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USURPER – Retornando para conquistar o mundo.

Décadas atrás, em uma das inúmeras trocas de tapes que eu fazia, peguei de meu amigo Sancler, editor do fanzine “Paganus Prophetatio” uma tape de uma banda chamada USURPER. Não tinha nome das faixas, não dizia de onde era e não falava se era um álbum, um EP ou uma demo. Mas a música em sí falava muito mais alto que tudo e me apaixonei pela sonoridade da banda logo de imediato com seu Thrash Metal extremo que em alguns momentos chegava a flertar com o Death Metal, algo muito comum à época em outras bandas tais como DARK ANGEL, MERCILESS, SADUS, etc.Um tempo depois já conhecendo mais material dos caras, fiquei sabendo que aquela era a segunda demo da banda. Anos mais tarde, já na era das redes sociais e com a banda aparentemente adormecida, fazendo algumas pesquisas consegui entrar em contato com Patrick Harreman mentor dessa entidade musical que não apenas me contou sobre o renascimento vindouro da mesma como me mostrou algumas demos de músicas que fariam parte de seu segundo álbum . E o material lançado no grande “Evilution” me surpreendeu muito pelo extremismo ,em todos os sentidos, do mesmo. Minhas opiniões detalhadas sobre esse álbum podem ser lidas nessa resenha aqui. Com um álbum tão grandioso e surpreendente desses sendo lançado nós da LUCIFER RISING não poderíamos perder a oportunidade de bater um papo com Patrick que esmiuçou para nós as idéias que cercam e permeiam “Evilution”

 

  • Lucifer Rising: USURPER está retornando após trinta anos do lançamento de seu primeiro álbum. Porque parar em um momento em que tudo indicava que vocês conquistariam o mundo? Porque voltar após todo esse tempo? E como é a sensação de estar de volta após tanto tempo e com um material tão forte como é o caso de “Evilution” ?

Patrick: Bom, Lá atrás nós resolvemos parar porque não estava sendo divertido mais. Nós tínhamos um álbum, grandes shows, mas alguns integrantes da banda não podiam continuar. Isso criou um clima muito ruim, eu me sentia como uma babá e já estava adoecendo com o constante estado de drama, então eu puxei a tomada. Porém em todos esses anos em que estivemos ausentes ainda houve muito interesse das pessoas na banda. A Marquee Records do Brasil fez um belo relançamento de nosso primeiro álbum, então Boudewijn e eu começamos a ter algumas conversas; fizemos alguns shows de reunião que foram muito divertidos. Então começamos a discutir sobre um novo álbum. Sabiamos que teríamos que fazer algo bom pois você não pode simplesmente sumir por trinta anos e voltar com algo ruim, então nós levamos algum tempo até encontrar o som correto e boas músicas. Ver as reações positivas agora é bom demais. As pessoas realmente parecem compreender o que estamos tentando fazer, ainda é algo old school, porém ao mesmo tempo tentamos fazer algo novo.

  • Foto: Divulgação

    LR: Pensando nesse hiato de trinta anos. Em sua opinião quais foram as maiores mudanças no processo de criação de um álbum? As novas tecnologias, que tornam toda a informação instantânea e une o mundo pelas redes sociais, ajudam realmente no processo de divulgação ou toda essa quantidade de informação diária pode atrapalhar?

P: O processo de gravação nos dias de hoje é ótimo, eu tenho um estúdio em casa que é meu laboratório sonora, Antigamente eu tinha idéias loucas em minha cabeça mas algumas vezes era impossível explica-las a outros músicos. Hoje posso criar uma demo em casa e mostrar para os outros, o que é muito mais fácil.

As redes sociais… por um lado elas são ok, mas eu também consigo ver um ladonegro nelas. Nós temos informação demais, na verdade desinformação e isso está mudando a percepção e a realidade das coisas e você já não sabe no que acreditar mais. Como banda nós somos da velha guarda… não somos muito ativos nas redes sociais. Temos uma página no Facebook e recentemente criamos uma conta no Instagram, mas essas coisas giram todas em torno de curtidas e seguidores e isso é loucura porque pode ser comprado. Nós ainda somos aquele tipo de banda do boca a boca e isso talvez seja meio ruim nos dias de hoje, eu não sei. Ainda tenho esperanças de que boa música encontre seu caminho até aqueles que queiram ouvi-la e tudo não se resuma apenas em quantos amigos no Facebook você tem.

  • LR: “Evilution” consegue manter um raro equilíbrio ao trazer novas e inesperadas influencias porém sem causar uma ruptura com o passado. Isso de certa forma enriqueceu muito a música da banda sem necessariamente descaracterizar sua sonoridade. Você acha que os fãs mais antigos vão entender essa evolução? Como estão sendo as reações ao álbum?

P: Até o momento parece que as pessoas estão entendendo a idéia do que tentamos fazer .As resenhas estão sendo incríveis e todo mundo realmente parecem estar ouvindo e isso é muito muito legal . Por anos eu ouvi pessoas reclamando que o Thrash Metal estava preso no passado, bem… ouçam nosso novo álbum … Nós entendemos que somos uma banda old school e que não poderíamos fazer um novo álbum com tudo diferente, então fizemos um monte de pesquisas e experimentos com os sons que tivessem um pouco de ambos. Levou um bom tempo até encontrarmos uma sonoridade que funcionasse. É um álbum que cresce em você.

Olha….seria fácil demais fazer um álbum simples de Thrash Metal; seria fácil demais pegar tudo dos anos oitenta e colocar um pouquinho do que é popular nos dias de hoje e fazer uma gravação. Mas nós queríamos dar aos headbangers algo especial. “Evilution” não é um álbum preguiçoso de Metal; ele possui várias camadas e tem a agressividade que você espera de um álbum Thrash, mas também uma profundidade que você nunca ouviu em uma gravação do estilo.

  • LR: De certa forma, música é algo muito subjetivo e muitas vezes as idéias do criador são captadas de formas diferentes pelos ouvintes. Pessoalmente pra mim a faixa “Cold Lake” tem momentos que flertam com o Doom Atmosférico e “On The Edge Of a Dream” beira ao progressive . Estou enganado ? No geral, a música de vocês atualmente soa muito mais atmosférica. O que vocês estão ouvindo atualmente e de onde vieram as influências que os levaram a experimentar esses novos elementos?
Foto:Divulgação

P: “Cold Lake” começou como uma pequena brincadeira… Quando você pega quase todo álbum de Thrash Metal já feito, eles sempre dão uma errada na “balada”. Por algum motivo todas as bandas tem esse problema quando estão fazendo algo mais emocional ou mais melódico em suas gravações. Sério, me diga cinco baladas Thrash Metal que realmente funcionam… Na maior parte dos casos elas são um saco, então porque não fazer uma música diferente mas imersa em trevas absoluta. “Cold Lake” é nossa “balada” hahaha.

“On The Edge Of a Dream” por outro lado surgiu de meus experimentos sonoros; eu não esperava que meus companheiros de banda iriam gostar de algo assim, mas eles o fizeram e é uma de suas faixas favoritas. Isso é o legal na banda agora, eles estão abertos a idéias loucas e se ainda conseguimos manter a vibe de Thrash da antigas com isso penso que, com certeza, temos algo especial em mãos.

  • LR: “Evilution”além da arte de capa fantástica, tem alguns títulos de músicas como “Midlife Christ”, “Kill Em Allah” e a própria “Evilution” que eu achei geniais e gostaria que você falasse um pouco mais a respeito e do que as letras das mesmas tratam.

P: Bem, tudo gira em torno do comportamento humano, eu não estou interessado em letras do tipo “dragões-demônios-religião” , porque tudo isso é sobre a humanidade. Os seres humanos são os demônios e deuses em um só, eles criaram esses conceitos como uma desculpa para suas más e boas ações. Observe o mundo nesse momento, são todos contra todos. Você é definido por sua cor… ou somos criados por uma elite que quer que nos degladiemos entre nós… A humanidade nunca aprendeu nada de sua história passada, nunca. Por isso o álbum se chama “Evilution”; nós podemos criar as coisas mais belas sobre a Terra, algo que tornaria todas as pessoas felizes, mas mesmo assim sempre haverá pessoas que irão odiar. Isso remonta ao império romano, sempre há pessoas que querem destruir o que você construiu. Infelizmente vemos isso diariamente e o mais triste de tudo é que são decisões de nossos líderes e governantes  que nos fazem querer que nos matemos uns aos outros, são eles que nos dividem e nós ainda somos estúpidos o bastante para acreditar nessas pessoas. É um circulo vicioso que começou há milhares de anos.

  • LR: Patrick, você deixou a guitarra e se concentra agora no baixo e vocais e a banda estã com três guitarristas atualmente. Como se deu essa mudança?

P: (Risos) Eu ainda toco guitarra, mas agora tenho melhores guitarristas em minha banda e é isso. Se alguém toca algo melhor do que eu então eu abro o espaço. Tudo tem a ver com o resultado final.

  • LR: Anos atrás vocês chegaram a tocar ao vivo a faixa “Crime to Satisfy” que foi composta para aquele que seria o sucessor de seu primeiro álbum . Você inclusive me mostrou uma versão demo dessa música que é maravilhosa mas não foi usada em “Evilution”. Porque vocês optaram por deixar esse material fora do álbum? Havia mais alguma faixa composta antes da banda dar essa pausa? Há alguma possibilidade desse material ser lançado algum dia ?

P: Quando eu vi algumas filmagens antigas e ouvi a “Crime to Satisfy” após trinta anos eu realmente pensei “Eu escrevi isso?”; eu acho ela uma faixa fantástica, mas por algum motivo ela não funcionou no novo álbum como um todo. Você tem que entender que eu escrevo muita música, eu literalmente tenho um arquivo com centenas de músicas e idéias, então nós não estamos presos ao que fizemos no passado; eu sou um vulcão de criatividade (risos), então tudo tem a ver com escolhas. É legal ver os fãs reagirem de forma positiva a um material mais experimental porque nós temos algumas surpresas para o futuro hahaha.

  • LR: Falando em material antigo vocês tem ótimas faixas que só foram gravadas em versões demo nas demos “Chants of Traducement” e “Praising Death” quando a banda ainda se chamava SEPULCHRAL DEATH e que certamente soariam matadoras se gravadas com uma melhor produção nos dias de hoje. Isso pode vir a acontecer no futuro?

P: A grande questão é se você consegue a mesma atmosfera quando faz uma gravação, você tem que compreender que nós não eramos músicos muito bons na época. Quando eu ouço essas gravações eu entendo oque estávamos tentando fazer, mas nós não tínhamos a musicalidade que temos agora, então isso poderia ser bom ou ruim. Eu consigo entender que se alguém ama essas demos antigas provavelmente não gostaria de uma versão moderna que iria soar maravilhosa. Eu mesmo sou um fã e não iria gostar se Tom Warrior regravasse o “Morbid Tales” pois não seria o mesmo. Como banda você pode achar que é muito melhor, mas você não pode recrear a atmosfera e para mim essa atmosfera é algo grande.

  • LR: Sei que a atual pandemia atrapalhou os planos de tocar ao vivo de todas as bandas mas, há planos nesse sentido para quando as coisas normalizarem ? Você acha que conseguirão reproduzir ao vivo toda a atmosfera presente em “Evilution”

P: Eu quero ser um “músico honesto”, nós provavelmente iremos trabalhar com algumas faixas de apoio pré-gravadas. E quando digo honesto falo porque existem taaaantas bandas que fazem isso. Eu poderia fazer uma lista de bandas que não conseguem reproduzir todos os elementos de sua música ao vivo. Na próxima semana teremos uma reunião a respeito disso. Devido à pandemia tudo desacelerou, nem ensaiar podemos. Nós provavelmente iremos atrás de um baterista primeiro; nós precisamos de um baterista ao vivo. Por outro lado essa pandemia nos deu tempo para pensar sobre tudo isso e nós aproveitaremos esse tempo. Mas os efeitos atmosféricos provavelmente serão feitos por faixas de apoio e todo o resto ao vivo.

  • LR: Falando um pouco sobre a cena holandesa. Como andam as coisas por ai? Há algumas boas bandas que você tenha ouvido ultimamente e que possa estar indicando a nossos leitores?

P: Eu passo a maior parte dos meus dias e noites em meu estúdio criando musicas novas, talvez por isso nosso álbum seja diferente, eu não tenho muitas influências externas. De vez em quando eu gasto um tempo checando novos lançamentos, mas para mim a maior parte dos álbuns soa exatamente iguais. Muitos álbuns você ouve os primeiros três minutos e já sabe exatamente como todo ele soará . Eu não posso lhe indicar uma banda holandesa que realmente me encantou e isso é triste, todas parecem estar escondidas em algum canto, ou talvez seja apenas a minha idade (risos), eu vou fazer cinquenta no próximo ano e isso é um pouco diferente dos dezoito que eu tinha quando fizemos o primeiro álbum. Mas eu ainda amo álbuns e bandas que fazem minha cabeça explodir; eu realmente adoro o “Where Owls Know My Name” do RIVERS OF NIHIL, uma bela obra prima do Metal, tão criativo, musica inteligente, produção inteligente…. mas não é holandês.

  • LR: E do Brasil. Você conhece alguma coisa ?
Foto:Divulgação

P: Eu ainda me lembro dos velhos tempos quando enviamos cartas para pegar a demo do SEPULTURA, que aliás nunca chegaram graças ao belo trabalho dos correios brasileiros (risos), tempos depois eu contei isso ao Max quando eles estavam em turnê com o SODOM. Tudo que sei é que eu adoraria fazer uma turnê no Brasil-América do Sul, porque vocês aparentam ser muito calorosos quando o assunto é musica; eu tenho um monte de amigos músicos  que me contam as mais incríveis histórias de turnês em seu país. Torçamos para que o novo álbum nos impulsione a algo assim. Eu mesmo sou uma pessoa calorosa e provavelmente me sentiria em casa hahaha.

  • LR: Patrick, muito obrigado pela entrevista, espero que o mundo se renda a “Evolution” da mesma forma que eu. O espaço é todo seu ….

B: Muito obrigado pela entrevista cara. Ótimas perguntas e mais uma vez vocês parecem ser muito apaixonados quando o assunto é Metal. Acredito que nós tenhamos feito um álbum com paixão, dêem a ele uma chance. É um álbum cheio de surpresas sonoras. Esperamos que ele possa criar uma flagelação e que possamos ir à América do Sul, nós o fizemos como coração e esperamos que vocês possam sentir isso.

Confiram abaixo duas faixas do novo álbum “EVILUTION”

 

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Juliano Bonacini

Tecladista e letrista da LoneHunter (Death Metal), historiador e editor do Crypt of Eternity - fanzine da década de 90.

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