radicalismo, que depois passou a ser confundido com elitismo, mesquinharia, delações, fiscalizações e a pior de todas as posturas, perpetuadas até hoje: a fofoca!

Sim, o radicalismo foi sendo desconstruído com o passar do tempo, principalmente com o crescimento da cena vertiginosamente, o que não é algo negativo, o crescimento era esperado e saudável, mas talvez, com uma forma mais eficaz de protecionismo baseada no aperfeiçoamento do radicalismo e não na transformação dele em piada. Claro, que ele, o radicalismo, ainda existe, mas como eu disse, ele mudou, ele não é o mesmo daqueles anos que citei, e nem faz sentido ser, visto que temos há alguns anos maneiras muito fáceis de acessar as músicas preciosas do Metal, elas não estão mais apenas registradas em fitas k7 de baixíssima qualidade, ou em LP`s de produção “gringa” e de valores exorbitantes para a época, em que um ou dois dos 50 amigos tinham acesso. Hoje, vejo com grande facilidade, bandas lançarem um álbum ou uma demo numa plataforma digital e em algumas horas ter sido escutado/visto por milhares de vezes, e aí fica difícil dizer hoje: “Tenho essa demo aqui, vamos ouvir, mas não passe pra ninguém!”.

Minha permanência neste nicho por quase quatro décadas vem de algum lugar no meu interior que só a emoção é capaz de explicar, meu gosto pela música extrema não está atrelada a nenhum requisito externo e sim interno, aí vem a pergunta: o que vai fazer estes jovens ingressos permanecerem no Metal? Quais valores estão sendo incentivados dentro do imago destes para que permaneçam, para que perpetuem costumes por exemplo? Como manter uma estética? Já vimos, muitas vezes, que estes valores aparecem e somem nas famosas modinhas como as que assolaram o Black Metal, o Death Metal, o Thrash Metal (este umas cem vezes), assim como a forma como estes constroem valores estéticos mutantes, que se transformam sem parar, sem cessar… são estes mesmos valores que vemos extremamente distorcidos nos cabides das famosas lojas de departamento Brasil a fora.

Ouvi depoimento de pessoas que dão conta comparativa sobre os velhos e os novos do Metal em vários episódios como: os velhos chegam aqui, tocam os mesmos discos do passado, renegam o novo, bebem, arrotam e vão embora… os novos pesquisam, conhecem, consomem e conhecem o velho e o novo, transitando muito bem nestes mundos, porém, para os mais velhos, os novos não possuem o verdadeiro espírito do metal! Qual seria o verdadeiro espírito do Metal? Eu responderia que é aquele, dos anos 80 e 90 em que cresci, e ajudei a construir com toda aquela postura radical que narrei antes e que vive como macacos no sótão. Para os novos, certamente, o espírito é outro que não é aquele de se sentir pertencente à um nicho, de tentar protege-lo a todo custo, do rito de abrir uma carta com flyers, uma fita k7 trocada e uma carta emocionada em estar travando uma conversa com um amigo conhecido e sem rosto!!! Para os novos bastam postagens em redes sociais, talvez, com alguns comentários super “embasados” na ideologia cósmica e na filosofia obtusa dos sites de busca. Para os novos (digo jovens), talvez, baste curtir a capa de um disco em uma dessa plataformas digitais da vida, enquanto que para nós o encarte com seu cheiro de gráfica e o rito de abrir uma embalagem não seja do mesmo setor!

Ambos os lados carregam um grande defeito, a arrogância, sim! A arrogância está em ambos os lados de braços dados com a soberba, a mesma que se auto intitula de elite, e não elitismo, já que cada um está em polos opostos. O elitismo, não necessariamente faz parte da elite, o elitista é um desejoso, é um entusiasta que se coloca como tal e, certamente, não contém dentro de si, nenhum requisito necessário para ser classificado ou adjetivado com tal. Já a elite, propriamente dita, faz questão de se mostrar assim, com seu exibicionismo gratuito e sua disputa, sim… o metal arrota união, mas no fim das contas, mais parece mesmo uma disputa de espaço, de egos, de melhor, de pior e o que há de pior é fácil de encontrar dentro de cada um destes extremos, o velho e o novo, nesse sentido, convergem para o patamar almejado, a arrogância! Outrora a arrogância estava impregnada em outros quesitos, principalmente no discurso que levava a este elitismo, ou essa vontade de estar acima, de olhar os demais do topo de uma colina e não atolados na lama das próprias palavras.

Quem são estes jovens ingressos? Que não compram cds nacionais, mas pagam caro por material importado? Quem são estes jovens ingressos que não compram mais cds, mas juram ter toda a discografia do Slayer no seu HD, Pendrive, Cartão de Memória ou na Nuvem? Quem são estes jovens que carregam no peito a imagem da mulher mutilada com algo inteligível escrito acima? Ou quem é esse jovem na frente de uma tela hipnotizado por músicos tocando na velocidade da luz numa salada frenética de notas dissonantes e difusas, hibridas em trocas reluzentes de dedos entre cordas e baquetas aceleradas? Quem são estes jovens ingressos apaixonados por música suicida que propaga aos quatro ventos “Se mate ou morra!” como um mantra atroz sem consequências visíveis? Não, eu não irei perguntar pelos velhos, porque sei onde estão e ademais, já fiz essa pergunta em outro artigo onde muitos que leram fizeram uma infeliz interpretação errônea sobre o mesmo, os quais convido a relerem com calma… leia de novo!

Sim, sempre lutei pela perpetuação estética e ideológica que aprendi com empirismo, vivendo esta cultura real. Mas o que vejo não é animador, sinto que nós os mais velhos estamos falhando em não sabermos formar a nova geração, talvez não com o radicalismo necessário, mas com o apelo de uma ética ou um aspecto moral que não fomos capazes de esquematizar, de delinear, de construir ou documentar de maneira clara… ficou frouxo pelo caminho! Não, eu não quero a reedição do radicalismo, porque nos moldes em que ele nasceu jamais ele conseguiria sobreviver no mundo tecnológico digital do século XXI, lá nos idos do passado só tínhamos caneta, toca fitas e toca discos, quiçá um abastado para ter uma máquina de datilografar (isso era muito chique), como munição para todo um contexto… não, hoje não dá pra reservar, mas dá pra preservar. Perguntem-se “como?”, pois minhas respostas podem ser tacanhas e ultrapassadas, ainda assim ousarei em dizer que o diálogo pode apontar um futuro mais interessante, mas um diálogo de verdade, não postagens e comentários cheios de ira e ardor, onde os processos individuais são exacerbados, onde a sociedade do espetáculo desfila com suas alegorias de arrogância com tanta maestria, pompa e circunstância… não, merecemos algo melhor, algo profundo e que aponte caminhos, que estabeleça metas e que as cumpra, que possamos ser capazes de salvar algo que anda mal das pernas e faz tempo, que cada vez menos pessoas estão nos eventos, cada vez menos pessoas consomem as produções físicas e a ruína aponta feito iceberg no horizonte.

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Anton Naberius

Vocalista da Eternal Sacrifice (Pagan Black Metal) Professor de Arte Visual, Artista Plástico e Especialista em Arte e Patrimônio Cultural.

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