Entrevistas

UNBLOODED – Grindcore da Ilha do Caos

Tudo isso é terreno fértil para as atrocidades que presenciamos no dia-a-dia

O GrindCore da Ilha do Caos muito bem representado. O Unblooded das raízes do Death Metal Old School e hoje se consolida com um som destruidor e tímpanos, vide o recém e merecido primeiro CD oficial da banda, “Global Extinction”.

Conversamos com o maniac grinder Adriano Vochaos, que nos fala um pouco da banda e dos projetos …

A banda foi formada em 2014 e possui um CD Demo e um CD full lançados. Comente o início da banda e o motivo da escolha do estilo, não tão habitual na cena da Ilha do Caos!.

Adriano Vochaos – É uma longa história rsrs… Mas, indo direto ao ponto, a Unblooded mesmo nasceu quando eu e o Rafox (baterista co-fundador) resolvemos tocar em frente o que até então não passava de um projeto para mera diversão. Sobre estilo, não gostamos muito desse lance de rótulos, mas existe meio que um consenso que tudo começou com uma pagada mais Death Metal Old School (época da demo “Betrayed by Faith” – 2015), mas que atualmente a sonoridade sofre mais influências do Grindcore. É uma mistura poderosa, gostamos da energia que esses dois estilos da música extrema (que são também os preferidos dos integrantes da banda) causam. O importante, contudo, acredito eu, é que não é nada premeditado, o produto final tem a ver com algo que realmente gostamos de fazer, reflete nosso sentimento e percepção sobre a música extrema.

Betrayed by Faith, Demo 2015

“Betrayed by Faith”, primeiro CD demo de vocês, lançado em 2015, foi muito bem divulgado na cena…, lançado oficialmente via Profanorum Distro, com um formato de encarte bem interessante, uma folha A4 dobrada (para formar um envelope de cd). Só achei a arte gráfica um pouco escura, foi proposital ou um erro na impressão? E, este pro cdr, ele foi limitado somente a 100 cópias?

Adriano Vochaos – Na verdade, estiveram conosco nesse lançamento, além do Profanorum, os selos Calango Canibal, Metal Island e Satanic Sounds Records. Quero até aproveitar a oportunidade para agradecê-los por todo o apoio, foram fundamentais para que acontecesse. Então, no início eu estranhei quando pintou a ideia do formato de envelopamento do cd, que era mais econômico que a capa tradicional de acrílico, mas depois de tudo pronto e de todo o trabalho que deu pra acertar (rsrsrsrs), confesso que ficou bem bacana mesmo. Quanto à escuridão da arte gráfica, foi proposital. A capa foi idealizada e a arte executada por nós mesmos, ao fundo a Catedral de Notre-Dame pegando fogo (quatro anos depois o incêndio aconteceu na vida real!!!), envolta em uma fumaça negra e sombras de pessoas se suicidando. A ideia da capa, que tem a ver com o título da demo, é que a fé em deus é uma grande mentira que não resolve os problemas das pessoas.

Das músicas da demo, há alguma com influência em atrocidades da Ilha do Caos? Quais são as influencias literárias, assim digamos, para a banda?

Adriano Vochaos – Assim como foi falado sobre a parte instrumental, as nossas letras também abordam assuntos diversos (desde a demo), não nos bitolamos, por assim dizer, a um determinado “objeto de estudo”. Falamos sobre o que sentimos vontade, sobre o apriosionamento do ser humano pelas amarras morais, religiosas, políticas e sociais que lhe são impostas ao longo da vida. Tudo isso é terreno fértil para as atrocidades que presenciamos no dia-a-dia, e, portanto, merece ser lembrado nas letras. Aliás, um dos grandes trunfos da arte em geral, e, particularmente, da música extrema, consiste exatamente em poder falar, de forma aberta e sincera, sobre todos os problemas que afligem diariamente as pessoas. Paradoxalmente uma minoria dentro do meio underground apoia demandas ideológicas que vão contra o inconformismo libertário inerente à cultura do submundo. Inacreditável!

Alexandre é um viciado em criar músicas, ele atua em diversos projetos, aliás, esse perturbado cria riffs insanos desde o tempo da Cranium Crushing, passando pelo Sociopathic Urge (projeto insano, pena ter acabado) e até o Heavy Drinkers. Aproveitando o ensejo, como são criadas as melodias (hehe) das músicas? E, durante um tempo o Adriano era bass e vocal, atualmente e só vocal (a idade chegou, kkkk), com a chegada do Willian Vieira isso aliviou um pouco o esforço?

Adriano Vochaos – Cara, Alex é um animal, um “workaholic”, tá o tempo todo compondo, gosta de ensaiar, de tocar, enfim, é o tipo de cara que toda banda quer ter, além de ótimo músico. Tanto que, atualmente, divide as suas atenções entre a Unblooded, a Deep Hatred e a Cranium Crushing. Quanto às composições, essa tarefa tem ficado mais a cargo do Alex mesmo. Eu compus algumas quando ainda tava no contrabaixo. No CD recém-lançado, “Global Extinction”, há composições de ambos. Sobre deixar o bass e ficar apenas no vocal, foi uma decisão até fácil (claro que a idade pesou rsrsr), mas, particularmente, eu não tava mais muito a fim de acumular as duas funções e a chegada do William, que conhecemos num show da outra banda dele, a Torturizer, caiu como uma luva, acertamos em cheio.

Sim, o mais novo na banda é o Lucas, que também é da banda Moedor não é isso? Como estão sendo os ensaios com ele, visto que no CD o batera é outro, aliás, houve 2 bateras antes do Lucas assumir as baquetas.

Adriano Vochaos – Sim, o primeiro foi o Rafox, que, como já mencionei, foi um dos fundadores da banda. Foi quem gravou a demo “Betrayed by Faith” e o CD “Global Extinction”. Quando ele decidiu sair da banda, convidamos o Beethoven para assumir as baquetas, que, salvo engano, chegou a fazer duas apresentações conosco, em eventos ao lado de bandas expressivas (Ratos de Porão e Necrobiotic). Com a posterior saída dele, e já conhecendo o trabalho do Lucas em alguns vídeos da Moedor Grind, resolvemos convidá-lo. Então, o Lucas, além de caçula na idade, é também o caçula de tempo de banda. Trata-se, contudo, de um exímio baterista. Toca grind e death metal com extrema desenvoltura. Pegou rapidamente as músicas. No segundo ensaio já tava tocando tudo.

Alem das constantes alterações na formação da banda, o logo também sofreu algumas repaginadas, por qual motivo?

Adriano Vochaos – Então, penso que essa repaginação do logotipo, bem discreta, por sinal, tem a ver com esse processo de amadurecimento e identidade musical. À medida que nossas composições foram sofrendo uma influência cada vez maior do grindcore, optamos por estender esse processo ao logotipo. E, na moral, achamos que ficou bem mais simples e consentâneo com o que a banda representa.

Global Extinction, CD 2019

O fuderoso e recém lançado CD oficial, “Global Extinction” demorou cerca de 1 ano para ir pra prensa, por quais motivos, e, até chegar ao resultado final, como foi o processo de reconstrução do CD?

Adriano Vochaos – Também gostamos muito do resultado final e as pessoas que adquiriram nosso material falaram coisas boas, que nos agradaram bastante. Críticas – desde que construtivas – também são sempre bem-vindas, é bom para o crescimento musical e aperfeiçoamento do trabalho. Na verdade, esse CD durou quase uma gestação de elefante rsrsrs. O motivo da demora foi o de sempre, cara: grana! Gravar, mixar e masterizar um material de qualidade não é barato. Teve também um pequeno atraso no processo de mixagem e masterização (agradecer aqui ao Felipe, do Studio Base Slz, que fez um trabalho impecável). O Brasil infelizmente não vivia (nem vive) um momento econômico favorável,  o que também contribuiu para que o material, já pronto, demorasse a ir para a prensa. Enquanto isso, continuamos trabalhando incessantemente em novas composições e já temos um sólido arsenal sonoro para um próximo CD. Não demora muito e já teremos novidades por aí.

Bom, já citado acima, a banda tem músicos vindos de outras bandas (de diversos estilos), dessa união surgiu também o “Deep Hatred”, os ensaios são sempre no mesmo estúdio, isso atrapalha ou auxilia?

Adriano Vochaos – Sim, geralmente ensaiamos no mesmo estúdio, mas não lembro de as duas bandas terem ensaiado em sequência. Mas a Débora (que é vocal da Deep e namora o Lucas) frequenta bastante nossos ensaios, então é comum rolar alguns sons da Deep enquanto eu descanso rsrsr. Ela conhece todas as nossas músicas, executamos, inclusive, um “dueto” em Carniceiro, que rolou quando eles abriram para o Funeratus-SP na Fanzine. Foi ducaralho!

Fundo de caixa CD Global Extinction

“Demente a Deus”, que musica fuderosa, esmaga tímpanos (literalmente), creio que somente esta música foi regravada de demo? Vocês optaram por não colocar a demo de bônus ou regravar no CD, não acham que seria interessante?

Adriano Vochaos – É que a banda já vivia uma fase nova, com novos integrantes e um outro entendimento musical. Essa música, que por sinal eu ajudei a compor, é a que mais representa essa transição sonora, pela pegada mais grind que ela possui, e quando a gente foi gravar o Global Extinction a banda unanimemente decidiu regravar esse som e coloca-lo no CD. O resultado foi bastante satisfatório. Quanto às outras músicas da demo, tem uma, pelo menos, que pretendemos regravar em breve (Mansion of Death). As demais só num eventual registro ao vivo, se um dia acontecer.

Formação Gravou o CD Global Extinction, Foto por Divulgação

O CD Global Extinction foi lançado via “Metal Island Recs/Distro” em parceria com “Anaites Recs/Distro”, como se deu essa negociata, e o resultado final foi satisfatório?

Adriano Vochaos – Muito. O Nilberto já tinha manifestado interesse em nos apoiar novamente nesse novo material logo que soube da intenção da banda de lançar um segundo material. E ele contactou o ZArtan para que a Anaites entrasse na jogada. Foi bom porque são dois amigos nossos, estão nessa luta pelo underground há bastante tempo e é muito gratificante tê-los como parceiros nessa empreitada. Nosso total respeito!

Os shows da Unblooded são sempre viscerais e com contam com um público insano por música underground extrema. O que tens a dizer sobre a cena Ludovicense? Quais bandas você indicaria a conhecermos?

Adriano Vochaos – A apresentação ao vivo é o ápice, é quando realmente valem a pena todas as horas de ensaio e a grana investida, todo o tempo dedicado à banda. Banda que é banda tem que tocar ao vivo. E se nossas apresentações são viscerais é porque quando subimos no palco procuramos dar o nosso melhor, tocamos como se fosse nosso último show, como se o mundo fosse acabar. No palco não tem meio termo. É tudo na intensidade máxima. E o público, quando percebe essa dedicação da banda, responde à altura. Nunca faltou roda em nosso show, gente batendo cabeça, toda essa insanidade a que você se referiu. E isso é o mais gratificante. Sobre a segunda parte da pergunta, a cena ludovicense tem dado mostras ultimamente de que quer se reerguer. Tenho visto várias bandas novas surgindo, produtores voltando a realizar eventos, e isso é fundamental para a música underground, que não anda exposta em vitrines e tem um método próprio e diferenciado de consumo. Sobre bandas novas, que ainda não tem registro gravado, mas que têm feito um excelente trabalho, eu posso citar a Moedor Grind e a Deep Hatred. São duas sonoridades distintas, mas poderosas e que me agradam bastante.

Creio ser tudo por esta, valeuz ai! Espaço para algo mais que desejem relatar. Continuem o massacre, hehe!

Adriano Vochaos – Não posso terminar essa entrevista sem agradecê-los pelo espaço e a oportunidade de falar um pouco sobre a banda, especialmente ao Luiz Lozano, grande cara que tive a honra de conhecer pessoalmente há pouco tempo. É isso aí, a Unblooded está pronta pra quebrar tudo. Nossas saudações a todos. Vida longa ao underground e música extrema! Atitude e honra, sempre!

Contatos: ADRIANO/VOCALISTA

e-mail: unblooded10000@gmail.com

Whatsapp: (98) 98871-2339

Páginas da banda:

Instagram @unbloodedband

facebook.com/adriano.unblooded

https://https://www.youtube.com/channel/UCFkJNshpOATqPmTs0-GDLaA?view_as=subscriber

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Hioderman ZArtan

Editou os zines "Anaites" e o "Guerreiros Zineiros". Designer gráfico Underground e mentor do Anaites Records.

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