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Ruir ou Renascer – O paradoxo de existir numa cena em franca decadência consumidora

É fato que, os artigos que costumo trazer, fazem paralelo com o passado e o presente numa frenética comparação. Muitas vezes, essa comparação, o passado sempre sai ganhando, talvez por nostalgia… quem sabe? Novamente essa comparação paradoxal e equidistante rondará esse artigo.

Aqui vem uma reflexão sobre o consumo dentro do universo Metal e por consequência, uma reflexão sobre o que é ser “underground” no passado e no presente, essa diferença é tão, tão distante? Tão paradoxal? A princípio coloco em pauta a aquisição de materiais que, de uns bons anos pra cá no início desse século, tem se demonstrado muito mais rara, em vias de perceber que a venda e a produção de CDs tem caído vertiginosamente nos últimos tempos e isso tem sido uma reclamação generalizada das bandas do underground e dos selos/gravadoras também.

Podemos apontar um turbilhão de culpados, sendo o primeiro e principal deles as plataformas digitais que, tendem a dispor de tudo que é lançado imediatamente online. Por outro lado apontamos aqui em nosso país a crescente queda do poder aquisitivo, ou seja custa caro pagar pelo material físico… será? Um CD nacional transita entre R$ 20,00 e R$ 35,00 reais, sem considerar se for uma aquisição através de envio entre uma cidade e outra pelos correios ou transportadoras, onera-se um valor agregado que pode variar de uma região para outra, mas o que se terá em mãos é um material físico com valores artísticos perenes, além da música, como a obra em si agregados.

Zygmund Bauman, Foto por: Divulgação

De outra ponta surge o dito: valores diferentes de uma geração, a tal modernidade líquida descrita por Zygmund Bauman (1925-2017) em livro de mesmo título Modernidade Líquida (Liquid Modernity. Cambridge: Polity ISBN). Traduzido por Plínio Dentzien. Jorge Zahar Editor ISBN, 2000), no qual se insere uma geração que tem inclinação potencial ao efêmero, ao instantâneo e, principalmente à imagem. É uma geração diferente daqueles que viam prazer no material físico e nas coleções, que valoriza as produções por um ponto de vista mais flexível e adaptável, onde os espaços de vida são menores e, aparentemente, mais práticos, ambientes esses que não cabem mais bibliotecas, ou discotecas, ou guarda-roupas abarrotados, gavetas atochadas, ou escaninhos repletos e sim HDs espaçosos, memórias turbo e tela de alta resolução, quiçá cartões de memória bem minúsculos e inversamente proporcionais a sua capacidade de armazenamento e nuvens de R$ 9,90 mensais.

E os antigos, onde estão? Será que fora das redes sociais? Escondidos? Buscando notícias nas revistas e zines impressos, buscando por endereços de residências publicados para contato através de missivas de duas laudas e pacotes lacrados com fita dos correios preservando aquela tape, aquele vinil ou cd do seu confrade?

A espera daquele show com as “reais” bandas do século XX, onde tocarão as músicas daquele primeiro, ou segundo álbum (porque só estes realmente prestam e fazem parte da minha história) mesmo que essa banda nunca mais tenha lançado nada, ou melhor, tenha lançado mais dez álbuns, porém nenhum “me” agradou…

Onde estão os antigos com suas camisetas surradas, que sempre disseram amar a “cena” e hoje não compram mais nada, mas julga quem anda de casa ao trabalho de camisa polo? Oi? Se antes era realmente melhor, o que aconteceu para que o antes não tenha se mantido vivo até hoje? O passado está morto? São meras provocações… talvez eu mesmo seja capaz de responder, mas estou com preguiça.

É certo que meus olhos crescem ao ver lançamentos virtuosos vindo de outros continentes, como boxes, LPs duplos, triplos, com capa envernizada ou caixas de madeira, ou capas de couro… boxes com pingentes, camisas, bandeiras, pôsteres gigantes e mais um punhado de coisas magnificas dignas de um colecionador, enquanto que no Brasil se tem medo de lançar 500 cópias de um CD com caixa acrílica porque corre o risco de ficar encalhado anos, não porque a banda seja “ruim”, mas sim porque seu público não tem interesse real em comprar, por muitos motivos descritos acima ou outros inexplicáveis.

Hoje, consigo notar, de dentro do olho do furacão, como é difícil produzir um material até que ele seja lançado, o quanto é complicado se manter firme em suas convicções quando o produto final de todo seu esforço é reduzido a opiniões esdruxulas, inconsistentes… é exposto aos gostos restritos e detalhes transcendais a ponto de “pouco ou nada” servirem… confesso que é deveras desrespeitoso alguém chamar sua banda de “lixo” pelo simples fato de não gostar. Não gostar, ok! Até aí, tudo bem! Todo direito que lhe cabe, mas seu direito acaba no momento que você desrespeita e menospreza o trabalho alheio.

E aí? Será que isso faz dos outros “9.999” potenciais consumidores do “verdadeiro underground” abrir mão da aquisição daquele material físico que a banda que “você” disse apoiar não ser consumido por 10%? se dez por cento deste número consumisse as 500 cópias do CD que acabou de sair, o selo seria obrigado a fazer a segunda prensagem porque a fila de espera seria equivalente. E no show de lançamento? Porque será que vemos festivais na Europa com mais de 10, 20 mil pessoas e aqui no Brasil é uma luta colocar 300 num espaço que cabe 2000? Sendo que na rede social sua banda tem mais de cinco mil seguidores? Isso não vale como parâmetro, pois podemos entender que existem mais dez mil fora da rede social em todo país. Em tempo, é bom também salientar que existem países europeus que em território e densidade demográfica são menores que muitos estados brasileiros.

Existe um lado, que vale ressaltar, que está atrelado aos valores dos importados, o quanto onera o valor por um produto em que a moeda é quase cinco vezes mais valiosa que a nossa, e ainda fazer as contas da importação e da taxação alfandegaria. Dá vontade de mandar todo mundo TNC, mas as vezes o prazer de ter “tal material” fala mais alto! De outro lado há uma visão cultural sobre o olhar do perfil (geral) do “headbanger”, este está situado num status em que a escolaridade é maior, por tanto em tese, este tem um poder aquisitivo idem, porém esbarramos na economia de um país falida desde sempre e agora notamos que também temos muita dificuldade em escolher governantes (outra pauta).

De certo que tudo isso incide, de maneira impactante, no consumo de certos produtos, os quais convivemos em paradoxo o tempo todo: se gostamos, queremos, mas muitas vezes não podemos… a melhor solução, por tanto, seriam os licenciamentos, mas os licenciamentos por sua vez não trazem as mesmas versões que vemos saírem lá fora e aí começa um outro círculo vicioso que tem que ver diretamente com o ego e o exibicionismo: muitos entre nós, querem mais é que nada disso caia nas mãos de “todos” e sim nas mãos de alguns… quem pode mais! Sim amigos, há uma relação de poder muito nociva em nossas fileiras, essa que nos fazem sermos excepcionais anônimos famosos na rede social, hilário, não?

Mas sim, vale dizer que o underground é segregado, existem nichos, underground do underground e isso é requisito de desavença, desunião, disputa, egocentrismos etc. etc., ou seja, tudo verdadeiramente ao contrário do que dizem! Há anos leio, escuto, vejo dizerem que lutam pelo underground, pela união, pelo apoio as bandas e no fim das contas isso tem se revertido em realidade com pouca proficiência e isso significa novos tempos? Renascimento ou ruína? A questão maior é: quando a cena será realmente forte ao ponto de termos produções PROFISSIONAIS? Pois vejo tudo muito cercado de amadorismo, tanto da luta das bandas, como dos selos, quanto da atitude do público em potencial.

No que se refere as bandas, está a forma como conduz suas “carreiras”, não podem ou não dá pra ser profissional pois, aparentemente, NUNCA GANHARÃO DINHEIRO fazendo o que fazem, precisam de emprego formal e paralelo em um ramo completamente diferente do musical para se sustentar, comprar equipamento, pagar ensaio e PAGAR GRAVAÇÃO, produção, fotografia etc. etc. No que se refere aos selos, não investirem por limitações econômicas em seu cast, por estas estarem calejadas e com estoques abarrotados de vendas não realizadas… como investir em divulgação, em eventos (leia-se: eventos dignos da magnitude do que se acredita)… como investir em lançamentos dos materiais especiais para colecionadores (boxes, capas, camisas, pingentes, pôsteres etc.) se nem CDs simples estão sendo vendidos?

A fala é pra atingir à todos, feito metralhadora giratória mesmo, atiradas a esmo e para acertar quem quer que seja, mas que aqueles que sobrevivam, sem se melindrar com as palavras ásperas, que pensem sobre o que é viver e estar na “cena” underground atolado até o pescoço sobre a lama da fofoca, das injustiças, do falso apoio e da espreita de qualquer mínimo para começar um debate de sentença e morte nas redes sociais da vida, a revelia. Seria mais prudente fazer uma auto analise e ver em que está colaborando, de fato, com essa cena que diz tanto defender, independente da geração, seja a dos antigos colecionadores de relíquias aos contemporâneos, não pós modernos, consumidores virtuais dos mp3 e das plataformas digitais, dos curtidores de fotos e admiradores de imagens onde nada mais cabe nos seus cubículos de concreto.

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Anton Naberius

Vocalista da Eternal Sacrifice (Pagan Black Metal) Professor de Arte Visual, Artista Plástico e Especialista em Arte e Patrimônio Cultural.
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