Entrevistas

VULTOS VOCIFEROS – Atacando a fé cristã sem piedade

"O excesso de regras induz ao mesmo erro da religião que combatemos"

O black metal nacional sempre se vê entre altos e baixos, grande bandas aparecerem e somem, mas alguns nomes da nossa cena continuam numa batalha sem fim. O VULTOS VOCIFEROS, de Brasília, é um desses nomes. Tendo sido formado em 1999, a banda é uma daquelas que vem de uma época infernal do metal negro brasileiro. Prestes a lançar seu novo álbum “Aeterno Rex Infernus” e com várias novidades a contar, conversamos com o guitarrista Baal e com o vocalista Malleficarum para entender o que tem acontecido com a banda…

Baalthamuz, Foto por: Divulgação

Saudações a todos do VULTOS VOCIFEROS. Bom, O último álbum oficial da banda “Sob a Face Oculta” foi lançado em 2011. Já são 8 anos sem nada novo. O que causou um período tão longo sem um novo álbum?

Baal – Passamos por um período turbulento com a falta de um baterista fixo para composição. Depois de tantos anos compondo com o mesmo baterista, é muito difícil se adaptar a outro, seja por influências, seja pela amizade… tudo interfere e a comparação é inevitável. Tanto é verdade, que assim que Mictlantecutli retornou à banda, compomos o trabalho novo em 3 meses.

Eu sei que a banda enfrentou problemas nos últimos anos com bateristas e recentemente o baterista Mictlantecutli retornou ao seu posto. Como se deu a saída de Infernalis e o retorno de Mictlantecutli? Houve mais alguma batera nesse meio tempo?

Baal – Como falei anteriormente, passamos um longo período sem baterista fixo. Chegamos a tocar com o Daniel Moscardini, um baterista daqui de Brasília, em alguns shows para cumprir agenda após a saída do Mictlantecutli. Infernalis tocou 3 anos conosco e gravou o 7´EP “Ritual”. Apesar de muito novo, sua evolução na banda foi impressionante. Sua saída foi tranquila, continua nosso amigo. Suas influências são um pouco diferentes das nossas e resolveu seguir seu caminho com a banda Reminiscência que tem outra pegada. A saída dele e a volta do Mictlantecutli foi quase sincronizada.

Mictlantecutli, Foto por: Divulgação

Eu tive a chance de ouvir o novo álbum em sua fase de preparação e realmente achei um álbum muito superior ao anterior. Como vocês comparam esse novo trabalho musicalmente ao que a banda fez anteriormente?

Baal – A busca pela qualidade de produção às vezes é mal falada no meio black metal mais extremo. Com os anos, é possível perceber que aqueles que defendem o som mal produzido o fazem por não saber como produzir com qualidade ou por preguiça de estudar e fazer uma coisa boa. Antigamente era caríssimo produzir algo com qualidade pelo trabalho cansativo de cortar fita, juntar, equipamentos caros, aluguel de estúdio caro etc. Hoje em dia podemos gravar em casa, com softwares livres e fazer uma boa produção quase sem custo. Nesta conjuntura, optamos por aliar o som extremo, agressivo com uma produção considerável. Ficamos satisfeitos com o resultado e pretendemos continuar neste caminho.

Falando no novo álbum, já existe um título? Você poderia nos falar um pouco sobre esse lançamento? Onde foi gravado, quantas músicas, o selo que irá lançar o álbum …

Baal – Sim, já está pronto. O título é “Aeterno Rex Infernus”. Gravamos a bateria e vocal em estúdio e as cordas em casa. Serão oito músicas e estamos negociando ainda o lançamento. Em breve será anunciado o selo de lançamento. Foi composto no final de 2017 e gravado no ano passado. A identidade musical da banda se mantém a mesma desde a sua formação, som cru e sem modismos.

Malleficarum, Foto por: Divulgação

Musicalmente o som de vocês sempre foi muito cru e direto, uma referência direta daquela cena dos anos 90. Que influências daquela época vocês trouxeram para dentro da banda? Essas referências continuam as mesmas?

Baal – Sim, a banda completa 20 anos de estrada neste ano e ainda traz as mesmas influências daquela época. Os integrantes da banda começaram a escutar metal antes mesmo do surgimento destes diversos rótulos de hoje, então você encontra riffs de heavy, death, black e qualquer outro rótulo que queira dar. O diferencial é como você trata os riffs musicalmente dentro das composições e coloca a agressividade e o “feeling” nas mesmas.  Como influências da época, podemos citar desde os clássicos Bathory, Celtic Frost, como também Sarcófago,  Mayhem, Gorgoroth, Blaphemy, Beherit, Darkthrone entre outras.

Sempre tive uma grande curiosidade em relação ao nome da banda: VULTOS VOCIFEROS. De onde veio esse nome e o qual é o seu significado? De que maneira esse nome se conectou às ideias iniciais que vocês tinham quando fundaram a banda?

Malleficarum – A banda começou seus primeiros ensaios sem ter um nome definido, a preocupação com o nome ficou para depois. O nome Vultos Vociferos foi ideia do nosso baterista Mictlantecutli, e achamos que caiu muito bem com a proposta da banda. Mesmo sendo um nome próprio, carrega uma magia. Para nós da banda, representa as negras sombras que vociferam, que gritam, o ódio e dor aos quatro quantos, que é a proposta da banda.

Crematorium, Foto por: Divulgação

A visão que a banda sempre trouxe a frente de sua música foi a de que as religiões são um dos maiores problemas para a humanidade. Como vocês encaram esse momento do país onde o fundamentalismo religioso tem aberto caminho e chegado a postos de poder? Vocês acreditam que o metal, principalmente o metal extremo por sua abordagem, pode ser realmente um alvo desses grupos religiosos que estão crescendo no país?

Malleficarum – sim, acreditamos que a religião é uma das maiores mazelas da humanidade e, infelizmente, é lamentável o que estamos vendo no nosso país: representantes da ala mais conservadora da sociedade, fundamentalistas religiosos extremos chegando ao poder e tomando conta das instituições governamentais. E o pior: com apoio e votos de muitos headbangers.  Podemos ser atingidos e vir a ser alvo desses conservadores religiosos que estão no poder. Mesmo o metal extremo, querendo ou não, faz parte de um universo cultural que é visto por esses conservadores como uma agressão aos seus costumes. Não só o metal, como também outras áreas da cultura são vistas como uma ameaça para eles. Cultura é uma coisa que não combina com conservadorismo e fundamentalismo religioso.É claro que esses fundamentalistas que estão agora no governo, nessa onda conservadora que tomou de conta da sociedade, não perderão a chance de perseguir, de boicotar, e até mesmo excluir de determinado lugares, os movimentos musicais de contracultura, como é o caso do heavy metal e suas vertentes. É ridículo ver metalheads apoiando esses fundamentalistas que chegaram ao poder.

Bom, uma coisa que a cena brasileira do black metal sempre pregou foi o radicalismo. Mas muitas vezes o radicalismo, se levado às últimas consequências mais atrapalha do que ajuda o cenário musical mais extremo. Qual seria o ponto de equilíbrio em que o radicalismo deve se colocar para não se tornar apenas uma forma infantil de defender o que, individualmente, se acha como o “certo”?

2002 – Obscuro Domínio “Demo Tape”

Baal – Sinceramente, não sei se existe um ponto de equilíbrio. Isso é bem complicado de se discutir no nosso meio pois o metal já é, em sua maioria, formado por pessoas com um senso crítico muito forte. Sendo desta forma, todos querem convencer que a sua “verdade” é a mais verdadeira, mesmo tendo argumentos infantis e às vezes idiota. Todos nós somos radicais no sentido de não aceitar dogmas e qualquer forma de dominação, seja ela religiosa ou política. Já tivemos nossos 15-20 anos e fizemos muita merda também. Mas infelizmente vemos muitos “radicais de boutique” cagando regras que se adequam à sua realidade, o que foge disso é considerado “falso”. Tipo: “se você tem um carro é playboy”, “se você estuda, se rendeu ao sistema” e esse tipo de babaquice que vemos até cara velho falando estas asneiras. Não há certo ou errado. Você tem o direito e dever de fazer o que quiser, desde que não atinja o direto de outra pessoa. É simples! As pessoas é que complicam tudo.  O excesso de regras induz ao mesmo erro da religião que combatemos tanto: cegueira idiota formada por ovelhas que não questionam e não enxergam outros pontos de vista.

Ainda sobre esse tema, quando o Satanismo é debatido sempre se traz à tona a questão da liberdade que se coloca como pedra fundamental de uma postura, de uma filosofia de vida. Mas dentro do metal a liberdade é constantemente atacada. Não seria uma incoerência? Quando criamos tantas regras dentro do cenário musical não estaríamos matando essa mesma liberdade e nos aproximando cada vez mais daquilo que mais odiamos, um fanatismo quase religioso?

Baal – Bom, sem querer acabei respondendo a esta pergunta na minha última resposta… hehehehe… Mas reafirmo: Excesso de regras = cegueira idiota.

2005 – Ao Eterno Abismo “Full-length”

Eu tive a oportunidade de tocar com o VULTOS VOCIFEROS (quando era baterista do AS THE SHADOWS FALL) em janeiro de 2000. Esse foi um dos primeiros (ou até mesmo o primeiro) shows da banda. Estou certo? Fazendo uma volta ao tempo, como vocês analisam o desenvolvimento do cenário underground daquele tempo e o que vemos hoje em dia?

Malleficarum – Lembro bem desse festival, puta show.  Sim foi a primeira apresentação da banda, com a primeira formação.  Os anos 2000 foram o auge do Black Metal no Brasil e no mundo. Nesse período ainda vivíamos os últimos suspiros dos momentos gloriosos para o metal: anos 80 e 90. O movimento underground ali era mais vivo e mais ativo, talvez a escassez e a dificuldade de acesso a tudo nos levavam a correr atrás daquilo que gostávamos. No Black Metal tudo era novidade, nada era banal demais. E o pouco que tínhamos acesso era muito valorizado. A cena era mais concisa, mais fechada e mais resistente, mas também muito mais valorizada, talvez por isso chamava mais atenção e atraía novas pessoas. E tudo feito naquele período era com o sentimento underground de pertencimento a um estilo musical, as bandas e a cena Black metal eram extremas e queriam ser cada vez mais radicais, mais profundo, mais underground. Sem o interesse de virar mercadoria.  Mas com o passar do tempo, novos movimentos musicais surgiram, a nova geração de jovens (que são a base de um movimento, de uma cena musical), já nem ouviam mais rock, já não pensavam da mesma forma, preferiram seguir outros estilos musicais, o próprio mercado midiático já não tem mais interesse de investir no segmento “Metal”, e isso tudo vai influenciar no desenvolvimento do underground.  Com isso, o resultado é pouco interesse por parte de jovens no cenário e pouca renovação na cena, poucos shows, pouca venda de materiais, menos interesse e por aí vai…  Mas é sempre assim… e os poucos que restam são os verdadeiros guerreiros que lutam incansavelmente para manter a cena viva.

O VULTOS VOCIFEROS desde seu início abraçou a língua portuguesa como forma de expressar suas ideias. Em algum momento vocês cogitaram usar o inglês como forma de ampliar a área de abrangência do trabalho de vocês?

Malleficarum – Não, nunca cogitamos isso. Achamos que o português está se encaixando bem nas músicas, e não temos nenhum interesse de mudar isso.

2011 – Sob a Face Oculta… “Full-length”

Brasília tem uma cena extrema bem restrita, mas houve épocas que uma grande quantidade de bandas e eventos ocorriam. O que aconteceu na opinião de vocês para alterar esse quadro? Que bandas da atualidade o VULTOS VOCIFEROS respeita e apontaria como nomes a serem conferidos?

Baal e Malleficarum – Como falei acima, os tempos mudaram, a cena não está se renovando, a molecada está em outra “vibe”. O underground vem se enfraquecendo a cada dia, não tem incentivo cultural, praticamente não temais espaço para shows, cada dia está mais difícil produzir um evento, seja por falta de patrocínio ou por falta de público para suprir os custos. Assim acontecem poucos eventos, a cena não se movimenta, está estancada, os poucos que restam quase não se reúnem. E o resulta é esse que temos, infelizmente. Brasília, foi e é celeiro de muitas bandas na cena extrema. Mas ultimamente a cena tem se renovado muito pouco. Na linha de Black e Death Metal extremo, tenho ouvido pouca coisa, mas algumas se destacam como novidade, como a Burial Temple, Extinction Remains, Nightmare Slaughter e Human Atrocity.

Bom, gostaria de agradecer por essa entrevista concedida ao portal LUCIFER RISING. Quais são os planos da banda para esse ano de 2019? O espaço é de vocês…

Baal – 2019 já começou bem para a banda, com o 7EP, saindo o full novo e alguns shows agendados. No segundo semestre teremos uma surpresa aqui na cidade. Por enquanto não posso divulgar, mas adianto que vai ser bem bacana. Agradecemos a LUCIFER RISING, ao Sérgio Tullula e especialmente a você, Fábio Brayner, por sempre terem nos apoiado.

Para maiores informações sobre o VULTOS VOCIFEROS: https://www.facebook.com/vultosvociferos/

Confira o VULTOS VOCIFEROS ao vivo em um show realizado no ano passado em Brasília/DF:

Mostrar mais

Fabio Brayner

Editor do The Old Coffin Spirit zine e um completo metal maniac desde 1985. Ex-membro de bandas como Sanctifier e As the Shadows Fall.

Veja também...

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar