EntrevistasStormy News

VENOMOUS BREATH – “Ecoando os gritos do abismo em forma de Death Metal Old School!!!

"Nada mais blasfemo do que gozar num símbolo santo."

Não há o que se discutir quando afirmamos que o Death Metal no Brasil sempre foi muito bem representado. Desde à décadas atrás com SARCÓFAGO & cia, passando por grandes nomes surgidos no início da década de 90, o Metal da Morte brazuca não decepciona. A região nordeste tem seus grandes representantes que fazem parte desta gloriosa jornada e é da Paraíba que mais uma banda vem escrevendo seu nome na trajetória do Death Metal nacional. Confiram, conheçam ou saibam das novidades da banda VENOMOUS BREATH..

Em 09 anos fazendo parte ativamente do cenário nacional, o VENOMOUS BREATH chega a seu segundo Full album, lançado este mês. Apresente “Svb Vmbra Occvltorvm” aos nossos leitores.

Saudações, Lucifer Rising! Desde Já agradecemos o espaço! Nós lançamos nosso debut, “Et Viscera Sanguis” no final de 2014. Então estávamos já há quase seis anos sem lançar nada. O “Svb Vmbra Occvltorvm” começou a ser criado ainda em 2018, quando da entrada de André Luiz Brito na banda. Nós começamos a compor primeiro a parte instrumental e só depois fomos encaixando as letras. Chegamos a tocar duas dessas novas músicas em shows entre 2018 e 2019, ‘Under the Sign of The Whip’ e ‘Nefarious Thoughts’. Mas foi em 2019 que concentramos nossos esforços criativos para escrever o restante do álbum. No início de 2020 gravamos em Natal, no Black Hole Studio, e passamos os próximos meses entre mixagem, criação da arte gráfica, prensagem do disco etc. “Svb Vmbra Occvltorvm” é um álbum que traz bem mais experiência nossa em relação ao EVS. Aplicamos mais conceitos, pensamos mais sobre as letras e a composição do disco num todo. Ficamos muito felizes com o resultado, Death Metal Old School puro e simples. O disco foi lançado pela Resistência Underground Distro e Prod. do nosso parceiro Eric Rossini, de Caruaru (PE).

Particularmente achei uma belíssima arte de capa. Vocês largaram a tendência da arte em preto e branco e fizeram algo bem diferente das artes passadas. Quem foi o responsável e qual a mensagem/ideia ali transmitida?

O conceito da capa foi bastante discutido por nós quatro. Nos reunimos em um bar e passamos uma tarde falando sobre os símbolos e sentidos que gostaríamos de aplicar bem como as referências. Então a capa reúne elementos de ocultismo e dualismo (no sentido filosófico), o que segue o conceito em torno do nome do disco, mas não só isso; também sobre o que ronda nossos pensamentos e inspirações criativas. De fato é bastante diferente da capa do nosso debut, que era mais simples e preto e branco. Esse disco veio para ser diferente em muitos aspectos do “Et Viscera Sanguis”. São mais seis anos de novas experiências, referências e modos de pensar, e acho que acabou refletindo até na arte. O autor da pintura que estampa o disco é Fernando JFL (Giotefeli Anti Arte), artista de Mossoró (RN), que também toca na ECHOES OF DEATH. Fernando é nosso parceiro desde o primeiro disco e um grande talento do underground.

Vocês fazem um Death Metal na linha do final dos anos 80, início da década de 90. Mas nesses seis anos, entre um álbum e outro, o que vocês acham que mudou no som da banda?

Em essência continuamos tocando Death Metal Old School dos primórdios, influenciados por bandas como ENTOMBED, DISMEMBER, AUTOPSY, CELTIF FROST entre outras. Mas de fato o nosso som mudou mesmo que dentro desse espectro. No “Et Viscera Sanguis” as músicas são mais cruas e diretas, não há espaço ali para solos, há poucos arranjos que destoam da pura e simples pancadaria sonora. No “Svb Vmbra Occvltorvm” foi natural a ida para um lado mais trabalhado das composições, mas sem deixar a essência de lado, que é um som rápido e violento. Nesse novo disco incluímos alguns solos, mais guitarras dobradas e arranjos mais climáticos. Cremos que isso fez a banda avançar um nível dentro de suas composições e deixou nosso som mais característico e próprio.

‘Under the Sign of the Whip’ tem uma letra de cunho fortemente sadomasoquista, sexista cheia de perversão e prazer. Mas me chamou atenção também o trecho “…Tied to the cross of Saint Andrew,Your sex gushes a river of pleasures…”. Por acaso o santo católico “Santo André” foi algum pervertido em tempos do nascimento do cristianismo? Por que esse destaque na letra?

Para começar, devemos definir algumas coisas. Primeiro: Sexismo é definido como atitude, discurso ou comportamento, que se baseia no preconceito e na discriminação sexual. Isso nem de longe é tema da letra ‘Under the sign of the whip’, muito pelo contrário, lutamos ferrenhamente contra isso. A letra é sim de cunho sexual, MAS NUNCA SEXISTA. A música fala de BDSM. Nosso vocalista é adepto dessa prática e foi baseada em uma experiência vivida por ele. BDSM é uma sigla para Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadomasoquismo. É uma prática erótica que se baseia em troca de poder consensual entre duas pessoas, independente de gênero, onde uma pessoa cede o poder sobre si para outra pessoa de forma sã, segura e consensual. Por conhecimento empírico do nosso vocalista, a maior parte dos praticantes são homens na posição de submissos e de mulheres dominadoras, mas como a posição do Thiago no BDSM é de dominador, o eu lírico do personagem na letra é de um homem, pois como dito mais acima, foi baseada em uma experiência vivida por ele. Para quem tem curiosidade sobre o tema, recomendamos o site https://senhorverdugo.com/ e o filme “Juiz SM” que foge completamente da ilusão propagada por filmes Hollywoodianos do que seria o tema. Agora respondendo à pergunta, a cruz de Santo André, também conhecida como Sautor, foi a cruz em que o tal santo teria sido crucificado, segundo a mitologia cristã e tem a forma de um “X”. Tal adereço é utilizado em sessões de BDSM para amarrar o submisso. Isso pode ser verificado em diversos sites na rede. O motivo de não ter sido utilizado a palavra Sautor é que no meio BDSM, ele não é conhecido por esse nome, apenas pelo nome de cruz de santo André, e também é uma forma de colocar um pouco mais de blasfêmia na letra. Nada mais blasfemo do que gozar num símbolo santo.

Como diz o ditado, “vivendo e aprendendo”. Agradeço pela explanação e peço desculpas, pois realmente usei uma palavra fora do contexto, por descuido. Mas falando ainda sobre as letras, outro assunto que percebi nas entrelinhas remete aos cernobitas. Podem comentar?

Tranquilo, não há problema! Nós incorporamos muitos assuntos e questões que gostamos nesse disco. Filosofia e ocultismo, BDSM (como visto na resposta anterior), questões socio-ambientais etc. Para além de temas “reais”, digamos assim, há também letras que abordam o imaginário do horror, aí que entra a questão dos cenobitas, que são personagens do universo criado por Clive Barker na sua obra literária Hellbound Heart, que mais tarde veio a se tornar a série de filmes Hellraiser. A intro ‘Arrival of the Cenobites’ trata-se de um trecho de Hellraiser I – Renascido do Inferno, onde Pinhead e seus companheiros cenobitas adentram nosso mundo, vindos de outra dimensão. “We are explorers in the further regions of experience. Demons to some. Angels to others”. É como se essa intro convidasse quem escuta o disco a adentrar em outra dimensão. Uma dimensão de dez faixas de Death Metal Old School (risos). A segunda faixa ‘The Beauty of Suffering’ fala também do universo de Hellraiser, mais precisamente sobre os dois primeiros filmes. Foi também nosso single, lançado algum tempo antes do full-lenght. A arte faz referência direta a esse universo.

É muito interessante essa parte lírica da banda. Parabenizo pela riqueza de detalhes. Inclusive traduzindo alguns trechos, encontrei frases que me chamaram bastante atenção: “Os desejos dos homens podem ser sua ruína”…”A beleza do sofrimento rege a humanidade”…Mas vamos direcionar para outro assunto: Este novo trabalho foi lançado em formato físico, CD, porém também foi lançado por streaming, quase que simultaneamente. Vocês não acham que dessa forma dificulta as vendas do material físico? Alguns até consideram um tiro no pé..

Nós chegamos a discutir sobre lançar ou não próximo da data do lançamento físico. Inclusive alguns membros gostariam de ter lançado simultaneamente. Sabemos que algumas pessoas consideram um tiro no pé, como você disse, principalmente os mais arredios ao streaming e os colecionadores; no entanto o que se viu – pelo menos nosso caso – foi o contrário. Com o streaming as pessoas passaram a procurar mais a banda para comprar o material físico. Costumamos dizer que “quem compra, compra”, então o streaming acaba sendo uma mão na roda porque as pessoas escutam, gostam e querem adquirir o formato físico. Além disso é uma forma de democratizar e espalhar nosso som para mais pessoas. Hoje o streaming é uma realidade, não tem como fugir disso. Mesmo assim, felizmente, o público do metal underground é fiel ao bom e velho cd/vinil/tape. Então acaba sendo bom para todos.

E como anda a divulgação da banda a nível mundial? Sei que o som de vocês já chegou na Rússia.

O “Et Viscera Sanguis ” teve uma boa distribuição a nível mundial. Nosso selo na época era a Hell Productions da Tailândia, eles espalharam o CD muito bem pelo globo. Além disso fizemos uma turnê em 2016 por alguns países da Europa, isso fez nosso som rodar bem. Agora com o “Svb Vmbra Occvltorvm” ainda estamos no início da divulgação aqui pelo Brasil e a divulgação pra fora ainda está tímida, apesar de já ter algumas pessoas de outros países buscando pelo CD. Nosso pensamento para os próximos meses é intensificar essa divulgação e quem sabe buscar um lançamento junto a um selo gringo. Estamos vendo as possibilidades.

CONTINUA APÓS O VÍDEO.

 

Falando da turnê pelo Velho Mundo em 2016, Algumas curiosidades que possam relembrar?

Sem dúvidas essa experiência foi uma das maiores pra nós enquanto banda (talvez até como indivíduos). Fizemos um mês de turnê ao lado da ESCARNIUM, banda de irmãos nossos. Tocamos 12 shows em cinco países num esquema totalmente autônomo. Nosso amigo Victor Elian (ESCARNIUM) era o motorista da van e booker junto com Sauron, que na época tocava na VENOMOUS BREATH. Todos os dias montávamos e desmontávamos backline e pegávamos estrada. Certo dia fizemos numa pancada só 1200 km da Eslovênia até a Holanda. Uma insanidade. As curiosidades vão de visitar o Ossuário de Sedlec na República Tcheca, tocar em clubes lendários como o AJZ Bahndam em Wermelskirchen (Alemanha), ser abordado pela policiais armados no aeroporto porque deixamos as malas encostadas num canto pra ir num Burger King (risos), tocar com a versão da Malásia do BOLT THROWER e outras bandas foda, ficar hospedado na casa de gente doida etc. Enfim, uma experiência e tanto que toda banda deveria ter. Além de tocar e espalhar sua música é uma oportunidade de estreitar laços e viver muita coisa legal. E tudo na amizade e sem atravessadores. É possível. Devemos dizer que foi relativamente fácil e cômodo devido a estrutura que há lá na gringa pra fazer esse tipo de rolê. Você consegue alugar van e backline de primeira, os locais de show são absurdamente bem estruturados, paga-se cachês, vende-se muito merchan. Fizemos uma turnê nacional em 2015 que foi muito mais “roots”. Um mês com sete caras dentro de uma Doblô rodando 9 mil km nas estradas do Brasil, dormindo mal, com direito a carro ficando no prego no meio do nada. No entanto, uma turnê igualmente foda enquanto experiência dentro do underground. Como falamos, toda banda underground merece esse tipo de experiência.

O que mais notaram de diferença entre a cena brasileira e a europeia?

A cena brasileira se diferencia em muitos aspectos da europeia. Alguns bons, outros nem tanto. O principal é a estrutura e equipamento. No Brasil na cena underground embora se encontre boas casas para tocar a impressão que tivemos é de que elas são exceção no nosso nicho. Quando falo de estrutura me refiro a um pacote completo, que vai desde acomodações, palco, camarins, bar, som, luz, espaço, backline etc. Em muitos locais se faz na raça ou em condições que às vezes beiram o degradante (risos). Não queremos generalizar, mas aqui no Brasil a situação pende mais para um lado “negativo” de estrutura. E aí em termos de turnê isso se amplifica, porque você adiciona automóveis, estradas, preço da gasolina, alimentação, dormidas, entre outras coisas essenciais para um rolê de um ou dois meses. Na Europa a estrutura mesmo que para eventos de Metal underground chega a ser assustadora. Você consegue alugar uma boa van com Backline de primeira, as casas têm em sua maioria uma ótima estrutura de todas essas coisas que falamos acima, se consegue cachês com mais facilidade (muitas vezes no Brasil o que se consegue é a infame “ajuda de custo), os custos operacionais – proporcionalmente – são bem mais baratos. Em contrapartida no Brasil o público é mais participativo e insano, e isso é MUITO importante. Na Europa as pessoas são mais contidas, embora também haja bangers insanos. Mas no geral são mais “frios”. E tanto aqui como lá a galera compra material físico e apoia a banda. Então, como falamos há prós e contras dos dois lados.

Um dia chegaremos lá! Cada um fazendo sua parte… Mas já que perguntei sobre a cena nacional, vamos falar especificamente do cenário da Paraíba. Acho uma cena extrema com nomes históricos com ÓSTIA PODRE, GORE VOMIT, ABBADON…como anda o Metal Extremo atualmente por aí? O que nos indica? “A união faz a força” ou é um cenário dividido?

A cena de Metal Extremo tem muitas bandas ótimas que estão na estrada a muito e também a pouco tempo. Nossa cidade, Campina Grande, é a segunda maior do Estado e fica no interior, mas sempre foi uma cidade referência para o Metal não só no Estado como no Nordeste. Já tivemos momentos de maior fluxo de shows e de público, sendo uma das cenas mais fortes. Nos últimos anos houve de certa forma um esvaziamento de público mas os show permaneceram acontecendo, em maior ou menor intensidade. Atualmente creio que temos bandas muito boas em todo o estado e querendo ou não há grupos com maior afinidade, porém todos se comunicam de alguma forma e/ou se respeitam. Isso é interessante. Particularmente indicaríamos grandes bandas como DEMONIZED LEGION, KORVAK, DISTRESS, CAVERNA, FUNERAL PROFANO, TERRIBLE FORCE, ATAQUE VIOLENTO  (essa última já é uma propaganda, pois é formada por quase todos os membros da VENOMOUS.[risos]).

É notório que a VENOMOUS BREATH é uma banda de estrada. De repente, o mundo “para” devido a essa pandemia. Como a banda está se adaptando a esse tal de novo normal? Pensam em fazer lives? Ou já tem algo programado para 2021?

Pra nós realmente não faz sentido lançar material e não cair na estrada pra tocar, então essa pandemia acabou frustrando planos de tocar pra divulgar o disco. Estamos há muitos meses sem nem ensaiar,  pois até então não achamos seguro para tal. Chegou até a surgir uma possível live ,mas que foi descartada por conta do pouco tempo que teríamos para nos preparar. Agora achamos que o mais prudente é esperar uma possível vacina mesmo para então voltarmos à ativa com ensaios e eventos. Há planos para turnê no Brasil inicialmente mas ainda nada definido. Há também planos para uma mini-tour junto com outras duas bandas parceiras e que num momento mais propício vamos tocar pra frente pra ver se rola.

Como vocês gostariam que a VENOMOUS BREATH fosse lembrada daqui há 100 anos?

Poxa, difícil! (risos) Talvez como uma banda que viveu e morreu ecoando os gritos do abismo das almas soturnas e subversivas da humanidade, e claro, tudo isso em forma de Death Metal Old School!

Assim será! Finalizamos por aqui, agradeço imensamente pela disposição e ótimas respostas. Fica o espaço para as considerações finais….

Agradecemos o espaço e disposição, Giovan e Lucifer Rising! Ficamos felizes de responder a entrevista e falar um pouco sobre a banda e sobre o “Svb Vmbra Occvltorvm”. Nosso disco está disponível em todas as plataformas e a versão física pode ser adquirida conosco e com o Eric Rossini da Resistência Underground Distro e Prod. Escutem, espalhem e mantenham a chama do Metal da Morte acesa! Permaneçam no caminho da mão esquerda! 666

Mostrar mais

Giovan Dias

Editor do The Glory Of Pagan Fire Zine, trabalho iniciado ainda na década de 90, voltado ao Black, Death, Doom Metal.

Veja também...

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar