Entrevistas

THE ELYSIAN FIELDS – Um período revolucionário no que se refere às nossas emoções em relação a este mundo

"...Melancolia ou raiva, tristeza ou malícia, são os sentimentos que acendem o fogo para esta banda."

Algumas bandas e álbuns deixam um forte impacto na vida da gente, sejam por um período especifico em que fomos apresentados à mesma, seja pela força de sua música. No caso do “The Elysian Fields” a marca foi profunda em minha vida por ambos os motivos. No meio dos anos 90 eu vivia o auge daquele radicalismo romântico, a dificuldade em conseguir material em uma época pré internet me fez descobrir a correspondência e o garimpo através das trocas, as chamadas tape trades. Em uma visita à casa de um amigo que havia acabado de receber um pacote de trocas de cassete nos deparamos com uma promo da banda com apenas duas músicas , mas que foram o suficiente para causar uma das impressões mais fortes que tive até hoje.
Pouco tempo depois criei um zine com um outro amigo e uma das primeiras bandas que quis entrevistar foram esses gregos. Bill à época me respondeu dizendo ser impossível uma entrevista porque ele estava prestando o serviço militar compulsório, mas a partir desse momento sempre mantivemos contato.
Misantropos e avessos a entrevistas a banda não é muito dada ao dialogo mas agora após mais de vinte anos de insistência Bill concordou em conceder uma entrevista ainda que tenha se dado ao direito de deixar de responder a algumas perguntas formuladas. Nesse papo ele fala sobre o retorno da banda, sua visão de música e o lançamento de seu novo álbum pelo selo brasileiro Hammer Of Damnation.

Imagem promocional gentilmente cedida pela Hammer Of Damnation

A música do The Elysian Fields sempre foi carregada com uma carga emocional muito forte. Tendo isso em mente eu pergunto:
O que é mais importante na hora de compor? Técnica ou sentimento? Porque? Qual o combustível que faz mover a música do The Elysian Fields?

Bill – Desde o mais remoto principio , quase todos os nossos arranjos sempre foram guiados pelos sentimentos. Não há outro jeito . Nós não sabemos fazer de outra maneira. Melancolia ou raiva, tristeza ou malícia, são os sentimentos que acendem o fogo para esta banda.

Percebi nas músicas novas uma mudança na sonoridade. Parece que muito daquela melancolia dos álbuns antigos foi substituída por um clima apocalíptico, furioso. Concorda ou não? Comente…

Bill – Tristeza, desespero, futilidade foram convertidos em guerra, dor e ódio, já que estamos no meio de um período revolucionário no que se refere às nossas emoções em relação a este mundo. Como mencionei anteriormente, a música para The Elysian Fields é apenas conceitualizada quando somos fortemente forçados por nossa natureza a declarar uma experiência ou um desejo.

Vocês muito raramente dão entrevistas. Porque?

1995 – Adelain “Full-length”

Bill – Eu devo confessar publicamente aqui que me sinto muito desconectado do resto do mundo. Admito que não consigo encontrar muita paz, seja no dito mundo “normal” (que piada) em que todos vivemos, seja nesse outro mundo do black metal das idéias não convencionais e abordagens disruptivas.
Assim sendo, acho que na maioria dos casos não tenho interesse em interagir com outras pessoas. E como banda nunca nos interessou muito trabalhar nosso perfil e estratégia de comunicação. Palavras são tão vazias quanto nossas almas e preferimos deixar que nossa música fale por nós.

O que você pode nos adiantar sobre o novo álbum “New world Misanthropia”? Pelo que entendi o novo álbum será conceitual. Fale-nos mais sobre o tema e de onde tiraram essa peculiar e interessante abordagem bíblica?

Bill – Já faz mais de dez anos que senti uma necessidade de ampliar meus horizontes…
Eu sou fascinado e inspirado pela busca do “Santo Graal” ou o sentido da vida em outras palavras…. Então eu comprometi uma grande parte de mim mesmo desafiando minha sanidade. É incrivel oque você pode descobrir hoje em dia escrito (mas não tão bem conhecido do público em geral) incontáveis testemunhos de matemáticos, físicos e filósofos, que são vistos obviamente como hereges pela nova ordem mundial e que revelam que toda a história que nos ensinaram basicamente foi forjada desde seu nascimento.
Nós todos sempre fomos enganados pelos governantes desse domínio. Os deuses antigos e seu mestre…
“New world misanthropia” é sim na verdade um álbum conceitual. Eu cheguei a essa ideia logo após o lançamento de “We… the enlightened” em 1999, mas não consegui dar vida à ela até agora.

1998 – We… the Enlightened “Full-length”

Desde que Mike e eu nos juntamos novamente em 2013 e até o ponto em que decidimos que o conteúdo musical que estavamos compondo era empolgante o suficiente para torna-lo um álbum ainda não tínhamos uma base lírica. “NWM” é em sí o livro do apocalipse inalterado. O pensamento de examinar a história, por um outro ângulo (a perspectiva que já falei com você) e conta-la usando as palavras de “Deus” apesar de ser um tópico já usado com certa frequencia por outras bandas me entusiasmou muito.
Concluindo, liricamente falando “NWM” disserta sobre perceber as evidencias e enfatizar sobre as pragas e sofrimentos que virão (repetindo assim o passado também, uma vez que tudo isso já aconteceu antes) sobre a humanidade desde que voltaram suas costas para “Deus”. Seria tudo isso um processo de purificação de um criador misericordioso ? Os atos de um Deus vigilante ? Ou um conto de fadas para o rebanho ?
Musicalmente, o álbum tem nove músicas com cerca de 46 minutos de um Symphonic Black\Death Metal. Como você deve imaginar todas elas possuem a marca do “THE ELYSIAN FIELDS”, mas não lembra nenhum de nossos trabalhos anteriores…

The Elysian Fields em 1994, Foto por: Divulgação

Vocês deram uma pausa nas atividades após o controverso álbum “Suffering G.O.D almight”. Porque e porque retornar? O antigo membro Marinos, porém não retornou. Cogitou-se a volta dele ou não? Ele disse certa vez que tinha em suas mãos material para mais dois álbuns completos do The Elysian Fields. Algo desse material foi usado nas novas composições?

2001 – 12 Ablaze “Full-length”

Bill – “S.G.O.D.A” marcou o fim de uma era. Decidimos fazer uma pausa, pois Mike estava cheio de tudo e eu não estava gostando muito de como as coisas estavam se desenrolando, tanto com a banda quanto com o meu mundo em geral. Foi ele quem se reaproximou de mim depois de um longo período de silêncio dizendo que tinha alguns riffs nos quais talvez eu tivesse algum interesse. Quando percebemos que isso poderia se tornar uma nova empreitada do “TEF”, Marinos estava longe de nós e suas próprias prioridades tinham mudado. Sua abordagem musical também era bem diferente da nossa e portanto decidimos voltar como um duo igual nos velhos tempos.

Vocês começaram a banda há quase 25 anos atrás. Em sua opinião quais as principais mudanças em você como pessoa no principio e hoje e como isso afeta sua forma de composição ?? E há algo que permanece o mesmo. Oque seria?

2005 – Suffering G.O.D. Almighty “Full-length”

Bill – Bem, com certeza minha mentalidade mudou muito. Isso é bastante óbvio e em consequência afeta a música que faço também. Eu vejo as coisas de uma forma diferente agora. Eu envelheci, padeci de uma doença muito grave e me senti enganado pela própria realidade que se descortinava no caminho. Eu tive que passar por tudo isso e voltar para a “sanidade” percebendo que o mundo não era para mim aquilo que costumava ser antes. É estranho eu sei, pareço um velho esquisito falando…. Bom, deixa pra lá.
Sobre a parte musical, nossos arranjos se inclinam para uma insinuação sinfônica feita com pura paixão alimentada pela raiva. Esses elementos assumiram o papel fundamental na roupagem de nossa música. Além disso, processamos todas as coisas da mesma maneira que o fazíamos no passado. Capturando um riff, remodelando-o se necessário, construindo elementos em cima dele e finalmente criando um novo a partir de suas cinzas.
Às vezes divergimos sobre o processo, mas não vamos falar sobre isso. A experiência que veio ao longo do caminho depois de todos esses álbuns adiciona muito ao resultado.

Nesses 25 anos vocês nunca se apresentaram ao vivo. Porque? Isso continuará ou se surgisse uma estrutura perfeita seria possível a gente sonhar com uma performance da banda?

Bill – Nós não tínhamos o menor interesse nisso. Essa é a mais pura verdade. Ainda não há vontade de fazê-lo.

The Elysian Fields em 2019, Foto por: Divulgação

Você poderia citar os cinco melhores álbuns de todos os tempos em sua opinião e qual o último álbum que comprou ?

Bill – Top 5? Há tantos em minha lista de preferidos que eu precisaria de um top 50. Os últimos materiais que comprei (muito mais fãcil de responder) foram os últimos trabalhos do Necrophobic, Djevel, Totengefluster, Ritual Of Terror e In Chasm Deep.

2019 – New World Misanthropia “Full-length”

Vocês chegaram a anunciar que iriam terminar duas musicas compostas na época do álbum “12 Ablaze” e também gravaram um cover da banda Varathron que sairia em um tributo mexicano. Oque aconteceu com esse tributo e essas faixas? Alguma possibilidade de termos esse material disponível em um futuro?

Bill – Nós tivemos algumas conversas com uma gravadora que demonstrou interesse em ter algum material mais antigo e inédito da banda. Nós nunca chegamos a um acordo pra ser sincero. Essas duas faixas infelizmente nunca viram a luz do dia.
Nós também fizemos uma versão de “The tressrising of Nyarlathotep” para um tributo a uma das maiores bandas de meu país, o Varathron. Porém, fui informado de que esse projeto acabou sendo abandonado quando algumas bandas cancelaram sua participação nele.
Bom, quem sabe ???”Se” e “quando”… nada está fora de questão…

Algo mais a ser dito que eu não tenha perguntado? O espaço é seu irmão….

Bill – O novo álbum “New World Misanthropia” será lançado pela “Hammer Of Damnation ” supostamente em algum momento no final de 2018, porém a data ainda deve ser definida.
Para quem não está ciente do porque de tal escolha, o fato é que o Brasil tem sido para nós como um segundo lar. O apoio e acolhimento vindos daí desde os nossos primeiros anos tem sido esmagadores. Nós sempre tivemos a ideia lá no fundo de nossas mentes de fazer algum tipo de edição especial apenas para seu país como um sinal de apreço e agradecimento. Isso finalmente estará se tornando uma realidade muito em breve.
Por fim , agradeço a oportunidade de me deixar falar minha verdade irmão.

Clique ao lado e leia a resenha de New World Misanthropia por Anton Naberius: Ver Resenha

Ouça abaixo a prévia do álbum New World Misanthropia:

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Juliano Bonacini

Tecladista e letrista da LoneHunter (Death Metal), historiador e editor do Crypt of Eternity - fanzine da década de 90.

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