Entrevistas

ROTTING CHRIST – Heresia e poesia sempre caminharam de mãos dadas

"Acompanhei o Sarcófago desde o início e o Genocídio durante anos e vocês sabem manter a chama underground acesa"

A banda grega de Black Metal Rotting Christ está na estrada há quase 30 anos. são 13 álbuns lançados e a banda é um sólido exemplo de que a cultura Black Metal pode ser espalhada independente de fronteira linguística.
Sakis Tolis tem investido sua carreira no Rotting Christ e perpetuado a trajetória do banda com um livro recentemente lançado e uma marca de cerveja “Non Serviam”.
Longe de fazer “mais do mesmo” a banda tem evoluído e diluído o Black Metal na cultura, poesia, livros e entregue aos fãs verdadeiras obras de arte que celebram poder, conhecimento e fidelidade às raízes dos primórdios do Rotting Christ. Foi em meio a organização da segunda etapa de shows na Grécia que Sakis concedeu ao Portal Lucifer Rising a presente entrevista na qual falou abertamente sobre o Rotting Christ, a biografia da banda, o underground nacional, a vinda ao Brasil e sobre o inovador e herético álbum “The Heretics” lançado este ano.

Sakis Tolis, Foto por: Divulgação

O Rotting Christ tem 13 álbuns e está na estrada a um bom tempo. Como você ainda acha inspiração?

SAKIS TOLIS – Eu me sinto inseguro. Como em todos os álbuns que crio. São 30 anos na cena e são 13 álbuns como você disse. É uma batalha constante com meus demônios. Eu fico nervoso também porque é como um filho recém-nascido e eu não sei como as pessoas vão reagir. Chega a um ponto que você para e pensa: O que mais eu tenho para dizer as pessoas? Demorou mais de um ano para este álbum sair. É muito bom saber que estou ativo e que posso criar algo ainda. Eu queria algo com alma então eu li muito antes de escrever esse novo álbum. Eu leio muito, escrevo muito, toco muito e falo comigo mesmo bastante.

Há alguns elementos interessantes neste novo álbum do ROTTING CHRIST. A presença de corais é uma delas. Como foi mesclar esses novos elementos sonoros?

SAKIS – Eu estava animado com o processo de gravação do novo álbum e eu segui o feeling de fazer algo mais atmosférico e foi aí que os corais surgiram.  Não foi previamente pensado inserir corais nas músicas, forçar uma atmosfera. Eu não quis preencher nenhuma lacuna vocal ou criar algo inesperado e inédito para o ROTING CHRIST, na verdade já fizemos algo semelhante em “Rituals”.

O que podemos esperar do ROTTING CHRIST no futuro? Algo pensado nessa mesma linha? Como você vê o ROTTING CHRIST no futuro?

SAKIS – Não sei se vamos fazer isso no futuro. Não sei o que esperar do futuro. As coisas mudam, a sonoridade muda, a forma de composição muda, então achar o “momentum” ideal para certos elementos musicais adequados depende do imprevisível. Não sei hoje se fui bem sucedido neste novo álbum. Fui?

Ricky Lunardello (em resposta)  – Com certeza. O álbum é fantástico!

SAKIS – Ah, então, fico mais tranquilo. (rs)

Um fato interessante sobre o álbum. Ele possui várias línguas mescladas ao longo das músicas. Inglês, ucraniano, grego, por exemplo. 

SAKIS – Sim. O metal não tem fronteiras. Ok, às vezes tenho que cantar em inglês, mas é difícil pelo meu sotaque, que pode ser difícil de entender. E às vezes eu quero me expressar de uma outra forma. E sempre que tocamos ao vivo vemos garotos de todas as partes do mundo e eles falam línguas diferentes.

Themis Tolis, Foto por: Divulgação

“The Heretics” é um título bem sugestivo, como chegou a esse denominador comum para sintetizar o álbum que versa sobre guerras religiosas, como um todo.

SAKIS – É isso mesmo, esse é o foco do álbum, as pessoas não têm essa visão à primeira audição. A escolha das faixas foi uma forma de homenagear os grande hereges da história. Por isso a escolha de Edgar Allan Poe. A poesia e a heresia caminho juntas nos escritos dele. Assim como caminha nas composições do ROTTING CHRIST. Além disso vivemos em uma geração em que podemos criar algo diferente, por isso também o álbum é “The Heretics”.

Falando de uma guerra entre o bem e o mau. Você acredita em “bem” e “mau”?

SAKIS – Pra ser honesto isso é bem difícil. Pessoas boas podem ser más e pessoas más podem ser boas. Tudo é questão de equilíbrio eu acho. Você deve achar o equilíbrio e essa é a minha batalha constante comigo mesmo.

 SAKIS – Qual sua música favorita do novo álbum?

Ricky Lunardello (em resposta)  – “The Raven”, com certeza!

SAKIS – Essa é a minha música favorita também. Eu escrevi todas então é bem difícil de escolher, mas fico com você nessa, é minha favorita também.  Há elementos sombrios e poéticos.

Rotting Christ, Foto por: Divulgação

Pensando nesse novo álbum, qual faixa funciona melhor ao vivo?

SAKIS – Bom, até agora ao vivo acho que God of Fire and Death é a que soa melhor ao vivo. Soa ROTTING CHRIST e a resposta do público tem sido bem positiva.

George Emmanouel, Foto por: Amanda Amigdalo

Ao longo desses anos você tem acompanhado a nossa cena underground brasileira?

SAKIS – Sim, lógico. Eu tenho ouvido o metal underground brasileiro desde o INÍCIO. Acompanhei o Sarcófago desde o início e o Genocídio durante anos e vocês sabem manter a chama underground acesa. É uma cena muito receptiva também. Alguns países são muito seletivos, mas vocês conseguem a harmonia entre os diferentes estilos de bandas. Hoje não tenho tanto contato com bandas novas, mas acompanho muito o Mystifier e o que eles tem feito é incrível. Mas estaremos em breve por ai e vamos estreitar mais ainda nossos laços. Não vemos a hora de voltar ao Brasil.

Se você pudesse comparar este álbum a outros do ROTTING CHRIST, com qual ele se pareceria mais?

SAKIS – Eu acredito que este álbum se assemelhe ao “Rituals”.  No entanto há elementos do “A Dead Poem” e do “Passage to Acturo”. Não há como ser algo puro e novo sem os traços marcantes do Rotting CHRIST. Sempre haverão elementos que vamos reconhecer em pontos enigmáticos e marcantes de nossa carreira. Às vezes sou indagado porque não tocamos muitas músicas dos anos 90, eu sempre respondo que estaria me repetindo e não evoluindo, mantendo certa continuidade.

Van Ace, Foto por: Luca Guiotto

Houve um cancelamento recente de um show do ROTTING CHRIST na Grécia, sua terra natal. O que houve?

SAKIS – As pessoas são muito extremistas. Hoje as pessoas sao mais extremistas e radicais do que antes. O cancelamento do show que sofremos mostra que tudo está pior. As pessoas tem medo. Temem a arte, temem a liberdade. Há um medo do estranho, prévio, de se reconhecer algo diferente ou que bata de frente com crenças e tradições e isso não é bom pra ninguém. Há um recrudescimento do ódio ao outro e as ideias sofrem, todos sofremos pela falta de liberdade e por pensarmos diferente.

Na sua mente, quando escreve um novo álbum e o grava, você faz em partes para você ou para os fãs?

SAKIS – Todos os álbuns que faço é para os fãs. Faço para servi-los com a música, com meus sentimentos. E se gostam disso, eu continuo fazendo porque me faz feliz.

O ROTTING CHRIST lançou um livro recentemente documentando sua história. Como surgiu a ideia do livro?

2019 – The Heretics “Novo Álbum”

SAKIS – Eu sempre tive uma voz na minha cabeça que dizia que eu deveria fazer isso. E ao longo de 30 anos, eu achei interessante poder registrar coisas que vivenciei ao longo de 30 anos. Assim, Dayal Patterson tornou ela possível.

A grande pergunta é: Quando estarão em terras brasileiras novamente?

SAKIS: – Estaremos final de maio (31) e início de junho no Brasil. Onde você mora aí no Brasil?

Ricky Lunardello (em resposta) – Em Natal-RN

SAKIS – Espero que possamos nos encontrar em São Paulo e que possamos curtir mais o metal e estreitarmos os laços.

O espaço é seu Sakis, muito obrigado pelo seu tempo!

SAKIS – Eu agradeço a chance de colaborar com o Portal Lucifer Rising e ter contato com vocês por essa via, com certeza vou conferir os links sobre o metal brasileiro que me mostrou e conhecer bandas novas que estão espalhando a cultura underground e o Black metal na América do sul. Nos vemos em breve.

Assista abaixo o lyric video de  The Voice Of The Universe com participação do Ashmedi (Melechesh):

Mostrar mais

Ricky Lunardello

Historiador e Sociólogo, Pagão de alma Viking, apaixonado pelo Metal Extremo e pela cultura underground.

Veja também...

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar