Entrevistas

VALHALLA – death metal sem meias palavras

...Muito trabalho, persistência e paixão pelo Death Metal

O VALHALLA é aquele tipo de banda que você tem obrigação de apoiar tamanha a dedicação e trabalho duro que a banda realiza. Formada ainda nos anos 80, a bandas está na ativa até hoje fazendo um death metal absolutamente poderoso e chutando bundas por onde passa.  A guitarrista Adriana teve um longa e proveitosa conversa com a LUCIFER RISING e fizemos um grande apanhado de toda a sua carreira. Enjoy !

 

Olá Adriana, muito obrigado por aceitar conversar conosco e trazer um pouco do VALHALLA para os leitores da LUCIFER RISING. Bom, agora em 2019 a banda chega ao seu 29º. ano em atividade. Naquele longínquo 1990 a banda poderia imaginar estar a quase três décadas tocando o velho e bom death metal?

Adriana (guitarra) – Valhalla

Adriana: Olá Fabio Brayner! Obrigada pelo convite. É sempre bom poder contar um pouco mais da história da banda. No início éramos bem jovens e tínhamos o sonho de viver para a banda. De lá para cá, muitas coisas aconteceram durante esse tempo. A Valhalla passou por muitas mudanças em sua formação, momentos bons, outros nem tanto, mas com muita dedicação e vontade sempre atingimos os nossos objetivos. Eu particularmente, em nenhum momento pensei em acabar com a banda, pelo contrário, sempre agarrei a Valhalla com unhas e dentes e segurei firme, seguindo em frente. Como a música sempre ocupou grande parte da minha vida. Eu tenho muito orgulho de chegar até aqui, porque sei que é resultado de muito trabalho, persistência e paixão pelo Death Metal.

Andrea – ex-vocal – Valhalla

Em um determinando momento do VALHALLA, você, a Andrea e a Alessandra tocaram juntas na banda. Como foi que vocês três entraram no metal? É algo muito raro três pessoas da mesma família seguirem uma mesma ideia musical e ainda mais no metal, estilo tão agressivo para a época.

Adriana: A Andrea, como a irmã mais velha, foi a precursora do nosso gosto musical. Black Sabbath, Janis Joplin, Pink Floyd, Led Zeppelin, essa pegada mais rock’n’Roll era basicamente o que tocava lá em casa. Não houve um momento exato para que isso acontecesse, eu fui seguindo a Andrea e posteriormente a Alessandra também. Assim fomos conhecendo pessoas, bandas novas, e a música foi ficando cada vez mais pesada. Com o tempo trilhamos para o lado mais brutal da música e assim surgiu a vontade de montar uma banda de Death Metal.

Você entrou na banda apenas em 1992, certo ? Por qual razão você não entrou desde o início ? Eu lembro que você tocou no Flammea. Seria essa a razão ? Já estar em uma banda ? Quando você começou a se interessa pela guitarra ? Você lembra dos semos seus primeiros equipamentos ?

Ariadne (bateria) – Valhalla

Adriana: A vontade de tocar instrumento de corda veio quando eu tinha 14 anos. Minha mãe tinha um violão parado em casa que ela havia ganho do pai dela, mas nunca teve oportunidade de aprender a tocar.  Eu comprava aquelas velhas revistinhas de músicas pra tocar no violão e fui a partir daquele momento tirando os meus primeiros acordes, sozinha. Bem, a vontade de ter uma banda com um som mais brutal, surgiu por volta de 1.987, quando Andrea e eu conhecemos a Renata (hoje baterista do Human Atrocity) e assim surgiu uma amizade e ideias em comum. Eu já estava começando a tocar guitarra. Decidimos montar uma banda, mesmo tocando com instrumentos emprestados, ensaios na casa de amigos, enfim. Tudo muito precário, mas como a vontade era grande, nem ligávamos para isso! Esse foi o início de tudo!! Adquirí minha 1ª guitarra posteriormente, era uma Dolphin King. Em 1988, conhecí as meninas da Flammea e acabei indo tocar com elas. Fiquei até o início de 1991. Voltei pra Valhalla no final de 1991 e gravamos a demo tape Valhalla em 1992.

Em termos de death metal, quais seriam as bandas que mais influenciaram vocês na decisão de tocar death metal e posteriormente se tornaram também influências para a própria banda ?

Adriana: No início de tudo a nossa maior inspiração para montar uma banda foi o Slayer. Lembro que eu, Andrea e Renata ficávamos ouvindo o LP “Show no Mercy” e sonhando em fazer shows, gravar, enfim. Cada uma de nós tem um gosto musical variado. Como as músicas são criadas basicamente a partir da guitarra, eu destacaria algumas influências como Death, Morbid Angel, Incantation, Dismember, Monstrosity, dentre outras.

Valhalla ao vivo – Foto por Rodrigo Eira.

Bom, que memórias você tem desses primeiros anos do VALHALLA ? Metal no Brasil ainda sofria muito preconceito e uma banda com mulheres, tocando um dos estilos mais brutais deve ter sido um grande choque para todos, não?

Adriana: Pode até parecer difícil de acreditar, mas no início praticamente não sofremos nenhum tipo de preconceito, pelo contrário, a banda era vista como algo diferente e despertava bastante a curiosidade das pessoas, principalmente por fazer um som mais brutal. E com isso recebíamos bastante apoio dos amigos e de outras bandas.

Como era essa cena de Brasília em que vocês se inseriram ? Que bandas vocês mais apreciavam na cena local ? É possível fazer uma comparação em qualquer nível com a cena que hoje existe na cidade ?

Adriana: O número de bandas de metal era até grande na época. Diante de todas essas dificuldades, fazíamos de tudo para estar tocando, o público era fiel e fazia questão de comparecer em todos os eventos. Como todo mundo estava no mesmo barco, passando pelas mesmas dificuldades, as bandas que tinham mais afinidades entre sí, se apoiavam emprestando instrumentos. Havia uma colaboração na divulgação de shows e organização dos mesmos. Posso destacar algumas bandas da época, como Abomination, Restless, Torino, Deja-vu, Asgard, Flammea, Volkana, Crematório,PUS, Fallen Angel…Eu diria que as bandas eram muito mais unidas, as divergências era poucas, até porque ninguém se preocupava tanto em “fiscalizar” a vida do outro, se achando o dono da razão. Na verdade, sempre houve e sempre haverá um pouco desta dita “separação” na cena, seja ela por divergências de pensamentos, atitudes e estilo de som. Em termos de afinidades musicais, respeito e amizade, que perduram até hoje, eu destacaria as bandas também quase trintonas Embalmed Souls e Nauseous Surgery pois praticamente viemos caminhando juntos nessa empreitada, desde o início.

Mesmo tendo sido formada em 1990, somente em 1992 a banda gravou a primeira demo tape. Coincidentemente 1992 também é o ano da sua entrada no VALHALLA. A demo já estava pronta ou você se envolveu nesse processo também? Como foi a aceitação do público em relação ao som de vocês?

Adriana: Eu voltei para a Valhalla ainda no final de 1991 e tive participação no processo de composição e gravação da demo tape de 1992. Com essa demo conseguimos evidenciar um pouco mais o trabalho da banda em termos de divulgação e tivemos uma boa aceitação do público.

LP “…In the Darkness of Limb” (1994)

Em 1994 sai o primeiro álbum da banda, o “…In the Darkness of Limb”, que saiu pelo selo Sub Way Rock. Era um selo de Brasília? Como vocês chegaram a esse contrato e posterior lançamento?

Adriana: Nos anos de 92 a 95 o movimento underground se intensificou no Conic com a chegada das lojas Subway Rock e a Head Collection, tendo como proprietários respectivamente, Eduardo e Geraldo, que davam uma força aos produtores de shows, bandas e eventos na época. Posteriormente a Subway virou também um selo, que deu oportunidade para a Valhalla e outras bandas da cidade. Esse contrato foi possível exatamente pela boa repercussão da demo-tape de 92.

A produção do “…In the Darkness of Limb” e muito boa para o ano que foi gravado. Quem fez a produção desse material ? O vocal da Andrea aqui ficou muito foda, realmente captou de forma incrível o vocal dela.

Adriana: Gravamos no Zen Studio, e levando em conta que o mesmo foi gravado e mixado em torno de 20, 24 horas, com certeza ficou realmente muito bom pra época e nos deixou bem satisfeitas também. A produção foi feita pela Alessandra e Marcelo Linhos, do Restless. A gravação do LP foi uma realização pessoal nossa e por isso, cada uma de nós se empenhou ao máximo.

DVD “Território Metálico” (2016)

Eu vi na parte da entrevista que vocês dão no DVD “Território Metálico” que o primeiro álbum pode ser encontrado por uma fortuna em sites gringos. Não existe nenhum plano de relançar esse material, até como forma de apresentar ao público mais novo o que esse material representou naquela época?

Adriana: Com certeza já pensamos nisso sim. Muitas pessoas nos procuram em busca do LP, tanto aqueles que nunca tiveram acesso a este registro, como antigos admiradores do trabalho da Valhalla, já que não há mais cópias disponíveis no mercado. Eu mesma, não tenho nenhuma cópia do vinil!! Com certeza já pensamos em relançar esse material, quem sabe futuramente a gente consiga concretizar essa ideia.

Depois do lançamento a banda some e só reaparece com um novo lançamento em 2001, que foi a demo tape “for the might of chaos…for the force inside” e trazendo uma nova formação, sem a sua irmã, Andrea nos vocais. O que causou tanto tempo entre um material e outro?

DT “For the Might of Chaos…”

Adriana: O maior problema enfrentado pela banda, foram as constantes mudanças na formação. A nossa busca sempre foi por pessoas que se “encaixassem” na Valhalla e isso nem sempre foi fácil, principalmente em relação a encontrar um baterista. Muitas vezes quando achávamos que tínhamos acertado, de repente o castelo se desmoronava e tínhamos que reconstruir, recomeçar tudo de novo, praticamente do zero. Com isso, houve um atraso e uma quebra nos nossos projetos. Mas apesar disso,   nunca ficamos desesperadas procurando alguém, as coisas foram acontecendo. Conseguimos dar uma estabilizada na banda e resolvemos gravar o cd demo “for the might of chaos…for the force inside”.

“Petrean Self” é o segundo álbum e já traz uma banda com um death metal mais trampado e menos primitivo. Essa mudança se deu por causa das mudanças na formação ou foi realmente um processo de amadurecimento musical ?

CD “Petrean Self” (2002)

Adriana: Acho que o amadurecimento musical foi e continua sendo um caminho natural, o que não significa perder a essência da banda. Acho que as composições nunca fugiram da nossa ideia original.

Depois desse álbum, mais um hiato de 7 anos e saí a demo “Innerstorm”. Para ser sincero eu nunca vi ou ouvi esse material. Ele chegou a ser lançado e distribuído pela cena underground?

Adriana: Ele não chegou a ser lançado e nem distribuído. Na verdade só soltamos na internet e acho que nem chegamos a repassar nenhum material físico. Esse cd demo, veio mais para mostrar que apesar de todas as dificuldades, a banda continuava ativa, e eu determinada a seguir em frente. Foi algo para eu e Ariadne nos agarrarmos e continuarmos com nossos projetos em relação à banda.

A partir dessa demo tape a formação ficou um pouco mais estabilizada e próxima do a banda tem hoje. Em que momento a baterista Ariadne resolveu unir a função de batera e vocal da banda ?

Adriana: Em 2008, só estávamos eu e Ariadne na banda. Ficamos ensaiando só nós duas, batera e guitarra. Assim levamos a Valhalla por mais de um ano, sem vocalista e baixista.  Nesse período, ficamos mais entrosadas musicalmente ainda. Em um certo momento, a Ariadne disse que ia tentar fazer o vocal. Determinada, ela estudou técnicas de vocal gutural, foi se aprimorando e tal. Foi engraçado, eu na verdade não acreditei muito nessa possibilidade, até que um dia ela chegou pedindo para eu tocar uma de nossas músicas, pegou o microfone e soltou aquele vozeirão. Quase não acreditei, kkkkk! Foi foda, nunca esquecerei daquele dia!! De lá pra cá, além da bateria, ela assumiu também o vocal.

EP “Evil Fills Me” – 2014

“Evil Fills Me” é o último trabalho lançado pelo VALHALLA e isso foi em 2014. A sonoridade da banda é definitivamente muito mais visceral do antes. Como foi a divulgação de material? Eu particularmente acho o material incrível. Traz toda aquela pegada do velho Sinister.

Adriana: Em termos de produção, esse CD sem dúvida foi o melhor trabalho da banda. A arte externou a brutalidade que gostaríamos de passar e musicalmente falando, o som muito mais brutal também.

No momento a banda está reduzida a uma dupla. Você na guitarra e a Ariadne na bateria. Porque a Alessandra resolveu deixar a banda após tanto tempo no comando do baixo? Vocês planejam ficar como um duo?

Adriana: A Alessandra deixou a banda para se dedicar aos seus projetos pessoais, inclusive vai estudar fora do país por alguns anos. Mesmo com sua saída, ela sempre acompanhou e acompanha o trabalho da banda e nos dá um suporte, força e apoio quando necessário. A princípio eu e a Ariadne já havíamos decidido levar a banda como um duo, devido principalmente, ao desgaste sofrido pelas mudanças constantes na formação. Mas após longos anos, está de volta a Valhalla, a baixista Michelle Godinho que gravou o CD Petrean Self e ocupou por um bom tempo o posto de vocalista. Com isso a banda só tem a ganhar em termos musicais, tanto na parte instrumental quanto nas letras. Acho que a banda só tem a crescer, pois além de tudo, temos uma grande amizade que foi mantida mesmo após essa longa pausa.

Falando um pouco do VALHALLA enquanto uma representação do feminino em uma cena que sempre se mostrou tão machista, eu acredito que vocês tiveram que se impor muito para cavar seu espaço. Você acha que isso ainda acontece?

Antiga formação do Valhalla

Adriana: Desde o início nós fizemos tudo exatamente da maneira que queríamos, sem nunca nos importarmos com opiniões que tentassem nos inferiorizar de alguma forma. Batalhamos muito para chegar até aqui, tendo o mesmo trabalho, persistência e atitude como qualquer outra banda, independente de gênero. Acho que atitude e competência, seja em qualquer área, te dá o respaldo necessário para o reconhecimento. Gosto musical é algo pessoal, ninguém tem a obrigação de gostar do som daquela ou de uma outra banda.  Agora, desrespeito é outra coisa.  Lutamos sempre por igualdade e temos postura, competência e personalidade para isso. Somos uma banda de Death Metal e ponto final!!!!!

Bom, já são cinco anos desde o último lançamento. Quando teremos a oportunidade de ouvir um novo material oficial do VALHALLA?

Adriana: Ainda esse ano, provavelmente no segundo semestre pretendemos entrar em estúdio para gravar novo material. Nosso processo é tranquilo, fazemos o que gostamos e acreditamos. A banda já faz parte das nossas vidas, do nosso a dia, nosso prazer é ensaiar e compor, então todo registro flui na hora certa.

Ano que vem vocês chegam aos trinta anos de banda. Isso é uma vida. Vocês tem em mente algum evento ou lançamento especial para comemorar isso?

Adriana: Sim! Chegar a trinta anos de banda não é para qualquer um, só nós sabemos de todas dificuldades que passamos, e a persistência em manter a banda ativa. Seria muito bacana poder comemorar da melhor forma possível, por exemplo, em um memorável show!

Adriana (guitarra) – ao vivo com o Valhalla

Foi um grande prazer conversar com vocês sobre essa entidade que é o VALHALLA. Você gostaria de acrescentar algo a mais?

Adriana: Gostaria de agradecer a todas as pessoas que ao longo desses anos apoiaram e acompanharam o trabalho da banda e que de uma forma ou de outra contribuíram para chegarmos até aqui. Agradecemos a você Fabio, por mais uma vez dar essa força a Valhalla e parabenizá-lo pelo excelente trabalho que é o Portal Lucifer Rising.!! Agradecer a todos que comparecem aos shows, adquirem materiais. Espero poder estar aqui para comemorar os cinquenta anos de banda! Death Metal Rules!!!

 

Para informações e contatos: https://www.facebook.com/Valhalla-Female-Death-Metal-194092070603675/

Assista a banda ao vivo no DVD “Território Metálico”, lançado em 2016. A música executada é “Evil Fills Me”:

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Fabio Brayner

Editor do The Old Coffin Spirit zine e um completo metal maniac desde 1985. Ex-membro de bandas como Sanctifier e As the Shadows Fall.

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