Resenhas - LPs/Cds/K7s

ROTTING CHRIST – Rituals

Por: Wallison Fernandes *

Em 12 de fevereiro de 2016, há 05 anos, chegava ao mundo aquele que viria a ser um dos álbuns mais grandiosos da história da música extrema: o Rotting Christ lançava “Rituals, um disco completo, com 10 músicas, repletas de conhecimento oculto, fruto da aguçada curiosidade de Sakis Tolis em torno de seu caminho pela mão esquerda, curiosidade essa que promoveu o desenvolvimento de uma concepção para além das temáticas já absorvidas pelo Black Metal mas que, sem sombra de dúvidas, não reduzia tais temáticas ou mesmo lhes legava um lugar menor. Ao contrário, lhes ampliava, como qualquer bom estudioso dos caminhos sinistros o fariam.

Rituals” foi lançado pela Season of Mist, selo francês, em 03 formatos, sendo eles MP3 (bandcamp), LP e CD. A divulgação do trabalho girou Argentina, Brasil, Colômbia, França, Japão, México, Rússia e Estados Unidos, sendo apenas a edição francesa lançada tanto em CD quanto em LP, o que pode denotar, por um lado, o momento vivido pela indústria da música e, por outro, o impacto acentuado dessa obra. Me explico: o Rotting Christ, anteriormente, havia lançado o grandioso full-lenght “Katá ton Daímona Eautoú” em 2013, já contando com uma sonoridade que se afastava de suas bases primordias (ainda que suas linhas melódicas características estejam presentes desde o clássico “Thy Mighty Contract”, de 1993) e que fomentava as bases para o que viria a ser o “novo” Rotting Christ. Para além, o intervalo de tempo de 03 anos entre “Katá ton Daímona Eautoú” e “Rituals” apresentou ao público relançamentos de antigas músicas, fosse em formato de EP (compilação de músicas de 1995), ou em formato de compilação contendo uma seleção de músicas dos últimos 25 anos da banda e, por último, um álbum ao vivo em Atenas abrangendo sua carreira até então. A evolução lírica e musical encontrada em 2013 parecia ceder lugar ao retorno às antigas formas e, nesse sentido, o lançamento de “Rituals” “pegaria” a todos de surpresa, pois trouxe uma sonoridade diferenciada, como em continuidade ao encontrado em “Katá ton Daímona Eautoú”, com climas cinematográficos, com uma atmosfera densa e muito bem elaborada. Houve tempo e criatividade ali, uma aura sinistra habilmente instaurada como meio de promover filosofias ocultas de diversos lugares, das mais diversas culturas. “Rituals” fundamentou parâmetros diferenciados na música do Rotting Christ e no Black Metal mundial ao proporcionar aos ouvintes um novo modo de construir um trabalho sólido e grandioso, porém sem se rebaixar a proposição de elos fracos que adentram ao obscuro e que se perderam com o tempo (vimos várias bandas de Black Metal que não se sustentaram, que apenas encararam o cenário musical e se esqueceram da essência primordial que deveria lhes motivar a continuarem seu caminho de guerra).

Agora, após esses pormenores, posso iniciar uma breve análise das músicas do álbum que, definitivamente, apresentam alguns dos melhores conceitos de conjunção entre história humana e seus meios sinistros, a iniciar por ‘In Nomine Dei Nostri’, música que abre magistralmente o disco e que, logo de cara, incita o ouvinte a recitar os nomes dos antigos deuses: Pan, Lilith, Naamah, Sabazios, Isthar, Amon, Iarilo, T’an-Mo. Deuses associados aos nomes infernais, à orgia e aos prazeres, ao conhecimento e a liberdade. No segundo verso, a música transmite sua síntese: “nós, que tomamos teu nome, que conhecemos a besta interior que se deleita nas delícias da carne, te invocamos! Responda aos seus nomes!”. Respondendo aos nomes de Pan, Lilith, etc, completa-se o refrão, evocando Héctor Escobar Guitiérrez em sua invocação, proferindo as palavras “In nomine dei nostri Satanás Luciferi Excelsis”. Eis o nome a que respondem todos os demais. A música, em si, é uma declaração: abre o disco já impingindo o que se seguirá: independente dos nomes que vierem, este é um álbum totalmente dedicado ao caminho sinistro, e não tem medo de se revelar como tal.

A segunda música, ‘Ze Nigmar’ (n.t.: “está acabado”), escrita em aramaico e inglês, apresenta a tentação de Jesus à cruz: aquele que veio para servir, tornou-se objeto posto à mesa de seus detratores – qual seria, então, a temática oculta em uma música como essa? A indignação, a revolta que reverbera no movimento de insubmissão. De modo bastante subjetivo e, apropriadamente belo, Sakis Tolis conseguiu transmitir o sofrimento pela perda da confiança, ao dar vida a um dos momentos de êxtase do cristianismo e que, visto sob outro ângulo, apresenta a incerteza humana ao confiar em deus e não em suas próprias vontades. “Abbah, Elah, Hosana, Rasha” – pai, deus, salvador e ladrão: aquele que me foi dado como deus e que me toma o que há de mais precioso, ou seja, a vida. Nunca antes a frase proferida por Sakis constantemente, Non Servian, serviu tanto de exemplo.

A terceira música, ‘Elthe Kyrie‘, é uma obra a parte: a atriz Danai Katsameni, do Teatro Nacional Helênico, realiza um impressionante trabalho ao interpretar a sacerdotisa do culto bacaniano que saúda a vinda do novo deus, Dionísio. Conforme a peça de Eurípedes (i.e. “As Bacantes”) a bestialidade causada pelo culto a Dionísio encerra sob a forma de frênesi feminino a vingança do deus: seus desejos e suas liberdades são expostas ao ponto máximo da realização da vontade. Sem dúvidas, a voz da atriz Danai Katsameni refle bem o sentimento passado em As Bacantes: a revolta esperançosa pelo novo deus que lhes dará a liberdade em troca da destruição de suas vidas. Há uma característica interessante a se notar na construção dessa música, que é sua carga emocional desenvolvida de modo a preencher todos os espaços da música, sem tempos e espaços vazios, o que corrobora para uma experiência intensa de sentimentos que percorrem toda a construção estética da obra.

A quarta música, ‘Apage Satana’ (n.t.: apressa-te, Satanás) é uma das obras mais interessantes do disco, por motivos diversos: a frase “apage satana” é repetida diversas vezes, enquanto a oração cristã “pai nosso” é proferida. Sakis afirmou, em dizeres proferidos a respeito do vídeo dessa música, que trata-se de uma experiência de possessão. Ao sabermos disso, torna-se fácil perceber que a música apresenta dois atores antagônicos: o primeiro, aquele que pede para que o corpo seja possuído rapidamente; o segundo, aquele que intenta não permitir com que a possessão ocorra. A criatividade de Sakis Tolis impressiona, tornando-o um dos mais sagazes artistas que a música extrema já pode ver. A inteligência na escolha dos temas é sentida em momentos como esse, de dualidades expostas, onde o lugar comum dos mitos animistas encontra um contexto musical preciso, em que a música acompanha o êxtase do movimento de “batalha espiritual”.

Em ‘Les Litanies de Satan‘, temos a já famigerada obra de Charles Baudelaire, As Flores do Mal, outras vezes reinterpretada por diversos grupos musicais. A diferença entre as diversas interpretações e esta, realizada pelo Rotting Christ, está no contexto: para um álbum cujo trabalho está centrado em desenvolver formas criativas de lidar com a temática oculta, o poema Les Litanies de Satan ganha novo contorno: com um início épico, ressoando linhas de guitarras ríspidas somadas a uma bateria rápida que decai em um clima de elevação, o poema ganha a melhor interpretação já realizada ao propor uma dimensionalidade musical que cria nuances de uma verdadeira saga. Em minha opinião, figura entre as melhores músicas do álbum. Outro ponto interessante, que ainda não fora dito nesta breve análise, incide sobre o uso da língua: já passamos, até agora, por grego, latim e aramaico, tendo o francês como língua principal dessa música, preservando o idioma original do poema.

Tou Thanathou‘, é um cover do gigantesco artista grego Nikos Xylouris, cuja temática está no confronto de um homem com a morte: a maldição que ele lança a Caronte para confrontá-lo é bastante interessante e pode ser desmembrada para outra análise, que não cabe nesse espaço mas que, certamente, possui uma das maiores declarações de guerra já vistas. A versão do Rotting Christ segue a mesma grandiosidade da música original, mas contando com coro de vozes para proferir o refrão, o qual versa “tou thanathou paraggeila, tou xarou paraggelno, anathema se xaronta, kai mia katara stelno” (n.t. “eu questionei a morte, estou questionando Caronte, e lhe mando uma maldição”). Uma música épica para um poema épico.

For a Voice Like Thunder‘ é uma adaptação do poema de William Blake e não figura entre as músicas que mais gosto no álbum. É mais integral em relação ao poema e possui uma característica menos potente que as demais músicas apresentadas. Ainda assim, é uma adaptação musical de um poema profano, de questionamento, que pode ser interpretada como uma reflexão sobre afrontar o trono de deus e seus asseclas. Apenas aqueles que alcançarem uma voz como o trovão poderão se erguer o suficiente para vencer a batalha.

Konx Om Pax’ assinala a vertente a que se propõe: uma ode aos dizeres proferidos aos iniciados nos mistérios eleusianos, indicando a extensão da luz que emana de um único raio. A letra em si apresenta a questão filosófica ritualística: não importa quem você é e nem o que você faça: sempre será um escravo do destino.

Agora chegamos à música mais interessante desse álbum, ‘Devadevam‘, uma meditação em sânscrito escrita com a ajuda de integrantes da banda Rudra, de Singapura. A ambientação da música apresenta todos os elementos típicos da sonoridade que o Rotting Christ conseguiu alcançar e que é sua marca registrada: bumbos de bateria marcados, suspensões de tempo, guitarras ríspidas e de riffs simples, balisando melodias que facilmente se fixam na mente. Aliada a isso, a métrica do mantra é hipnótica (há um vídeo de 10 horas no youtube apenas com essa música em modo repeat, funcionando, para muitos, como mote de meditação). Há muitas dúvidas sobre o significado preciso das palavras, o que é uma constante quando se trata de Rotting Christ e muito mais quando se trata de algo em sânscrito, mas ao procurar com maior cautela, desde seu lançamento, consegui a informação de que se trata de Shiva, deus hindu associado à criação e a fertilidade.

Por fim, ‘The Four Horsemen‘ trata do mito apocalíptico dos quatro cavaleiros, outro assunto já bastante trabalhado por outras bandas e que, no caso do Rotting Christ, trouxe uma roupagem mais fria e densa, com o uso de recursos auditivos interessantes, como o crescimento da música em seu refrão, mantendo, no entanto, o andamento lento, arrastado, com a voz sussurrada de forma grave.

Infelizmente, disponho apenas da versão nacional do album, formato CD, e essa versão (assim como várias outras) não apresenta um trabalho de curadoria que traga a transliteração das músicas ou informações contundentes, o que é um erro quando se trata de um lançamento do Rotting Christ, banda que habilmente passeia por meandros culturais dos mais diversos. Ainda assim, esse disco já nasceu grande: suas ambientações, sua sagacidade, sua astúcia e criatividade são gigantescas características desse que figura entre os maiores discos já lançados. “Rituals, assim como seus antecessores, foi um divisor de águas, fato corrente quando se trata de Rotting Christ: quando pensamos que a banda chegou em um patamar elevado, eles conseguem ultrapassar as fronteiras; até nisso, são transgressores. Non Servian.

* Walisson Fernandes (Paulistinha) é mestre em ciência política e guitarrista nas bandas Ateia e Vasen Käsi.

Relembrem este clássico:

 

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Giovan Dias

Editor do The Glory Of Pagan Fire Zine, trabalho iniciado ainda na década de 90, voltado ao Black, Death, Doom Metal.

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