Entrevistas

REBAELLIUN – “…Nós não “passamos pano” para opressão e manipulação… “

Em 1998 foi criado um dos grupos mais brutais da cena death metal nacional. Seguindo o mesmo caminho dos seus conterrâneos do KRISIUN, o REBAELLIUN tomou de assalto a cena brasileira e mundial, já que rapidamente caiu na estrada fazendo tours lá fora e lançando um inacreditável debut álbum, o já clássico “Burn the Promisse Land” que trazia um death metal totalmente brutal, selvagem e com uma complexidade incrível. A banda lançaria ainda o EP “Bringer of War” e o segundo álbum “Annihilation” antes de decidir parar. Em 2015 todos foram pegos de surpresa com o anúncio do retorno desses mestres do brutal e logo no ano seguinte foi lançado um novo álbum “The Hell´s Decree” que mostrou que anos fora de cena não diminuiram o poder de fogo do REBAELLIUN. No começo de 2018, após uma tour europeia o guitarrista da banda Fabiano Penna contraiu uma bactéria desconhecida e acabou falecendo, deixando todos devastados. A banda mais uma vez mostrou sua garra e anunciou que continuaria na estrada. Com um novo guitarrista, Evandro, a banda está preparada para continuar mostrando sua música mundo afora. A LUCIFER RISING conversou recentemente com o baixista/vocal Lohy Silveira e falamos sobre todo esse período tão difícil para a banda, os planos para o futuro e mais…   Confira. 

 

Foto: divulgação

Lohy, primeiramente muito obrigado por responder essa entrevista e trazer aos leitores do portal LUCIFER RISING as novidades sobre o poderoso REBAELLIUN. Bom, minha primeira questão vai logo tocar em um ponto mais delicado da história recente da banda. Logo após a volta do tour europeia o guitarrista Penna foi hospitalizado e veio à óbito em decorrência de uma infecção generalizada. Foi tudo absurdamente rápido e com certeza vocês que estavam acompanhando esse dia a dia tão barra pesada devem ter se sentido totalmente sem chão. Em algum momento o REBAELLIUN enquanto banda chegou a pensar em encerrar a carreira em decorrência da morte do Fabiano ?

Lohy Silveira: Muito obrigado, Fabio. Pelo espaço aqui na Lucifer Rising e por todo o apoio desde o início. Cara, acredito que não houve um momento de hesitação para decidir se continuaríamos. Quando conversamos, eu e o Sandro, os dois tinham convicção de que seguir trabalhando era o deveríamos fazer. Muito motivos nos levaram a tomar essa decisão, mas nunca cogitamos parar.

Eu conversava de tempos em tempos com o Penna pela internet e ele sempre foi um cara muito consciente do que queria para a banda e como profissional. Nós tínhamos visões bem parecidas de como as coisas deveriam caminhar e minha última conversa com ele foi apenas umas duas ou três semanas antes da viagem para a Europa. Ele estava muito animado com a tour e com tudo que poderia decorrer desse momento. Essa animação, esses planos, esse foco no que a banda poderia ainda conquistar podem ser encarados como algumas das razões para seguir em frente com a banda?

Lohy Silveira: Certamente. O Fabiano sempre foi a pessoa mais lúcida que conheci, em inúmeros aspectos. Principalmente sobre o underground, e como a indústria da música funciona. Tínhamos recém voltado de uma tour na Europa que tinha sido ótima em vários aspectos. Então seguir trabalhando para conquistar o melhor pra banda é um das razões. Mas muito além disso, sabermos que seria o que ele teria feito, por conhecer ele tanto e a nossa própria vontade de seguir compartilhando o seu legado e mais capítulos à essa história e que nos motiva para não parar.

Alguns meses depois a banda anunciou que estava trabalhando em novo material com um novo guitarrista, o Evandro Passos. Eu li em uma entrevista que ele não veio do metal extremo. Como foi esse processo de adaptação com um novo guitarrista e a adaptação dele a um estilo que ele não tocava ?

Lohy Silveira: É inegável que uma tarefa dessas é “casca”, mas foi mais rápido do ponto de vista funcional do que eu imaginei. Ele é um excelente músico, e a forma como ele se relaciona com a música e o instrumento foi crucial para ele ter se adaptado tão rápido, eu acredito. O que se assemelha ao modo como o Fabiano via a música. Então ele está cada dia que passa mais consciente do que é a música extrema na sua essência, e tenho certeza que as origens musicais dele mescladas com essa fúria quem vem do Metal Extremo vai nos proporcionar inúmeros momentos criativos de grande valor pra música do Rebaelliun.

Foto por Day Montenegro

Ouvindo a nova música que vocês divulgaram recentemente fica evidente que o Evandro se adaptou perfeitamente à banda e vice-versa. O que você falou sobre o fato dele não vir do metal extremo nem fica evidente. Parece que ele sempre esteve tocando o estilo, mas o que me agradou muito foi ele não tentar copiar o Penna, ele colocou sua cara no som da banda. “The Messiah” é uma música que tem a cara do REBAELLIUN, mas mostra um mundo de possibilidades em que o som da banda pode vir a seguir. Essa pegada mais trampada em alguns momentos, o feeling e os solos são uma prova disso.  Essa é a cara do REBAELLIUN que iremos ouvir de agora em diante?

Lohy Silveira: Eu acho que deixando ele livre, pois em nenhum momento queríamos que ele tentasse copiar o Penna, até porque seria impossível e nem o Evandro sequer pensou nisso, foi o que fez  as coisas acontecerem naturalmente. Acho que musicalmente a intenção é seguir nossos instintos e expressar aquilo que está dentro de nós. Essa é a maneira como sempre trabalhamos nossa música. Observando os outros trampos dá pra sentir que apesar de seguir uma unidade na proposta, cada música de cada álbum tem sua cara, tem sua identidade. E ter esse equilíbrio entre partes mais “pegadas” e trampadas e partes mais rápidas e extremas sempre nos definiu. Então é possível, pois ainda estamos compondo, que tenhamos mais músicas com as características que você citou e que a The Messiah tem, e que também venham mais sons que exploram outros aspectos da música extrema.

Foto por Day Montenegro

(Para o Evandro):  Evandro, você vem de um background que não envolvia o metal extremo. Você pode nos falar um pouco sobre a sua história como guitarrista e o que você trouxe para o REBAELLIUN musicalmente falando ? Eu imagino que exista uma grande responsabilidade em estar no lugar de um músico que fez parte da banda desde o início.

Evandro Passos: Apesar das bandas que eu fiz parte, e faço parte , não terem um som tão pesado e extremo como o Rebaelliun, eu sempre curti e fui muito  ligado ao metal. Bandas como Slayer, Metallica, Iron Maiden e Dream Theater fizeram parte da minha formação musical , e confesso que sempre tive vontade de tocar algo mais ligado a esse tipo de som. Digamos que o Rebaelliun está alguns degraus acima nessa escala de música mais pesada,mas de certa forma, é a realização de algo que eu sempre quis.  A responsabilidade de estar ocupando o lugar do Fabiano Penna existe, e sempre vai existir. Ele, além de um excelente produtor, compositor, era um guitarrista excelente! Além de uma pessoa muito querida por todos que estavam ao seu redor. Eu estou dando o melhor que posso para honrar o nome desse cara e todo legado do Rebaelliun, e tem sido muito gratificante a reação dos fãs nos shows e com o lançamento do nosso novo single. Acho que estamos no caminho certo e fazendo o que ele gostaria que estivesse sendo feito…

Lohy, a banda teve dois guitarristas, depois acabou ficando somente com o Penna e agora com o Evandro. Como as músicas tendem a sem mais trampadas, vocês tem planos de incluir um segundo guitarrista na banda ou o trio é a melhor configuração que o REBAELLIUN pode ter?

Lohy Silveira: Depois de ter experimentar as duas configurações, seguir como um trio é o melhor para o Rebaelliun. Todo o processo criativo depende da formação, estamos compondo considerando isso e pra nós ter dois guitarristas na banda faria sentido somente se fosse com o Ronaldo como outro guitarrista, por ele ser um dos membros fundadores da banda e pelo entrosamento musical que sempre foi lamente entre nós. Fora a amizade que é tão antiga como a que tínhamos com o Penna.

Quando o “The Hell´s Decrees” foi lançado em 2016, a banda havia ficado um bom tempo parada. Como foi esse processo decisório para colocar a banda novamente na estrada? Para vocês lidar novamente com o underground com uma banda foi muito diferente? Quais foram as maiores diferenças percebidas por vocês na hora de colocar o trem nos trilhos novamente?

Lohy Silveira: Foi através de conversas que tivemos em 2015 sobre voltar com a formação que gravou o Annihilation para fazer alguns shows pelo Brasil, que a ideia de voltar com a banda tomou forma. E assim que decidimos voltar encontramos um underground obviamente diferente de como era em 2002, pois o público havia mudado e pessoas que conheciam a banda daquela época, muitas nem ouviam mais metal, ou não estavam mais na cena. Quando começamos a fazer shows em 2016, muitas pessoas vinham falar com a gente e era a primeira vez que ouviam falar na banda, apesar do grande apoio que recebemos quando anunciamos a volta. Então foi como começar do zero em alguns aspectos. As coisas estão acontecendo cada vez mais rápido e é preciso estar atento ao movimento. As mídias mudam sem parar e encarar dessa forma é importante para não se tornar aquele saudosista que vive eternamente reclamando de como as coisas eram.

Foto: divulgação

“The Messiah” tem uma parte lírica que pode seguir duas vias de entendimento, uma a visão anti-religiosa que sempre acompanhou a banda e a outra mostrar o posicionamento do REBAELLIUN em relação a toda essa realidade que estamos vivenciando não só no Brasil, mas em vários outros países do mundo. A banda teve uma postura muito firme em afirmar categoricamente que vai de encontro ao “status quo”, que “não se curva”.  Você concorda com as afirmações que tem sido ditas de que o metal é algo “apolítico”, que não deveria se envolver com “política” ?  Não falo tomar partidos por bandeira “x” ou “y”, mas se posicionar em torno de algo que seja maior do que o egoísmo ou do que o “tô nem aí” que assola uma boa parte da nossa sociedade.

Lohy Silveira: De fato essa música carrega essa dualidade no que expressa e essa foi a intenção. Fico contente que tenha percebido rs. Acho que sempre é importante que o ser humano se posicione, entenda um contexto e mostre se é conivente ou não com determinada situação. Mas acho que vai da consciência de cada um. Nós não “passamos pano” para opressão e manipulação. Ainda mais com valores torpes que vemos assolar o mundo inteiro. A nossa visão do que representa o Rock e o Metal enquanto essência não compactua com isso. E esse é o posicionamento do Rebaelliun. A questão é que principalmente aqui no Brasil o que estamos vendo transcende a política em várias esferas. Então apoiar ou não, tortura, homofobia, fascismo e outras mazelas sociais não é ser político. É acreditar ou não que isso é válido. E nós enquanto banda e pessoalmente nunca apoiaremos ou ficaremos neutros. Ninguém é obrigado a falar disso em sua música ou manifestação artística. Mas o posicionamento das pessoas é outra coisa. Vai da consciência individual em como cada um convive com isso.

Essa nova música foi o primeiro gostinho que pudemos ter sobre o REBAELLIUN em sua trajetória atual. Como tem sido os preparativos para novos lançamentos? Vocês ainda tem contrato com a HAMMERHEART RECORDS para outros lançamentos?   Quando podemos esperar por um novo álbum do REBAELLIUN?

Lohy Silveira: Estamos compondo com o objetivo de ter um álbum pronto até o final do ano, e se possível ainda gravar esse ano. Os últimos contratos com a Hammerheart foram para trabalhos individuais e como estamos “livres”, estamos procurando outras formas de lançar esse material, sendo com outro selo ou de forma independente.

Minha única memória do REBAELLIUN ao vivo foi quando dividimos o palco em Recife há muito tempo atrás quando eu era baterista do AS THE SHADOWS FALL. Lembro do quanto o REBAELLIUN era selvagem ao vivo. Você acha que os shows continuam sendo a melhor forma de mostrar ao público o poder de fogo de uma banda? Depois de tantas tours, no Brasil e exterior, vocês continuam subindo no palco com aquela mesma gana?

Lohy Silveira: Sim, acredito que o material gravado deve refletir o que banda expressa ao vivo. No palco é que se vê a essência da banda como um todo e como ela funciona se expressando. Subir ao palco para propagar a devastação é nossa missão como banda. A gana é a mesma e só aumenta em cada show. O fato de termos um background no palco nos ajuda a encarar cada experiência nele como um combustível para a próxima, compartilhando com o público o que está dentro de nós, fúria e revolta. A gana é a mesma e só aumenta em cada show.

Foto: divulgação

Bom Lohy, foi uma honra conversar contigo  sobre a banda. Fique a vontade para falar sobre os seus planos, divulgar merchandising da banda… enfim, o espaço é seu. A LUCIFER RISING e toda a sua equipe deseja todo o sucesso à banda e nossas portas estarão sempre abertas para divulgar o trabalho de vocês.

Lohy Silveira: Novamente, obrigado Fabio e toda a equipe da Lucifer Rising pelo apoio. Sempre foi e sempre será muito importante pra nós. Um muito obrigado também para todos que conheceram a banda no passado, seguiram apoiando quando voltamos, e apóia também nessa nova fase. É comovente ver que há tantas pessoas nos dando força e nos apoiando na decisão de seguir trabalhando com o Rebaelliun. Pra quem não sabe como nos encontrar, pode curtir a fan page da banda no Facebook, seguir nosso perfil no Instagram ou assinar o canal do Youtube. Lá é possível saber o que estamos fazendo, ouvir material novo, e nos apoiar com o nosso merchan. Entre em contato pelas redes sociais, pois enviamos para todo o Brasil. Siga apoiando o underground e as bandas, pois juntos somos um. We are Legion!!

Assista à nova formação do  REBAELLIUN no Maniacs Metal Meeting:

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Fabio Brayner

Editor do The Old Coffin Spirit zine e um completo metal maniac desde 1985. Ex-membro de bandas como Sanctifier e As the Shadows Fall.

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